Macau e a Primeira Grande Guerra

CdaMaia em HKong

Carlos da Maia visita Hong Kong no dia 10 de Junho de 1914.

O ano de 2014 assinalou o centenário da Primeira Grande Guerra Mundial, período que assistiu em Macau à governação de Carlos da Maia e a um esforço de preparação para resistir aos conflitos mundial e chinês vividos na altura.

O assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo que desencadeou a 1ª Grande Guerra Mundial foi apenas o percutor de um conflito latente que apenas precisava de uma justificação, fosse ela qual fosse, para eclodir. De facto na era dos caminhos-de-ferro a Alemanha e a Grã-Bretanha eram duas locomotivas a avançar a pleno vapor em sentidos contrários na mesma ferrovia sem que aos maquinistas ocorresse que era necessário mudar de agulha para fugir ao desastre.

Ainda hoje se debate sobre quem, nesse contexto, assumiu o papel de agressor. Essa discussão, porém, parece pouco contribuir para a compreensão de um conflito que era de facto inevitável. É que, voltando à alusão ferroviária, os “maquinistas” das duas locomotivas já não dominavam as máquinas limitando-se fatalisticamente a aceitar que o Mundo se encontrava inexoravelmente em rota de colisão.

As causas da Primeira Grande Guerra Mundial estão hoje bem determinadas prendendo-se essencialmente com a entrada da Alemanha na expansão colonial por um lado e com a corrida aos armamentos, nomeadamente através do plano de desenvolvimento da marinha germânica que significava uma ameaça directa ao domínio absoluto dos mares exercido até então pela Grã-Bretanha.

A Alemanha entrou tardiamente na corrida imperial ultramarina e mais tarde ainda na busca de uma presença na China, que conseguiu obter em 1898 com o estabelecimento de uma colónia na localidade portuária de Tsingtao, na província de Shandong Esta presença foi conseguida (senão mesmo extorquida à China) a pretexto da protecção dos missionários alemães alegadamente ameaçados pelas forças “anti-estrangeiras” que se organizavam e ganhavam terreno no Império. Este movimento viria a culminar com a revolta dos “boxers” que eclodiria dois anos mais tarde ao abrir do pano para o século XX (1900).

Rapidamente a Alemanha transformaria Tsingtao num activo entreposto comercial cuja estrutura seria completada com a construção de cais de acostagem que passariam a abrigar o comando naval da esquadra alemã do Pacífico constituída por vários navios de guerra entre os quais sete dos mais modernos cruzadores que a indústria naval alemã, em plena expansão, tinha produzido.

A potência destruidora dessa esquadra seria demonstrada já durante a guerra na batalha naval de Coronel (junto à ilha do mesmo nome nas costas do Chile). Este recontro travado no início de Novembro de 1914 culminou com a derrota da esquadra inglesa. Tratou-se da primeira derrota britânica significativa em dois séculos de supremacia naval indisputada da Inglaterra. A vitória alemã era adivinhada muito antes e a base naval de Tsingtao vista como uma ameaça directa e uma “intromissão intolerável de um recém-chegado” ao concerto das potências coloniais que já desde, pelo menos, a “Conferência de Berlim” (1884) tinham dividido os seus domínios colonias e estabilizado esferas de influência.

Nesse contexto de confronto asiático a tensão geopolítica incrementava-se tendo em conta que Tsingtao fechava estrategicamente o domínio da bacia do Pacífico onde a Alemanha tinha colonizado vários arquipélagos (Ilhas Bismark, Marshal e parte do arquipélago de Samoa).

Para além da ameaça directa à Grã-Bretanha a presença alemã no Extremo Oriente inquietava naturalmente as restantes potências europeias, mas também o Japão que prosseguia igualmente uma política colonial de expansão regional nomeadamente no Nordeste Asiático.

De entre as potências coloniais a que menos se encontrava representada na China em termos de extensão territorial) era Portugal que apenas possuía a sua colónia de Macau constituída por uma península onde se erguia a cidade com uma população de cerca de 120 mil habitantes, e duas pequenas ilhas (Taipa e Coloane), praticamente sem potencial militar nem capacidade de defesa face à pequenez das suas dimensões. Tendo essas circunstâncias em conta dir-se-ia que Macau não teria qualquer importância no vasto contexto político militar do Extremo Oriente. Mas a realidade era exactamente a oposta. Para Portugal, era essencial que cada uma das suas possessões ultramarinas participasse activamente nos planos político-militares que os aliados lhes destinassem, fossem eles quais fossem independentemente das dimensões geográficas de cada uma. Isto tendo como fim último a preservação do seu todo colonial (principalmente africano) sempre exposto à cobiça das potências europeias mais fortes, sem excluir a velha aliada Inglaterra.

A entrada de Portugal na guerra foi pois um imperativo ditado pela preservação das colónias cujo reconhecimento foi assegurada desde logo através de uma declaração de Londres em que “o governo britânico pedia expressamente a Lisboa que não declarasse neutralidade nem participação na guerra. Em contrapartida assegurava que: “…ao abrigo da aliança anglo-portuguesa, o Reino Unido reconhece o direito de Portugal às colónias africanas, contra as pretensões ou iniciativas da Alemanha”. Essa declaração vinha ao encontro das expectativas portuguesas postando-se como uma garantia contra eventuais acordos de partilha das suas possessões pelas potências vencedoras no final do confronto.

Tendo em conta a conjuntura que marcava o limiar da eclosão da Grande Guerra” onde se avolumavam nuvens de borrasca negras de dúvidas no horizonte geopolítico mundial, Macau apesar de diminuta geograficamente valia tanto para Portugal como as grandes colónias africanas de Angola e Moçambique, ainda que nas garantias inglesas as poções asiáticas portuguesas (Goa, Macau e Timor) não tivessem merecido menção.

Parece ter sido essa omissão a razão essencial que leva Lisboa a quebrar com uma tradição secular na escolha de governadores para Macau que recaía entre os militares que iniciavam carreira na administração colonial, nomeando em vez disso, um peso pesado da política portuguesa, Carlos da Maia.

Um dos fundadores da república (5 de Outubro de 1910), Carlos da Maia deixou o serviço activo na marinha com a patente de capitão-tenente para se dedicar por inteiro à política ocupando o lugar de deputado na Assembleia Constituinte. Depois disso passou a integrar os quadros da Direcção-Geral das Colónias, conhecendo por dentro todos os meandros da política colonial portuguesa bem como a geoestratégia internacional nessa área. Terá sido por esse facto que o governo o nomeou para o então sensível cargo de governador Macau. Saliente-se que à data da nomeação (10 de Junho de 1914) Carlos da Maia se encontrava já em oposição à corrente maioritária do regime que tinha ajudado a implantar. Essa corrente que viria a cindir a república constituiria o que veio a ser conhecido como Partido Democrático (PD) liderado por Afonso Costa e Bernardino Machado que directa, ou indirectamente governaria o país ao longo dos 16 anos que durou a primeira república em Portugal. Carlos da Maia acusava os políticos do “PD” de se afastarem da pureza dos genuínos ideais revolucionários. No entanto o facto de à data Bernardino Machado, responsável pela nomeação de Carlos da Maia, se afirmar como chefe de um governo de “reconciliação nacional” justificou a escolha extra partidária.

Carlos da Maia chegou a Macau num momento em que todo o extremo oriente se agitava. A Norte o Japão ocupava a Manchúria e a Coreia enquanto paredes meias a China que três anos antes tinha proclamado a república via um dos seus mais prestigiados caudilhos (general Yuan-chi-kai) voltar com a palavra atrás, fazer ressuscitar o antigo regime e autoproclamar-se imperador. A China divide-se então mergulhando numa guerra civil que esfrangalha o país e que só terminará verdadeiramente em 1949 com a derrota dos nacionalistas e a proclamação da República Popular em 1 de Outubro de 1949.

Nesse contexto de divisão a província de Guangdong declara-se independente e republicana deixando de obedecer a Pequim. Por seu turno Yuan-chi-kai responde enviando tropas para o sul que momentaneamente sobrelevam os republicanos cujos líderes retiram estrategicamente para os “santuários” de que dispunhas nas colónias britânica e portuguesa na foz do Rio das Pérolas. Em Macau estabeleceram mesmo um dos principais quartéis-generais militares da contra ofensiva republicana.

A minúscula Macau encontrava-se assim, mergulhada num caldeirão politico em ebulição que ameaçava transbordar a todo o momento. Entretanto o conflito mundial eclodia na Europa e o Japão depois de um breve período de neutralidade declarava guerra à Alemanha em 15 de Agosto de 1914 pondo cerco a Tsingtao que seria a primeira colónia germânica a cair nas mãos dos aliados da “entente”.

No final do conflito a presença alemã na China e na bacia do Pacífico seria totalmente erradicada.

Nesse processo de clarificação de posições a China mergulhada na guerra civil e sem um centro político de decisão nacional tardava em pronunciar-se.

Carlos da Maia chega a Macau essencialmente incumbido da missão de preparar a colónia para resistir a eventuais ameaças, ainda que militarmente pouco discerníveis e coordenar com os seus homólogos de Hong Kong e da Indochina políticas para fazer face às iniciativas estratégicas alemãs.

Para Macau o perigo decorria muito mais da anarquia em que a china se encontrava mergulhada do que da iniciativa alemã. Isto, tanto mais que, a esquadra germânica deixaria definitivamente a sua base da península de Shandong que se rendia às forças conjuntas anglo-nipónicas, depois de ferozes e prolongados combates, para se lançar em operações de caça às esquadras inimigas nas costas sul americanas e nos mares do Índico.

Para Macau a “Grande Guerra” seria sempre um conflito longínquo. Isto ainda que todos os seus desenvolvimentos se repercutissem nas páginas da imprensa local, ainda que raramente sobrelevavam os títulos de primeira página essencialmente dedicados aos acontecimentos do quotidiano local. Macau estava demasiado longe dos teatros da guerra europeia mas demasiado perto do palco revolucionário da China. Luís Nolasco, director do jornal “O Progresso” chamando a atenção para o facto de Macau se encontrar numa das situações mais delicadas da sua história e que teria de organizar a sua defesa para fazer face a agressões externas, ou subjugar “algum movimento insurreccional interno” sintetizava assim a situação: – “Temos de um lado a Europa empenhada nessa gigantesca e encarniçada luta fratricida despendendo milhões por dia e sacrificando milhares de vidas nessa hecatombe formidável dos campos de batalha. Por outro lado vemos nos jornais que a China está também em vésperas de uma contra revolução. O irrequieto dr. Sun-iat-sen e os seus agentes revolucionários seguiram pelos cabelos este ensejo da conflagração europeia para desfraldar novamente o pendão da revolta”.

Apesar da ameaça alemã ser vista pelos planeadores militares como bastante vaga e de difícil concretização o governo de Macau não deixou de tomar medidas, nesse âmbito, pedindo nomeadamente o envio de uma força militar para reforçar a guarnição existente considerada insuficiente, mesmo em tempos de paz. No entanto o governo de Lisboa fez “ouvidos moucos” ao pedido e em vez de mandar reforços exigiu antes o envio da quantia de “120 contos” para Angola, para onde, sim, Portugal estava a enviar consideráveis forças militares destinadas a proteger a fronteira Sul que confinava com a colónia germânica da Namíbia. A remissão de tão elevada quantia, não deixou de levantar os mais veementes protestos das forças vivas de Macau que, no entanto, não produziram qualquer efeito junto de um governo que canalizava todas as suas energias políticas e económicas para África.

Do ponto de vista administrativo Macau encontrava-se num estado de desorganização patente, ainda que economicamente os monopólios do ópio e do jogo, entre outros assegurassem ao governo elevadas receitas. Estas fontes foram aproveitadas por Carlos da Maia para por em marcha um plano de reorganização política e administrativa que vinha sendo adiada desde a mudança de regime em 1910.

Foram igualmente essas fontes de receita que lhe permitiram modernizar com sucesso o esquema defensivo em terra e no mar.

Perante a recusa do governo da metrópole de enviar tropas, o governador toma a iniciativa de organizar um batalhão de voluntários encarregado de auxiliar a guarnição militar local. Este corpo voluntário pouco acrescentava ao dispositivo militar existente não compensando de modo algum a lacuna deixada pela recusa metropolitana, Carlos da Maia sabia-o bem, mas apesar do seu pequeno número a organização do “batalhão de voluntários” visava essencialmente um efeito político e propagandístico exaltando o moral da população de Macau. Apesar de nunca terem tido oportunidade de entrar em acção os voluntários efectuaram treino regular ao longo de todo o período da guerra sendo amiúde citados na propaganda como um exemplo de orgulho nacional na imprensa metropolitana e estrangeira.

A par do “batalhão voluntário” o governado procedeu também à reorganização dos serviços de manutenção da ordem pública com a criação da polícia civil (30-10-1915), organização estruturada segundo os conceitos mais modernos em vigor.

Na área de marinha foram igualmente dados passos decisivos num sector que se encontrava em decadência e impossibilitado de efectuar uma guarda minimamente eficaz das costas de Macau e das ilhas, bem como a protecção contra a actividade dos piratas que se mostravam impunes na região do Delta e muitas vezes efectuavam assaltos em terra penetrando até aos mais movimentados bairros do interior da cidade. Para o efeito foi lançado um plano de aquisição de cinco lanchas canhoneiras que restabeleceram o sistema de defesa naval.

A culminar toda a estrutura Macau e as ilhas ficaram também ligadas pelo primeiro sistema de comunicações através da telegrafia sem fios. Esta novidade tinha uma importância fundamental tendo em conta que não existiam pontes entre Macau e as ilhas sendo as ligações efectuadas por embarcações civis que efectuavam o percurso com irregularidade, ou muitas vezes, pelas próprias lanchas da marinha à falta dessas carreiras regulares.

A par de tudo isto Carlos da Maia aproveitando, como disse, os plenos poderes com que vinha investido de Lisboa e a boa situação económica local interveio também noutros sectores ainda que nem sempre com o mesmo sucesso.

Para além de ter levado a efeito um plano de construção de um sistema de escolas primárias (que ficaram conhecidas como “Escolas República”), no plano da educação, construiu também, na área da saúde, uma leprosaria na ilha de D. João (actual Heng Chin), introduzindo igualmente um sistema de subsídios aos três principais hospitais (Kiang  Wu, S. Rafael e S. Januário).

A criação de uma inspecção dos incêndios comandada pelo major Craveiro Lopes (pai do antigo presidente da república Francisco Higino Craveiro Lopes), com a aquisição à Grã-Bretanha do mais moderno equipamento automóvel foi outro ponto importante da sua administração.

A par dos sucessos que a história lhe reconhece, Carlos da Maia também conheceu o fracasso em dois pontos importantes do seu mandato. O primeiro foi a tentativa de levar a cabo e concluir as obras de regularização do Porto Interior e o segundo a implementação uma Carta Orgânica de Macau.

