Laboratório constitucional

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Capa do livro Macau Constitucional, IPOR-Livros do Oriente, Março de 1995.

Obscuridades e mistérios das ruelas da cidade

Quando cheguei a Macau há quase década e meia vim encontrar uma cidade sem grande orgulho, mas carregada de preconceito no que diz respeito à memória do passado recente. Embora a ditadura do Estado Novo se tivesse sumido havia já alguns anos e com ela a censura, pairava no ar um ambiente censório tacitamente aceite pela comunidade. Foi este ambiente que me despertou o interesse para conhecer com mais exactidão (por exemplo) os acontecimentos de 1966, o “Um, Dois, Três”, de que toda a gente falava em voz baixa sissiando factos de que nunca em Portugal (de onde tinha chegado havia pouco) tinha ouvido falar e que me eram relatados por uns e por outros com os exageros de quem conta um conto e lhe acrescenta um ponto. A ter em conta as conversas que ouvia, o caso teria sido uma hecatombe. No entanto, dos banhos de sangue que me referiam nem uma gota restava nas paredes ( muito menos nos jornais). Da fuga maciça da comunidade portuguesa de que alguns me falavam (embora soubesse depois que o êxodo se tinha ficado muito pelas intenções) restavam-me as estatísticas que indicavam uma população lusa sensivelmente igual, antes e depois do “Um, Dois, Três”. Estas contradições aguçaram-me o espírito curioso que mais curioso ficava ao consultar jornais e livros que se limitavam a reproduzir lacónicos comunicados oficiais do tempo e a tecer comentários que permaneciam longe de me informar sobre o que tinha sido na verdade tal convulsão de que toda a gente falava em voz baixa. Mas a minha surpresa aumentou, algum tempo depois, quando alguém, por interposta pessoa me forneceu documentos oficiais de um outro conflito, este passado nos idos de 1922, pedindo encarecidamente que não fosse revelado sob que pretexto fosse o nome que proporcionava ao jornalista tais documentos. Confesso ter ficado perplexo com tais precauções, ainda para mais relativas a factos passados há mais de meio século, mas mais espantado fiquei com as reacções que se seguiram à publicação de um artigo sobre o assunto; artigo que, diga-se, revelava toda a timidez de quem escreve tendo apenas como fonte um antigo Boletim Oficial do Governo e pouco mais. Mas a verdade é que a reportagem publicada nas páginas centrais de um semanário provocaram vivas reacções, sendo acusado até (pasme-se!)de “reavivar polémicas que podiam pôr em causa a estabilidade de Macau…” Confesso que ainda hoje não alcanço o sentido de tais críticas, mas confesso também que desde então compreendi que em Macau, havia assuntos sobre os quais se podia falar e escrever abertamente, outros não. Era assim que depois do “pontapé de saída” sobre os primórdios de Macau dado pelo professor Charles Boxer se pude encontrar nas bibliotecas uma profusão de artigos sobre os séculos XVI, XVII e XVIII, aparentemente escritos sem peias nem preconceitos de maior. À medida no entanto que caminhava pelo século XIX adiante, as lacunas omissões e distorções acentuavam-se até penetrar no século XX onde, se não se soubesse, diria que não existiu história. Assim, nas minhas procuras pude verificar que se muito se escrevera sobre o Ouvidor Miguel de Arriaga Brun da Silveira, quase nada tinha sido dito sobre os liberais. Teria, por conseguinte, permanecido na mais completa ignorância sobre os acontecimentos de 1820 se por acaso não tivesse tido acesso a uns artigos publicados pelo Pe. Videira Pires (os quais infelizmente, nunca mereceram publicação em livro) e ao ponto de vista inglês publicado por Austin Coats nas suas “Calçadas da História”.

