A retirada oficiosa de um governador corajoso (III) 29 – 03 -11

Retomo aqui a última parte de uma série de três artigos sobre a passagem de Carlos da Maia por Macau como Governador. Um assunto que me foi suscitado pelo facto de ter descoberto, um tanto inopinadamente, uma carta do Secretário-geral do Governo (Ferreira da Rocha) dirigida a Afonso Costa (eterno líder da 1ª Republica) em que se queixava amargamente do seu superior hierárquico.

Afonso Costa entre os líderes republicanos

É uma carta mais pessoal do que política, na qual Ferreira da Rocha se justifica até à exaustão. Revela bem o que era então a política em Macau e, afinal o que continuaria a ser nos anos e décadas seguintes, ou seja: – uma impossibilidade de destrinçar claramente entre ideologia, sentido de estado e rivalidades pessoais patentes que se sobrepunham, muitas vezes a quaisquer outras considerações  numa pequena cidade em que todos se conheciam e em que os defeitos, mais do que as virtudes eram facilmente exaltados e ampliados do que a defesa serena dos interesses colectivos.

Aliás a carta de Ferreira da Rocha termina elucidativamente assinando: – “Ferreira da Rocha, Secretário-Geral fazendo as vezes de Sua Ex.ª. O Governador na sua ausência” (!…).

Retomemos então: –

Foi assim que com a inopinada partida de Carlos da Maia, as rédeas da administração ficaram nas mãos do seu inimigo pessoal (mais do que político) que era Ferreira da Rocha, ainda que não na qualidade de governador interino.

De facto o despacho de Carlos da Maia deixava expresso que Ferreira da Rocha apenas administraria assuntos correntes e cumpriria à risca as instruções políticas que lhe continuaria a enviar de Portugal e que lhe seriam comunicadas pelo seu ajudante de campo (que permaneceu em Macau), governando Ferreira da Rocha em seu nome. Apenas e nada mais do que isso.

As relações de Carlos da Maia com, Ferreira da Rocha, que pessoalmente já não existiam, desde, praticamente, o início do seu mandato, tinham-se deteriorado totalmente e igualmente do ponto de vista institucional.

Sobre esse facto será ilustrativo citar o próprio Ferreira da Rocha em carta pessoal dirigida a Afonso Costa que o ilustra bem.

Diz Ferreira da Rocha:

…Depois S. Ex.ª. Mostrou-me categoricamente os termos em que queria assinadas as portarias provinciais na sua ausência e deu-me uma minuta de portaria para a entrega do governo.

… Começara eu a ler a portaria, quando S. Ex.ª me disse mais que eu não me serviria da carruagem do governo pois tinha eu verba de representação e com ela poderia alugar carros.

Seguidamente mandou que eu dissesse se aceitava o Governo porque precisava de saber a tempo o que tinha de fazer.

Hesitei um instante sem saber o que responder; não tinha eu que dizer se aceitava ou não uma função que como consequência da lei era inerente ao meu cargo.

Noutro passo escreve, Ferreira da Rocha:

Depois disse-me S. Ex.ª  o Governador que não queria que eu me servisse do Palácio do Governo (Palácio da Praia Grande). Respondi-lhe logo que não tencionava ir residir para o palácio e que continuaria a viver na casa alugada onde moro. S. Ex.ª  disse então que não se referia só à residência, mas também a qualquer uso do Palácio do Governo, que este ficaria fechado e que despachasse eu na Secretaria-geral, que reunisse os conselhos onde quisesse: que pedisse mesmo para esse fim, se tal precisasse, uma sala à Câmara Municipal.

Mostrei a S. Ex.ª: que a Secretaria Geral instalada juntamente com a Repartição do Expediente Sínico, a Procuradoria Administrativa dos Negócios Sínicos, a Administração do Concelho, O Comissariado da Polícia e os calaboiços dos presos, numa antiga casa particular comprada pelo Estado, não dispunha de mais um gabinete sequer onde eu pudesse receber chefes de repartições a despacho (actuais directores de serviços).

Mais adiante continua:

Eu não devia enquanto substituísse S. Ex.ª dispensar um gabinete próprio adequado, onde recebesse chefes de serviços, ou pessoas de categoria, que, em dias de recepção oficial, como o aniversário da República, não podia receber os funcionários senão no Palácio do Governo; que se tivesse de dar um jantar oficial não poderia faze-lo na minha modesta residência; que não tinha onde reunir os conselhos do Governo de Instrução Pública, Obras Públicas, Obras do Porto, etc. que à testa do Governo não pediria à Câmara Municipal casas emprestadas para esse fim, estando convencido que nem mesmo S. Ex.ª  faria tal pedido e pedi finalmente a S. Ex.ª  que fechasse o primeiro andar do Palácio onde instalara a sua residência mas que deixasse abertas as salas exteriores do rés do chão, isto é o gabinete de despacho e a sala de reuniões dos Conselhos(estas salas seriam mais tarde continuadamente ocupadas pelo (Conselho Legislativo, anterior ao 25 de Abril de 1974 e mais tarde pela Assembleia Legislativa).

… S. Ex.ª manteve-se por fim intransigente afirmando que à sombra de excepções que fizesse, os seus inimigos o iriam desprestigiar na sua própria casa enquanto ele ainda fosse Governador.

Insisti em que não iria residir para o Palácio do Governo, embora o pudesse fazer. S. Ex.ª  exclamou que não devia eu dizer tal coisa, porque não ia nem havia de ir para o Palácio.

Palácio da Praia Grande.  Sede do Governo e residência dos governadores até à década de 1950. Actualmente continua a ser a sede (ainda que apenas formal para as grandes recepções do governo da Região Administrativa Especial de Macau) .

Claro que a intransigência de Carlos da Maia não teve efeitos práticos, embora a situação de indefinição quanto à manutenção no cargo do Governador, se prolongasse pelos sete meses seguintes até Maio de 1917, data em que um despacho do novo governo de Afonso Costa, o exonerava do cargo.

Mas o caso acabaria por se prolongar afinal ainda mais.

É que a exoneração seria logo a seguir anulada, e o governo de Macau, mais uma vez entregue a um interino, Vieira de Matos, que substituía um Conselho de Governo, que antes, por seu turno, tinha substituído, Ferreira da Rocha.

Assim e para todos os efeitos, Carlos da Maia continuou durante mais de um ano a ser nominalmente, Governador de Macau, até finalmente a sua demissão ser plenamente aceite e nomeado Governador, Artur Tamagnini Barbosa, em 1918 (esta situação faz lembrar o longo e atribulado período de substituição do Governador Carlos Montez Melancia (1987-91) durante o qual Macau foi governado igualmente interinamente pelo Secretário-Adjunto Murteira Nabo sem se saber quem seria o próximo governador. Se o interino, ou se alguma nova personalidade que Lisboa decidisse nomear.

Em todo este “imbroglio” de salientar o facto de Carlos da Maia apesar da sua condição militar, ter optado sempre, em Macau, por se apoiar não nos seus camaradas da marinha, mas nos da guarnição de terra.

Alguns casos exemplares eram não só os rumores sobre a intenção de pretender entregar o governo da Colónia a um oficial do exército, mas também o de ter conferido o comando da guarnição da Ilha da Lapa a outro oficial do mesmo ramo, embora este comando estivesse sedeado num navio surto no Porto Interior, o que motivou novas queixas da Armada.

Outra questão relevante para a qual não encontro resposta cabal é o facto de em Macau a maioria dos inimigos políticos de Carlos da Maia (maçom e carbonário), o serem igualmente também.

Uma possível explicação para este facto aparentemente anómalo poderá prender-se com a ocorrência de uma cisão na Maçonaria Portuguesa, referida pelo historiador A. H. Oliveira Marques segundo a qual ocorreu nessa altura (1914) uma dissidência na principal obediência maçónica portuguesa, o “Grande Oriente Lusitano”, tendo sido Carlos da Maia um dos que a encabeçou.

Não esquecer que a Maçonaria e o seu braço armado que era a “Carbonária” serem unanimemente considerados pelos historiadores, como as organizações que estiveram na base da proclamação da República e os verdadeiros centros de poder acima dos partidos, durante todo o período da 1ª República.

Concluo referindo que apesar de todas as dissenções, jogos políticos amizades e inimizades pessoais, certo é que as grandes linhas políticas implementadas por Carlos da Maia, em Macau, não foram interrompidas com o seu mal esclarecido final de mandato, mas prosseguidas pelos seus sucessores, com maior, ou menor sucesso.