O plano de reorganização do Porto Interior, que já vinha de trás, voltou a confrontar-se com a hostilidade chinesa que via nele uma tentativa de expansão de Macau tendente à ocupação por Portugal da ilha da Lapa fronteira ao referido porto. Apesar do bom relacionamento de Carlos da Maia com as autoridades republicanas de Cantão, as correntes nacionalistas ali prevalecentes boicotaram todas as tentativas o que acabaria por fazer fracassar o projecto. A implementação da carta orgânica que deveria substituir o antigo estatuto que vinha de 1842 e que corria em linha com a reorganização político-administrativa das colónias portuguesas, foi igualmente plano que fracassou antes mesmo de ver a luz do dia. Ao que parece a principal razão do desfecho deve-se ao facto de Carlos da Maia, à semelhança do que tinha feito antes dele o governador Ferreira do Amaral (1846-49), ter proposto a extinção do Leal Senado transformando a antiga instituição numa secretaria do governo para os assuntos municipais.

Esta proposta parece ter constituído uma das principais razões que levou à sua demissão. Uma demissão que Carlos da Maia contestou resolutamente mesmo depois de ter regressado a Lisboa, o que fez com que durante largos meses o governo de Macau tivesse ficado a cargo do secretário-geral Manuel Ferreira da Rocha com poderes limitados delegados pelo próprio Carlos da Maia que chegou a despachar assuntos correntes da colónia a partir de Lisboa.

Esta situação vista como anómala pelo direito administrativo era agravada pelo facto de Ferreira da Rocha, ser próximo do Partido Democrático de Afonso Costa, que tinha voltado à chefia do governo e que era inimigo político confesso de Carlos da Maia.

Carlos da Maia embarcou no dia 5 de Setembro de 1916 de regresso a Lisboa, num momento em que tropas portuguesas se preparavam para atravessar em Moçambique o rio Rovuma e penetrar em território alemão uma ofensiva que viria a ter custos terríveis para o exército português.

Do outro lado das Portas do Cerco Yuan-chi-kay depois de se ter autoproclamado imperador morria (6 de Junho de 1916) antes de ocupar o trono e de imediato a China mergulhou na guerra civil vendo-se dividida de facto pelos senhores da Guerra em várias províncias virtualmente independentes. Na província de Guangdong vizinha de Macau os republicanos voltaram ao poder ainda que coexistindo em frágeis alianças com os senhores da guerra.

Apesar do caos o governo central sedeado em Pequim existia ainda que apenas ou quase só nominalmente já que não tinha poder sobre o país. No entanto apenas pelo facto de existir era reconhecido diplomaticamente pela comunidade internacional o que permitiu ao presidente da república general Feng Guozhang, a 14 de Agosto de 1917, acabar com o impasse que persistia e declarar guerra à Alemanha. A tomada de posição chinesa visava não só obter um lugar à mesa dos vencedores no final da guerra, mas também retomar o controlo sobre a província de Shandong ocupada pelos japoneses. Os aliados deram como bem-vinda a entrada de Pequim na guerra, mas rejeitaram o envio de tropas para as frentes de combate preferindo negociar a contratação de trabalhadores para a construção e reparação das linhas de caminho-de-ferro na Europa. O contingente laboral chinês ascenderia até ao final do conflito a mais de 100 mil trabalhadores.

Terminado o consulado de Carlos da Maia, Macau voltou a perder protagonismo no seio do império e a política de maior ou menor indiferencia, porque sempre se tinham pautado os governos de Lisboa, relativamente à sua colónia da China regressou. Essa atitude ficou bem patenteada no facto de Macau ter ficado entregue a administrações interinas durante quase dois anos, até à chegada de Artur Tamagnini Barbosa como governador em Outubro de 1918. Precisamente um mês antes da assinatura do armistício (11 de Novembro de 1918) que poria termo à Grande Guerra Mundial.

João Guedes

In Jornal Ponto Final 14 de Janeiro de 2015

Macau e o centenário da República

Sun-Yat-sen-1912

“Macau nunca faltou à Pátria em tempos severos, ou prósperos”. As sábias palavra do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, proferidas na sua última visita a Macau, aqui consubstanciadas livremente na sua ideia mestra, são o merecido reconhecimento do papel que o exíguo território chinês desempenhou como parceiro, ainda que humilde e pequenino, mas simultaneamente grande. Um papel que vale a pena recordar no ano em que se comemora o centenário da instauração da República na China e do seu primeiro Presidente, Sun Yat-sen. Um herói universal, reivindicado pelas esquerdas e pelas direitas, e figura que foi genuinamente um produto da iniludível singularidade histórica de Macau. A influência de Macau na proclamação da República da China, em 1911, é tanto evidente quanto mal conhecida universalmente. Isso deve-se à quase total ausência de estudos em língua portuguesa e a sua subsequente divulgação global. Ao contrário, a importância de Hong Kong na queda da dinastia imperial Manchu é sobrestimada precisamente pelo oposto, ou seja, pela abundância de bibliografia. O que existe em inglês dispersa-se por milhares de livros e outros tantos estudos académicos especializados, artigos de jornal, documentários de televisão e excertos na “blogosfera”. Sei lá que mais! Em português, o tema não chegará para ocupar prateleira inteira de uma pequena biblioteca particular. Certamente que ainda não ocupou minuto algum no “Canal de história” (ou Memória, não sei…) da RTP, por exemplo. Uma parte significativa dos revolucionários da segunda metade do século XIX e início do século XX que contribuíram para a implantação da República da China, em 10 de Outubro de 1911 (e numa segunda fase, para a instituição da República Popular em 1 de Outubro de 1949), era originária da província de Guangdong, com destaque para a figura incontornável de Sun Yat-sen.

Sun nasceu numa pequena localidade a pouco mais de 30 quilómetros de Macau, a 12 Novembro de 1866, numa família de etnia Hakka na aldeia de Cuiheng, no distrito de Xiangshan, mais tarde rebaptizado Zhongshan em sua honra. Em Macau, viveria durante vários períodos da sua vida. Aliás, o próprio reconheceu que foi por cá que ganhou consciência social. Mal concluiu o curso de medicina, em Hong Kong, passou a residir na então colónia portuguesa, exercendo clínica no Hospital Kiang Wu. Abriu na rua das Estalagens um consultório e uma farmácia. Esteve também à frente de uma outra “botica” – o mesmo que as antigas “pharmácias” – numa das pequenas casas térreas da Santa Casa da Misericórdia há muito demolida para dar lugar à sede dos Correios, Telégrafos e Telefones, em 1929, no Largo do Leal Senado. Sun afirmava que a militância política se sobrepunha ao exercício da sua profissão. De facto, em Macau, onde passava férias ou visitava grande parte da família que por cá residia, formaria o que ficou conhecido como o “bando dos quatro”. Uma espécie de tertúlia impulsionadora da formação de “clubes de leitura”, que incentivavam a população à leitura de jornais, revistas e livros, e levava a cabo sessões de propaganda política, aproveitando a disponibilidade dos teatros da cidade, juntamente com Yan Heling, Chen Shaobai e You Li. Todos cantoneses e nomes sonantes na história moderna da China. Estes teatros, diga-se, durante um certo período, foram muito mais palcos de realização de entusiásticos comícios do que centros de divulgação da “arte de Talma” ou da sétima arte nascente com o animatógrafo. Numa sessão que ficou célebre, os numerosíssimos presentes cortaram simbolicamente as tranças, um adorno capilar obrigatório de todo o povo chinês durante a última dinastia imperial. A sessão solene e politicamente entusiástica do corte contou com mais de duas centenas de tesouradas enérgicas. A juventude de Macau, entusiasmada pela propaganda de Sun e dos seus correligionários, decepava a trança odiada, num gesto que significava muito mais. Era deitar por terra um passado humilhante de quase um século, período durante o qual a China tinha sido submetida a todos os ditames do ideário mercantilista do “laissez faire, laissez aller, laissez passer”, comércio livre imperialista durante o qual o dinheiro foi quase tudo e a moral quase nada. Cortar a trança nesses tempos bárbaros poderia levar à pena de morte de acordo com o estabelecido pelo regime Qing. Tendo isso em conta, o acto de rebeldia que se repetiu nas outras colónias ocidentais das costas da China, e também em Singapura, Indochina, Malásia e Indonésia, onde a emigração chinesa era pujante, foi por demais significativo. Toda a bacia ocidental do Pacífico era um porto global aberto ao mundo. No entanto, os dois pontos de verdadeiro contacto da China com as ideias ocidentais eram, essencialmente, Macau e Hong Kong pela situação geográfica. Aí situavam-se verdadeiramente os baluartes que poderiam, para o bem ou para o mal, transformar ou perder o país. As actividades subversivas na vizinha colónia britânica contra a monarquia Manchu eram rigorosamente vigiadas pelas autoridades inglesas. Ao contrário, em Macau a permissividade oficial nesse campo era notória. Portugal contemporizava, como sempre fez ao longo da sua história, em matéria de “negócios estrangeiros”. Essa situação permitiu que, ao longo das duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX, um dos principais centros de apoio às correntes de oposição aqui estivesse sedeado. A tempo inteiro ou sempre que a conjuntura prevalecente assim o determinasse. Em Macau viveram nessa época alguns dos vultos mais destacados que a Nova China haveria de produzir. Igualmente aqui se publicavam os jornais de oposição proibidos para lá das Portas do Cerco e também em Hong Kong. Esses jornais derivavam de várias orientações políticas, desde os liberais, que apenas pretendiam a reforma da monarquia, até aos que se proclamavam abertamente anti-monárquicos. Os socialistas e sociais-democratas aqui imprimiam igualmente os seus órgãos de propaganda, com destaque, numa primeira fase, para os anarquistas. Os periódicos eram escritos e impressos nas tipografias locais. Umas legalmente estabelecidas, outras clandestinas (o governo português sabia o que se passava, mas pouca conta oficial dava dessas diferenças – deixava andar!). Posteriormente, eram distribuídos no Interior através, principalmente, da inextrincável rede de “tríades” que dominava o país de então. A sua circulação não se limitava às fronteiras de Guangdong. Chegava aos grandes centros urbanos incluindo Xangai, Pequim e Tianjin, e ainda mais longe: ao Sudeste Asiático, à Austrália, aos EUA e mesmo à longínqua Europa, com destaque para a França. No período da implantação da República na China, a maçonaria portuguesa encontrava-se extremamente activa e actuante não só em Macau, mas também em Cantão, Xangai e nas Filipinas, para não falar no distante Havai, onde Sun Yat-sen e um sem número de resistentes chineses possuíam laços políticos e de sangue iniludíveis. Em Macau, os maçons eram umas quantas figuras civis e militares, revestidas de diversos graus de responsabilidade institucional, incluindo os chefes máximos da administração – governadores, secretários-gerais e chefes de repartição. Nessa conjuntura, a maçonaria funcionava como organização supranacional que politicamente tudo coordenava, superando as rivalidades existentes entre facções na China e entre os interesses por vezes opostos das potências coloniais presentes no intrincado xadrez político-militar prevalecente. Na maçonaria de Macau, concentrada na Loja Luís de Camões II, tal como em Portugal, o republicanismo dominava claramente. Esta terá sido outra das razões que explicam a cumplicidade da colónia nas actividades subversivas contra a “Dinastia Celestial”. Alguns maçons apoiavam porque eram republicanos, outros porque eram monárquicos constitucionais, outros ainda porque estavam rendidos ao progresso imparável das “luzes” do século XIX, ainda que não sendo nem uma coisa nem outra. Todavia, para todas as tendências, a China era uma monarquia absoluta que não congregava as simpatias de ninguém. Nesse âmbito, é de salientar circunstancialmente a figura de Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de diversos jornais, que se tornou ponte de contacto proeminente entre os republicanos chineses das mais diversas matizes e as autoridades locais durante mais de duas décadas. Foi Francisco Fernandes que acolheu Sun Yat-sen em Macau após a sua primeira e malograda tentativa de revolta contra o regime, em 1895, organizando-lhe a fuga ulterior para o Japão. Há correspondência conhecida entre Fernandes e Sun, que revela que, além do grau de amizade pessoal, partilhavam os mesmos ideais políticos e particularmente laços “iniciáticos” evidentes. Nessa conjuntura de dobragem de século, por Macau passaram ainda muitos ideólogos e activistas chineses de grande renome nacional. Destaque para Zheng Guan Yin, autor de várias obras que reflectiam as correntes mais modernas do pensamento filosófico, político, social e económico do mundo positivista do “século da luzes”. Essas obras foram escritas e publicadas inicialmente em Macau, já que em Hong Kong tal feito seria impossível. As autoridades vizinhas controlavam muito de perto todas as actividades subversivas dirigidas contra Pequim e o seu regime, já que não pretendiam pôr em causa enquanto o “Celeste Império” estivesse disposto a ceder às imposições diplomáticas ditadas por razões essencialmente comerciais de “Sua Majestade Britânica”. Ainda bem que se restaurou ali perto da Fonte do Lilau a casa onde viveu essa grande figura que tanta influência teve no dealbar da Nova China. Uma outra personalidade bem menos conhecida – mas que registou influência determinante num certo período ainda que relativamente curto da história contemporânea – foi Liu Shifu, o nome mais proeminente do anarquismo no extremo-oriental do mundo. Liu era o principal redactor do jornal A Voz do Povo, dado à estampa simultaneamente em chinês e esperanto. Nas sua páginas constavam os grandes manifestos de Kropotkin, Bakunin, Tolstoi e outros anarquistas. Mas também niilistas como Turgeniev, o grande romancista russo, autor de “Pais e Filhos”.