Finalmente, tendo encontrado um original do “Historic Macau” de Montalto de Jesus como exemplar único existente no velho Arquivo Histórico, pensei suprir as lacunas com que me debatia. Mas era engano!… Lido o original em inglês voltava apenas a encontrar teses politicamente motivadas que se me levavam a simpatizar com o autor e com a sua desdita por ter tido o arrojo de propôr a entrega de Macau à Sociedade das Nações a fim de salvar a cidade do naufrágio que previa perante a estagnação da sua indústria e o alheamento de Lisboa, em nada esclarecia sobre o que de facto me interessava e que era apenas a história de Macau. Assim, para além de saber que o tráfico de cules e do ópio tinham constituido motivos que levaram a comunidade internacional a condenar Macau ninguém me informava com algum rigor sobre o que na verdade se tinha passado no século XIX. em tais casos. Mas se as lacunas e distorções classificavam o século das “luzes”, o caso agravava-se claramente no século XX. Aqui tudo se tornava mais nubloso e contraditório. Era assim que me via perante uma fotografia de garbosos militares posando para a posteridade entre as flores do jardim do Quartel da Flora em 1900. Como explicação surgia, em rodapé a legenda que informava tratar-se da companhia de voluntários de Macau, prontos para o que desse e viesse. No entanto, mistério dos mistérios!… ficava sem se saber o motivo que levara Macau a organizar voluntários para a sua defesa( vim a perceber mais tarde que a razão da mobilização se prendia com a aproximação das Portas do Cerco das labaredas revolucionárias dos “boxers”). Mas mais curioso ficava ( e ainda hoje não satisfiz tal curiosidade) ao entrevistar há alguns anos um antigo polícia que me relatava o massacre de 1914 de toda a população penal de um presídio de Coloane depois de uma alegada revolta, o transporte em batelões para uma vala comum do cemitério da Taipa das vítimas dos confrontos de 1922 e o assalto das milícias pró-japonesas ao vapor Sai Hon, em 1940 que se saldou pela morte de muitos polícias da esquadra do Ship Seng em pleno Porto Interior durante os anos de brasa da Guerra do Pacífico. De todas estas histórias não encontrei até hoje menções cabais, nem relatos completos. Muito menos descobri obras escritas que se tenham debruçado sobre tais assuntos. Mas, se no que diz respeito à história dos portugueses de Macau as lacunas despontam como cogumelos, não é menos certo que no que toca à influencia que o Território teve no desenrolar dos acontecimentos históricos contemporâneos na China menos se sabia ainda. Assim, sobre Sun Yat-sen encontrei apenas relatos que afirmavam ter o primeiro presidente da República da China ter exercido medicina em Macau, onde introduziu os conceitos ocidentais da ciência de Hipócrates” e nada mais. Sobre os clubes e associações secretas republicanas, existentes no Território, sobre o recrutamento de voluntários para a revolução, sobre o fornecimento de armas aos militantes que derrubaram a dinastia manchu, sobre as reuniões secretas no consultório de Sun Yat-sen na Rua das Estalagens nada constava. Mas, mais estupefacto fiquei ao saber que Lou Lim Iok, sobre o qual pouco mais sabia para além do facto de ter dado o nome a um jardim da cidade, ter sido também um dos militantes da república, e principal impulsionador das actividades clandestinas contra a dinastia manchu em Macau (razão pela qual foi incomodado várias vezes pela polícia). Com estupefacção soube também que as “Advertências Severas na Época Próspera”, obra que influenciou determinantemente o pensamento político de Sun Yat-sen e que Mao Tsé-tung leu nos primórdios da sua juventude foi escrito em Macau por um dos percursores do moderno nacionalismo chinês. Mas a verdade é que sobre tudo nada consta.

Criado a decorar que Geraldo Geraldes o Sem Pavor tinha sido um probo e fiel cristão que conquistara os castelos do Alentejo à moirama em nome da cristandade. Só muitos anos mais tarde vim a saber que a verdade é que este não só se tinha bandeado entre mouros e cristãos tantas vezes quantas lhe tinham permitido as andanças com o seu bando de marginais, pelas planuras alentejanas, como afinal teria acabado os seus dias num serralho do Atlas, rodeado de odaliscas e todos os prazeres do mundo se a sua propensão para a traição não o tivesse levado a escrever uma carta fatal ao rei português seu compatriota propondo-lhe conquistar por dentro o reino de Marrocos. Mas se a carta caíu nas mãos do califa e o levou-o ao cadafalso, o certo é que a sua acção acabou por figurar acima das traições tornando-o num dos pilares que fizeram a pátria portuguesa. É assim que, do mesmo modo, Macau foi feito de heróis e cobardes, traidores, trânsfugas e aventureiros, cidadãos impolutos e homens incompreendidos. Todos eles tiveram a sua quota parte na construção de uma cidade que não teria sobrevivido durante quatro séculos se a história contasse apenas com heróis. O que ainda hoje não se compreende é a razão pela qual alguns insistem em tentar apagar mazelas, quando a verdade é que sem estas os heroísmos não seriam possíveis.

Por tudo isto decidi debruçar-me sobre lacunas da história desta cidade contribuindo para trazer à luz alguns factos sobre os quais durante tantos anos nunca se escreveu.

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As seitas histórias do crime e da política em Macau

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Capa da Primeira edição Abril de 1991, Livros do Oriente. Esgotada.

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Capa da segunda edição, Novembro de 1999, Livros do Oriente.