Ate mesmo a alteração do “Estatuto Orgânico do Território” foi levada a bom termo se exceptuarmos o tocante ao artigo que previa a extinção da Câmara Municipal (Leal Senado), que tacitamente seria deixado cair.

Depois de abandonar Macau Carlos da Maia, aderiu ao movimento nacionalista que antecedeu o 28 de Maio de 1926, liderado por Sidónio Pais, antes de se retirar da vida pública amargurado com a política e com os políticos.

A “Camioneta Fantasma”

…A camioneta continuou a sua marcha sangrenta, agora em busca de Carlos da Maia, o herói republicano do 5 de Outubro e ministro de Sidónio Pais. Carlos da Maia inicialmente não percebeu as intenções do grupo de marinheiros armados. Tinha de ir ao Arsenal por ordem da Junta Revolucionária. Na discussão que se seguiu só conseguiu o tempo necessário para se vestir. Então, o cabo Abel Olímpio, o Dente de Ouro, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para a camioneta que se dirigiu ao Arsenal. Carlos da Maia apeou-se. Um gesto instintivo de defesa valeu-lhe uma coronhada brutal. Atordoado pelo golpe, vacilou, e um tiro na nuca acabou com a sua vida.

A camioneta, com o Dente de Ouro por chefe, prosseguiu na sua missão macabra. Era seguida por uma moto com sidecar, com repórteres do jornal Imprensa da Manhã. Bem informados como sempre, foram os próprios repórteres que denunciaram: «Rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender Machado Santos venham por aqui…». Acometido pela soldadesca, Machado Santos procurou impor a sua autoridade: «Esqueceis que sou vosso superior, que sou Almirante!». Dente de Ouro foi seco: «Acabemos com isto. Vamos». Machado Santos sentou-se junto do motorista, com Abel Olímpio, o Dente de Ouro, a seu lado. Na Avenida Almirante Reis, a camioneta imobiliza-se devido a avaria no motor. Dente de Ouro e os camaradas não perdem tempo. Abatem ali mesmo Machado Santos, o herói da Rotunda.

Morreria, assim, com ficou descrito,  assassinado na noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, juntamente com Machado Santos, que com ele fundara a República, num episódio ainda hoje mal esclarecido, conhecido pelo incidente da “Camioneta Fantasma”. Um momento tão dramático, como pungente, que ficaria para a história de Portugal perpetuado de modo semelhante ao que para os Estados Unidos da América ficou o assassinato do presidente John F. Kenedy (Dallas, 2 de Novembro de 1963), dando lugar desde então a todo o tipo de especulações e boa pena a sucessivas gerações de cultores da “teoria da conspiração”.

Berta Maia
Páginas para a história da morte
vil de Carlos da Maia, republicano
-combatente de 5 de Outubro-
2ª Edição Aumentada
Lisboa
1929

Que “jagunço” de alguém seria o transmontano Abel Olímpio o  “Dente de Ouro”?  Quem seria ele próprio? ainda hoje está por se saber ao certo!… Apesar das entrevistas de Berta Maia

Advertisements

Carlos da Maia

José Carlos da Maia

Oficial da Armada, nascido em Olhão, em 16-3-1878, e assassinado em Lisboa, na noite de 19-10-1921.

Era filho de um oficial de marinha pelo que cedo (segundo alguns testemunhos orais, com apenas 14 meses) acompanhou os pais para Lisboa.

Aos doze anos, as notícias do Ultimato Inglês despertaram-no para os ideias republicanos.

Alistou-se aos 19 anos como aspirante na Armada (em 2-12-1897) e em 1900 foi promovido a Guarda-Marinha, sendo colocado na Divisão Naval do Atlântico Sul (navega entre Angola, Cabo Verde e S. Tomé).

É promovido a 2º Tenente em 1903, sendo colocado na Divisão Naval de Macau até regressar ao Reino em 1905.

Seguidamente segue para Angola, regressa a Lisboa e é, em Fevereiro de 1907, instrutor da Escola Prática de Artilharia Naval (D. Fernando II), tira a especialização de  «Oficial Torpedeiro», volta a Macau e novamente regressa a Lisboa em Agosto de 1909.

Desde muito novo participa em todas as conspirações contra o regime monárquico com Machado Santos e Almirante Reis, entre outros.

Foi encarregue com grande sucesso pelo Almirante Reis de atrair para a causa revolucionária muitos oficiais de forma a que fosse possível o bom sucesso da implantação da República e na madrugada de 4-10-1910 toma parte activa na revolta republicana.

Acompanhado pelos civis que o aguardavam no Grémio Republicano de Alcântara, intima o 1º Comandante do Corpo do Quartel de Marinheiros, Almirante Pereira Viana, a render-se. Este resistiu, fazendo fogo com o seu revólver, de que resultou ficarem feridos três assaltantes. Também ele (Almirante Pereira Viana) acabou por cair ferido.

Tomado o Quartel de Marinheiros, José Carlos da Maia embarca, às 10h da noite, num vapor apreendido pelo S. Rafael, e assalta o navio D. Carlos. Os oficiais deste navio resistiram, comandados pelo Capitão de Mar-e-Guerra Álvaro Ferreira, tendo ficado feridos quatro oficiais. No final, José Carlos da Maia apoderou-se do navio e entrega o comando ao 2º Tenente Silva Araújo.

Após as operações militares, Carlos da Maia corre a abraçar sua mãe a quem diz: – minha mãe, pode beijar-me que não matei ninguém! (Marreiros, Glória Maria – Quem foi quem?: 200 Algarvios do Sec. XX – 1ªed. Lisboa: Colibri, 2000, p.301) .

Proclamada a República, José Carlos da Maia foi promovido a Capitão-Tenente, por distinção, e é eleito deputado às Constituintes de 1911.

Isso não o impede de em 1912 marchar ao lado do povo para Belém em protesto de medidas repressivas do governo.

De 1914 a 1916 foi Governador de Macau deixando uma imagem de extrema competência, patriotismo e seriedade (no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, logo à entrada existe um memorial dos seus antigos camaradas de armas, em sua memória como Governador de Macau). Seria difícil ser um bom Governador naquele momento em que decorria a I Guerra Mundial mas o rigor e a dinâmica da sua governação deixaram-lhe a fama de ter sido o melhor governador de Macau de sempre. Construiu três escolas e uma leprosaria, organizou um corpo de voluntários, a corporação de bombeiros, melhorou as comunicações rádio-telefónicas e rodoviárias entre as ilhas e ainda teve tempo para ajudar os republicanos chineses. Quando saiu recebeu uma mensagem gravada em púrpura e decorada a prata de agradecimento dos mais altas individualidades de Macau. Curiosamente esta relíquia foi roubada à família, mal esta regressou a Lisboa, por volta de 1917, e só na década de 1970, foi recuperada pelo seu filho – Francisco Manuel Carlos da Maia – num antiquário.

Carlos da Maia

 
Carlos da Maia em família, poucos meses antes de ser assassinado.

 

 
“Ao grande português, oficial da Armada e ex-governador de Macau, José Carlos da Maia, respeitosa homenagem do Corpo de Voluntários de Macau ao seu fundador e dedicado amigo”

Em 9 de Março de 1918 foi nomeado ministro da marinha, durante a breve ditadura de Sidónio Pais. Nessa época já Carlos da Maia se encontrava amargurado pela corrupção do regime republicano, pelo qual ele fora um dos que mais lutaram. Acreditou em Sidónio Pais mas este aproximou-se demasiado de monárquicos conspiradores, o que levou Carlos da Maia a pedir a sua demissão ao fim de apenas três meses e meio.

No entanto, nesse curto período ordena a criação dum Sanatório para sargentos e marinheiros, a Escola de Recrutas da Armada no Alfeite (a actual Escola Naval), a Junta Autónoma do Novo Arsenal da Margem Sul do Tejo, preconizando ainda a construção de bairros operários para o pessoal fabril do Arsenal, a construção de escolas, cantinas, cozinhas económicas e balneários, etc.

Posteriormente ocupou o cargo de Capitão de Porto de Portimão e, finalmente, em 1919, voltou ainda a ser nomeado Ministro das Colónias por José Relvas, novamente por apenas três meses. Neste curto período é curioso um episódio que revela a tolerância e seriedade de Carlos da Maia: após ter sido debelado um golpe monárquico, existe uma tentativa de afastamento de muitos monárquicos de lugares públicos. No entanto, Carlos da Maia recusa afastar um dos seus colaboradores apenas por ele ser monárquico.