 

Liu Shifu, que morreu prematuramente (tinha 31 anos, em 1915), desvaneceu-se na penumbra da história das ideias políticas face à ascensão imparável do marxismo-leninismo. No entanto, o seu ideário deu corpo à fugaz independência de Cantão que perdurou sob a dupla égide de Sun Yat-sen e Cheng Chiu Meng entre 1913 e 1925. Liu Shifu vagueou clandestino e a fugir à polícia muitas e muitas vezes pela rua das Estalagens, pelo Pátio da Mina, pela rua da Esperança e pelo Auto Novo. Enfim, pelas vielas que só não estão hoje desaparecidas porque o centro histórico de Macau foi preservado, graças à inclusão na lista de Património Mundial pela UNESCO. Finalmente, a subalternização de Macau como ponto relevante de influência sobre o pensamento político republicano e socialista chinês se deve não só à falta de estudos sobre a matéria em língua portuguesa, mas principalmente ao verdadeiro tiro de partida disparado com fragor mediático pelo mundialmente famoso cientista britânico James Cantlie. Devido essencialmente ao facto de ser maçom, Cantlie, reputado especialista de medicina tropical e antigo professor de Sun Yat-sen em Hong Kong, pontificava por isso nos círculos académicos internacionais. Mas estava essencialmente nos clubes sociais e políticos de Londres (tradicionalmente o chefe da maçonaria inglesa era sempre um membro da família real). Assim, foi capaz de forjar os apoios necessários para fazer saltar a figura de Sun Yat-sen de revolucionário mal conhecido, mesmo em Macau e Hong Kong, para o patamar de herói de projecção internacional, alcandorando-o à estatura de Mustafá Kemal Ataturck, na Turquia. Isto num momento em que Ataturck, figura disputada como ícone do futuro entre a Inglaterra, Alemanha e França (ainda que esta em menor grau), parecia não deixar campo para a ascensão de novos heróis mundiais, fosse nos telegramas da agência noticiosa Reuters ou nos artigos de fundo do londrino Times, que regiam a opinião pública mundial. Para isso concorreu indubitavelmente o lançamento da primeira biografia sobre o então obscuro médico cantonense: Sun Yat-sen and the Awakening of China, obra escrita por Cantlie em parceria com o jornalista Sheridan Jones. Foi um êxito estrondoso em todo o mundo. Creio que não existe tradução portuguesa desse livro, o que não deixa de constituir uma interrogação sem resposta cabal. Terá sido omissão politicamente motivada e intencional, pela conjuntura geopolítica do tempo, ou negligência histórica pura e simples? Inclino-me mais para a segunda hipótese. Neste ponto convém esclarecer, em abono da justiça, que em Sun Yat-sen and the Awakening of China as actividades de Sun Yat-sen em Macau não passaram em branco. Vale a pena ler histórias sobre cirurgias de extracção de cálculos renais – então uma inédita e hodierna inovação da medicina europeia e americana, que Sun praticava no hospital Kiang Wu sob a égide de Cantlie. Ali não eram bem os méritos da medicina ocidental que se provavam, mas significativamente as possibilidades práticas de curar os males sociais de uma nação inteira com novos métodos, ainda que em rota de colisão com a tradição milenar de Confúcio. Várias personalidades portuguesas de relevo de Macau estiveram em estreito contacto não só com Sun, mas com os seus correligionários, restando saber até que ponto o pensamento político dos republicanos chineses terá sido influenciado, ou até eventualmente moldado, por via desses contactos. Lou Lim Yok, Leong Kai Shio ou Shen Shaobai salientam-se do lado chinês. Horta e Costa, Carlos da Maia, Rodrigo Rodrigues e Álvaro de Melo Machado destacam-se do lado português. Outras figuras menos estudadas que no território viveram essas exaltantes épocas de militância política tiveram também papéis relevantes, como Damião Rodrigues, Vicente Jorge, o advogado Basto e o ainda hoje enigmático Leôncio Ferreira, este que pontificava em Xangai e foi agraciado com a “Torre e Espada”, a mais alta condecoração militar portuguesa, embora sempre tivesse sido um civil de gema. Possui uma pequena rua com o seu nome em Macau. Contudo, não se sabe ao certo o que fez, já que ninguém traçou-lhe uma biografia. Mas, certamente, coisa importante protagonizou no que toca ao relacionamento entre Portugal e a China. As actividades dos agentes do Komintern em Macau nos anos 20 foram, em certos aspectos, tão determinantes como envoltas no segredo em que ainda hoje se encontram e que permanecem por estudar a fundo. Também na formação do Partido Comunista da China Macau desempenhou papel de relevo e não pequeno. A fortíssima ligação a Macau do marechal Ye Jiening, presidente da República nos tempos de Deng Xiaoping, prova-o à saciedade. Aqui se refugiou mais do que uma vez e diz-se mesmo que, nos tempos caóticos da revolução cultural, em caso de emergência Ye Jiening e os principais líderes do PCC contariam com o território como último reduto de exílio e resistência. Não restam dúvidas de que Macau, se não funcionou como peça única na formação do pensamento político dos republicanos e comunistas chineses, foi, indubitavelmente, o cadinho, conveniente e discreto onde se forjaram alianças, se atingiram consensos, se delinearam grandes projectos e se arbitraram conflitos em campo neutro e nunca em pequena parte. Falta estudar com mais acuidade a relevância e influência resultante dos contactos entre os dois lados – português e chinês, diplomático e particular. Além das fontes e nomes que deixei citados, falta também vasculhar arquivos em Portugal, mas igualmente (diria primordialmente) na China onde, provavelmente, muito do que não se sabe se guarda e aguarda apenas a consulta de quem os queira, ou possa, esmiuçar e retirar conclusões do que se vier a conhecer. Creio que, se esse empreendimento for levado a sério e de uma forma sistemática, talvez se possa saber com mais ciência certa se o facto das repúblicas em Portugal e na China terem sido proclamadas com a pequena diferença de um ano foi apenas mera coincidência histórica ou bem mais do que isso. O agradecimento de Sun Yat-sen em carta ao Governador Carlos da Maia (no poder entre 1914 e 1916) revela bem até que ponto Macau, pequenino território da grande China, nunca pecou por abstenção. Sun agradecia sobretudo o apoio inequívoco que o então Governador concedeu aos republicanos chineses num dos mais incertos e conturbados períodos da história, quando Yuan Chi-kai (o presidente que queria ser imperador e só não o foi porque a morte o levou antes) ameaçava por ambição pessoal reverter a história e o progresso. A carta é conhecida. Está publicada e foi motivo de diversos comentários de abalizados sociólogos, historiadores ou meros divulgadores, tanto portugueses, brasileiros como chineses. No entanto, nenhum, que eu saiba, na imensidade de encómios que foram rendidos ao fundador da República Chinesa de 10 de Outubro de 1911, o foi em língua inglesa. É pena, mas é esclarecedor.

João Guedes

In Revista Macau, Março 2011

Repercussões do 25 de Abril de 1974 em Macau

Maiores, ou menores, as repercussões das revoluções portuguesas fizeram-se sempre sentir em Macau com um impacto igual (ou quase igual) ao da Metrópole. Uma história que se repete desde sempre. Naturalmente que, noutros tempos as notícias andavam mais devagar, mas não é menos certo que produziam efeitos.

A revolução liberal de 1820 chegou ao sabor dos ventos das escunas, atracando a Macau com um atraso de dois anos. No entanto, quando chegou, provocou alterações de vulto transformando nomeadamente durante cerca de um ano a colónia portuguesa da China numa república virtualmente independente.

Oitenta anos depois (5 de Outubro de 1910), veio a República verdadeira, e Macau sofreu de novo o efeito das mudanças, ainda que de novo efémeras. Os heróis da Rotunda subverteram o regime na Metrópole do lado do Atlântico. Do lado do Pacífico, não em dois anos, como antes, mas em poucos dias, graças ao telex (sucessor do telégrafo do século anterior), sabia-se  dos acontecimentos. A agência Reuter, precursora, pela palavra, da televisiva CNN dos tempos de hoje, dava as primeiras notícias da revolução, com um lapso de tempo que pouco ultrapassava os três dias reduzindo a lacónico telegrama  o epílogo da saga da centenária Casa de Bragança; ” Rei D. Manuel abandona Paço e refugia-se a bordo de fragata inglesa surta no Tejo”. Parcas e economicistas palavras para anunciar o fim de uma dinastia, plena de romance e de mistério que vinha da revolução restauradora de 1640, mas o progresso impunha-se…

No entanto, ressalvadas as diferenças de quase um século de progresso, a situação acabava por se repetir. Macau aceitava o impacto de mais uma revolução metropolitana, conhecia excessos similares aos de 1820, embora sem a dimensão daqueles e regressava depois à normalidade de sempre, sem mudanças excessivas, nem paixões inadequadas. Assim, passado o fervor revolucionário a quente, reposto o câmbio da pataca e substituída a edilidade, as alterações acabaram por se traduzir, quando muito, na conclusão dos ofícios que deixaram de ser em nome D`El Rey e passaram a desejar “Saúde e Fraternidade” …

Regressados os jesuítas, alguns anos mais tarde, Macau voltava obedientemente ao controlo do Terreiro do Paço e ao sossego.

Pelos dezasseis anos seguintes que mediaram entre a proclamação da República e a eclosão do 28 de Maio de 1926, movimento liderada pelo prestigiado marechal Gomes da Costa que Macau conhecia muito bem, tudo correu dentro dos limites da decência e da normalidade histórica. O Marechal, aos olhos de Macau, que o tinham visto crescer, era apenas um “pequeno estudante” que tinha sido educado no seminário de S. José (ao alto da Calçada do Tronco Velho) e que, regressado a Portugal, tinha feito a academia militar distinguindo-se nos combates da Flandres, durante a “Primeira Grande Guerra Mundial, nos idos de 1914-18. Todos lhe reconheciam mérito, mas não se podiam esquecer da sua juventude de aluno traquina, cujas proezas os velhos professores de S. José se lembravam, sorrindo, como sabem sorrir os sábios complacentes.

A revolução do marechal seminarista, ao contrário das anteriores, foi insidiosa. Mais insidiosa do que qualquer outra. Por isso, os seus efeitos em Macau não se mostraram tão drásticos, nem tão perversos. A marcha  do marechal  desde Braga até Lisboa  não levantou fervores revolucionários particularmente assinaláveis, e os seus ecos em Macau limitaram-se tão somente a determinar por decreto a exoneração do governador Maia Magalhães nomeando Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, um incondicional do novo estado de coisas (que ainda não era Estado Novo) para o substituir, ou seja, tudo dentro da discrição burocrática de um regime que não admitia excessos. Mas se excessos ouve, estes não passaram dos protestos e da ordem de deportação dada pelo novo chefe da administração local, ao Dr. Damião Rodrigues que teimava em continuar indefectível na senda republicana e ameaçava a “estabilidade” continuando a publicar os seus pontos de vista nos jornais. Mudanças significativas apenas se podem assinalar precisamente nos jornais, onde os directores passaram, por força de lei, a ter de ser licenciados, o que levou a que os democratas de antes,  como José Constâncio da Silva (“A Verdade”) possuidor apenas do quinto ano liceal, tivesse que ceder (ainda que nominalmente) no cabeçalho da sua primeira página o título de director a um engenheiro maquinista naval. Quanto ao resto, o Território, adaptava-se ao Estado Novo sem sobressaltos de maior. A atestá-lo ficava o testemunho da conversão do dito Constâncio José da Silva, (maçon pertinaz e herético convicto), uns anos mais tarde, em Xangai, à hora da morte. Uma conversão igual à de Guerra Junqueiro umas décadas antes, significando no tempo e no espaço a distância a que Macau se encontrava de Lisboa e do correr do mundo.

Entretanto, Herman Monteiro, um dos democráticos (de Afonso Costa) exilados pelo novo regime chegava a Macau, eivado de ideias republicanas. Inconsciente (como todos os recém-chegados) da verdadeira realidade de Macau, Herman Monteiro, pegava no jornal de Constâncio José da Silva (que morria na China) e ressuscitava a chama da oposição ao Estado Novo, de  parceria com  o capitão Rosa Duque (também ele um republicano de velha cepa) conseguindo, através de denodados esforços, os capitais necessários para manter o diário do defunto de Xangai, antes que se finasse com ele por falta de fé… e de patacas. Mas, nem “A Verdade”, nem o seu sucedâneo “O Combate” eram já títulos capazes de se defrontar com a “normalização” tenaz e burocrática implementada por Salazar.

A verdade, era agora monopólio do Estado Novo e combate constituía vocábulo demasiado duro no léxico do ditador de Santa Comba que não se confrontava ainda com a guerra no Ultramar. Assim, talvez para agradar ao progresso e evitar cortes mais drásticos do lápis azul da censura, foi decidido mudar o cabeçalho que ficou a ser “Notícias de Macau”.

O “Notícias” foi um jornal irredutível durante alguns anos, até perder a importância da palavra conjuntamente com a liderança do capitão, morto no seu posto de combate como recomendava o Regulamento de Disciplina Militar e a ética democrática.

Herman Monteiro, assumiu em seguida a direcção da voz heterodoxa macaense em nome do republicanismo que, diga-se, perdia terreno face às novas ideias. Na cidade, o doutor Vivaldo Rosa, um conhecedor do mundo, por exemplo, defendia teses tão imerecíveis como as do marxismo-leninismo (supremo sacrilégio…!) detestadas por Salazar, escrevendo-as em entrelinhas no “Notícias” ainda que a contra gosto da censura e a contracorrente dos ideias do director do diário, que no entanto aceitava o facto e eventuais consequências com a convicção dos democratas tolerantes por natureza.

No entanto, a verdade é que Macau se encontrava demasiado longe da Metrópole. Para a cidade, ocupada por duas comunidades distintas (portuguesa e chinesa) movidas e unidas apenas por interesses económicos coincidentes, pouco importava o debate (ainda que universal) entre comunistas e fascistas que se desenrolava no mundo ocidental dos anos 30, 40 e 50. No Território, as ideologias discutiam-se de uma forma teórica e literária. O verdadeiro debate acalorava-se nas tertúlias do “Riviera”, mais fleumáticas, como afirmavam alguns e às discussões da Solmar (desde a abertura deste restaurante, em 1961), onde em amenas cavaqueiras macaenses, se criticavam os passos do governador, se forjavam os borrões de futuros decretos de lei, se dizia mal da Administração, ou pura e simplesmente se “cortava na casaca” de quem quer que fosse, entre dois copos de whisky. Para o microcosmos da Solmar, porém, tudo isso era o mundo, e o mundo era um pequeno território de dezasseis quilómetros quadrados, onde o “governador da Praia Grande” era discutido como se se tratasse de um Estaline, Churchill, Deladier, Eisenhower, ou simples presidente da freguesia, conforme os pontos de vista dos circunstantes e o calor da discussão. O próprio Herman Monteiro, já então perfeitamente adaptado ao longínquo Oriente, e esquecido  dos gloriosos feitos da Rotunda de 1910, passou a considerar mais importante o diz-se que disse local do que as conspirações do Alfeite, transfigurando Salazar no governador  e os seus ministros no secretário-geral do governo (solução redutora, mas perfeitamente adequada ao Território) reconhecendo-lhes os mesmos defeitos, daqueles. Embora como bom republicano, civilizado e observador dos bons costumes (ou não fosse também maçon), não deixasse de apertar a mão a um e a outro nas recepções oficiais da Praia Grande, ou do Clube Militar.

Resumindo: Macau continuava como sempre tinha sido, ou seja, uma verdadeira metrópole cosmopolita nuclearmente formada por chineses e portugueses, mas onde não eram estranhos ingleses, alemães, franceses italianos, filipinos, malaios e, sabe-se lá quantas outras nacionalidades, coexistindo todos em boa paz e harmonia conjuntamente com os conceitos revolucionários de Mao Tsé-tung, as ideias revisionistas de Moscovo pós Kruschev, o espírito liberal dos exilados da “Revolução de Maio” o anticomunismo primário dos russos fugidos da revolução de 17 e os próprios representantes do regime. Tudo isto envolto num cenário formado por duas ou três colinas verdes, alguns fortes espalhados pelos cumes, e um casario baixo, de arquitectura colonial que se mostrava aos visitantes com contornos mediterrânicos no espraiado semicírculo de frontarias da Baía da Praia Grande. Enfim, um ambiente aparentemente plácido que formava a colónia mais distinta do ultramar português.