* João Guedes

Cinco anos depois

Cinco anos mais tarde releio o penúltimo capítulo do livro As Seitas, Histórias do Crime e da Política em Macau que a Revista de Investigação Criminal e Justiça decidiu inserir neste número. Como todos os autores (creio?), depois de o escrever, dei o dito como caso encerrado. Exactamente como um polícia, que ao descobrir o criminoso abre vista ao Ministério Público e fecha a última página do processo regressando a casa com a certeza de ter ganho uma batalha. Mas apenas uma batalha, nada mais. Alías, creio, que a glória dos polícias é essa mesmo, merecerem a reforma depois de vencerem um sem fim de batalhas pequeninas no sem fim da guerra contra o crime, sem nunca terem ensejo de adormecer um dia na beatitude de terem ganho a guerra: Para isso é que são os polícias, diria o Estado e, repete-lhes a consciência dia a dia. Aparentemente, o capítulo de que o livro faz parte, constituía assunto arquivado. Curiosamente, ao relê-lo verifiquei que se tratava apenas de processo a aguardar melhor prova. Ainda bem que existe tal figura penal, pois, sem ela não me seria possível rescrever sobre um tema acerca do qual ninguém antes tinha escrito em português sobre Macau e, sobre o qual, também, tinha decidido colocar uma pedra.
O historiador nipónico Yuky, disse-me, não há muito tempo, que se absteve (porventura, com soberana propriedade), de escrever sobre um dos maiores agentes secretos de Portugal no Extremo Oriente – Rodrigues, “O Tradutor”. Porquê?
– Ora! porque Cooper (historiador jesuíta de renome mundial) disse tudo quanto haveria a dizer sobre tão misteriosa personalidade do século XVI. O que é que eu poderia dizer mais? Respondeu-me, o jesuíta com a simplicidade dos eruditos. No entanto, Yuky, que é um historiador vivo, ao falar-me de Cooper deixou-me com a sensação de que o que foi dito de Rodrigues, ficou longe de esgotar o tema. Há sempre alguma coisa a dizer mais, há sempre um documento inédito, ou um testemunho inesperado. Enfim, a história, não é um processo arquivado, mas sim um caso que permanece sempre a aguardar melhor prova. Bendita figura do Código Penal!
É também assim que cinco anos depois verifico que para além de alterações de pormenor, que me permitiriam subscrever Cooper e Yuky, tudo quanto ficou dito no penúltimo capítulo de As Seitas se mantém no essencial, o que pessoalmente não deixa de ser reconfortante. Verifico, no entanto, hoje também, que pelo menos a estatística se apresenta inflacionada e os receios acrescidos.
É assim que um responsável policial me informa que os números vagos de chineses em Portugal, computados em 1990, ascendem em concreto, em 1995 a 2125. A mesma fonte diz-me que a somar a esta cifra oficial permanece incógnito um número elevado de ilegais, da mesma origem, que vivem em Portugal à revelia dos Serviços de Emigração. Qual será esse número ao certo? A fonte citada recusa-se a adiantar quaisquer cálculos, mas implicitamente admite que se trata de um problema sério. Tão sério que passou, do nível zero, (de há cinco anos) a mobilizar meios significativos da secção de análise das informações da D.C.C.B. (Direcção Central de Combate ao Banditismo, da Directoria-Geral da Polícia Judiciária). Em cinco anos, o que era uma hipótese remota que não atemorizava ninguém, passou a constituir um sector de trabalho que ocupa vários agentes de investigação da Polícia Judiciária. Em meia década a possibilidade da transferência das seitas de Macau para Portugal passou iniludivelmente a constituir um assunto a ter em conta. Tanto mais que os políticos o tomaram em consideração. É por isso que a construção de uma China Town em Portugal (Oeiras), vista inicialmente como mera questão de investimento estrangeiro, em finais dos anos oitenta, passou a ser assunto de debate nos ministérios. Será que Portugal aceita uma repetição das China Towns de Inglaterra e da Holanda, ou prefere uma integração serena dos imigrantes chineses, um pouco por todo o país, sem guetos, nem zonas de exclusão? Será que Portugal prefere por ignorância, ou lassidão aceitar que morram vítimas inocentes como as que morreram nas guerras inter-seitas de Manchester de finais dos anos 80? Será que Portugal vai permitir que se reconstituam (porventura com mais pujança ainda) os carteis orientais da heroina de Amsterdão? Provavelmente não, se a experiência de 400 anos em Macau servir a Lisboa de alguma coisa.