Carlos da Maia nunca mais exerceu cargos políticos e parece mesmo ter-se desinteressado por esta actividade, no entanto, a memória da sua figura era ainda suficientemente importante para que, na trágica revolução de 19 de Outubro de 1921 tivesse sido assassinado pela tristemente conhecida camioneta-fantasma.

Nesse dia, um grupo de civis libertou José Júlio da Costa, o assassino de Sidónio Pais (morto três anos antes) e, noite cerrada, alguns deles, juntamente com marinheiros de baixa patente liderados por Abel Olímpio (alcunhado o “Dente de Ouro”), acotovelados numa camioneta, percorreram as ruas de Lisboa, arrancando às suas famílias o Almirante Machado Santos, o Capitão de Fragata Carlos da Maia, Carlos César Freitas da Silva e o Coronel Botelho de Vasconcelos.

As lágrimas da mulher de Carlos da Maia, Berta Maria, e a imagem do seu filho de 6 meses, quase comoveram os marinheiros, mas Abel Olímpio gritou que por culpa dele tinha sido desterrado para África e por isso sua mãe tinha morrido de desgosto. Isto, que mais tarde se provou ser mentira, convenceu os marinheiros a trazerem Carlos da Maia na sua camioneta-fantasma.

Diziam que os iam levar presos ao Arsenal da Marinha.

A verdade é que todos foram assassinados sem hipótese de defesa, ou à entrada do Arsenal, ou ainda antes.

Após prolongadas investigações, os autores destes crimes foram duramente punidos em julgamento iniciado em 23-11-1922, tendo-se chegado à conclusão que foi apenas um desvario de um grupo tresloucado e alcoolizado que, a coberto da revolução, cometeu os assassinatos.

José Carlos da Maia, pela sua vida idealista, a sua honestidade e humanidade permanente e, talvez também, pela sua morte trágica, foi alcunhado por alguns como o marinheiro romântico.

Fonte:

  Aguiar, João – The life and death of a sailor – Macau: Macau Magazine, 1992, II Série, p.77-85, http://www.loriente.com/rmi92h.html
  Dezanove de Outubro in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira – Lisboa: Editorial Enciclopédica,  Vol. VIII, p. 869
  Marreiros, Glória Maria – Quem foi quem?: 200 Algarvios do Sec. XX – 1ªed. Lisboa: Colibri, 2000.
  Maia (José Carlos da)  in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira – Lisboa: Editorial Enciclopédica, Vol. XV, p. 951
  Neves, Rui Manuel Ramalho Ortigão  – José Carlos da Maia – Revista da Armada, Setembro/Outubro de 2000, nº 335.

 

 

D. Sinibaldo de Mas y Sanz

Sinibaldo de Mas (1809-1868); escritor y viajero español.

Sinibaldo de Mas y Sanz nació en Barcelona. Fue sinólogo, pintor, calígrafo, escritor, embajador, aventurero e intelectual iberista español. Estudió idiomas, de los que llegó a conocer unos veinte. Tradujo la Eneida de Virgilio en hexámetros castellanos. Inventó un idioma universal. Protegido por Remisa, colaboró en El Vapor hasta mediados de 1834. Fue designado como primer embajador español en China (1847). Escribió numerosas obras como: Veinticuatro poemas líricos (Barcelona, 1831), Sistema musical de la lengua castellana (Barcelona, 1832), La Iberia. Memoria sobre la conveniencia de la unión pacífica y legal de Portugal y España. (Lisboa, 1851), Pot-pourri literario, Manila, Impr. Manuel Sánchez (1845), L’Angleterre, la Chine et l’Inde, (París, 1857), Cartilla, (París, 1858), Arte de escribir en letra española (1860) y Arte de escribir letra inglesa (1860). Murió en Madrid (1868).

Operação Emily: A tentativa frustrada inglesa de vender Macau. 22-Março-11

Uma série de números e um código: – “9735”. Esta foi a mensagem secreta do “Inteligente Service” inglês que em linguagem clara, depois de descodificada pelos oficiais da cifra, queria dizer em telegrama: – “Apesar. Todos esforços. Governo português. Diz não. D. Sinibaldo morreu Madride 1868. Operação venda Macau inviabilizada. Assinado; Duncan Campbel”.

No quadro de desmoralização moral política e económica que se vivia em Portugal na segunda metade do século XIX, desde finais da guerra civil (1834), vender o império ultramarino em parcelas parecia (a alguns) a única forma de resolver a crise financeira em que o país estava mergulhado. E o que se dizia à boca pequena nos corredores da intriga de Lisboa acabaria por ser assumido publica e notoriamente pelo deputado José Bento Ferreira de Almeida que num discurso no Parlamento, em 21 de Janeiro 1892 propôs, sem medo de perder votos, ou ficar de mal com a opinião pública, colocar em leilão as colónias para fazer face ao défice orçamental do Estado que ascendia a 10 mil contos. Excluía da eventual venda apenas Angola, Goa e S. Tomé e Príncipe (não sei por que não Cabo Verde,!…). “A ideia gerou uma violenta repulsa” como seria natural antever.

Apesar do atrevimento político que actualmente produziria, sem dúvida, aberturas sucessivas de telejornais, primeiras páginas da imprensa  e os mais variados comentários da “blogosfera”, mais a queda do Governo, os ecos do discurso, não foram muito além dos corredores de S. Bento, ainda que tenham tido repercussão nos “media” da época.

O discurso de Ferreira de Almeida foi seguido, em concordância, por alguns dos mais influentes políticos e intelectuais de Portugal, nomeadamente o influente ministro Conde de Casal Ribeiro que o secundava dizendo no Parlamento: – “nós havemos de viver ou deixar de viver segundo o juízo que tivermos cá dentro e não pela nossa grandeza colonial”. Oliveira Martins juntava-se ao coro afirmando que “as possessões ultramarinas seriam a causa da ruína nacional”. Cumulativamente em “As Farpas” Ramalho Ortigão colocava a questão: – “Para que temos colónias?”. Finalmente não se pode deixar de citar Eça de Queiroz que redundantemente dizia mais, ou menos o mesmo: – “Para evitar esse dia de humilhação, sejamos vilmente agiotas, como compete a uma nação do século XIX e vendamos as colónias”.

A inteligência portuguesa parecia nesse momento histórico afinar pelo mesmo diapasão.

Mas a verdade é que Ferreira de Almeida ia, tal com os outros todos, já bem contra corrente.

Uma opinião pública maioritária que pugnava resolutamente pela defesa “à outrance” do império ultramarino português, contra as ambições das potências europeias que entre si dividiam o mundo a tira-linhas sobre mapas convenientes que não correspondiam minimamente a territórios verdadeiros, gentes e culturas, mas apenas às ambições imperialistas e comerciais de quem sabia, ou pensava, que tinha o Mundo na mão tomava a supremacia.

Por outro lado a opinião pública portuguesa dispersa pelo Mundo e de séculos inter-étnica manifestava também supremacia sobre os hodiernos mapas que representavam na prática a divisão de povos, de culturas e até de famílias sem cuidar de mais nada. O sentimento popular sobrepunha-se ao positivismo global que tinha em pouca conta esses pormenores da “política agiota” e contabilística concentrada em Lisboa.

Pouco ouvida em Portugal, a voz do deputado Ferreira de Almeida(e dos outros), ainda que clara e indignadamente bem percebida nas colónias, não deixou também de ser notada e transmitida pelos embaixadores estrangeiros acreditados na capital portuguesa aos seus governos, em relatórios que acrescentavam exagerados pontos de intriga ao que eram apenas posições minoritárias entre correntes de vanguarda do pensamento nacional (dir-se-iam os “WikiLeaks” dos dias de hoje) .

Quem terá prestado mais atenção ao discurso do mais, ou menos obscuro deputado, terá sido o britânico “Foreign Office” que dele terá dado conhecimento a Sir Robert Hart, Inspector-geral das alfândegas marítimas da China. Este irlandês nascido em 1835, tinha a seu cargo todo o sistema alfandegário do “Celeste Império” decorrente dos acordos (designados, posteriormente, por Pequim, como “Tratados Desiguais” resultantes das guerras do ópio que a China tinha perdido e fora obrigada, por isso, a abrir ao comércio internacional vários Portos das suas costas para além de ceder inúmeras vertentes da sua soberania nacional e irracionais indemnizações compensatórias sobre prejuízos de guerras que para além de não ter desencadeado tinha perdido.

Independentemente de justezas morais, ou de direito internacional, certo é que todos esses Portos se passaram a pautar por um regime uniforme (Xangai, Amoy, Shiamen, etc.). Desse conjunto apenas se exceptuava Macau, colónia portuguesa e porto igualmente livre que se encontrava fora da alçada do imperialismo britânico.