Uma opinião reiterada pelo antigo governador Nobre de Carvalho ao salientar que “de mais a mais, como diziam até vários estrangeiros que tinham visitado outras colónias portuguesas, Macau era o território mais livre de todos, a não ser uma censura benévola que havia. Mas não havia Legião Portuguesa, não havia polícia política, não havia opressões não havia perseguições de nenhuma ordem. Havia Mocidade Portuguesa, mas sem grande relevância“. Embora Macau não fosse o paraíso, como o antigo governador poderia deixar supor, registando-se aqui e ali casos de prepotências e compadrios, certo é que estes eram ditados muito mais pela política local do que por motivos de oposição ao regime da distante Metrópole. A mesma ideia, no que à censura se refere, é perfilhada pelo chefe de gabinete do governador, general (então major) Lajes Ribeiro que anteriormente tinha comandado a P.S.P. “Se em Portugal não tínhamos relações com países comunistas, também não tínhamos os livros publicados por eles e, se existiam eram clandestinos. Em Macau não. Em Macau toda a literatura comunista em todas as línguas estava nas montras! Toda a gente podia comprar. Nunca houve uma apreensão de um livro por estar no índex da PIDE. Devo dizer que, nós, na polícia, recebíamos o índex da PIDE e nunca na vida pensámos em entrar numa loja para apreender um livro. Aquilo que normalmente acontecia e que eu pessoalmente fazia era ver se ainda encontrava um exemplar para o comprar.(…) Os jornais chineses que são mais ou menos os que ainda agora existem, não eram vistos (pela censura). Não fazia sentido que o fossem, quando acabei de dizer que as livrarias vendiam tudo quanto, digamos, havia na antologia comunista. Não era a um artigo de jornal que nós podíamos fazer censura. Não tinha lógica. Os jornais portugueses, sem dúvida nenhuma, que mandavam as provas para os vogais que estavam de serviço. Não tenho de cor o número de cortes que tenham sido feitos. Mas do que me recordo é que algum artigo que eventualmente pudesse ter algum toque a que o governador fosse mais sensível eu levava-lho ( ainda que isso raramente acontecesse). Ele lia e perguntava sistematicamente a mesma coisa:

– O que pensa?

– Eu acho que deve ser publicado.

– Então publique“.

Tal situação permitia que muitos militares pudessem tomar contacto pela primeira vez com o socialismo, lendo as obras de Mao Tsé-tung, com a discrição devida, mas sem receio de serem presos pela PIDE. Entre estes ter-se-há contado o próprio Arnaldo Matos, antigo dirigente maoista (fundador do MRPP), que como oficial miliciano, fez a sua comissão de serviço em Macau nos tempos da guerra colonial.

Mas se a circulação da literatura subversiva se introduzia nos quartéis da guarnição portuguesa local mais facilmente ganhava adeptos e incendiava os espíritos da comunidade chinesa, principalmente dos jovens, contribuindo com a sua quota parte para que o caldeirão ardente da  Revolução Cultural tivesse transbordado para Macau.

Macau. Av. Almeida Ribeiro. Lei Marcial, “1, 2, 3”, 1966.

Em 1966 Macau tinha vivido um momento de incertezas. A Revolução Cultural da China, provocara danos incalculáveis que se estenderam ao Território onde os guardas do socialismo (operários e estudantes) empunhando o “livrinho vermelho”  tinham tido a ousadia de invadir o palácio da Praia Grande (derrubando as barragens policiais ) e obrigando o recém chegado governador Nobre de Carvalho, ignorante do que se passava  a ouvir  em indecifrável cantonense as palavras revolucionárias  de Mao Tsé-tung, facto que para além de ofender a ordem pública, perturbava o normal despacho da burocracia governamental que  teimava  em continuar apesar do “cataclismo” em curso. Nobre de Carvalho, apesar de ter sido avisado do que se passava apenas à chegada a Hong Kong pelo seu homólogo britânico, saiu-se menos mal do caos político  oriental conseguindo, ao contrário de Vassalo e Silva (em Goa) salvar Macau de uma eventual (ainda que muitos considerem duvidosa) invasão e retomar o ritmo de crescimento económico que se prefigurava antes, mas que tinha sido brutalmente interrompido quando ainda mal dava os primeiros passos.

Mas, Nobre de Carvalho “teve muito azar. Quando chegou a Macau apanhou com o 1, 2, 3, sobre o qual sabia talvez menos do que eu e no fim do mandato com o 25 de Abril”, recorda o então director da Rádio Macau, Alberto Alecrim. Mas se o governador nada sabia da Revolução Cultural que conheceria do que se preparava em vésperas de 25 de Abril de 1974? Provavelmente ignorava tudo. Quando muito, o seu chefe de gabinete; Lajes Ribeiro seria o mais avisado para os efeitos que uma guerra colonial, que se prolongava há 13 anos consecutivos, provocava nas fileiras militares, cada vez mais desmoralizadas. Isto a avaliar pelos contactos que tinha mantido pouco antes na Metrópole durante um breve curso de promoção com oficiais que participariam activamente na revolta de Abril, nomeadamente com o major Ramalho Eanes. O regresso a Macau afastou-o porém dos corredores da conspiração impedindo-o de seguir os acontecimentos. Quanto à generalidade da população mantinha-se alheia já que as notícias de Portugal chegavam previamente censuradas de Lisboa aos jornais e os rumores trazidos pelo correio, ou por um ou outro novo oficial que chegava não eram nem suficientemente claras nem consistentes para provocar mais do que boatos. A tentativa fracassada de sublevação do regimento de infantaria 5 das Caldas da Rainha de 16 de Março de 1974, também não esclareceu ninguém já que mais uma vez os três jornais de Macau (“Gazeta”, “Notícias” e “Clarim”) recebiam apenas para publicação inócuos telexes da Agência ANI informando que “a situação estava calma em todo o país” e nada mais. Por seu turno o serviço mundial da BBC, retransmitido pelas rádios de Hong Kong e amplamente escutado em Macau pouco mais acrescentava. No entanto, ” que o ambiente andava tenso em Portugal todos sabíamos, mas ninguém esperava uma acção tão súbita das forças militares. E que a insatisfação no país e a guerra em África tinham de ter um desfecho, também se sabia“, escreve nas suas memórias” Graciete Batalha, professora do ensino secundário e membro do então Conselho Legislativo.

Mas, apesar da sensação de que algo ia mal na Metrópole certo é que tal facto esteve longe de constituir óbice à reunião solene da sessão legislativa para ouvir um longo discurso do governador Nobre de Carvalho, no qual figurava as grandes linhas de acção futura, com destaque para os grandes benefícios que a eminente conclusão da ponte entre Macau e a Taipa traria ao Território. Terminado o discurso foi a vez do deputado Henrique de Senna Fernandes, agradecer protocolarmente a presença e os esclarecimentos do governador. Depois disso e também de acordo com o costume, o Conselho elaborou o habitual telegrama de apoio ao regime e à sua política ultramarina. Fui até eu que redigi o telegrama, que seguiu para Lisboa (chegando à capital precisamente no dia 25 de Abril), lembra Senna Fernandes, que acrescenta: – Fi-lo com convicção, porque nós ultramarinos gozava-mos de uma situação privilegiada no antigo regime. Sentíamo-nos garantidos com essa política.

Senna Fernandes com o Governador Nobre de Carvalho

Vinte anos depois, Senna Fernandes recorda com humor a situação então vivida que no entanto, quando chegadas, as notícias da revolução estiveram longe de constituírem novidade que lhe fosse agradável: Cerca das três e tal, da tarde do dia 25 de Abril fui para o meu escritório, quando recebo um telefonema do Pedrinho Lobo que me diz: “Tu estás lixado! Acabaste de fazer o discurso de apoio ao regime e o regime caiu”. Cinco minutos depois telefona-me meu pai a dizer também que Marcelo Caetano e Américo Tomaz “tinham ido ao ar”. Claro que já não trabalhei mais nesse dia. Eram notícias tão impossíveis para nós que tínhamos sido criados no regime“.

Durante todo esse dia Alberto Alecrim continuou a manter no ar a programação normal da rádio, sem que os telexes das agências Reuter e France Press, recentemente instalados nos estúdios da emissora mostrassem nada que merecesse destaque especial nos boletins noticiosos. Só à noite Alecrim soube da revolução e não através dos telexes, mas sim graças a um visitante da emissora. “Ficamos logo a recolher toda a informação disponível nos telexes e nas rádios estrangeiras, que levei depois ao Portas do Sol onde estava o senhor major Lajes Ribeiro a jantar (era o Abril em Portugal que se comemorava todos os anos) e a quem entreguei tudo o que tinha podido recolher. Mas o chefe de Gabinete do Governador já sabia.

Já sabia porque a notícia chegou-me por um telefonema do posto de rádio da polícia o qual recebia a Press (então assim chamada) que me deu conhecimento de que tinha acontecido o movimento e tinha sido feita aquela declaração inicial que recebi passado algum tempo e tive ocasião de dar a notícia ao major Rocha Vieira (Chefe do Estado Maior do Comando Territorial Independente de Macau). Foi com muita alegria, porque todos nós, ou pelo menos muitos de nós ansiavam que a solução viesse. Esclarece Lajes Ribeiro.

Independentemente das suas próprias convicções, também o governador Nobre de Carvalho confirmava em entrevista à televisão de Macau, onze anos depois dos acontecimentos que “o 25 de Abril foi recebido bem por todos os portugueses e chineses. Os chineses, evidentemente, tendem uma ignorância grande sobre o que se estava passando embora eu tivesse tido ocasião de no Conselho Legislativo, com as notícias que recebia de Lisboa de os pôr ao corrente do que se passava.

No entanto, Macau ouvia com cautela as novas informações que iam chegando, estando longe de registar (como seria de esperar, aliás) as esfusiantes cenas das ruas de Lisboa. “Aqueles factos mais emblemáticos do 25 de Abril, não tinham possibilidade de concretização em Macau. Em Portugal, foram abertas as prisões e soltos os presos políticos, mas Macau não tinha presos políticos. Foi o encerramento da PIDE/DGS, até com cenas de algum dramatismo. Mas Macau era o único ponto do território português que não tinha PIDE/DGS. Sublinha Lajes Ribeiro.

Se alguns vivas se pronunciaram, ou garrafas de champanhe se abriram em honra da revolução não foi nas ruas mas tão-somente na discrição disciplinada de alguns quartéis ou na intimidade das casas dos democratas.

O primeiro sinal verdadeiro de entusiasmo e rebeldia que se quadunava perfeitamente com o espírito da revolução veio não em forma de manifestação, de rua mas através de um soneto à liberdade do poeta proscrito Manuel Alegre, declamado de forma arrebatada em plena sessão do Conselho de Governo. Quem o fez foi o jovem deputado Celestino Maneiras, um arquitecto formado no Porto, que ali se tinha ligado aos círculos estudantis da oposição. Um acto inesperado que deixou estupefactos os seus colegas. Mas a atitude do jovem deputado ainda que de uma forma anti-regimental limitava-se a declarar oficialmente autorizada a liberdade de pensamento e expressão no território português da China. O caso ocorria na véspera da fundação da primeira associação cívica, o Centro Democrático de Macau agrupamento de democratas de diversas tendências formado com vista a contribuir para a democratização de Macau. Na sua fundação, claro, o arquitecto José Maneiras, o igualmente irrequieto advogado oposicionista Jorge Neto Valente e naturalmente os velhos republicanos, como Damião Rodrigues e Vivaldo Rosa.

Mas exceptuando um ou outro pronunciamento claro a timidez continuava imperar, ainda que no dia 29 de Abril, os deputados (que então ainda não possuíam essa designação) tivessem concordado em rever a situação vivida por Senna Fernandes alguns dias antes (por ocasião do telegrama nacionalista) e a insistência  do governador decidissem enviar novo telegrama para Lisboa, mas desta vez de incondicional apoio à Junta de Salvação Nacional.

Para além de uma deputada que se recusou a aprovar o teor do texto, ninguém mais pareceu registar qualquer contradição no facto. O governador Nobre de Carvalho, acabava de anunciar ter sido confirmado no cargo pelo novo poder de Lisboa, o que era bom sinal, levando a generalidade os deputados a acreditar nas boas intenções dos elementos da Junta, entre os quais se contava o general Jaime Silvério Marques que governara Macau (1959/62) e ao qual foi enviada também uma mensagem especial de regozijo.

À margem das mensagens oficiais, um amplo grupo de democratas reunia-se entretanto no restaurante Fat Siu Lau, à rua da Felicidade redigindo igualmente um telegrama emocionado dirigido por intermédio do “Jornal Republica”, um dos símbolos da luta contra Salazar e Caetano, a todos os portugueses. Nele saudavam “o patriótico movimento de 25 de Abril que pôs fim ao período fascista“, celebrando também o facto de levarem a cabo a primeira reunião política aberta, em Macau, dos últimos 40 anos. Ao fim da noite, os 38 subscritores da missiva abandonavam por entre vivas e aclamações o restaurante de regresso a casa sem receio de terem cometido qualquer acto sedicioso, ou virem a ser presos pela polícia.

Mas, a reunião do Fat Siu Lau, apenas culminou um dia de conquistas democráticas. Nessa mesma tarde, o chefe de gabinete do governador, reunira no Palácio da Praia Grandes os directores e representantes dos jornais comunicando-lhes oficialmente o fim da censura em Macau. Lajes Ribeiro fazia-o com agrado. Depois de numa primeira vez se ter recusado a integrar como vogal a comissão de censura, ao ser para o efeito convidado quando era ainda oficial da polícia, acabaria por se tornar seu presidente, alguns anos mais tarde, por constituir obrigação inerente ao cargo de chefe de gabinete, facto de que não se apercebera antes de aceitar o convite de Nobre de Carvalho.

Na sequência da fundação do CDM, também as forças conservadoras locais se sentiram na necessidade de se agruparem fundando a “Associação para a Defesa dos Interesses de Macau” (ADIM), liderada pelo antigo deputado à Câmara Corporativa Carlos Assumpção. Ao contrário do CDM, não eram os objectivos de democratização da sociedade o seu principal objectivo, mas sim a criação de um grupo de pressão capaz de lutar contra os receios de alguns sectores da população local de que o processo de descolonização encetado pudesse ser de alguma forma (pensada, ou apressada) aplicado em Macau. Com a formação da ADIM, ainda que claramente conservadora, acentuava-se a pressão no sentido da transformação das estruturas coloniais ancilosadas que Nobre de Carvalho, embora aderindo aos novos princípios do regime e implementando “as alterações que podia” não estava em condições de fazer.

Entretanto nos quartéis registava-se uma certa turbulência, reflectindo as mudanças de conceitos e de objectivos das forças armadas que punham termo à guerra e ocupavam o centro do poder político.

Os principais responsáveis militares, entre os quais se contava o chefe de estado maior, Rocha Vieira, mais tarde delegado do MFA em Macau procuravam manter a agitação que fervilhava entre os milicianos (oficias e sargentos) dentro dos limites que consideravam aceitáveis perante o novo quadro político, enquanto Nobre de Carvalho que aguardava indicações claras de Lisboa sobre qual a direcção a seguir fazia saber que fosse qual fosse a evolução dos acontecimentos deixaria o território no final do mandato para que tinha sido nomeado, ou seja Outubro de 1974.

Embora beneficiando ainda da simpatia de grande parte da população, simpatia que lhe advinha dos tempos conturbados do 1,2,3, Nobre de Carvalho começava a tornar-se alvo cada vez mais exposto. “Grande parte da população não aceitava a sua continuação, sofrendo por isso uma grande contestação durante muitos meses” recorda o general Garcia Leandro, que seria juntamente com o major Rebelo Gonçalves o primeiro a deslocar-se a Macau como enviado oficial do novo regime para esclarecer a população local e ouvir o que esta tinha a dizer. O próprio Nobre de Carvalho, por seu turno, ia mais longe no desenho do quadro local preferindo usar o termo revolução em vez de contestação: “Foi uma outra revolução, que houve, desta vez dentro da população portuguesa. Principalmente, (chinesa não) macaenses e outros europeus. Mas foi uma minoria que estou convencido (muitos já morreram) que no fundo se devem ter arrependido do que fizeram porque foi uma vergonha essa actuação“. Apesar destas amargas palavras, o velho general no entanto não chegaria a conhecer os verdadeiros tempos de agitação que se seguiriam em Macau após a sua resignação.

