O que diz a Wikypédia sobre o Comintern

A fim de contribuir para um melhor esclarecimento dos leitores relativamente ao Comintern, citado no meu artigo publicado em “Sinais” no JTM (e igualmente neste blog sob a mesma rubrica), aqui fica o que diz a Wikypédia sobre essa extinta organização internacionalista dos tempos de brasa da revolução bolchevista.

Comintern

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Comintern ou Komintern (do alemão Kommunistische Internationale) é o termo com que se designa a Terceira Internacional ou Internacional Comunista (1919-1943), isto é, a organização internacional fundada por Lenin e pelo PCUS bolchevique), em março de 1919, para reunir os partidos comunistas de diferentes países.

Tinha como propósito, conforme seus primeiros estatutos, lutar pela superação do capitalismo, o estabelecimento da ditadura do proletariado e da República Internacional dos Sovietes, a completa abolição das calasses e a realização do socialismo, como uma transição para asociedade comunista, com a completa abolição do Estado e para isso se utilizando de todos os meios disponíveis, inclusive armados, para derrubar aburguesia internacional.

Sua fundação representou, originalmente, uma cisão da Extrema Esquerda da Segunda Internacional em reação ao apoio que os partidos socialistas europeus deram à votação de créditos de guerra, mobilizações, etc. por parte de seus governos burgueses nacionais, quando da eclosão da Primeira Guerra Mundial, considerada pela ala esquerda do movimento socialista como uma guerra civil entre burguesias nacionais e como uma guerra de pilhagem imperialista.

O Comintern teve 7 Congressos mundiais, o primeiro em março de 1919. Enquanto Lenin viveu, os congressos eram anuais, num total de cinco (1919-1923). Após a morte de Lenin, este princípio da anualidade foi abandonado por Stalin. Este desconfiava do Comintern, e desejava transformá-lo em um mero instrumento da política externa soviética; sob Stalin, o Comintern teria apenas dois congressos: o VI, em 1928 e o VII e último em 1935, antes de ser dissolvido em 1943.

Antecedentes históricos 

Como já recordava o preâmbulo dos primeiros Estatutos da Internacional Comunista, os antecedentes da organização remontavam à Associação Internacional dos Trabalhadores fundada por Karls Marx e Friederich, em Londres, no ano de 1864, quando, pela primeira vez na história, se reuniram trabalhadores de diferentes países.

Depois da desaparição da Primeira Internacional em 1876, Friedreich Engels promoveu a criação de uma Segunda Internacional, em Paris (1869)), que reuniu partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas.

Com o começo da Primeira Guerra Mundial se produz a cisão da Segunda Internacional entre socialistas reformistas e revolucionários, apoiando, os primeiros, seus respectivos governos nacionais na declaração de guerra, e os segundos, propondo o derrotismo revolucionário.

Os grupos socialistas revolucionários realizaram a Conferência de Zimmerwald, em setembro de 1915 e a Conferência de Kienthal, em abril de 1916, ambas na Suíça, estabelecendo-se nestes encontros a base programática da Terceira Internacional. Esta foi criada em março de 1919, em Petrogrado, para romper definitivamente com os elementos reformistas, que, na opinião dos socialistas revolucionários, haviam traído a classe trabalhadora e provocado o colapso da Segunda Internacional.

História da Internacional Comunista

A Internacional Comunista realizou sete Congressos Mundiais:

Do I ao IV Congresso Mundial

  • O I Congresso Mundial da Internacional Comunista teve lugar em Moscovo, entre 2 de Março e 6 de Março de 1919. O congresso de fundação realizou-se sobre o pano de fundo da Guerra Civil na Rússia, com o regime soviético sendo submetido ao bloqueio das potências européias, razão para o número relativamente pequeno de participantes e para o caráter improvisado do evento e da própria organização: estiveram presentes 52 delegados, representando 34 partidos. Estes decidiram pela constituição de um Comitê Executivo, composto de representantes das seções mais importantes, o qual elegeria um birô de 5 membros para cuidar dos assuntos de rotina administrativa e de casos urgentes entre os congressos. Como este birô não foi constituído, três líderes do comunismo soviético – Lenin, Trostky e o médico socialista romeno de etnia búlgara Christian Rakovsky – delegaram a tarefa de gerenciar a Internacional a Grgori Zinoviev, como Secretário do Comitê Executivo. Zinoviev foi assistido por Angélica Balabanoff, Secretária da Internacional, pelo ex-anarquista russo-belga ( e escritor de expressão francesa) Victor L. Kibaltchitch, conhecido como Victor Serge, e por Victor Ossipovitch Mazin. Este congresso ocupou-se basicamente das diferenças entre a “democracia burguesa e a ditadura do proletariado” e da necessidade de difundir o sistema de Sovietes.
  • O II Congresso Mundial da Internacional Comunista se reuniu em Moscovo, entre o 19 de Julho e o 7 de Agosto de 1920. Neste congresso se insiste na necessidade de propagar o sistema de Sovietes, e devido à existência de numerosas organizações social-democratas que solicitavam entrada, para evitar a diluição do programa comunista,foram estabelecidas as 21 condiçoes para a adesão à I.C. (entre estas, notadamente,a disposição a realizar trabalho político tanto de forma legal quanto clandestina) e aprovados suas primeiros Estatutos.
  • O III Congresso Mundial da Internacional Comunista se celebrou entre 22 de Junho e 12 de Julho de 1921, em Moscovo.