Macau tem sido, e continua a ser, a terra por excelência dos monopólios. No que às seitas diz respeito, porém, essa tradição alterou-se profundamente desde finais da década de sessenta. Acompanhando o surto de desenvolvimento do Território, também elas começaram a proliferar, numa tendência que se acentuou a partir do início dos anos oitenta. Assim, treze associações secretas principais encontram-se hoje em cena. Entre elas, os diversos grupos (ou “regimentos “, como também são conhecidos) da 14 Quilates, Gasosa, Iau Lun, Sun Yee On e Grande Círculo dividem entre si, e dirigem, a maior fatia da actividade criminal em Macau. Todas mantêm estreitos laços – por vezes de dependência – com congéneres de Hong Kong, reflectindo compreensivelmente o íntimo relacionamento existente entre os dois territórios em todos os sectores de actividade, com destaque para a área económica.
A fluidez de circulação através das fronteiras marítimas de Macau não só facilita a fuga de malfeitores como permite também que o planeamento e a preparação de muitos crimes sejam feitos num território e a sua execução no outro, dificultando deste modo o trabalho das polícias. Ao mesmo tempo, Hong Kong, a terceira praça financeira mundial, com os seus quase seis milhões de habitantes, estende a Macau uma nítida influência, definindo-lhe em grande medida os graus e os limites de actuação das seitas. Os exemplos desta sujeição são muitos, mas o mais recente está ligado à instalação das corridas de cavalos na ilha de Taipa, projecto que inicialmente se apresentava como fonte de gigantescos lucros, e que por isso despertou desde logo o interesse das associações secretas da colónia britânica.
Praticamente desconhecida em Macau apenas um ano antes, a Sun Yee On chegou, viu e venceu ao afastar do hipódromo, meses depois da sua inauguração, no Verão de 1989, as rivais locais do controlo das apostas clandestinas e de outras fontes de lucro ilícito ligadas às corridas.
Fundada em 1921 em Hong Kong como sociedade comercial, a Sun Yee On aliou-se aos japoneses durante a ocupação, conseguindo obter o contrato de ampliação do aeroporto internacional de Kai Tak. Finda a guerra, o alvará de que dispunha foi cancelado em 1947 e, em 1953, o seu fundador deportado para a Formosa. Mesmo assim, a Sun Yee On não parou de crescer; contando actualmente com mais de 35 mil membros, é também uma das mais fortes e bem organizadas seitas da colónia britânica. A Sun Yee On atingiu particular notoriedade em Abril de 1988 quando, no final de uma operação secreta de infiltração de mais de dois anos, a Royal Hong Kong Police (RHKP) capturou o seu Cabeça de Dragão, Heung Wah-yim, um solicitador de Kowloon e neto do fundador, juntamente com vários dos membros da mais elevada graduação.
Mas a intervenção do mundo secreto de Hong Kong em Macau vai mais longe, chegando mesmo ao interior dos casinos, onde disputa a supremacia das rivais locais. Ao mesmo tempo, é na outra margem do Rio das Pérolas que grande parte dos desertores com a cabeça a prémio, ou fugitivos da justiça, encontra abrigo, principalmente nos dédalos imensos de Kowloon, uma área que a RHKP, mais do que controlar, tenta essencialmente fazer parecer que controla. Santuário seguro, Kowloon abrigou, em meados de 1989, o último fugitivo notório, Chiu Chung Peng, um dos chefes da 14 Quilates. Condenado à revelia, em finais desse ano, a vinte e quatro anos de prisão, é um dos principais motores da “guerra” em curso pela conquista dos casinos.
Chiu, que com o seu grupo dominava, entre outros negócios, a agiotagem e a troca ilícita de fichas, viu-se a certa altura confrontado com o assédio de uma outra facção da 14 Quilates originária de Hong Kong que, unida à Gasosa, pretendia afastá-lo. Esse assédio levou-o, por seu turno, a procurar o apoio da Iau Lun, com quem se juntou a fim de sustentar a sua posição. Aliada de circunstância, a Iau Lun lançou-se num jogo duplo, bandeando-se com o grupo de Hong Kong, o que agravou a situação e desencadeou um confuso e descontrolado processo de arruaças e agressões. A luta culminou no assassínio de um dos elementos da facção de Hong Kong da 14 Quilates, croupier no casino, esfaqueado em retaliação por anterior agressão a um dos homens de Chiu. Nessa altura a polícia (que vinha seguindo com atenção o curso dos acontecimentos, conhecendo-os em todas as suas ramificações) decidiu intervir.
Para além de resultar na detenção da maior parte dos implicados, o caso fez história essencialmente ao constituir o primeiro processo de que há memória nos últimos doze anos a ser entregue ao tribunal contra uma sociedade secreta específica, e expressamente nomeada: a 14 Quilates. Os crimes que constavam dos  autos foram todos dados como provados, e os juízes não tiveram contemplações.