Perante esse panorama de aparente anomalia (ponto de vista inglês!…) era não só necessário como urgente normalizar a situação, ou seja regularizar as pautas alfandegárias pelos princípios da “common Law” extrovertidos no clausulado dos tratados e foi o que Robert Hart pôs em execução.

Num primeiro passo rodeou Macau de uma série de postos alfandegários, sedeados na ilha da Lapa que se destinavam a inviabilizar, na prática, a franquia do porto de Macau, ou seja qualquer navio comercial que aqui aportasse, não pagaria taxas nem impostos desde que as suas mercadorias se destinassem a Macau como porto final de destino. Se fossem mais além os funcionários ingleses ali estavam a dois passos para travar o passo ao comércio livre por que tanto pugnavam: – Contrabando patente! clamava Robert Hart, nos jornais da China e no conservador “The Times”!… Na verdade do que se tratava era de um verdadeiro embargo.

No entanto, o cerco não se revelava suficiente nem eficaz, pelo que Robert Hart teve que congeminar melhor forma de acautelar os interesses de Sua Majestade Britânica (que não da China, naturalmente (!…). Para isso e fundando-se na história (sempre a história!…) não encontrou melhor fórmula para resolver a questão senão a de congeminar um plano de integrar Macau no âmbito dos “Portos do Tratado” negociados entre as potências ocidentais – Grã-Bretanha, Alemanha e França, entre outras, mas de que Portugal tinha sido excluído).

Para o efeito lançou uma operação secreta que visava, não a reocupação de Macau por Pequim, mas antes a venda da colónia portuguesa à China. Assim poupava novas guerras evidentemente desnecessárias, não onerava o orçamento da marinha britânica do Extremo Oriente, nem tinha que obrigar o Ministério da Guerra de Sua majestade a perder tempo a fazer orçamentos extraordinários para obliterar à foca das canhoneiras, como tinha tantas vezes feito antes, um território que não chegava a ter 16 quilómetros quadrados de geografia nem forças armadas capazes de sustentar uma guerra verdadeira.

Para isso engendrou um cálculo financeiro baseado no antigo pagamento anual que Macau rendia à capital do “Império do Meio”chamado “foro do chão”. Um contracto de arrendamento que o governador Ferreira do Amaral (1846-49) tinha deixado de satisfazer, ainda que pagando com a vida o unilateral termo de tal entendimento que vinha de séculos anteriores.

Feitas as contas, Portugal deveria em rendas atrasadas cerca de um milhão e trezentos mil taéis (cerca de 314 mil patacas) que tendo em conta a inflação, nos dias de hoje, seriam bem mais de três mil e quatrocentos milhões de patacas. A “bolada” seria repartida em proporções definidas entre o Ministério dos Negócios estrangeiros da China (Zongliyamen), as alfândegas (inglesas) de Sir Robert Hart (não se sabe ao certo em que partes) e Portugal. O mediador de todo o projecto seria, nem mais nem menos, do que o bem conhecido D. Sinibaldo de Mas (de que falei em artigos anteriores), um dos fundadores da ideia do Iberismo, que , Robert Hart tinha escolhido como pivot essencial para toda a operação, pelas suas excepcionais ligações às cúpulas políticas portuguesas.

A proposta idealizada por Hart, foi feita ao veterano funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha por James Duncan Campbel, líder de uma missão secreta a Madrid (enviada por Hart em nome do Zongliyamen) destinada a convencer D. Sinibaldo das boas razões de Inglaterra (ainda que sob o interposto nome e oficial mandato da China). D. Sinibaldo de Mas, já velho e retirado da política aceitou a proposta. Sir Robert Hart exultou com a boa vontade do prestigiado diplomata reformado que gozava confortável velhice em Madrid a escrever memórias e tratatos de teoria política.

Nesse momento porém os “desígnios de Deus” mudaram-se de um momento para o outro.

Em Portugal a opinião pública juntava-se aos que recusavam a venda do império português em nome dos ideais e contra o lucro agiota, como diria o poeta Guerra Junqueiro. O iberismo tinha passado, de um momento para o outro das mãos dos conservadores e absolutistas de D. Miguel para as “Conferências do Casino”, liberais, democratas e anarquistas da geração de 70 que declaravam que de Portugal nenhuma parcela se encontrava à venda.

Apesar disso. Sir Robert Hart e o “Forheign Ofice” ainda acreditavam que a operação poderia ter sucesso.

D. Sinibaldo de Mas tinha na mão (pensavam os ingleses), o “think tank” das elites portuguesas. Erro maior. Não tinha! A política portuguesa que parecia estar sensível à venda já não estava.

Mas como as comunicações nesses tempos tardavam dias e às vezes meses, mesmo em curtas distâncias, o “Foreign Office” também tardou a saber que D. Sinibaldo de Mas se tinha finado (idoso) em sua casa espanhola antes de ter podido empreender qualquer diligência.

Se D. Sinibaldo de Mas não tivesse falecido nessa altura talvez a “Operação Emily” redundasse num rotundo e universal sucesso que poderia ter desembocado numa curva maior da história universal. Por ele tinha (aparentemente, ou talvez mesmo efectivamente) em Portugal não só a Igreja Católica como a classe política (inter-partidária) e a Maçonaria, ou seja todos os mais importantes decisores do Portugal de então.

Mas a verdade é que o desaparecimento de um “pivot” essencial do curso dos tempos (D. Sinibaldo) mudou o rumo dos ventos do futuro.

Sir Robert Hart recebeu de Duncan Campbel, pelo telégrafo, em cifra, o número de código fatal: – “9735”. Os quatro números de código que significavam que a “Operação Emily” não tinha tido sucesso. Portugal não considerava à venda nenhuma das suas colónias.

Os serviços de inteligência ingleses sofreram então um dos mais rotundos fracassos e Macau continuou até hoje a singrar na história.

PS:

Este artigo, bem como os anteriores, sobre o Iberismo, nunca teriam surgido a público se não fosse meu filho (João e Guedes como eu), finalista do curso de Direito, que num dos seus trabalhos para uma das “ignotas” cadeiras em que o Direito é fértil não me tivesse perguntado:- quem era D. Sinibaldo de Maz? Confesso que o nome me tinha passado por diversas vezes sob os olhos sem nunca me despertar a mínima atenção, mas ao pedido filial urgente correspondi como pude e pude assim preencher um hiato histórico que agora me pergunto como  me desleixei passando em claro durante estes anos todos uma coisa que estava patente e  à vista e que tinha que ser divulgada fora dos meios académicos e que só o não foi por causa dos vesgos olhos da política sectária que marcaram mais de três quartos do século XX português e ultramarino.

Obrigado a ti e à tua geração que não viveu esses tempos mas que quer saber quês e porquês para fazer melhor, ou pelo menos, não repetir inconscientemente os mesmos erros.

Haja Deus!…

Intriga política e dissidências republicanas em Macau (II) 15-03-11

O Secretário Geral do Governo, Manuel Ferreira da Rocha, que tinha ingressado  nos quadros do funcionalismo administrativo ultramarino, pela mão de Carlos da Maia, na sequência imediata do 5 de Outubro de 1910, liderava as hostes do partido da “União Republicana”, formação que tinha resultado da cisão da ala mais à direita do partido conservador de António José de Almeida. As amizades estudantis (se é que tinham existido) entre os dois já lá iam!..

A agravar a situação Carlos da Maia e Ferreira da Rocha, mantinham entre si apenas relações estritas de serviço, já que um diferendo anterior os tinha afastado ao ponto da ruptura das relações pessoais, pouco depois de Carlos da Maia ter chegado a Macau.

Na presidência do Leal Senado, encontrava-se o tenente-coronel José Luís Marques, republicano conservador e tal como Carlos da Maia, também maçom.

Figura local muito prestigiada José Luís Marques, terá recebido o novo governador senão calorosamente, pelo menos num espírito de colaboração política e institucional.

Porém a breve trecho, o relacionamento entre os dois haveria também de mudar de feição.

O diferendo parece ter-se devido à proposta de alteração do estatuto Orgânico de Macau elaborada por Carlos da Maia e enviada ao Governo de Lisboa, ao que se diz, sem prévia auscultação da população local.

No articulado do novo estatuto, o governador incluía a extinção do município e a sua transformação em secretaria na dependência do Governo, embora propusesse a manutenção da designação “Leal Senado” por questões de tradição histórica.

O caso não agradou ao presidente da edilidade e produziu consequências políticas bastante negativas para Carlos da Maia, como se verá, mais à frente.