Nele ele, foram combatidas as posturas ultraesquerdistas de alguns partidos comunistas, como o KPD alemão, e asssumindo-se que a situação mundial havia mudado, resolveu-se que os comunistas deveriam trabalhar politicamente, sob certas condições, com os partidos social-democratas nas chamadas “frentes únicas”. também se tratou da importância de incorporar às mulheres trabalhadoras no movimento comunista.

  • O IV Congresso Mundial da Internacional Comunista teve lugar em Moscou, entre 30 de Novembro e 5 de Dezembro de 1922, ocupando-se com as tácticas da “frente única”, tratando da situação dos negros, assim como do trabalho dos comunistas nos sindicatos. Também se aborda a situação dos comunistas na Ásia  e no Pacífio.

As organizações trotskitas até hoje só reconhecem, quanto ao seu próprio programa político, a validade destes quatro primeiros congressos (Trotsky chegaria a participar ativamente do V Congresso, mas já numa posição secundária; suas mais importantes comunicações ao Comintern estão na sua antologia, Os Primeiros Cinco anos da Internacional Comunista).

do V ao VII Congresso Mundial

  • O V Congresso Mundial da Internacional Comunista foi celebrado em Moscovo entre junho e julho de 1924. Marcado pelo fracasso da revolução na Alemanha, e pela ascensão de Stalin ao poder na União Soviética, sob a consigna do “Socialismo em um só país”, adotou novos estatutos com os quais começa a chamada “bolchevização” (ou russificação) da Internacional Comunista e dos partidos membros.

No verão de 1926 foi extinta a Presidência do CEIC, perdendo Zinoviev – que entrementes havia-se indisposto com Stalin – a direcção da Komintern. Foi eleito Nikolai Bukharin para sucedê-lo como secretário-geral do CEIC.

  • O VI Congresso Mundial da Internacional Comunista teve lugar entre julho e setembro de 1928 em Moscou. No novo contexto do começo da grave crise económica se aprova o slogan ultraesquerdista de “classe contra classe” que oficializa o começo do chamado “Terceiro Período”, propondo-se a oposição irreconciliável entre comunistas e social-democratas. Aprova-se também o novo Programa da Internacional Comunista.

Em abril de 1929 Bukharin, alijado da liderança soviética, viu-se obrigado a se demitir de seu cargo. Para substituí-lo à frente do CEIC, foi eleito em 1934 o comunista búlgaro Georgi Dimitrov, que dirigiria a Internacional Comunista até a sua disolução.

  • O VII Congresso Mundial da Internacional Comunista se reuniu em agosto de 1935 em Moscou. Depois da ascensão dos fascismos, e do fracasso da política ultraesquerdista aprovada no anterior congresso, passou-se à política de Frentes Populares.

Os partidos e organizações stalinistas e maoístas reconhecem a totalidade destes sete congressos.

Dissolução da Internacional Comunista

Em 15 de maio de 1943, depois de celebrada a Conferência de Teerã, o Presidium do comitê executivo da Internacional Comunista, “tendo em conta a maturidade dos partidos comunistas” nacionais, e para evitar os temores dos países capitalistas aliados, decidiu dissolver a Internacional Comunista.

Em 1947 foi criada a Kominform (Oficina de Informação Comunista) como substituta da Komintern, que reunía os Partidos Comunistas de Bulgária, Checoslováquia, França, Hungria, Itália, Polônia, a União Soviética e Iugoslávia. Foi dissolvida em 1956.

Embora carecessem de uma organização internacional, os diferentes Partidos Comunistas seguiam as diretrizes do Partido Comunista da União Soviética com o qual mantinham encontros periódicos.

Organização da Internacional Comunista

Os órgãos da Internacional Comunista, segundo seus primeiros estatutos, eram:

  • o Congresso Mundial: o órgão que detinha a autoridade máxima da Internacional Comunista era o Congresso Mundial, que devia reunir-se uma vez ao ano e tinha a exclusividade ad modificação do Programa e os Estatutos.
  • o comitê executivo: o órgão que tinha a autoridade máxima nos períodos entre congressos era o comitê executivo, que era eleito pelo Congresso Mundial. Sua sede era decidida em cada congresso.