Ao rigor da sentença escapou, contudo, entre outros, Chiu Chung Pen, cuja fuga abalou as suas fileiras mas não pôs termo ao conflito. Embora afastada das mesas de jogo, a seita contra-atacou pouco depois, desferindo o seu golpe no coração do local de onde tinha sido desalojada: o Casino Lisboa. O alvo escolhido foi precisamente o chefe da facção rival da 14 Quailates, cuja eliminação poderia fazer voltar tudo ao princípio. O atentado ocorreu quando a vítima se encontrava a jantar num dos restaurantes do rés-do-chão. Dois homens armados de revólveres atingiram-no com vários tiros, pondo-se imediatamente em fuga. Os disparos, feitos do exterior e através de uma das janelas do restaurante, junto à qual se sentava, foram amortecidos pela invulgar espessura do vidro, causando-lhe apenas alguns ferimentos de que se recompôs após breve passagem pelo hospital.
O atentado frustrou-se, prolongando um conflito que, segundo é voz corrente, só será encerrado quando a morte de um chefe permitir a negociação da paz sem ninguém “perder a face”.
Mas as seitas de Macau não limitam já o seu campo de actuação a Hong Kong ou à Zona Económica Especial de Zhouhai, na RPC (onde vão sofisticando os seus esquemas de controlo do contrabando de material electrodoméstico e electrónico, bem como o tráfico de divisas). O território sob administração portuguesa encontra-se já em pleno período de transição, indicando às seitas limites de menos de dez anos para além dos quais tudo é duvidoso – o que as obriga a procurar novos horizontes.
Em Hong Kong, entretanto, esse mesmo período de transição está já a provocar movimentos concretos das seitas para o exterior, e que dia a dia se tornam mais evidentes. Essa tendência fez acender sinais de perigo em vários continentes, que levaram de imediato à realização, na cidade francesa de Lyon, de um encontro de representantes policiais dos países e territórios interessados, no âmbito da Interpol, destinado exclusivamente a debater as implicações da expansão mundial do fenómeno “seitas”. A inédita agenda que ali reuniu polícias de meio mundo mostrou claramente o grau de preocupação que o assunto gera (e, ao que parece, plenamente justificada, pelo menos nalguns países mais afectados).
Na Grã-Bretanha, por exemplo, a polícia tem-se concentrado na tentativa de controlo de uma guerra protagonizada por grupos da seita Soi Fong e da Wo Sing Wo, com incidência em Londres, Southampton, Birmingham,  Liverpool, Glasgow, Nothingham, Bristol, Cardiff e Belfast. O controlo do negócio da venda e aluguer de vídeos (ligado a Hong Kong) é uma das áreas que têm motivado os confrontos. Neste contexto, a polícia assinalou já a presença em solo inglês de assassinos enviados da colónia britânica do Extremo Oriente para selar ajustes de contas, assim como grupos de lutadores de Kung Fu (por vezes com mais de vinte elementos) da mesma procedência, como “reforços” para as partes em conflito. A dimensão do problema tornou-se mais evidente com as revelações da imprensa de que 90 por cento dos negociantes da comunidade chinesa de 250 mil membros residente na Grã-Bretanha se encontravam directa ou indirectamente ligados às seitas. A questão cresce ainda mais de importância perante os números divulgados pelo comandante da RHKP, segundo os quais mais de cem mil pessoas pertencem às associações secretas em Hong Kong.
Mas nem só nas cidades britânicas se sente com cada vez maior intensidade a presença das seitas oriundas do Sul da China. Em Roterdão, nove chineses de Hong Kong foram condenados, em Janeiro de 1990, a penas de mais de dez anos de prisão por diversos crimes, entre os quais o de pertencerem a uma associação de malfeitores. Este foi o primeiro julgamento de uma seita secreta chinesa da história dos tribunais holandeses. Também em Amesterdão, Nova Iorque, S. Francisco, Toronto, Vancôver e Sidney, principais destinos dos que preferem trocar a colónia britânica por locais que se afiguram de futuro mais tranquilo, fenómenos idênticos têm lugar.
Relativamente a Macau, salvaguardando naturalmente as proporções, o processo é paralelo. Ao que se sabe, as escolhas dos que querem sair do território antes da transferência da administração portuguesa para a RPC são sensivelmente as mesmas. Para as seitas de Macau, abre-se porém uma fronteira que não consta do catálogo de hipóteses das suas congéneres do outro lado do Rio das Pérolas: Portugal – um dos poucos países onde até agora a actividade das seitas chinesas tem sido praticamente desconhecida. De facto, apenas de longe em longe um dos seus correios cai nas mãos da polícia ao escalar, em trânsito para outras paragens, os aeroportos de Lisboa ou do Porto, transportando heroína. Todavia, a partir de agora passam a existir fortes possibilidades de as seitas se estabelecerem, pela primeira vez, no ponto mais ocidental da Europa. Essas possibilidades serão tanto mais concretas quanto forem para a frente os projectos anunciados de construção de vários bairros chineses (Chinatowns) em diversos pontos do país, preparados para alojar milhares de famílias oriundas de Macau e também de Hong Kong. Mas estarão já as seitas a preparar o terreno para a mudança?
O caso de um investidor imobiliário encontrado morto a tiro numa estrada de Sintra em 1985 poderá fornecer alguns elementos de resposta, sabendo-se que alguém ligado à vítima recebeu pouco depois garantias de desinteressada protecção, em nome de uma associação secreta. Poderá este episódio dar consistência a rumores de que o negócio de compra e venda de propriedades em Portugal (onde a presença de interesses chineses é sensível) começou já a ser infiltrado pelas seitas, num sector em que estas detêm larga experiência acumulada nas “selvas” da construção civil de Macau e Hong Kong?
Seja qual for a resposta, as autoridades policiais estão já a observar o desenvolvimento da situação, que parece entretanto apontar de facto para a chegada, a médio prazo, dos desconhecidos e estranhos criminosos do “Oriente Secreto” aos grandes centros urbanos e industriais portugueses. As proporções e a dimensão da luta que se adivinha não serão, é certo, as mesmas do peculiar palco macaense; no entanto, a violência de que será portadora não pode ser ainda avaliada. Os exemplos que vêm dos Estados Unidos da América,  da Grã-Bretanha ou da Holanda endereçam todavia, e desde já, uma clara mensagem de advertência a Lisboa para que actue de imediato sobre um problema cuja prevenção não depende apenas dos esforços da polícia. A experiência portuguesa em Macau talvez sirva, neste caso, para alguma coisa.