Embora o próprio Governador fosse oficial da Armada, ao longo da sua administração não evidenciou grande sentido corporativo em relação aos seus camaradas de ramo, alguns dos quais desempenhavam funções civis de relevo na administração da colónia.

Entre estes contavam-se os primeiros-tenentes, Luís António Magalhães Correia, e João de Freitas Ribeiro.

A cada um destes oficiais coube em diferentes fases e por inerência os cargos de Comando da Canhoneira Pátria, que correspondiam à chefia da guarnição naval, Capitania dos Portos, Superintendência do Comércio do Ópio (então uma das principais fontes de receitas do governo), e ainda a direcção dos Serviços de Meteorologia.

Saliente-se que João de Freitas Ribeiro era também Maçom. Igualmente Magalhães Correia o seria também.

Tendo em conta que o programa de administração de Carlos da Maia passava, com grande prioridade, pela demarcação das águas territoriais de Macau, missão que estava cometida a Freitas Ribeiro e que incluía a regularização do Porto Interior, bem como a vigilância do tráfego marítimo nessas águas e ainda o controlo do comércio do ópio, lógico seria supor que entre os dois oficiais referidos e o governador existissem relações de grande confiança. Tanto mais que os trabalhos de fixação de limites marítimos sempre tinha constituído pomo de discórdia entre, Portugal e a China e eram aproveitadas pelas correntes nacionalistas, principalmente de Cantão, para pressionar Sun Yat-Sen no sentido de acabar com a presença colonial portuguesa em Macau.

Sublinhe-se, em termos de parêntesis, que processo idêntico tinha lugar contra a presença inglesa em Hong Kong, embora ali a questão diferisse em larga medida já que o território tinha sido militarmente ocupado (1841) e as fronteiras marítimas e terrestres exactamente traçadas (pelos decisores políticos e militares ingleses) e subsequentemente vigiadas por linhas fortificadas, destacamentos militares e forças navais designados para as fazerem valer.

Porém certo é que se tais relações existiram, entre Carlos da Maia, Freitas Ribeiro e Magalhães Correia, foram sol de pouca dura, subsistindo antes um clima de crispação que se acentuaria à medida que os meses passavam.

Essa crispação revelava-se por vezes em assuntos aparentemente triviais, como foi o caso da récita que anualmente a tripulação da canhoneira Pátria, levava a efeito.

Ao que parece os organizadores teriam convidado Carlos da Maia, de forma pouco protocolar que o Governador considerou acintosa.

A récita acabaria assim por ser proibida, por ordem verbal dada a quem competia e que era nem mais nem menos do que o secretário geral Ferreira da Rocha, o que provocou mais um motivo de divergência entre os dois já que Ferreira da Rocha, como jurista, alegava que tal ordem só poderia ser executada no âmbito de uma lei que proibisse os militares de todos os ramos das forças armadas em Macau, de participarem em espectáculos públicos.

Tal facto afigurar-se-ia de má política, tanto mais que o exército levava também a efeito regularmente no Clube Militar e no Clube dos Sargentos, variados saraus, alguns, com larga tradição e popularidade.

A proibição, diga-se, colocava também o próprio Ferreira da Rocha, numa posição  embaraçosa perante os seus correligionários, o que nada lhe convinha já que nessa altura encetava os primeiros passos de uma carreira política que começaria como deputado, em S. Bento, em 1919 e culminaria como, Ministro das Colónias.

Para além dos diferendos com o seu principal auxiliar na administração local, Carlos da Maia, confrontou-se também com a animosidade de alguns outros importantes oficiais de marinha, contra os quais empreenderia batalhas políticas que acabaria, nuns casos por perder, noutros apenas, por se ficar pelo “empate técnico.

Uma das mais salientes contendas foi levada a cabo contra o primeiro tenente,  Francisco Gonçalves Velhinho Correia, igualmente maçom e destacado elemento do Partido Democrático bem como contra o capitão-tenente médico, António José Gonçalves Pereira, este considerado como sendo do Partido Republicano, de António José de Almeida, quando os dois se juntaram para disputar as eleições gerais de 1915, o primeiro como deputado e o segundo como senador.

Velhinho Correia deputado de Macau em Lisboa, Ministro e procurador à Câmara Corporativa do “Estado Novo”.

O mais activo dos dois era sem dúvida, Velhinho Correia, que defendia as reivindicações antigas da classe dos sargentos, e era por isso popular entre sub-oficiais e soldados.

Contra si tinham os candidatos, Carlos de Melo Leitão, e César Augusto Freire de Andrade, que se afirmavam regionalistas e independentes de qualquer partido da Metrópole, isto apesar de ambos serem filiados na, “União Republicana” e aqui actuarem evidentemente como tal.

A luta parecia ser à partida desigual, tanto mais que Carlos Leitão, e Freire de Andrade tinham, por eles, o jornal, “O Oriente Português”, de que era director o próprio, Carlos Leitão.

No entanto quem o dirigia de facto era o secretário-geral do governo, Ferreira da Rocha, que também nele escrevia, bem como o próprio, Carlos da Maia, embora em artigos não assinados, ou sob pseudónimo.

Para além do apoio dos marinheiros, que em termos de potenciais votantes, esteve sempre em dúvida devido às divergências sobre a inclusão ou não dos militares em comissão de serviço em Macau, nos cadernos eleitorais, Velhinho Correia e Gonçalves Pereira, não contavam com qualquer órgão de comunicação social que lhes abrisse as suas páginas.

Isto apesar de Gonçalves Pereira, ser parente de Luís Nolasco da Silva, que por seu turno dirigia o jornal, “O Progresso”, bem mais firmado na comunidade do que o “O Oriente Português”, que era visto como uma emanação directa do, Palácio da Praia Grande.

Esta situação mudaria radicalmente quando se soube mais precisamente da proposta de alteração do Estatuto Orgânico de Macau, que incluía, como disse, a extinção do Leal Senado.

A partir dessa altura “O Progresso” muda de orientação política passando a apoiar Velhinho Correia e Gonçalves Pereira e a apresenta-los como “deputados do povo”.

De notar que esta reviravolta de, “O Progresso”, lhe valeu contundentes críticas por ter sido considerada como uma quebra de coerência na sua oratória contra as divisões no seio dos partidos.

Para além de Luís Nolasco, surgiu também nas páginas de “O Progresso” a pugnar, o presidente do Leal Senado, Luís Marques, que já anteriormente referi, defendendo regulamente em artigos de fundo, Velhinho Correia e Gonçalves Pereira como os melhores defensores dos interesses macaenses na “Metrópole.

Assim, e numa das mais concorridas eleições registadas em Macau durante a 1ª República, Velhinho Correia e Gonçalves Pereira acabariam eleitos a considerável distância dos seus adversários.

Diga-se que, pelo menos, Velhinho Correia não desmereceu os compromissos eleitorais a que se amarrara na campanha, protestando posteriormente no parlamento contra o saque de dinheiro de Macau pelo governo de Lisboa e continuando a usar as páginas de “O Progresso” para dar conta das suas actividades.

Velhinho Correia abandonaria o parlamento por ter sido mobilizado para a frente de combate na sequência da entrada de Portugal, na 1ª Guerra Mundial.

Regressado, no final do conflito, a Portugal, foi Ministro do Comércio, em 1920 e das Finanças, em 1923.

Tendo aderido ao Estado Novo, foi feito procurador à Câmara Corporativa e Vice-Governador, do Banco de Portugal, deixando publicados diversos estudos sobre economia finanças e assuntos coloniais.

Outra frente de combate aberta por Carlos da Maia foi contra o comandante da canhoneira Macau, João Freitas Ribeiro bem como contra o capitão dos Portos, Luís António de Magalhães Correia.

Os motivos das dissenções não são inteiramente conhecidos, mas o que se sabe é que os dois apresentariam uma queixa dirigida ao Ministro das Colónias (Afonso Costa) por motivos que não consegui especificar já que o processo sobre o assunto constante no Arquivo Histórico contém apenas e só, a capa com um número e no interior uma única folha de rosto que refere a existência da queixa e os nomes dos queixosos sem mais nada que esclareça o que quer que seja.



Luís António de Magalhães Correia. Oficial de Marinha, Governador de Macau.

Refira-se que, Luís António de Magalhães Correia, depois de um regresso à Metrópole, voltaria a Macau, como governador em 1922, nomeado pelo primeiro-ministro António Maria da Silva, também este, tal como Carlos da Maia, carbonário e ainda que mais do que aquele líder supremo (Grão-mestre da “Alta Venda”).