Macau, foi desde sempre vista de Lisboa muito mais como uma pérola exótica do que uma colónia credível. Por isso não é de admirar que no computo dos problemas gerados pela descolonização de regiões tão vastas, como Angola, Moçambique, ou mesmo a Guiné, o território português do Oriente permanecesse durante algum tempo na gaveta dos assuntos pendentes da revolução, protelando a chegada dos representantes oficiais do governo de Lisboa que trouxessem indicações claras sobre o que ia acontecer, facto que parece ter contribuído para fazer aumentar os receios, ainda que a República Popular da China parecesse do mesmo modo não ter pressa em dar qualquer indicação das suas intenções sobre o futuro do território.

O vazio que se sentia levou o governador a enviar a Lisboa o seu chefe de Gabinete que manteve um encontro com o ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, e trouxe boas notícias: – vim de lá com uma certa tranquilidade porque senti que o ministério estava a encarar o governo de Macau com muito realismo, com muito pragmatismo e foi quando ele anunciou que viria a Timor e a Macau. Mas esta boa impressão trazida por Lajes Ribeiro, não parecia capaz de apaziguar receios. Por isso, quando é anunciada a deslocação de Almeida Santos para tratar da descolonização, a notícia é recebida com certo pânico principalmente entre a população chinesa registando-se mesmo corridas aos bancos.

Almeida Santos

Tentando desdramatizar a situação, o governo esclarece que o termo descolonização contido no dossier de Almeida Santos se referia exclusivamente a Timor. Os esclarecimentos porém não produziram efeitos seguros, tanto que Garcia Leandro, que acompanharia Almeida Santos na sua viagem ao Oriente, refere ter encontrado em Macau “um grande receio. Era como se para a população local o 25 de Abril tivesse aberto uma grande porta para lá da qual era a mais completa escuridão, sublinha.

Garcia Leandro um oficial ligado ao M.F.A. e desde o início vocacionado para os assuntos de Macau, manteve-se no Território auscultando a população sobre o perfil do novo governador que substituiria Nobre de Carvalho a quem Almeida Santos perante o teatro Diocesano repleto, teceria um “rasgado” elogio. Pouco depois, o jovem major regressaria a Portugal para voltar de novo, mais tarde, dessa vez graduado em coronel a fim de Ocupar o assento vago do Palácio da Praia Grande. Seia o primeiro governador de Macau da era pós revolução.

General Garcia Leandro ex-Governador de Macau

Tanto para os democratas como para os conservadores de Macau, as notícias da eclosão do 25 de Abril de 1974 causaram generalizada satisfação. Para os primeiros abria-se uma nova era de liberdade. Para os outros entreabria-se a possibilidade de conseguir a tão almejada autonomia do Território ansiada desde os idos da revolução de 1822.

No entanto, passada a euforia inicial, uma parte da população, incluindo a comunidade chinesa não escondeu apreensões relativamente ao futuro. A descolonização tomava a prioridade em todas as agendas de Lisboa e nenhuma indicação chegava que permitisse claramente depreender que Macau seria tratada de maneira diferente de Angola, Moçambique, Guiné, ou Timor.

É nesse contexto de ansiedade que o Ministro da Coordenação Interterritorial do primeiro governo provisório efectua a sua primeira deslocação ao Oriente, uma deslocação vista com ansiedade não só por Macau, como também pela vizinha Hong Kong, onde o governador enviou insistentes telegramas a Almeida Santos para se encontrar com este antes de embarcar no “hidrofoyl” para Macau. Almeida Santos encontrou-se de facto com o governador britânico e procurou descansa-lo.

Foi em razão dessa ansiedade crescente que Almeida Santos, depois de ter estado em Timor, onde se colocava de facto um problema de descolonização que era necessário resolver decidiu passar por Macau. Quando chegou constatou as informações que possuía:

Quando cheguei havia uma grande ansiedade de facto. A pataca tinha baixado de cotação e as pessoas estavam preocupadas. Qual vai ser o futuro de Macau? E eu pude fazer uma comunicação pública num teatro da cidade em que afirmei: Macau é uma jóia rara. É um caso especial, para nós não é uma colónia. Para Macau não se põe o problema de nenhum processo de descolonização. Isso aquietou os ânimos.

No dia seguinte a cidade era outra e eu fiquei muito feliz por ter contribuído para desfazer essa ansiedade.

Antes, porém, Nobre de Carvalho teria ainda ensejo de concluir da melhor maneira o seu atribulado mandato inaugurando em Outubro, como estava previsto, a nova ponte entre Macau e a Taipa que receberia o seu nome. Cinco dias depois partia para Lisboa convencido de que “Macau não viria a beneficiar muito com o 25 de Abril. – Viria a beneficiar sim, de uma maior representatividade dada à população nos órgãos do governo próprio do Território e nas autarquias. Isso impunha-se e principalmente aquilo que eu nunca tive, que era ter maior liberdade de acção, não estar piado como sempre estive em consequência das leis que então estavam em vigor, pelo Terreiro do Paço, digamos, por Lisboa.

A opinião de Nobre de Carvalho é subscrita muitos anos depois por Garcia Leandro que sublinha: “A primeira impressão com que fiquei foi que o território teria grandes possibilidades de desenvolvimento, estava numa área económica muito importante, mas devido ao sistema político que existia então se encontrava atrofiado“.

Depois da partida de Nobre de Carvalho, o inevitável processo de adaptação às novas condições levantou ainda mais a agitação, centrada quase exclusivamente na comunidade portuguesa civil e militar. Nos meses seguintes acentuaram-se clivagens e divergências, a polémica redobrou nos jornais e os comícios inflamaram-se mais ainda, culminando num período que registou algumas semelhanças com que ficou conhecido em Portugal por “Verão Quente” de 1975. Todavia, apesar das divergências de pontos de vista é hoje unânime que mais do que qualquer outro anseio, o 25 de Abril trouxe para Macau acima de tudo uma autonomia que tardava pelo menos desde que os liberais de 1822 tinham fracassado na sua tentativa de se eximir à obediência de Goa.

Nota. Artigo extraído do livro “Laboratório Constitucional” de João Guedes

Sun Yat-sen e Macau

Macau revolucionário no dealbar do século XX

Postal de Macau de 1900. Grémio Militar (actual Clube Militar) 

Após a fuga de Cantão através de Macau, Sun Yat-sen iniciaria verdadeiramente a sua peregrinação revolucionária pelo mundo, mobilizando simpatizantes e recolhendo fundos para as sucessivas insurreições que despoletaria nos anos seguintes na China. Logo após o rapto de que foi alvo em Londres pelos agentes secretos da embaixada da China, o professor James Cantlie, juntamente com o jornalista Sheridan Jones, publicam o livro  “Sun Yat-sen and the Awakening of China”, obra que internacionalizava o prestígio do jovem revolucionário e lhe ganharia as simpatias ocidentais. Sun manter-se-ia, assim afastado de Macau durante cerca de 17 anos mas, na colónia portuguesa, as sementes revolucionárias que plantara cresciam e davam frutos. Na sequência da desastrosa tentativa de Cantão o partido Reformista de Kang Iu-vai, defensor da manutenção da monarquia apenas queria torná-la num sistema constitucional moderno excluindo o ideário republicano que começava a ganhar cada vez mais adeptos. Em Macau eram os reformistas que dominavam claramente a situação.

Sir James Cantlie médico. Professor e mentor ideológico de Sun Yat-sen.

Leong Kai-chiu, um dos lugar-tenentes de Kang Iu-vai encarregava-se de liderar a actividade dos reformistas através de uma outra associação secreta, a Huang Ti Hui (Sociedade para a Protecção do Imperador), que tinha sido fundada em Vancouver no Canadá em 1899, por Kang. A associação mantinha, pelo menos, duas escolas em funcionamento e intervinha a vários níveis no domínio da assistência social, nomeadamente através da poderosa Associação de Beneficência Tong Sin Tong. Além disso, criara um jornal ” O Reformador da China” que se distribuía profusamente em Hong Kong e Cantão e chegava também a várias cidades do norte e às colónias chinesas no estrangeiro. Publicado em Macau, o “Reformador da China” era o órgão central do Partido, suportado financeiramente pelo magnate Ho Sui-tien, líder em Macau. O facto de a impressão do “Reformador da China” ser feita na colónia portuguesa permitiu que se continuasse a publicar e a chegar à China mesmo após o golpe de 1898 da imperatriz Tsu Hzi, enquanto outros jornais partidários nomeadamente em Cantão eram violentamente encerrados e os seus promotores presos.

O livro que tornaria internacionalmente conhecida a figura de Sun Yat-sen. Escrito em parceria entre James Cantlie e o jornalista C. Sheridan Jones.

Face às características menos radicais dos reformistas as suas actividades eram encaradas de outra maneira pelas autoridades portuguesas que não interferiam, protegendo mesmo quando era caso disso os que caíam na mira do governo de Cantão. Pertencendo na sua maioria ao sectores da burguesia comercial ou da aristocracia mandarínica os reformistas ofereciam à partida garantias de menos embaraços aos sucessivos governadores da colónia portuguesa onde as actividades dos simpatizantes do radical Sun Yat-sen eram vistas com desconfiança e susceptíveis de causar danos nas relações com o governo de Cantão, ou mesmo com o governo central com quem havia que manter sempre pelo menos uma aparência de boa harmonia e cooperação. Embora os correligionários de Sun Yat- sen fossem na sua esmagadora maioria jovens ocidentalizados e em grande parte cristãos constituíam um perigo maior pois defendiam não só as ideias republicanas que o governo português também combatia, como se revelavam hostis à presença estrangeira na China, pelo menos sob a forma de colónias( como eram exemplos Macau e Hong Kong), apesar de se servirem destes dois territórios como importantes bastiões de apoio, locais de refúgio e centros de agitação. Por outro lado a sua associação com os bandos de piratas e com a Tríade constituía outro motivo de preocupação. Esta política do governo português de Macau, não impedia no entanto que fosse prestada discreta protecção aos oposicionistas chineses que eventualmente aqui se refugiavam, ou se tornavam notados pelo governo da província de Guangdong que frequentemente pedia a extradição de inimigos políticos ao governador português ao abrigo de acordos existentes.

Neste âmbito é exemplar o caso do mandarim Keng Ling-san – que fugiu para Macau na sequência do golpe de estado da imperatriz Tzu Hzi e que o governador Rodrigues Galhardo, foi obrigado a mandar prender face a um pedido formal de extradição do vice-rei T’an Chung-lin. Decidido a conceder-lhe protecção e não a cumprir o pedido de Cantão, o governo português criou no entanto tantos embaraços jurídicos quantos pode à formalização da extradição utilizando toda a sorte de manobras dilatórias até encontrar a melhor forma de resolver a situação. A táctica adoptada resultou em pleno e no final de dois anos de moratórias o mandarim pode ser libertado sem criar já tensões no relacionamento com o governo de Cantão que na prática perdeu a causa. Refira-se no entanto que o processo não decorreu inteiramente sem sobressaltos e que a complacência do governo português esteve longe de ser espontânea. De facto o mandarim teria sido mesmo repatriado se a sua prisão não tivesse tido eco na imprensa de Hong Kong que considerou o caso um escândalo e se simultaneamente os comerciantes locais não tivessem ameaçado o governador com uma paralisação geral.

Horta e Costa. Governador de Macau em 1900.

Apesar da política de tolerância do governo português para com os revolucionários chineses a administração colonial permanecia tio atenta quanto podia aos seus movimentos e actuava mesmo quando as suas acções ultrapassavam os limites considerados aceitáveis de modo a não porem em risco as relações entre Portugal e a China. Encarregava-se da vigilância do mundo chinês a Repartição dos Assuntos Cínicos (RAS), um departamento administrativo do governo que podia considerar-se como uma espécie de serviços secretos de Macau. Dotada de um quadro de agentes chineses e de intérpretes tradutores a RAS complementava os serviços de polícia, os quais mantinham também uma secção de investigação, permanecendo, tanto quanto podia, atenta essencialmente aos fenómenos políticos internos que iam desde a censura aos jornais teatros e cinemas até ao controlo dos comícios e de figuras suspeitas de actividades subversivas. A RAS era directamente tutelada pelo próprio governador que decidia sempre em última instância, sobre os processos em curso. Na sua actividade de manutenção da estabilidade e dos instáveis equilíbrios que se verificavam no seio da comunidade chinesa, tendo sempre em atenção a vizinha e poderosa China a RAS confrontava-se com um volume demasiado grande de serviço burocrático acabando por despender grande parte dos seus esforços no domínio da tradução de documentos, licenciamentos e fiscalizações rotineiras. Restava-lhe, assim, pouco tempo para um efectivo controlo político da comunidade chinesa.

A situação manteve-se todavia sob relativo controlo até ao final do século XIX momento em que a agitação revolucionária se incrementou com a decidida ascensão dos republicanos de Sun Yat-sen no seio do movimento revolucionário chinês e o consequente isolamento dos reformistas cujas teses perdiam terreno à medida que a irredutibilidade do governo central de Pequim se acentuava rejeitando quaisquer veleidades constitucionais. O corte radical entre reformistas e republicanos seria selado em 1900, na sequência da segunda tentativa de Sun Yat-sen para derrubar o governo de Cantão e proclamar a independência das províncias gémeas de Guangdong e Guanxi. Alarme no princípio do século A tentativa revolucionária de Sun Yat-sen, no Veräo de 1900 mais uma vez contou com o apoio da Tríade que se dividia por quantos bandos de piratas cruzavam o rio das Pérolas, muitos dos quais mantinham os seus quartéis generais em Macau. Através de Macau passavam também as espingardas e munições que armavam esses grupos cujo número chegava a ser de 200 a 300 homens em pequenas armadas que assolavam a província de Guangdong. A suspeita levantada já em Macau em Maio de 1896 de que tais “quadrilhas armadas se poderiam combinar sob um chefe forte para derrubar o governo” confirmava-se três anos depois quando, Sun decide reactivar a sua organização revolucionária em Hong Kong e Macau empenhando-a na arregimentarão desses bandos para uma operação semelhante a insurreição fracassada de 1895. Encarregou-se do recrutamento dos insurrectos Cheng Shi-liang que estabeleceu quartel general em San Chou-tien, uma ilha conhecida por ser abrigo de piratas, situada no rio das Pérolas a cerca de dez quilómetros da costa chinesa e a menos de 20 da fronteira dos Novos Territórios de Hong Kong. A revolta aproveitava o estado de confusão reinante no país pelo pronunciamento dos Boxers no norte, que tinha lançado a China no caos e servido os apetites colonialistas das potências ocidentais que ameaçavam dividir o velho continente em várias esferas de influencia desintegrando o trono. As hesitações de Sun Yat-sen que chegou a considerar, juntamente  com o governador de Cantão, Li Hung-chang, a hipótese de proclamar a independência das províncias do sul, levaram a que as movimentações dos rebeldes em San Chou- t’ien chegassem ao conhecimento das autoridades imperiais o que fez com que o exército improvisado de Cheng Shi-liang fosse obrigado a pronunciar-se marchando sobre a capital distrital. ali, num confronto com um destacamento imperial, obteve uma decisiva vitória que lhe permitiu ganhar aderentes e continuar em direcção a Cantão objectivo designado pelo próprio Sun Yat-sen. Esse exército cresceu rapidamente para cerca de dez mil homens, conquistando as vilas e aldeias que se interpunham no percurso em direcção à capital provincial. Quando se encontravam porém a pouca distância das muralhas de Cantão receberam ordens de Sun Yat-sen para alterarem os planos e marcharem para norte com o objectivo de capturar Amoy. A razão para tal alteração prendia-se com o facto de o Japão ter prometido assegurar apoio militar aos revoltosos se estes dirigissem os seus esforços contra a capital fuquinense onde os japoneses se pretendiam instalar também a partir das suas bases em Taiwan. As forças revoltosas foram então reagrupadas marchando com destino ao novo objectivo a 17 de Outubro. Logo no dia 20 porém confrontavam-se com um batalhão do exército imperial comandado pelo capitão Wu Hsiang-ta que lhes infligia a primeira e fatal derrota. Três dias depois Sun Yat-sen que se encontrava em Taiwan informava Cheng Shi-liang de que afinal não poderia contar com qualquer auxílio japonês. Ciente então da inutilidade dos seus esforços Cheng decidiu finalmente desmobilizar as tropas e pôr termo à insurreição que durara duas semanas e meia. Desta vez os acontecimento de Guangdong reflectiram-se no entanto com mais intensidade em Macau onde chegavam várias famílias de refugiados. A população civil chegou mesmo a ser armada enquanto  a guarnição militar era reforçada por destacamentos vindos da metrópole. A defesa marítima intensificava-se também com a chegada do Cruzador Adamastor.