*Jornalista.
Extracto do livro As Seitas,
edição Livros do Oriente.

Duas instituições macaenses

“Duas Instituições Macaenses”, livro da autoria de João Guedes e José Silveira Machado, edição de 1998 que conta a história da APIM- Asociação Promotora da Instrução dos Macaenses e da Escola Comercial Pedro Nolasco. Esta escola funcionou em dois edifícios (na imagem vê-se o primeiro) e ambos ainda existem. O mais recente é de 1966 e ali funciona desde 1998 a Escola Portuguesa de Macau.
Escola ca. 1900
Na segunda metade do século XIX, a promoção do ensino em Macau era praticamente realizada pela Igreja. Apesar de ter havido algumas boas iniciativas de criação de instituições de educação, como o caso de James Matheson, que instituiu a Escola Principal de Instrução Pública, e de António Alexandrino de Melo, Visconde do Cercal, que fundou a Nova Escola Macaense, ambas tiveram curta vida por não terem conseguido atrair o interesse de mais ninguém.
O único estabelecimento de ensino que funcionava com regularidade e eficiência era o Seminário de S. José, onde se distinguia um brilhante corpo docente formado pelos padres da Companhia de Jesus, que eram maioritariamente estrangeiros.
Em 1870, no âmbito de uma reestruturação nacional do ensino religioso, de Lisboa veio uma ordem taxativa de expulsão de todos os professores estrangeiros das escolas de Macau.
Esta ordem caiu como uma bomba na cidade, pois a sua execução traria efeitos calamitosos no futuro da educação em Macau.

Não obstante os protestos da população e das petições dirigidas ao governo de Lisboa, nada conseguiu impedir que a lei de expulsão fosse aqui aplicada.
A preocupação de instituir um estabelecimento de ensino moldado para a área do comércio, que permitisse à maior parte da juventude se habilitar condignamente para poder aspirar a uma melhor colocação nos quadros do funcionalismo público ou das empresas de Hong Kong e Xangai, vinha já de longa data. No momento conturbado que se seguiu ao polémico decreto, aquela ideia ganhou forma.
Assim, em 17 de Setembro de 1871, um grupo de 19 mais preocupados e também mais ricos e influentes cidadãos de Macau reuniu-se em casa de Maximiano António dos Remédios e decidiu formalizar, por escritura pública, uma sociedade por quotas exclusivamente vocacionada para o desenvolvimento da educação, nascendo, deste modo, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM).
Desde a criação da APIM até ser fundada a almejada escola comercial passaram-se várias vicissitudes. A colaboração abnegada do colectivo de sócios e dos professores voluntários, em particular, o esforço empenhado de Pedro Nolasco da Silva, fez com que a escola pudesse abrir as suas portas no dia 8 de Janeiro de 1878.
O seu esforço mereceu o reconhecimento da comunidade que decidiu por unanimidade consagrá-lo, dando à Escola Comercial o nome de Pedro Nolasco da Silva.
Durante os cerca de 120 anos da sua existência, a Escola Comercial esteve sempre sob inteira responsabilidade da APIM que, apesar de ter em períodos diferentes lutado com imensas dificuldades financeiras, sempre a colocou como um desígnio primado.
NA: Excerto do livro já referido de onde as imagens foram retiradas.
Equipa de futebol dos anos 60 e direcção da Escola na mesma época já no novo edifício
Henrique de Senna Fernandes, Director da Escola (4º a contar da esquerda), com professores e contínuos, da esquerda para a direita, António Augusto Basaloco, João Conçalves Lucas (contínuo), João José Giga (contínuo), Cândida de Sousa Vieira, José Silveira Machado, António Pereira de Faria, Manuel Maria Sapage e António Maria da Conceição.
Texto de João Botas in Macau Antigo Blogspot