O saque de dinheiro da Metrópole a Macau, que levou Velhinho Correia a protestar veementemente ainda que sem resultados em S. Bento, terá sido (entre outros) motivo determinante que levou ao final antecipado da comissão governativa de Carlos da Maia, em Macau.

Discordando das exigências do governo central, apresentou, acto contínuo, o seu pedido de demissão, pedido que não seria aceite por Afonso Costa, que sobraçava então a pasta das Colónias.

Mesmo assim Carlos da Maia, não hesitou e no dia 5 de Setembro de 1916, embarcava com a família com destino à Metrópole, sem explicitar mais razões de que a necessidade de conferenciar pessoalmente com o ministro.

O seu sibilino secretário-geral (Ferreira da Rocha), não deixaria de lhe lembrar que a sua atitude não se quadonava com os procedimentos do Direito Administrativo, nem com a jurisprudência e porventura com as leis gerais da República. Mas o radical Carlos da Maia pouco se importou com isso. Fez as malas, foi-se embora e pronto!…

Atribulações de um republicano português na República da China (1914-16 (I) – 08 Março 11

Nas duas décadas que permearam entre o final do século XIX e o início do século XX, a oposição parlamentar não monárquica, em Portugal, embora contendo em si sensibilidades diferentes, era representada apenas pelo Partido Republicano, facto que fez com que fossem apenas os seus representantes a ocupar o “Parlamento Constituinte” e a redigir a nova Constituição, dada à luz em 1911.

Todavia, mal instalada a República, as diversas tendências, iniciam um movimento centrífugo, dando origem a novas formações partidárias entre as quais se destacou desde logo o Partido Democrático (que viria a dominar pelos anos subsequentes o parlamento, umas vezes sozinho, outras coligado), o Partido Evolucionista e o Partido Unionista, entre outros de menor expressão nacional, como o Partido Socialista, cuja influência era então quase nula nos corredores parlamentares.

Neste ponto convém lembrar que a República surgiu como um regime onde o poder político residia apenas e só no parlamento, dependendo os executivos das maiorias que ali se formassem. O “Presidente da República” não passava politicamente de “figura de retórica” quase destituído de poderes para além dos de representação protocolar do Estado.

Neste cenário, poderia retirar-se a ilação de que situação semelhante se reflectiria igualmente em Macau.

Sendo que a palavra “Governo” fosse oficialmente aplicada, nomeadamente nos documentos legais e boletins oficiais, de facto não existia propriamente um governo, em Macau, mas apenas o Governador, já que esta era a figura que concentrava os poderes executivo e legislativo (ainda que sob a tutela do Ministério das Colónias).

O governador delegava apenas poderes funcionais nos chefes das diversas repartições que não passavam de meros funcionários públicos sem qualquer autonomia.

Além disso o Governador era também o comandante militar do Território.

A segunda figura da colónia era o Secretário-Geral do Governo, normalmente funcionário da administração ultramarina, que embora substituísse estatutariamente o Governador nos seus impedimentos, igualmente não possuía qualquer autonomia política, ou administrativa, para além da faculdade de despachar assuntos correntes de menos importância que não necessitavam da aprovação do governador.

Por isso a mera repetição em Macau do contexto político da Metrópole, não existia, de direito.

Porém existia de facto e provocava tanta agitação como a que se verificava em Portugal, ou mais ainda tendo em conta que a ela se adicionavam os problemas sócio políticos específicos da colónia.

A nomeação dos governadores e dos funcionários públicos que o coadjuvavam derivava de diferentes razões políticas, ou de empenhos pessoais e emanava muitas vezes de diferentes partidos, ou de outras forças presentes no teatro pós revolucionário republicano com destaque para a Maçonaria e por algum tempo a “Carbonária”.

Efectivamente, tanto os governadores como os principais funcionários, eram nomeados pelo facto de pertencerem ou estarem próximos dos partidos e forças dominantes em Lisboa, como seria natural.

No entanto por vezes ocorria precisamente o oposto, ou seja, quando ao Terreiro do Paço, convinha afastar figuras incómodas mas populares e prestigiadas, ou simplesmente influentes, que não tinham lugar na chefia das repartições públicas, nos elencos ministeriais, ou nas listas de candidatos a deputados, a atribuição de um posto de relevo nas colónias, era solução correntemente adoptada.

Finalmente, nalguns casos, eram razões tácticas que levavam a nomear esta ou aquela figura para posto importante no Ultramar a fim de a afastar das intrigas da capital, esperando ali apenas notícias da alteração da conjuntura e do momento propício para regressar à ribalta lisboeta.

Para muitos esse momento ia-se protelando e esses auto-exilados acabavam por ficar afastados, senão para sempre, pelo menos tempo demasiado para poderem voltar a nutrir aspirações na Metrópole.

Um exemplo dessa prática pode constatar-se no destino dado a uma parte significativa da classe de sargentos, uma das que mais fervorosamente se bateu pela República, particularmente os que com Machado Santos combateram, praticamente sozinhos, na Rotunda, nos dois, ou três dias, que ali se mantiveram sitiados a pé firme em armas, enquanto esperavam as adesões de outras forças militares afectas, que depois de conhecidos o assassinato dos dois chefes da revolta, Miguel Bombarda assassinado por um doente mental (3 de Outubro de 1910) e o suicídio do Almirante Reis, no dia seguinte, vacilaram e por isso tardavam em pronunciar-se.

Com o regime, finalmente, triunfante, no dia 5 e a proclamação da República, na Câmara Municipal de Lisboa, o seu heroísmo foi propalado aos quatro ventos, mas o prémio do sacrifício acabaria por ser o de se verem preteridos nas promoções, ou ainda que de modos subtis, pura e simplesmente afastados.

Esses bravos que apareciam nas fotografias rodeados pela aclamação de multidões em delírio, e nos panegíricos dos articulistas dos jornais não eram afinal mais do que bravos no limiar de serem transferidos das fileiras das forças armadas para as fileiras do desemprego.

Afinal diz-se que as revoluções têm tendência para devorar os seus próprios filhos e neste caso mais uma vez assim foi. Não sobrariam arrivistas de última hora para os substituir.

De algum modo, a República terá tido as suas razões para os abater à carga. De facto uma significativa maioria dos sargentos, era oriunda dos institutos politécnicos, contando por isso habilitações académicas que os qualificavam, estavam fortemente politizados, possuíam vincado sentido de classe e pertenciam na sua esmagadora maioria à “Carbonaria”, organização que os enquadrava e que defendia posições de grande radicalismo.

O Conjunto dessas características fazia,  assim, com que o novo regime visse na classe de sargentos não a guarda pretoriana da República, mas apenas um elemento desestabilizador, num momento em que qualquer radicalismo poderia pôr em perigo a consolidação das novas estruturas de poder.

Um dos visados por esta primeira purga republicana foi Domingos Gregório da Rosa Duque, que deixou nome no jornalismo e na política em Macau.

Articulista na polémica revista dos sargentos do exército que se publicava em Lisboa, foi convenientemente mobilizado para Angola na perspectiva de que o Sol dos trópicos se não lhe amolecesse a pena, e a exaltação pelo menos lhe moderasse as ideias.

No entanto assim não aconteceu e em Angola,  Rosa Duque, não se calou, continuando a afrontar arrivistas e vira-casacas, proclamando alto e bom som os seus pergaminhos da Rotunda o que lhe valeu a expulsão das forças armadas e novo exílio mas desta vez na mais longínqua Macau.

Só muitos anos mais tarde o regime pelo qual tão denodadamente tinha combatido lhe devolveria o que lhe deveria ter dado no dia seguinte ao da Revolução.

A reintegração no exército com o posto de capitão.

Neste caso diga-se, de passagem, que se o exército terá perdido um bom oficial, a República ganhou, ainda que no extremo mais oriental do Portugal ultramarino de então, um dos seus mais estrénuos e indefectíveis defensores e propagandistas, sem peias mas também sem ressentimentos.

“A Verdade” e “O Combate”, jornais que aqui fundou e dirigiu estão aí a prová-lo.

No caso de Carlos da Maia, a razão da sua vinda para Macau, constitui assunto bem menos claro e por isso mais difícil de abordar do que o de Rosa Duque, mas não parece haver dúvidas de que se tratou também de um afastamento intencional dos centros de decisão de Lisboa.

O que não se sabe é se teria sido voluntário, ou forçado.

Na panóplia dos militares republicanos, Carlos da Maia era sem dúvida o segundo dos seus mais prestigiados líderes, quase a par de Machado Santos.