Cruzador Adamastor.

O clima de tensão explodiu em Julho de 1900 com um incidente nas Portas do Cerco que provocou viva troca de tiros entre as guarnições portuguesa e chinesa através  da fronteira durante dois dias consecutivo. Apesar dos confrontos não se registaram movimentações de tropas de qualquer dos lados e a vida continuou por isso a decorrer com alguma normalidade na cidade que rapidamente voltaria ao sossego absoluto. O regresso da paz, permitiu ao governador Horta e Costa, que havia chegado no Cruzador da Armada Portuguesa reassumir o posto que tinha ocupado já anteriormente (1894/1896) e dedicar-se às tarefas administrativas internas mais urgentes: urbanização nova da cidade, saneamento básico e erradicação das epidemias cíclicas que afectavam o pequeno território. A insurreição do Verão de 1900 teve no entanto importantes repercussões. Nos anos seguintes, o governo de Guangdong enveredaria pelo caminho das reformas seguindo as orientações de Pequim o que provocou uma cismo inelutável entre os reformistas de Kang Iu-vai que se passavam declaradamente para o campo da dinastia Ching (a qual na prática abraçava as suas propostas reformistas) e as correntes anti- manchu entre as quais se contavam os correligionários de Sun Yat-sen, então ainda um nacionalista indeciso e os republicanos. Em Macau, os reformistas mantiveram ainda por algum tempo uma certa influência que no entanto se foi desvanecendo. O seu declínio final foi assinalado com a publicação do último número do “Reformador da China” de Leong Kai Chiu, no Outono de 1901. Apesar da perda de importância dos reformadores inclusivamente em Macau o panorama revolucionário na colónia portuguesa não esmoreceu. Bem pelo contrário acentuou-se com a crescente influencia que as correntes radicais ligadas cada vez mais ao sector do trabalho manifestavam. Sun Yat-sen continuava longe de Macau, mas os seus homens organizavam-se através das associações secretas que dominavam a cidade flutuante, das associações comerciais que ganhavam peso, dos grémios de trabalhadores e dos clubes que se registavam legalmente, cada vez em maior número. A influência das novas correntes revolucionárias da China foi particularmente sentida em finais de 1905 por ocasião do boicote dos portuários contra os Estados Unidos da América. à semelhança de Hong Kong os comícios e manifestações de protesto anti-americanos foram proibidos em Macau. Em alternativa os grémios e associações locais levaram a efeito manifestações nas vilas de Wan Chai e Zhouhai, bem à vista do Território. É nesta altura que Sun Yat-sen reconhecendo a deserção dos reformistas decide aliar-se aos estudantes radicais que pontificavam nas cidades do norte da China, nomeadamente em Xangai fundando a “Liga Unida” (Tongmenghui) que congregava as diversas correntes revolucionárias não reformistas. A Tongmenghui era um movimento genuinamente republicano que teria a sua sede no número 41 da Avenida da Praia Grande, em Macau, na  residência de Lao Si-fock, um conhecido revolucionário, que durante os anos seguintes encheria de dores de cabeça a Repartição dos Assuntos Sínicos.

A Liga Unida de Macau que se encontrava sob a directo do Departamento do Sul da sua congénere de Hong Kong era inicialmente liderada por Xie Yingbo, possuindo uma filial activa no número 21 da rua do Volong que funcionava sob a capa de um Centro de Estudos oficialmente registado na conservatória do governo.

João Guedes

Nota: – Publicado originalmente na Revista da Cultura (ICM)

Sun Yat-sen e Macau

1895 e a revolta fracassada de Cantão

Sun Yat-se no Hospital Kiang Wu 1912Sun Yat-sen no Hospital Kiang Wu, 1912. 

Por ocasião da passagem de Sun Yat-sen por Macau, em 1878, a colónia portuguesa era, tendo em conta a total letargia do resto da China, um dos poucos locais onde se poderia encontrar embriões de mudança. Associações de todo o norte exerciam intensa actividade, com destaque para a Tong Sin Tong, que ainda hoje continua a prestar serviço na área da assistência social. Todas elas evitavam no entanto cuidadosamente tomar atitudes explicitamente políticas. As vertentes políticas em Macau apenas se reconheciam nas sociedades secretas, ainda que de um modo puramente ritualista, nomeadamente ao nível das cerimónias iniciáticas que incluíam o juramento de combater a dinastia Ching e restabelecer o trono Ming. Quanto ao resto, as sociedades secretas eram, na prática, associações de malfeitores que só ocasionalmente prestavam serviços de índole política. Fosse como fosse, entre a comunidade chinesa o desejo de mudança começava a tomar forma, à medida que a história fazia a sua caminhada na segunda metade do século XIX. Numa cidade que punha termo ao infame comércio dos cules, Macau explorava diversos ramos de actividades lucrativas. Os comerciantes locais de médios recursos e módicas ambições viviam de um relacionamento comercial regional, já que a comunidade de negócios de Hong Kong se encarregava de polarizar os grandes lucros e as grandes iniciativas de contacto com outras regiões do mundo. Mesmo assim, era entre a classe de comerciantes locais que as ideias políticas circulavam e se expandiam. Devido, talvez, à pacatez do território, que não conhecia a actividade febril de Hong Kong, Macau viu formar-se no seu seio um escol de pensadores que gerou figuras intelectuais de grande dimensão, como Zheng Guan-yin (1842-1921), um teórico do liberalismo, defensor da transformação do império numa monarquia constitucional e apologista do desenvolvimento industrial da China. Zheng Guan-yin, autor de vários trabalhos sobre temas político-económicos, notabilizar-se-ia na sua obra “Advertências Severas na Época Próspera”, em que expunha extensamente o seu ideário sobre as reformas sociais, políticas e económicas necessárias para salvar e desenvolver o país. O pensamento de Zheng tornou-se doutrina e influenciou várias gerações, atingindo mesmo o fundador da República Popular da China, Mao Tsé-tung, que o lia, na adolescência, às escondidas do pai. Zheng Guan-yin terá sido, também, um dos que primeiro influenciou o pensamento político de Sun Yat-sen (que com ele conviveu em Macau).

Outras figuras se destacavam já no despertar da consciência nacional chinesa em Macau. Entre elas contava-se Kang Iu-vai, o principal motor da escola reformista da China. Oriundo da aristocracia mandarínica, Kang Iu-vai enfileirava pelos princípios liberais e reformistas de Zheng Guan-yin mas, ao contrário deste, não se limitava a um papel meramente teórico: era um homem de acção, que lutava para pôr em prática as suas ideias. Começando por ser porta-voz, em Pequim, do protesto dos estudantes contra o sistema milenário de exames para acesso ao vasto corpo do funcionalismo público na China, Kang Iu-vai acabou por se fazer ouvir, captando a atenção do próprio imperador Kang Yi, de quem se tornou um dos conselheiros privados. Pôde, então, influenciar decisivamente o trono, de modo a elaborar um conjunto de legislação destinada a transformar a China num estado monárquico constitucional moderno. A sua acção viria, no entanto, a ser interrompida pelo golpe de estado da imperatriz Tsu Zsy que, irrompendo em Pequim de um auto-exílio em Xian (antiga capital do império) afastou o jovem Kang Yi e os seus conselheiros liberais, repondo a autocracia imperial na sua mais férrea originalidade.

Entretanto, o pensamento e a actividade daqueles dois reformistas reflectiam-se na sua maior plenitude, em Macau, na altura em que Sun Yat-sen regressava do Havai para prosseguir os estudos na Escola Diocesana de Hong Kong. Corria então o mês de Novembro de 1883. Para além de uma congénita irrequietude de espírito, Sun Yat-sen carecia ainda de qualquer formação ideológica definida, que só viria a adquirir na colónia britânica, ao acompanhar os seus estudos de empenhada participação política. Sempre que visitava a terra natal em Zhongshan, Sun escalava religiosamente Macau frequentando as tertúlias da embrionária, jovem e confusa oposição ao regime da China. É então que, juntamente com outros três colegas e conterrâneos, Sun se começa a notabilizar pela prática de actividades subversivas, levadas a cabo a partir de um quartel-general provisório, situado numa casa da Travessa dos Santos, íngreme perpendicular à Rua do Campo, cujo proprietário, Yang He-ling era um dos elementos do grupo. O empenhamento e militância de todos em breve levou a que se tornassem conhecidos pelo “Bando dos Quatro”. Pese embora o carácter confesso das actividades a que se dedicavam, os quatro militantes não parecem, contudo, ter ido suficientemente longe para concitar as atenções quer das autoridades coloniais portuguesas, quer da sua polícia secreta (pelo menos até agora não foram encontrados quaisquer documentos relativos a qualquer deles nem à casa subversiva de Yang He-ling, que despertaria as atenções da polícia, só que trinta anos mais tarde). Mas, se em Macau as actividades de Sun não se tornavam conhecidas no seio da comunidade portuguesa, já o mesmo não sucederia em Hong Kong. Participando em diversas manifestações contra o regime de Pequim, ali se envolveu em campanhas subversivas, nomeadamente nas greves dos trabalhadores portuários que paralisaram Hong Kong. Na colónia britânica, o nome de Sun chegou mesmo a ser ligado a alguns atentados bombistas, sabendo-se que, pelo menos, participou no fabrico de bombas artesanais. Benificiando, embora, de protecção por parte de influentes figuras da comunidade de Hong Kong, Sun não escaparia, mesmo assim, às malhas da polícia.

Parece ter sido deste modo que, no âmbito das andanças forçadas pelos tribunais da vizinha colónia, Sun terá conhecido Francisco Hermenegildo Fernandes, um intérprete judicial oriundo de Macau, que se tornaria um dos seus grandes apoios políticos e, em última instância, lhe viria a salvar mesmo a vida alguns anos depois.

Nascido em Macau a 13 de Fevereiro de 1863, Francisco Hermenegildo Fernandes era filho de Nicolau Tolentino Fernandes e de Maria Isabel Fernandes, família macaense que se encontrava ligada à imprensa local através da Tipografia Mercantil, de que era proprietária. Entre outras actividades, era esta tipografia que se encarregava da publicação do Boletim Oficial da Colónia, bem como da impressão de alguns dos jornais diários e semanários que iam sobrevivendo, em português. Dominando diversos dialectos chineses – nomeadamente cantonense e Mandarim (para além do inglês e português que falava fluentemente), Francisco Fernandes parte para Hong Kong depois de concluir os seus estudos secundários, e aí se radica. Na vizinha colónia, para além de manter ligações com a imprensa portuguesa de Hong Kong, integra os quadros da estrutura judicial britânica, na qual se destaca pelos dotes linguísticos e de inteligência que revela e que, inclusivamente, lhe valem um louvor público do Supremo Tribunal. Depois de trabalhar alguns anos nas secretarias judiciais britânicas, Francisco Fernandes opta pelo regresso a Macau, a fim de dirigir a tipografia da família. Ao mesmo tempo, dedica-se, por inteiro, à actividade jornalística, iniciando a publicação de “O Echo Macaense”, jornal “político, literário e noticioso”. O “Echo”, que pretendia defender os interesses dos macaenses, reflectia orientações políticas de grupo, que iam desde certa facção macaense não afecta aos círculos tradicionais da Igreja Católica e a ela ligados, a alguns sectores da administração pública da Colónia, com destaque para o próprio governador Horta e Costa, que tinha no jornal um estrénuo defensor. Pelas conotações da publicação se podiam, desde logo, deduzir as relações pessoais de Francisco Fernandes. Entre elas, contavam-se o destacado causídico macaense António Joaquim Basto que, com o seu colega e rival Senna Fernandes, disputava o monopólio das ligações entre a comunidade chinesa e a administração da Colónia. Socialmente bem relacionado e proprietário de um jornal, que tinha, à partida, o beneplácito do Governador, Francisco Fernandes seria em Macau a figura por quem muitas portas seriam abertas a Sun Yat-sen e que, ao mesmo tempo, o protegeria nas mais diversas circunstâncias.

Sun Yat-sen e o “Bando dos Quatro” na casa da Tarvessa dos Santos em Macau. 

Entretanto, Sun Yat-sen concluía em Julho de 1892 o curso de medicina, não sem antes se ter tornado notado pelos professores. De facto, o espírito vivo e dotes de inteligência de discípulo tornaram-no o preferido de vários mestres, entre os quais James Cantlie, Deão da Faculdade e também reputado investigador no campo da medicina tropical, com quem jogava cricket. Com efeito, só a protecção de Cantlie terá poupado a Sun muitos dissabores com as autoridades de Hong Kong,devido às actividades subversivas a que se dedicava; contudo nem a sombra protectora do mestre foi suficiente para que, após finalizar o curso, conseguir exercer medicina na colónia britânica. Assim, não restou a Sun outra alternativa senão a de se transferir para Macau, onde integrou o corpo clínico do Hospital Kiang Wu, única unidade hospitalar chinesa do enclave português. O Kiang Wu era, além disso, propriedade da Associação de Beneficência Tong Sin Tong, à qual pertenciam muitos comerciantes locais ligados ao movimento reformista liderado por Kang Iu-vai, e cujo principal ideólogo era Zheng Guan-yin. Nesta fase da sua vida, porém, Sun Yat-sen já não passaria despercebidamente por Macau, ao contrário do que até então sucedera.