Áureo Nunes e Castro, Missionário, músico e pedagogo

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Juntamente com o “Macau Confidencial” vai ser apresentada a biografia do Pe Áureo Nunes e Castro, também de minha autoria, num evento que vai decorrer amanhã sábado dia 23 de Abril no Club Militar pelas 15 horas e 45.

Sobre esta biografia a agência de notícias LUSA dizia o seguinte:

Missionário, músico e pedagogo. É como o padre Áureo Nunes e Castro, um açoriano do Pico, é descrito numa biografia recentemente publicada em Macau, um território onde ainda se mantém vivo o seu legado.

A obra, que constitui o volume VIII da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau, foi escrita por João Guedes, jornalista e investigador da história de Macau, autor de diversos livros, que fez a sua “estreia” no género da biografia.

Nascido na Candelária do Pico (Açores) em Janeiro de 1917, o padre Áureo Nunes e Castro morreu em Janeiro de 1993 em Macau, onde passou a maior parte da sua vida dedicada à Igreja e à música, sendo a Academia S. Pio X – que fundou e dirigiu desde o início até praticamente à sua morte – uma espécie de marca viva da importância que teve na cultura em geral e na música erudita.

“Creio que esta biografia traz a público uma coisa ignorada: a própria vida dele. Em Macau várias figuras distinguiram-se em diversos campos, mas a música no âmbito cultural é uma coisa pouco falada, não aparecem na história da música vultos como aparecem na literatura ou na pintura. O padre Áureo e Castro é uma excepção importantíssima na área da música e particularmente na da música sacra”, realçou João Guedes à agência Lusa.

Áureo e Castro veio para Macau aos 14 anos para integrar o Seminário de São José, numa altura em que “havia uma corrente de estudantes que eram recrutados pela Igreja Católica e que vinham de dois pontos de Portugal – Freixo de Espada à Cinta e Açores”. A evangelização da China seria o destino, como contextualiza João Guedes.

Contudo, “quando o padre Áureo já está formado, a revolução já tinha acontecido e surge a República Popular da China [1949] e, portanto, esses padres todos ficaram impedidos de seguir para a China e ficaram em Macau”.

“Normalmente eram professores, mas dedicavam-se a outras coisas. Por exemplo, o padre [Manuel] Teixeira dedicava-se à História, (…) o padre Lancelote Rodrigues aos refugiados, o padre Benjamim Vieira Pires era poeta (…). Eles constituíam, na altura, a inteligência de Macau”, indicou João Guedes, antes de avançar para a figura que traça ao longo de uma centena de páginas.

“O padre Áureo e Castro gostava de música, era um músico acima da média e acaba por ser escolhido para ir para o Conservatório de Música de Portugal para tirar o curso de maestro/compositor. Vai para lá, sai formado com altas notas e regressa a Macau para fundar uma filial do Conservatório de Música de Lisboa, o que depois não acontece por vicissitudes várias, de maneira que acaba por se fundar a Academia S. Pio X”.

Como nota João Guedes, “ele não emparceirou com os grandes compositores mundiais apenas porque escreveu pouco”. Esta é, aliás, a opinião, que vem citada no livro, do maestro Simão Barreto, que foi aluno do padre Áureo e Castro.

Entrando pela musicalidade, o autor da biografia destaca um “Te Deum”, composto em finais da década de 1950, “que se manteve inédito durante muitos anos depois da sua morte e que foi tocado há poucos anos”, e peças soltas, definindo-o com um “precursor”, dado que tem uma série de trechos em que “foi capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica”.

Esses trechos “são tocados por vários pianistas de renome internacional”, segundo João Guedes.

“A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o Governo reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi alma inspiradora e trave mestra”, lê-se na obra, em que se salienta que Áureo e Castro “encerrou definitivamente um ciclo da cultura em que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época”.

Quinta-feira 7 de Janeiro 2016

Macau confidencial

Scan40007É o meu ultimo livro e já está nas livrarias a apresentação vai decorrer no próximo dia 23 pelas 15 horas no Clube Militar de Macau.