Mas enquanto este, um pouco à semelhança do capitão Salgueiro Maia, do 25 de Abril, se manteria bem mais estritamente nos domínios castrenses, ocupando apenas uma pasta política de relevo durante o breve consulado de Sidónio Pais, Carlos da Maia, rapidamente despiu a farda para passar a envergar o fraque civil nos meandros da política.

Nessa data, a instabilidade no país acentuava-se, com a eminência da entrada de Portugal na “Primeira Grande Guerra Mundial”.

A bipolarização entre os que apoiavam a participação nacional no conflito e os que a rejeitavam era mais do que nunca evidente. Assim qualquer pronunciamento num, ou noutro sentido, tanto poderia significar uma ascensão em glória, como o fim em apróbio de qualquer carreira política.

Nada traduzia melhor a situação do que a formação do primeiro governo que enfrenta o limiar da entrada de Portugal na “Grande Guerra Mundial” (1914-18) e que era maioritariamente constituído por independentes, escusando-se a maioria dos dirigentes partidários a dele fazerem parte.

Afonso Costa, chefe do “Partido Democrático” dava o mote retirando-se estrategicamente, nessa altura, para a docência ao assumir a direcção da Faculdade de Direito, de Lisboa. Como ele outras figuras faziam compassos de espera aguardando clarificação da correlação de forças.

A eminência da entrada de Portugal na guerra e a possibilidade de o conflito se estender à região Ásia Pacífico terá sido a razão oficial aduzida para nomear Carlos da Maia governador de Macau.

Todavia, o facto de pertencer à “Carbonária”, tornava-o naturalmente também figura que interessaria a todos muito mais afastar do que manter perto de S. Bento.

Mas se em Macau o governador era quem tudo mandava, outras figuras aqui viviam e faziam política.

Entre elas contavam-se oficiais da marinha e do exército em comissão de serviço que tinham participado activamente no 5 de Outubro que não só exerciam as suas funções militares, mas também cargos civis na administração.

Por outro lado, Macau constituía um círculo eleitoral com direito a eleger um deputado e um senador para o congresso de Lisboa, os quais não dependiam hierarquicamente do governador.

Em 1914, Carlos da Maia, vem encontrar em Macau tanto no contexto civil, como militar, uma situação política complexa.

Tanto mais complexa quanto a recém proclamada “República da China” lutava pela sobrevivência contra forças reaccionárias que ameaçavam proclamar de novo a monarquia imperial e nesse tempo Macau era ponto focal da resistência republicana contra os que queriam repor o passado.

Nota: No meu artigo da semana passada chamei “conde” ao santo que dava o nome ao antigo hospital civil de Macau onde hoje se encontram as instalações do Consulado de Portugal na Rua Pedro Nolasco da Silva. Claro que o santo nunca foi conde, como é óbvio! Foi e é apenas S. Rafael.

Por outro lado classifiquei a família Rotshild como anglo-americana, quando na verdade era anglo-francesa, de origem judaica, embora os seus interesses se estendessem também em significativa parte aos E.U.A. Aqui ficam as correcções devidas.

Macau 1850: – O mistério do maior desastre naval ultramarino português dos últimos duzentos anos. 01 Março 11

No dobrar da primeira metade do século XIX o que restava do império ultramarino português vogava entre sentimentos redentoristas de uns e abatida descrença de outros.

Portugal saído de três invasões francesas (1807-14) e de uma guerra civil (1828-1834) encontrava-se completamente exausto em todos os sentidos. Os cofres do estado estavam vazios, o país vivia a letras de crédito e o pessimismo imperava na política e na cultura.

A dívida externa era colossal. A situação dos dias de hoje, comparada com esses tempos, não seria mais do que a falta de pagamento de um mês de renda de casa e condomínio indevidos que poderiam ser pagos quando Deus quisesse.

Nesse tempo, o investimento público e privado interno era praticamente inexistente. Restavam como pulmões económicos ainda que cronicamente “asmáticos” os proventos do Vinho do Porto das vinhas do Alto Douro (que os ingleses geriam e de que retiravam a maior parte dos lucros), os reduzidos têxteis da Covilhã e algumas indústrias de vidros e porcelanas de Sacavém e da Marinha Grande que despontavam e que, se mantinham a fortuna pessoal de alguns, eram claramente insuficientes para fazer sair Portugal, por inteiro, da crise profunda em que estava mergulhado. O resto do povo sobrevivia na miséria a cavar a magra terra.

O exército estava reduzido à expressão mais simples. Quanto à marinha, com meia dúzia de fragatas e corvetas, mal navegava para não gastar o dinheiro do orçamento disponível que não chegava sequer para pagar o concerto dos navios, quanto mais para patrulhar o ainda imenso império ultramarino português. Por isso ficavam ancoradas no Tejo à espera de melhores dias, vogando, de quando em vez, até ao porto do Rio de Janeiro, do outro lado do atlântico e vice-versa, a fim de manter as aparências de um reino unido, como consagrado umas décadas antes entre Portugal e o Brasil, por tratado, visado, mas que para todos os efeitos não existia desde o momento em que foi assinado (se é que alguma vez chegou a estar em vigor de facto e de direito).

Nas bolsas de Londres e de Paris, os títulos do tesouro português valiam apenas o que os grandes especuladores da bolsa, como Mendizabal (o Soros de então e os Rotshild anglo-franceses e igualmente especuladores internacionais) faziam crer que valiam. Ou seja, de facto, nada…

Nesse contexto de crise e desespero, diga-se, Portugal não se encontrava sozinho. De facto a vizinha Espanha igualmente saída recentemente das mesmas e sucessivas crises (invasões francesas, e guerra civil, para além dos movimentos independentistas bolivarianos das Américas) encontrava-se em condições semelhantes.

Portugal tinha, por força de todas essas circunstâncias, políticas e económicas, perdido o Brasil. A Espanha, por seu turno e por semelhantes circunstâncias, perdeu um continente inteiro, ou seja: – as Américas do centro e do Sul.

Nesse paralelo não admira que entre os dois rivais ibéricos surgisse, nessa conjuntura de “desgraça”, um certo sentimento de solidariedade.

Salvar os dois impérios ultramarinos sempre desavindos desde o “Tratado de Tordesilhas” contra a crescente supremacia das restantes potências europeias que chegavam, bem mais de dois séculos tardios à corrida global: – Inglaterra, França, Alemanha e Holanda – já não contando com os modernos Estados Unidos da América do Norte (EUA) que entravam na liça como hodiernos conquistadores (Estes ainda que apostassem na força das armas, como os outros, mas diferentemente entendiam que os exércitos e as marinhas não eram mais do que suportes pragmáticos para fazer valer negócios e extrair lucros do comércio que, no século XIX, tudo movimentava e a tudo se começava a sobrepor) parecia ser imperativo.

Nesse contexto a tal solidariedade ibérica poderia ser uma solução?

Foi assim que, então, se colocou a possibilidade do Iberismo. Uma eventual federação entre Portugal e a Espanha que salvasse os interesses do Portugal ultramarino a Leste do tratado de 7 de Junho de 1494 (o tal de Tordesilhas). Uma proposta que se no Extremo Oriente faria todo o sentido em Portugal e Espanha pouco faria como se viria a verificar (falei deste assunto em artigos anteriores aqui nos “Sinais”.

Foi nesse ambiente datado que os defensores dos passados imperiais comuns e de sebastianismos inconsequentes, manobraram em Lisboa e Madrid no sentido de sair da depressão com um passo resoluto para a China.

Perdido o Ocidente, e periclitante o Oriente, a China poderia ser uma saída airosa e de futuro. Principalmente para Espanha que o único pé que tinha no Levante eram as Filipinas.

O objectivo táctico de Lisboa, em eventual consonância com Madrid (ainda que duvidosa) seria o de enviar as tais fragatas e corvetas que descansavam no Tejo à espera de reparo decente para o outro lado do mundo. Isto, claro, depois de armadas municiadas e completadas com o embarque de companhias de infantaria devidamente preparadas para iniciarem uma campanha que se destinaria a desembarcar em Macau com fardas e clarins, tambores; engenharia; apoio de artilharia de campanha; estabelecimento de bivaques e em seguida conquistar toda a ilha de Sheong Sam (onde Macau se situa).

Politicamente a operação afigurava-se fácil para quem nela queria acreditar. O exército chinês como era sabido (através dos despachos dos correspondentes dos jornais europeus sedeados na China e dos relatórios dos governadores de Macau e dos oficiais de “inteligência” da Marinha, era evidentemente antiquado e não teria força para se opor a duas centenas de fuzileiros armados com armas de repetição, obuses e morteiros capazes de disparar em pouco minutos rajadas de chumbo e dezenas de granadas explosivas que destruíriam qualquer forte medieval que se lhe opusesse, como eram os que rodeavam a colónia portuguesa e defendiam a “Boca do Tigre” embocadura do Rio das Pérolas.