Sun Yat-sen, Macau e a revolta de 1895

Pondo em prática os ensinamentos que adquirira segundo padrões ocidentais, Sun Yat-sen começou a sua actividade no Hospital Kiang Wu tentando introduzir os conceitos clínicos europeus numa estrutura ancilosada, composta por uma espécie de “mestres-curandeiros” formados no empirismo da milenar tradição médica chinesa profundamente conhecedora dos poderes curativos da botânica, mas por completo ignorante da síntese química e das modernas técnicas terapêuticas e cirúrgicas. Neste último domínio, especialmente – e contrariamente às práticas ocidentais – as intervenções cirúrgicas praticavam-se, na China, em amplas salas perante numerosa assistência composta não só por médicos, mas também por simples curiosos que, em círculo, acompanhavam todas as fases das operações. Sun Yat-sen, ao revolucionar métodos e introduzir novas técnicas não pôs termo no entanto a este costume, operando também rodeado por verdadeiras multidões que não perdiam um segundo da “acção” que se desenrolava no teatro anatómico do hospital Kiang Wu. Nas operações mais complicadas, Sun contava ainda com a presença de ex-professores de Hong Kong, que se deslocavam propositadamente a Macau para assistir o jovem médico. O mais assíduo destes mentores era James Cantlie, que descreve assim a teatralidade que rodeava as operações que não deixavam também de ter a sua componente política.

“As intervenções cirúrgicas na China não são feitas no ambiente de privacidade que caracteriza essas delicadas funções entre nós [no Ocidente]. as efectuadas por Sun, compareciam não só a Comissão de Leigos do hospital – que se sentavam próximo da mesa de operações – como também os parentes e amigos do paciente que se mantinham de pé, seguindo atentamente todas as fases da intervenção. De particular interesse para a assistência revestiam-se, especialmente, as operações destinadas a remover cálculos, já que tal padecimento era frequente naquela região do país. A série de incisões que o cirurgião necessitava de fazer para atingir os ditos cálculos, suscitava uma ansiosa necessidade de renovação de ar por parte da assistência que, nessas ocasiões de clímax, abanava vigorosamente os seus pequenos leques, assim produzindo a ventilação suficiente para evitar desmaios dos espectadores (note-se que, no Sul da China, todos os cavalheiros trazem consigo um pequeno leque). Quando, por fim, os cálculos eram removidos e mostrados à assistência, todos se sentiam amplamente recompensados do “sofrimento” e suores frios suscitados pelas sangrentas manipulações do operador, premiando a exibição dos ditos com exclamativos “Hi-ays!” e outras expressões de aliviado fascínio”. À medida que as operações iam tendo sucesso e que as drogas da medicina ocidental produzindo efeito numa população chinesa endemicamente afectada pela tuberculose, pelo tifo e, muitas vezes, pela peste bubónica, Sun ia ampliando o seu prestígio. Para ele, aliás, o exercício da medicina era apenas um instrumento que utilizava como forma de propagandear as vantagens das técnicas e conhecimentos ocidentais, numa vertente marcadamente política. No entanto, provavelmente para melhor poder garantir a sua subsistência, decidiu abrir um consultório de doenças pulmonares e, simultaneamente uma farmácia, num pequeno edifício de dois pisos na estreita Rua das Estalagens. Mas ao contrário do que seria de esperar, tanto o consultório como a farmácia, muito mais do que centros de atendimento de saúde, passaram de imediato a constituir locais de reunião de conjurados, e sede partidária dos reformistas, a quem Sun se encontrava então fortemente ligado.

No campo da militância, Sun Yat-sen também não perdeu tempo. Ao chegar a Macau, lançou-se na fundação de um jornal que pudesse difundir as ideias da reforma constitucional da China e da necessidade de ocidentalização do país. Para isso, recorreu ao seu amigo Francisco Fernandes, com o qual pôs de pé, em pouco tempo, o projecto. Tendo o próprio Sun como redactor principal, as máquinas da Tipografia Mercantil passaram então a publicar o jornal reformista em chinês, sendo as matérias mais importantes traduzidas para português nas páginas do “Echo Macaense”, ampliando-lhes os efeitos. O jornal ganhou projecção, e em breve, era vendido não só em Xangai, Cantão e noutros pontos da província de Guangdong, mas também no Ultramar, nomeadamente nas colónias chinesas do pacífico. O papel do “Echo Macaense” junto da comunidade portuguesa de Macau era acompanhado, em Hong Kong, pelos jornais ingleses “China Mail” e “Telegraph”, que apoiavam a causa reformista e promoviam a figura de Sun Yat-sen.

Enquanto o periódico se encarregava de levar mais longe o pensamento de Sun e seu pequeno grupo de correligionários, (onde ainda não pontificava), o jovem médico desdobrava-se em actividades, preparando activamente os espíritos para uma tentativa arrojada: derrubar o governo de Cantão.

Para que tal fosse possível apesar do estado de exaustão de todo o império (incluindo Guangdong) e da completa indisciplina militar reinante, seria preciso muito mais que os poucos ideólogos do movimento reformista liderado por Kang Iu-vai e o seu reduzido grupo de activistas, entre os quais se contava Sun. Mas para este (a quem não faltava optimismo e entusiasmo) era quanto bastava para arregimentar as massas contra um regime que não cedia às correntes do progresso, nem às lições da história. Fosse como fosse, no entanto Sun ainda acreditou por algum tempo que as advertências feitas às autoridades chinesas, designadamente através dos jornais, fossem capazes de abrir os seus espíritos ao mundo, não se coibindo, por isso, de escrever pessoalmente ao governador de Guangdong dando-lhe conselhos sobre administração pública no intuito de contribuir para que se pusesse termo à situação catastrófica que se vivia na agricultura em Guangdong. Mas as suas esperanças em breve cairiam por terra.

Entretanto, em Macau, a notoriedade de Sun Yat-sen foi-se acentuando ao fim de poucos meses de actividade, passando a ser visto com maus olhos pelos sectores tradicionais da comunidade portuguesa. Do seu lado apenas tinha Francisco Fernandes e o advogado Joaquim Basto, contando através destes, diga-se com a simpatia do próprio governador Horta e Costa. No entanto, outros sectores – entre os quais a Igreja Católica – opunham-se não só às actividades do jovem médico chinês, como às suas ideias políticas que afectavam (ainda que indirectamente) o status-quo. À medida que os meses passavam e a fama de Sun aumentava, crescia não só a polémica, mas acentuava-se o confronto, o que levou, finalmente, a que fossem tomadas medidas contra ele. Assim, aproveitando o facto de Sun Yat-sen não possuir diploma de médico passado por qualquer universidade portuguesa, como a exigia a lei, o caso foi levado formalmente às autoridades, que não tiveram outra alternativa senão proibir a Sun, ainda que a contra-gosto, o exercício da profissão em Macau. Confrontado com os factos, Sun foi obrigado a tomar a decisão que iria precipitar os acontecimentos da sua vida: mudou-se para Cantão.

Desiludido pela ineficácia da oposição que se limitava à estéril exposição de teorias políticas e nada mais, Sun Yat- sen decidiu por algum tempo abandonar a actividade militante, dedicando-se exclusivamente à medicina. Abriu então uma cadeia de farmácias em Cantão, ao mesmo tempo que escrevia as suas ideias políticas a fim de as levar ao Grande Secretário Imperial (primeiro-ministro) Hung Cheng, cuja chancelaria se encontrava na cidade de Tientsin.Escusado será dizer que a tentativa estava, à partida, condenada ao fracasso. Mas mesmo assim Sun não desistiu conseguindo fazer chegar o seu trabalho a Tientsin, embora não ao Grande Secretário que não parece ter tido nunca oportunidade de se debruçar sobre as ideias de Sun e muito menos ter considerado a hipótese de o receber pessoalmente. Sun ainda era uma figura demasiado anónima para fazer despender um segundo que fosse da atenção do chefe do governo imperial. Cansado de esperar por uma resposta que não vinha Sun Yat-sen acabaria então por reformular os seus princípios e considerar seriamente a revolta como única forma de se fazer ouvir. No entanto, as massas, na China, continuavam como sempre tinham estado; miseráveis e ignorantes, constituindo um campo onde a política não colhia. Mas se estes eram os factos nada impedia porém que o lançamento da revolta acordasse o povo amorfo, pensava Sun. Assim, decididamente, abandonou de novo a medicina para se lançar agora na preparação activa de um golpe que derrubasse o governo de Cantão, peça chave para a transformação do Império. Para o efeito, contava com pouco mais de uma centena de conjurados distribuídos por Cantão, Macau, Hong Kong e Honolulu, que constituíam um grupo de fiéis arrebatados, dispostos como ele a derrubar a autocracia, ou morrer. O embirro da conjura nasceu na capital havaiana para onde Sun se deslocou, fundando ali em Novembro de 1894 uma associação secreta denominada “Sociedade para Restaurar a Prosperidade da China” (Hsing Chung-hui), com o propósito de derrubar o regime Ching. Uma filial desta associação seria formada em Hong Kong em Fevereiro de 1895. E tudo indica que, pela mesma altura (1895), a Hsing Chung-hui tenha sido estabelecida também em Macau. Ao que parece, a sede estaria situada no número 11 do Pátio da Gruta, (edifício demolido em 1988) onde residia o comerciante Ho Sui Tin, um dos que contribuiu financeiramente para os preparativos da revolta. Outra hipótese em aberto para a localização da sede é também a residência de Yang He-ling na Travessa dos Santos, antigo ponto de encontro do “Bando dos Quatro”.

Os conjurados, incluindo Sun, eram todos jovens ocidentalizados formados em escolas protestantes de Hong Kong e do Havai. Nenhum deles pertencia à aristocracia reformista, que ostensivamente se divorciara, progressivamente, das suas actividades na sequência da guerra sino-japonesa (1894- 1895). Tomando a seu cargo os planos concretos do assalto a Cantão, a Hsing Chung-hui iniciou a compra de armas e o recrutamento de homens entre os filiados nas diversas associações secretas da tríade (a que Sun também pertencia), os quais iam sendo incorporados com um salário mensal de 10 dólares de Hong Kong por cabeça. Apesar da exiguidade de forças e da duvidosa capacidade de combate dos mercenários da sociedade secreta, os planos prosseguiram até a marcação da data da insurreição prevista para o dia 26 de Outubro de 1895. Coincidindo com o dia dos Fiéis Defuntos na China, os revoltosos contavam que os seus movimentos fossem menos notados, devido ao facto de se encontrarem então, tradicionalmente, nas ruas, grandes multidões que se dirigem aos cemitérios a fim de honrar os seus mortos. O ataque a Cantão partiria coordenadamente de várias direcções tendo como alvo diversos departamentos do governo considerados estratégicos que deveriam ser ocupados. No entanto, nos dias que antecederam o golpe, tudo começou a correr mal. Uma lista de conjurados bem assim como a Proclamação dos revoltosos caiu nas mãos da polícia obrigando à tomada de medidas de segurança de emergência, o que dificultou o prosseguimento das operações, a menos de uma semana da data marcada. Finalmente, na véspera da insurreição, os líderes dos mercenários – que deveriam embarcar num ferry-boat em Hong Kong com destino a Cantão juntamente com os seus homens – envolveram-se numa disputa pela partilha das armas, deixando o navio partir sem eles. Este facto provocou a descoordenação que viria a ser fatal aos planos. Em Cantão, Sun Yat-sen manda suspender as operações depois de ter recebido um telegrama com as más notícias, enquanto em Hong Kong os chefes da Tríade, resolvida a disputa, embarcavam no navio do dia seguinte, tentando uma atabalhoada reactivação dos planos. O adiamento, no entanto, revelou-se irreparável para os insurrectos, já que, após algumas hesitações, a polícia britânica de Hong Kong (que se encontrava a par de todos estes movimentos) decidia informar o governo de Cantão sobre o que se passava. O massacre foi, por isso, inevitável a chegada do navio ao porto de Cantão tropas chinesas tomaram-no de assalto, apreendendo as armas que vinham dissimuladas nos porões, no interior de tambores ostentando a marca de cimentos “Portland”. A maior parte dos mercenários foi detida, embora alguns tivessem conseguido escapar na confusão do momento. No entanto, os membros da Hsing Chung-hui eram todos presos, ou mortos, pela polícia no navio e nos esconderijos onde se refugiavam, na cidade de Cantão. Todos seriam barbaramente executados, na sequência de processos sumaríssimos, com apenas uma excepção: Sun Yat-sen, que conseguira escapar, escondendo-se em casa de um missionário protestante americano, seu amigo. Nos dias subsequentes à tentativa frustrada de golpe, Cantão viveu sob lei marcial, registando-se prisões em massa. Enquanto isso, Sun aguardava oportunidade de poder fugir da cidade. Logo que ela surgiu, discretamente auxiliado por simpatizantes e amigos, Sun Yat-sen iniciou um percurso de fuga de mais de 200 quilómetros, utilizando as sampanas que cruzavam os canais dos arredores e escondendo-se por onde podia em abrigos provisórios até alcançar Macau – único ponto de refúgio possível. Depois de uma verdadeira odisseia rodeada de perigos e ciladas, Sun alcançou as Portas do Cerco entrando em Macau disfarçado de mulher, recolhido no interior discreto de uma  cadeirinha carregada aos ombros de três cules que o transportaram até casa do seu amigo Francisco Fernandes, na Rua da Casa Forte número 3.

Antes de fugir de Cantão, no entanto, Sun era já o mais procurado inimigo do império, e a polícia chinesa esquadrinhava os quatro cantos de Guangdong em sua perseguição. Macau não constituía excepção. Com efeito a polícia imperial percorria as ruas da colónia portuguesa alertando informadores, e distribuindo os cartazes anunciando a recompensa pela sua captura.

Sun Yat-sen. Fotografia oficial dos serviços de Imigração de S. Francisco, EUA. Maio de 1988 data da primeira entrada de Sun Yat-sen nos Estados Unidos da América.

Sobre os acontecimentos que tinham tido lugar em Cantão, a população portuguesa em geral pouco ou nada sabia. A imprensa fizera-se eco apenas nas páginas interiores do “Echo Macaense” de 30 de Outubro de 1895 de que, no anterior dia 10, “embarcaram em Hong Kong grande número de chineses maltrapilhos que disseram à polícia de Hong Kong que se iam alistar em Cantão como soldados”. O jornal informava também que os tais “maltrapilhos” pertenciam a várias sociedades secretas, e eram oriundos de Chiu Chau. E, a concluir, a notícia avisava: “Convém que as nossas autoridades tomem as devidas precauções porque, se a notícia for verdadeira, podem contar como certo que esta cidade será valha couto de refugiados e malandros. Depois, já aqui estamos sofrendo as consequências de grande aumento da população chinesa e de casos de roubo”.