Sobre o livro a agência de notícias LUSA refere o seguinte:

“Macau Confidencial”, um livro sobre segredos como o jantar que desencadeou o Iberismo

Macau, China, 09 abr (Lusa) — “Macau Confidencial”, livro do investigador da História de Macau João Guedes recentemente publicado, relata episódios guardados a sete chaves durante décadas, como o jantar que desencadeou o Iberismo ou a fundação do Partido Comunista do Vietname.

O livro, publicado recentemente, fala “de variadíssimos episódios situados nos finais do século XIX mas principalmente nos inícios do século XX, até à ascensão de Salazar, que foi um período interessantíssimo da história de Macau”, explicou João Guedes à agência Lusa, destacando três momentos: o Iberismo, a coincidência (ou não) da I República em Portugal e na China e a fundação do Partido Comunista do Vietname.

O “Iberismo”, ideologia que defende a unificação política de Portugal e Espanha, que teve o seu apogeu na segunda metade do século XIX, como narra João Guedes, é “bem conhecido”. Contudo, talvez poucos saibam que a ideia de união ibérica, dois séculos depois da restauração de Portugal em 1640, teve o seu nascimento, de facto, no Paço Episcopal de Macau.

A corrente que pretendia unir as duas coroas teve como impulsionadores Jerónimo José da Mata, bispo da diocese de Macau, Carlos José Caldeira (seu primo), enviado especial do Governo português à China, Sinibaldo de Mas, catalão de origem e ministro plenipotenciário de Espanha na China, o padre canonista J. Foixa e o dominicano espanhol J. Fernando, que “selaram num jantar”, no verão de 1850, um pacto “em que se brindou à Ibéria e à ‘conveniência da união pacífica e legal de Portugal e Espanha'”, escreve o também jornalista na sua mais recente obra.

“Esses vultos da altura entendiam que Portugal e Espanha deviam unir-se porque estavam em perigo os seus respetivos impérios ultramarinos”, detalha o jornalista e investigador, observando que “este assunto é substancialmente mais tratado e publicado em Espanha do que em Portugal”.

Relacionado com o Iberismo surge outro “episódio raramente contado”: “O mistério do maior desastre naval ultramarino português dos últimos 200 anos”, em 1850.

“Na explosão da fragata D. Maria II [enviada para Macau após o assassínio do governador Ferreira do Amaral, em agosto de 1849], na Taipa, morre quase toda a tripulação constituída por 200 marinheiros. Foi um desastre que resultou de uma ação das seitas, das tríades, porque estava em Macau como parte de uma força expedicionária — que incluía depois a Corveta Íris e uma outra fragata — com a missão de invadir a região” vizinha em torno da então colónia portuguesa, desvenda João Guedes.

“Esse projeto, completamente peregrino, não chegou depois a ser subscrito em Portugal mas tinha defensores no governo português. Mas, com a explosão da fragata, esse plano tolo caiu completamente”, realça.

Neste livro de João Guedes “há também a história completamente escondida do movimento anarquista chinês que tem em Macau o seu quartel-general no início do século XX”.

“E depois tento esclarecer — mas não esclareço — a coincidência de datas na proclamação das duas repúblicas (1910 em Portugal, 1911 na China). Penso que não é apenas coincidência e dou algumas achegas nesse sentido, mas é preciso ainda estudar mais sobre isso”, continuou João Guedes.

Outro episódio revelado no livro prende-se com a fundação do Partido Comunista do Vietname, no Hotel Cantão, “um segredo que é guardado durante mais de 70 anos”.

“O Komintern, a Internacional Comunista desse tempo, está em pleno vigor e Macau é um dos centros de controlo do Komintern — clandestino, claro. E realiza-se aqui o primeiro congresso do Partido Comunista do Vietname, com Ho Chi Minh, que vivia em Macau”, explica.

“São estes episódios que eu diria confidenciais porque Macau era uma cidade demasiado pequenina para ter segredos verdadeiros. Creio que muita gente saberia do que se passava, mas o consenso era o de que era melhor não se falar sobre isso”, considera.

Também, “nessa altura já da formação do Partido Comunista Salazar já estava no poder, pelo que era melhor não tocar em assuntos incómodos”.

“Macau Confidencial” tem por uma base uma série de artigos escritos semanalmente no Jornal Tribuna de Macau ao longo de mais de dois anos, de uma forma esparsa.

A obra integra a coleção do Instituto Internacional de Macau (IIM) intitulada “Suma Oriental”, obra de Tomé Pires, o primeiro embaixador designado por Portugal para ser presente ao Imperador da China, e dos primeiros autores que escreveram sobre o Oriente. A coleção pretende dar “modesta continuidade” à “Suma Oriental” iniciada no século XVI.