A Espanha faria o mesmo, como de facto fez, embora com um atraso de quase seis anos) enviando para o arquipélago filipino, igualmente, o melhor que tinha em termos de poderio naval consubstanciado no primeiro navio de guerra a vapor e casco de ferro sob o comando do almirante José Malcampo Monje. E certo é que assim foi.

A facção redentorista portuguesa enviou para Macau as jóias da sua marinha, ou seja a “Corveta Íris” e a “Fragata D. Maria II”.

Só que desígnios políticos mal sustentados raramente surtem efeitos e foi o que aconteceu.

Os redentoristas certos de que a China se encontrava na ultima das depressões da sua história esqueceram-se de que na conjuntura global do tempo, as únicas forças militares credíveis eram as das grande potências e Portugal estava longe de se encontrar entre elas, tal como a Espanha. Mas esta constatação é apenas um parêntesis.

O que aconteceu a seguir foi que, depois da luz verde política de enviar expedição militar para Macau, cumprir os traçados do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Lisboa em consonância com Madrid se revelou missão impossível.

O comandante da Corveta “Íris” ancorada no Rio de Janeiro, recebidas as ordens para rumar para a China fez o que pode, mas depois de ter zarpado e a poucas milhas de rumo não teve mais do que reconhecer a impossibilidade de continuar por deficiências técnicas. O navio não estava, de todo, em condições de se fazer ao mar para tão longa distância. Por isso não houve remédio senão o de “dar à ré” e rumar de novo ao socorro do porto das ilhas brasileiras de S. Paulo para reparações porque estava a meter água. Perante todos esses contratempos a “Íris” acabaria por chegar a Macau muito fora do calendário da missão que lhe estava destinado, tal como a “Corveta D. João II” mandada zarpar de Goa com uma companhia de “cipaios”, mas que, igualmente, não chegou a fazer junção em tempo útil.

Quanto à soberana fragata “D. Maria II”, partida de Lisboa, a viagem decorreu sem incidentes e no tempo previsto até arribar a Macau onde ancorou no porto da Taipa, mais, ou menos no local onde actualmente se encontra a embocadura da “Ponte de Sai Wan”.

A soberana fragata D. Maria II destruída em 1850 por um atentado no porto da Taipa em Macau.

A tripulação da “D. Maria II” que vinha preparada para a guerra manteve-se no interior do navio desembarcando apenas alguns oficiais encarregados de levar despachos ao Governador e meia dúzia de doentes que careciam de tratamento. O resto da marinhagem permaneceu a bordo.

Subitamente porém sem que nada o fizesse prever no dia 29 de Outubro de 1850, dia de “mornaça” como se diz no calão da marinha e quando se celebrava o aniversário da rainha que dava nome à imponente embarcação o Mundo explodiu com a fragata.

O fragor foi tão forte que os vidros das janelas das casas da Baía da Praia Grande em Macau, do outro lado do canal, a mais de dois quilómetros de distância, se estilhaçaram.

Fotografia que ilustra a distância entre o porto da Taipa de 1850 e a cidade de Macau. Esta ponte “Nobre de Carvalho” tem 2.400 metros de amplitude. A explosão registou-se à esquerda da ponte, ou seja a quase 3 quilómetros de distância. Por esta ilustração se pode calcular a força da explosão da Fragata D. Maria II que quebrou os vidros das mansões da Baía da Praia Grande de Macau do outro lado do canal do Delta do Rio das Pérolas

O imponente navio de velas alçadas soçobrou em minutos.

Em torno dele, igualmente se repercutiu o desastre.

Uma fragata francesa, pela força da explosão, perdeu todo o velame e registou entre a tripulação mortos e feridos. Um brigue inglês que ao lado descarregava ópio sofreu, igualmente, um número indeterminado de vítimas em quantos marinheiros se encontravam no convés. Milagrosamente a corveta americana ”Marion” que se encontrava ainda mais perto do que os outros, como por milagre, quase nada sofreu e foi a primeira a enviar socorro, ainda que já nada houvesse a socorrer. Estava tudo perdido e reduzido a tábuas fumegantes e informes que boiavam nas águas. Nem sequer cadáveres havia a recuperar.

Mas o pior de perdas em vidas foi o que se registou entre homens e mulheres dos inúmeros juncos e tancares que, nesses tempos constituam uma espécie de mercado flutuante que girava em torno dos grandes e inúmeros navios que ancoravam na Taipa. Morreram todos, ou quase todos, nas pequenas embarcações que manobravam na feira permanente que era o Porto da Taipa nesse tempo.

De entre esses, o número de mortos e feridos nunca se soube ao certo, nem ficaram registados oficialmente. Para todos os efeitos eram anónimos carentes de cédula de identidade, mas terão sido o dobro dos perecidos na fragata e nos outros navios estrangeiros que a rodeavam. Ao todo, cálculos feitos, sem estatísticas, o número de vítimas mortais terá ascendido a mais de meio milhar.

Diz-se que o atentado foi inspirado pela “Sociedade dos Rios e dos Lagos”, uma “tríade” cujos iniciados eram, essencialmente, militares do exército da China e que teriam aliciado numa das várias tabernas do “ Bairro do Monte” (adjacente ao que é hoje conhecida como “Rua das Mariazinhas”) um dos tripulantes da “D. Maria II” para a fazer explodir. Se foi assim o aliciado terá sido precursor, em mais de duzentos anos dos terroristas suicidas de que estamos habituados a ouvir falar nos telejornais dos dias de hoje. O suspeito era um primeiro grumete, fiel da pólvora, alcoólico e conhecido por relapso em matéria de disciplina militar, moral e cívica.

Segundo relatórios oficiais, no dia seguinte a ter sido castigado por mais um acto de desobediência, perante toda a tripulação da Fragata, terá descido ao porão e posto fogo ao paiol. Morreu no acto e por isso o inquérito que se sucedeu ficou privado de uma testemunha (ou réu) essencial, para contar a verdadeira história. Os outros pereceram todos no desastre.

Neste contexto de mistérios atrás de mistérios acresce ainda um outro que vale a pena transcrever dos jornais portugueses da época e é o seguinte: – “ pela mala chegada em Outubro (a Macau) recebeu um dos oficiais da fragata o falecido e de todos lastimado tenente Luís Maria Bordalo (oficial da tripulação), uma carta de Lisboa de seu irmão, em que lhe dizia que naquela capital corria a notícia, de ter voado com uma explosão a “Fragata D. Maria II” carta que por esta singularidade o dito oficial mostrou a alguns dos seus camaradas, e hoje se acha em Macau o cavalheiro que a escreveu, que é o actual secretário do Governo (Francisco Bordalo), que plenamente confirma o facto.

Na verdade é bem extraordinário falar-se em Lisboa de um sucesso que nada tem de comum e que só daí a dois meses se viria a verificar de facto a 3.600 léguas de Lisboa”.

Que estranha e ominosa missiva!…

A catástrofe custou a vida a 191 membros da tripulação da Fragata.

Os poucos que se salvaram foram 36 tripulantes que se encontravam na cidade. Uns por doença, internados no Hospital Militar de S. Rafael, outros de licença e outros ainda em serviço de estafeta.

Também o filho, criança, do comandante da “D. Maria II”, Francisco de Assis e Silva (igualmente vítima mortal do desastre) que viajava a bordo se salvou pelo facto de ter ido a terra, singularmente, por sugestão, do próprio marinheiro, fiel da pólvora, a quem foi atribuído o atentado. Porque razão o comandante terá dado ouvidos a um dos menos graduados e mais indesejáveis dos seus tripulantes acedendo a desembarcar o filho? Outra interrogação insondável a somar a um episódio que permanece desde então rodeado das mais negras sombras.

Creio que o mistério da explosão da mais imponente fragata portuguesa do século XIX e a verdade do drama nunca será verdadeiramente esclarecida a não ser nos romances que o irmão do malogrado tenente Bordalo (Francisco Maria Bordalo) deixou escritos e que jazem, mais ,ou menos ignotos no pó das estantes da Biblioteca Nacional de Lisboa e na Torre do Tombo e mal constam da história da literatura portuguesa.

Creio que neste caso a verdade nunca virá a ser conhecida mas apenas a nossa imaginação poderá deixar campo a quem queira pegar no tema e fazer dele uma novela baseada em factos autênticos como se diz nos filmes de ficção, ou nas telenovelas.