O articulista, que contava apenas uma ínfima parcela do que na realidade se tinha passado em Cantão, não se enganava, porém, no aviso que fazia às autoridades de Macau, embora não incluísse no rol dos “refugiados e malandros” o chefe da revolta, cuja identidade afirmava ser desconhecida, mas que o director do jornal conhecia bem. Francisco Fernandes franqueou a porta a Sun Yat-sen mantendo rigorosamente em segredo a sua presença enquanto iniciava diligências a fim de lhe preparar a fuga para o Japão. As iniciativas que tomou não se conhecem, mas provavelmente terá utilizado os bons serviços do advogado Joaquim Basto, e conseguido a garantia do Governador de que mandaria a polícia fazer ouvidos moucos a quaisquer rumores sobre a presença do revolucionário chinês na cidade. Enquanto isso, dispunha igualmente a sua rede de influências no seio da comunidade portuguesa de Hong Kong, a fim de garantir a passagem discreta de Sun Yat-sen pela colónia britânica o tempo estritamente necessário a fim de que pudesse embarcar rumo ao Japão. Até Hong Kong, o seu percurso estava já assegurado pelos serviços dos juncos piratas, cujos patrões pertenciam, como Sun, à Tríade.

Não se sabe quanto tempo terá o revolucionário permanecido escondido em Macau, mas é certo que os esforços de Francisco Fernandes e seus amigos foram coroados de êxito. Sun Yat-sen conseguiu embarcar discretamente até Hong Kong, e dali para Kobe, no Japão, onde o governo do Sol Nascente lhe dispensaria toda a protecção.

João Guedes

Nota: – Artigo originalmente publicado na Revista da Cultura (ICM), 1992

O “1, 2, 3” em Macau. Um episódio na primeiro pessoa

Quando o senhor Cheong era Pioneiro

 

O senhor Cheong, tem 42 anos de idade. É um pacato funcionário público que frequenta um curso de administração na Universidade de Macau. No entanto, a marca do ” Um, dois três”, ainda o afecta hoje, passados que são 26 anos. Por isso, prestando-se a contar-nos o que viveu nesses dias atribulados de Macau, pede-nos que o identifiquemos apenas pelo apelido. Fotografias? Nem pensar!… É que Cheong, viveu mais intensa e convictamente os acontecimentos de finais de 1966 do que outros, já que era, com apenas 14 anos de idade, um dos jovens guardas vermelhos da escola Hou Kong, quartel-general do maoismo e espelho exemplar da “Grande Revolução Cultural” da China em Macau.

O jovem Cheong, chegou ao Território com a família, em 1962, pouco depois de ter completado a instrução primária em Chongsham, localidade situada a cerca de 40 quilómetros das Portas do Cerco. De imediato ingressou na escola Hou Kong, onde completaria o curso dos liceus. “Nesse tempo, era directora da escola a senhora Tou Lam, mulher do senhor Wong, membro importante do PCC e também um dos dirigentes, na cidade, da luta contra os nacionalistas do Kwomintang”, recorda Cheong, acrescentando ” Registou-se um crescendo na doutrinação política dos alunos ao longo desses quatro anos. Este crescendo, atingiu o auge em 1966, data em que vieram mesmo para Macau, comissários políticos da China para o efeito. Passamos a ter uma hora semanal de doutrinação política que se somava às prelecções sobre a “Grande Revolução Cultural” feitas todos os dias pelos professores das diversas disciplinas. A matemática, a Geografia, ou a Física, tinham sempre, necessariamente alguma coisa a ver com os heróis da revolução, Mao Tsé Tung, Chu En-lai, Chu Té, ou Ye Jienying”.

Cheong, recorda o fervor sentido na altura (que hoje leva à conta da falta de experiência de adolescente): – ” Era como se se tratasse de uma equipa de futebol! Os alunos tinham que bater o adversário e o adversários eram os nacionalistas do Kwomintang liderados por Chiang Kai-shek e os colonialistas portugueses” (tout court, já que desconheciam por inteiro o nome de Salazar). Por isso foi com mágoa (hoje talvez com algum alívio) que, irremediavelmente atrasado, não conseguiu incorporar-se nos grupos de alunos e professores da sua escola, que no dia 3 de Dezembro de 1966 marcharam para o Palácio da Praia Grande, subiram ao primeiro andar do edifício, onde recitaram (junto à porta do gabinete do Governador) palavras de ordem revolucionárias, levantando bem alto nas mãos, o livrinho vermelho de Mao Tsé Tung. Cheong encontrava-se na embocadura da San Ma Lo (avenida Almeida Ribeiro), quando ouviu o boato que inflamou a cidade: “A polícia atacou os professores e alunos, atirando algumas crianças das janelas do primeiro andar!” Claro que nada disto correspondia à verdade (veio a sabê-lo depois), mas na altura o seu desejo foi correr mais depressa ainda para o palácio do governo para se certificar do propalado horror. Como ele milhares de chineses de todos os bairros da a cidade correram também. No entanto, foi impedido de o fazer pela multidão que chegara ante e se concentrava já no Largo do Leal Senado e pelas barreiras policiais que impediam o acesso à rua da Praia Grande.

Cheong misturado entre a multidão viu serem atiradas pedras contra os guardas enfileirados, protegidos por escudos, na Rua Central, enquanto estes respondiam lançando gazes lacrimogéneos que faziam as massas refluir e adensar o largo da edilidade. Sobre as cabeças, a estátua do coronel Mesquita, num brônzeo gesto, segurava a espada que lhe pendia da cintura semi-desembainhada. Dali não vinha perigo, mas era uma figura numa atitude nitidamente, de que se recorda bem.

Cheong, sabia de Mesquita, não através das aulas de história, mas das prelecções dos comissários políticos que o davam como inimigo da China e arquétipo do colonialismo português, juntamente com Ferreira do Amaral, também perpetuado em bronze sobre um alto pedestal em granito, à esquina do Porto Exterior, no largo onde ainda não havia o Hotel Lisboa.

A certa altura, observou a multidão no meio da qual estava mergulhado, desviando as atenções dos cordões de polícia e passando a concentrar-se na tarefa de tentar apear aquele símbolo “odiado”. Os esforços foram vãos durante certo tempo, até que alguns populares subindo ao pedestal, envolveram a estátua em cordas que prenderam a uma camioneta. Esta arrancou com esforço fazendo finalmente com que o metálico vulto se abatesse no solo da praça. A base granítica ficou vazia e as massas soltaram em coro um grito indistinto de vitória. “ O colonialismo é um tigre de papel!”.

Consumado o acto simbólico Cheong, que tinha saído irremediavelmente atrasado, decidiu então regressar a casa. Nada mais havia a ver depois daquilo. Para além dos acontecimentos da tarde do dia 3 de Dezembro, o ex-guarda vermelho não recorda mais do que memórias esparsas e indirectas dos acontecimentos. À noite, ouviu através da “Rádio Vila Verde”, a voz de Ho Yin apelar à população chinesa para que se mantivesse nas suas casas cumprindo o recolher obrigatório instaurado nesse próprio dia pelo governador Nobre de Carvalho.

Nos dias subsequentes soube que 8 pessoas tinham sido mortas nas ruas. Depois, soube também que o governo português tinha pedido desculpas formais pelos acontecimentos e pago uma indemnização às vítimas. Cem, ou duzentas mil patacas? não se recorda bem. mas sabe que tal montante daria para comprar então, pelo menos dez apartamentos na cidade. Nos meses subsequentes, a escola Hou Kong foi perdendo lentamente o ânimo revolucionário. Os comissários políticos regressaram à China e as aulas retomaram a sua forma habitual alienando a formação política.

A duas décadas e meia de distância, Cheong admite que nada o movia, nem contra os nacionalistas do Kwomintang, nem contra os portugueses – os dois inimigos principais, segundo os comissários políticos da escola –  mas sente ao mesmo tempo que, apesar da frustração por não ter estado presente no Palácio da Praia Grande na hora certa, os seus colegas contribuíram para que algo mudasse em Macau. No entanto, talvez nem tudo na boa direcção É que muita gente de dinheiro fugiu definitivamente para a Formosa, deixando apenas o marasmo económico e o governo ficou inadmissivelmente enfraquecido por muitos anos. Os Kaifong (associações de Moradores) chegaram a fazer serviço de polícia já que esta se encontrava moralmente debilitada. Mas, o que é certo, é que os mesmos (ou quase) que tinham liderado os tumultos de 1966, continuaram a manter as suas posições em Macau. Doze anos mais tarde, estariam também na primeira linha dos que denunciavam os excessos da revolução cultural, acompanhando a ascensão de Deng Xiaoping ao poder em 1978″.

Para Cheong, os acontecimentos de finais de 1966 resumiram-se de facto e apenas, ao produto dos efeitos provocados pelas obras de ampliação de uma pequena escola da Taipa. Os chineses, sublinha, tradicionalmente arreigados à supremacia do bem público sobre eventuais códigos, “não compreenderam os impedimentos legais de origem Ocidental que se opunham à obra, por isso foram para a guerra. Hoje numa altura em que a China caminha para o primado da lei, parece-me mais do que nunca importante reflectir sobre o Um, Dois Três”.

Foi assim que o ex-guarda vermelho adolescente, da escola Hou Kong, terminou o seu relato, olhando para o relógio. Estava atrasado para picar o ponto. Cheong consciente dos seus deveres de funcionário público tinha a consciência de que não se podia atrasar. Afinal os seus instintos contestatários já lá iam havia 28 anos!

Nota: – Artigo originalmente publicado na Revista Macau Série II, 1994

O “1, 2, 3” em Macau. Um episódio na primeira pessoa.

Um polícia nos pormenores da história

O subchefe, João Vieira da Silva, mostra (vinte seis anos depois) visivelmente patentes ainda, as profundas cicatrizes na perna direita contraídas durante o dia mais dramático que passou na sua vida. João Silva, actualmente a poucos meses da reforma, recorda claramente, ” como se fosse hoje”, os acontecimentos vertiginosos que lhe provocaram aquela cicatriz irreparável no fim do ano de 1966. Uma sequela que não entraria na sua folha de serviços, nem sequer lhe daria direito a alguns dias de baixa, por culpa (acusa) de um chefe que se esqueceu de fazer o relatório a tempo. Depois bom, depois já era tarde. João Vieira da Silva, veio para Macau em 1962, enquadrado num esquadrão de cavalaria. No mesmo barco vinha com ele alguém famoso: o capitão Ramalho Eanes que seria muitos anos mais tarde presidente da República. João Silva, no entanto nunca entraria na história. Esse facto, não o inibiu porém de conhecer por dentro alguns episódios dos tempos mais difíceis porque Macau passou nas últimas décadas. Após cerca de três anos e meio de serviço militar no Quartel de S. Francisco, passaria à disponibilidade para se alistar quase de imediato na PSP. A esquadra número 2, (ao Canídromo), quase no termo Norte da avenida Almirante Lacerda, foi-lhe destinada como posto.

Entretanto, os ânimos, em Macau, aqueciam e cerca de seis meses depois a vida rotineira do novo guarda do município iria conhecer momentos de angústia.

Cerca das duas horas da tarde do dia 3 de Dezembro de 1966, João Vieira foi destacado com um pelotão de 30 homens da sua esquadra para reforçar o policiamento do Largo do Leal Senado, no momento em que milhares de manifestantes se encontravam nas ruas e a violência campeava já em Macau.

” Saímos numa camioneta antiga de carga aberta com destino ao local armados apenas de bastões e escudos em verga. os escudos de vinil eram propriedade exclusiva da polícia de intervenção (lembra João Vieira).” Chegados ao local, percebemos que havia uma total descoordenação de esforços. Do lado oposto ao Largo do Leal Senado um pelotão da polícia carregava sobre a turba obrigando-a a confluir para a praça do Município e, consequentemente, directamente contra nós. O motorista parou o camião e logo ficamos cercados por uma enorme multidão que tentou voltar o veículo. O ataque fez com que o abandonássemos sem ordem, procurando apenas escaparmo-nos”. Recorde-se que o pelotão de João Silva era formado quase integralmente por elementos da banda da PSP que nunca antes tinham feito patrulhas sequer. Os restantes elementos pertenciam às oficinas e à secretaria da esquadra

De imediato o subchefe e um dos guardas foram submersos e violentamente agredidos, escapando com vida por um triz. Cerca de uma dúzia de guardas, entre os quais João Silva conseguiram todavia romper por entre a multidão atingindo o edifício do Senado, sob uma saraivada de murros, pontapés e projécteis de todo o género que cruzavam os ares.” Os escudos eram em verga e estavam ruídos pela formiga branca, por isso cada tijolo que nos atingia destruía estas protecções que se esboroavam, para além disso não levávamos armas de fogo”, recorda. Quanto aos bastões não se revelavam de qualquer utilidade nas circunstâncias. No interior do Leal Senado foi uma retirada organizada. Os amotinados atacavam o grupo de polícias que retirava de sala em sala, tão ordenadamente quanto podiam. João Silva e os companheiros respondiam aos tijolos da multidão atirando contra ela, máquinas de escrever, cadeiras e pisa-papéis, enfim, tudo quanto iam encontrando à mão.

Subitamente, o nosso homem viu-se separado dos companheiros acabando por subir umas escadas cujo destino desconhecia e que o levaram ao terraço. Um beco sem saída? Os perseguidores assomavam também segundos depois à boca do local. ” Nessa altura eu era novo e estava em perfeita forma física, tinha saído da tropa pouco tempo antes, por isso não me assustava um salto de mais de 10 metros para as traseiras do Leal Senado… Saltei! O meu azar foi que em baixo o enorme portão de ferro se encontrava semi-aberto. Não o pude evitar no salto. Senti de repente a minha perna quebrar-se e enrolei-me no chão. Senti uma dor, mas mesmo assim, levantei-me rapidamente e corri a pé-coxinho, subindo pela Calçada do Tronco Velho” (íngreme via que ascende a quase 45 graus até ao Convento de Santo Agostinho). Mesmo assim, só numa perna fui mais rápido do que eles com duas. Cheguei ao largo de Santo Agostinho mantendo uma certa distância, mas subitamente perdi as forças e a consciência. Caí nas pedras da calçada desfalecido. Acordei algum tempo depois já ao abrigo da esquadra policial da Calçada do Gambôa que ficava junto ao Largo. Quem me levou foi o porteiro da escola da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses que ficava à esquina. Reparei então que tinha uma fractura exposta na perna direita. A situação nas ruas era de tal maneira má, que só às dez horas da noite desse dia, me conseguiram transferir para o hospital e, mesmo assim, no interior de um carro blindado”.

No dia seguinte, pela manhã, já de perna engessada João Silva pediu ao médico que lhe desse alta a fim de regressar à esquadra. O voluntarismo do guarda ferido, ou a necessidade de libertar uma cama, tão necessária perante a quantidade de vítimas que continuavam a acorrer ao hospital do governo, levaram o clínico a aceder ao pedido. Poucas horas depois João Silva encontrava-se já no telhado da sua esquadra, com o dedo no gatilho de uma metralhadora pesada “Bren”. É que se suspeitava que a esquadra fosse um dos próximos alvos dos amotinados. Junto a ele encontravam-se alguns elementos do corpo de voluntários de Macau, também eles de armas aperradas, prontos para o que desse e viesse. Os manifestantes, transportando os mortos do dia anterior, de punhos erguidos e gritando palavras de ordem passaram de facto em filas compactas em frente à esquadra número 2, sob as miras das metralhadoras, mas para alívio de todos não se registou qualquer movimento hostil. O pior do “Um, Dois, Três” tinha passado definitivamente para o guarda João Vieira da Silva.

Nota: – Artigo originalmente publicado na Revista Macau, Séria II, 1993