Mais tarde se criaria um órgão adicional:

  • o Presidium: Que tinha a máxima autoridade entre as plenárias do comitê executivo.

Organizações associadas

Sob a tutela da Internacional Comunista, criaram-se várias organizações internacionais, tais como:

Referências

  1. O alemão era a língua oficial da III Internacional.
  2. Marxist Internet Archive. Congresses of the Communist International.
  3. First Congress of the Communist International. The Organisation of the Communist International..

Ver também

Ligações externas

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O congresso secreto do Partido Comunista do Vietnam em Macau 23-02-10

Reuniu esta semana o primeiro congresso do Partido Comunista do Vietnam (PCV). O congresso realizou-se entre os dias 27 e 31 de Março no Hotel Cantão.

Os delegados aprovaram uma resolução política apelando à mobilização dos operários e camponeses, jovens, mulheres, soldados e minorias étnicas para que numa frente unida formem milícias para combater o imperialismo.

O congresso aprovou igualmente os estatutos do Partido e as suas organizações de massas, tendo eleito os 13 membros do Comité Central, com Lee Hong Phong, como secretário-geral.

Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Min), foi eleito representante do Partido junto do (Comintern) Internacional Comunista.

A eleição de Lee Hong Phong, para o cargo de secretário-geral do PCV, não deixou de revelar alguma surpresa tendo em conta que Ha Huy Tap, era anteriormente dado como mais bem posicionado para o cargo.

Este relato sobre a realização do primeiro congresso do PCV, poderia ser a reprodução de uma das páginas dos jornais de expressão portuguesa de Macau, de 1935, se a notícia não tivesse ficado silenciada, assim permanecendo até hoje, já lá vão 75 anos.

Porém a omissão histórica não será de estranhar. Por um lado, devido ao facto da censura do Estado Novo, vigorar com todo o rigor em Macau (governava então o Território António Bernardes de Miranda, que viria mais tarde a ser chefe de gabinete do Presidente, Óscar Carmona). Por outro, tendo em conta que o congresso se realizou secretamente, pelo que nem os jornais chineses locais, que a censura oficiosamente ignorava, a ele tiveram acesso.

O secretismo da reunião dos fundadores do PCV, não extravasou para os jornais da época, mas não deixou de transpirar, pelo menos em certos círculos.

Tanto assim foi, que já nos anos 80, do século passado, Monsenhor Manuel Teixeira, o mais prolífico divulgador da história de Macau, na coluna semanal que mantinha no extinto jornal “Gazeta Macaense”, dava conta de que Ho Chi Min, tinha estado em Macau e aqui fundara o PCV.

Monsenhor Manuel Teixeira, que tinha “vasculhado” tudo quanto era arquivo no Território, manifestava no entanto surpresa pelo facto de não ter encontrado um único documento que se referisse directamente a tais eventos.

Este facto tem tanto de anómalo como de significativo, no que toca a saber-se qual o grau de controlo das autoridades portuguesas, designadamente os agentes locais ligados à PVDE (polícia política portuguesa).

Mas mais anómalo se torna se se tiver em conta que em Macau funcionava também o “bureau” do Extremo Oriente, do Comintern, organização que estava então na mira das polícias do mundo não comunista em geral e das colónias ocidentais na Ásia, em particular.

O Comintern, era a designação dada à “Terceira Internacional”. Fundado por Lenine em 1919. Tinha como objectivo, lutar contra o capitalismo, estabelecer a ditadura do proletariado, e implantar o socialismo, como forma de  transição para uma sociedade, sem classes, com a abolição do Estado burguês, utilizando para isso todos os meios disponíveis, inclusive a luta armada.

O Comintern estava dividido em oito secções, uma das quais era o Secretariado Oriental. Este Secretariado, por seu turno, estava dividido em três departamentos: Extremo Oriente, Médio Oriente e Próximo Oriente.

A Secção do Extremo Oriente, que coordenava a luta revolucionária tinha a sua sede precisamente em Macau.

As actividades revolucionárias do Comintern, à data eram lideradas por Ho Chi Min, Jean Cremet e Le Hong Fong, este baseado em Macau e encarregado do sector de agitação e propaganda, dirigida em especial à Indochina francesa.

Jean Cremet

Ho Chi Min e Jean Cremet, eram ambos fundadores do Partido Comunista Francês, de que Cremet, tinha sido, pouco antes de partir para o Extremo Oriente, segundo secretário-geral.

Figura enigmática do Comintern, Cremet tinha a seu cargo o controlo das actividades do Comintern, efectuando diversas missões nomeadamente na China, Japão e Coreia a partir das bases instaladas em Macau, Hong Kong e Xangai. Cremet actuava na região utilizando documentos falsos, sob vários nomes supostos entre os quais o de Thibault. Macau deve tê-lo conhecido por este apelido que era o que mais frequentemente usava.

No entanto, Cremet, sairia de cena pouco antes do primeiro congresso do PCV, de um modo tão misterioso, quanto viveu. De facto, durante a grande luta política travada entre Estaline e Trotsky, Cremet foi um dos que se absteve na votação, que determinou a expulsão do número dois, do Partido Comunista Soviético (PCUS).

Tendo até certa altura sido um dos homens de confiança de Estaline, em França, Cremet, sabia que com essa atitude abstencionista se declarava para todos os efeitos inimigo de Estaline e assim assinava literalmente a sua própria sentença de morte.

De facto, ao longo das décadas seguintes Trotsky e os seus partidários seriam inexoravelmente perseguidos e liquidados, na União Soviética e um pouco por todo o mundo, até o próprio Trostky acabar por ser assassinado no México (20 de Agosto de 1940).

Daí o facto de Dimitri Manuilsky (1883-1959), presidente do comité executivo do Comintern, que tinha também responsabilidades sobre Portugal e as suas colónias, ter nomeado Cremet, para o Extremo Oriente, a fim de o proteger politicamente, afastando-o do centro mais aceso do teatro da luta entre trotskistas e estalinistas.

Refira-se que Manuilsky, viria a ser dos poucos dirigentes do Comintern, que sobreviveu às sucessivas purgas levadas a efeito por Estaline.

Nessa conjuntura, Cremet entendeu ser melhor entrar na clandestinidade da clandestinidade, simulando a sua própria morte em Macau.

O Comintern chegou mesmo a anunciar, que Cremet tinha morrido afogado num acidente quando viajava num dos “ferry-boats” que faziam a ligação entre Macau e Hong Kong, em 1931.

A partir daí a controvérsia gerou-se havendo quem defendesse que o revolucionário tinha sido assassinado por agentes da GPU (polícia política soviética).

Na verdade, Cremet, com a ajuda do escritor André Malraux, limitou-se mais uma vez a mudar de identidade. Regressou à Europa e passou a viver na Bélgica com o nome suposto de Gabriel Peyrot, até à sua morte em 1973.

Com o desaparecimento de cena de Jean Cremet, Ho Chi Min, que com ele tinha fundado o PCV, em 1931 em Hong Kong, assume as suas responsabilidades na secção extremo oriental do Comintern, regressando a Moscovo, razão pela qual não integra o núcleo duro da liderança do PCV em Macau 4 aos depois.

Refira-se que o “bureu” de Macau, do Comintern, dedicava-se particularmente à subversão na Indochina, embora controlasse as actividades revolucionárias no Sião (actual Tailândia) e Indonésia.

No Território a organização comunista, entre outras actividades dedicava-se à impressão de propaganda revolucionária, que enviava para aquelas regiões do sudeste asiático, atribuía missões aos seus militantes no interior dos países alvo e mantinha um posto de transmissões via rádio, que assegurava comunicações rápidas dos agentes do Comintern da região com Moscovo via Vladivostoque e vice-versa. Essa central de comunicações clandestina coordenava também o trabalho dos agentes espalhados um pouco, por todo o Extremo Oriente.

A razão da escolha do hotel Cantão, como local para a realização do congresso, parece óbvia. Tratava-se de um pequeno e discreto edifício, estrategicamente situado numa ruela ainda mais discreta, nas traseiras do Grande Hotel, que este sim, concitava todas as atenções.

Simultaneamente, ficava a poucos metros do principal terminal de passageiros de Macau, facto que lhe conferia vantagens evidentes para quem vivia e viajava na clandestinidade.

Porém a escolha de Macau como local para levar a efeito o congresso não pareceria tão óbvia, tendo em conta, por um lado o facto do Comintern estar também, baseado em Hong Kong e por outro a pequenez da colónia portuguesas, onde as notícias demoravam menos a correr a cidade de boca em boca do que a serem impressas  e distribuídas pelos jornais.

Por muito secretismo em que estivesse envolvida a reunião efectuada ao longo de 5 dias não deixaria, por todos os motivos, de despertar atenções.

Dir-se-ia então, que Hong Kong, seria, local mais adequado para o efeito tendo em conta as suas muito maiores dimensões, em termos geográficos e demográficos, tal como bem maior em diversidade cosmopolita.

Para isso poderão ser aventadas várias explicações, mas a principal terá a ver com o facto de em 1932, a organização do Comintern, em Xangai ter sido infiltrada pela “surete” (polícia política francesa), que prendeu vários elementos do Comintern e apreendeu documentação comprometedora, desmantelando a rede activa naquela cidade.

A acção da “sureté” em Xangai, levou a que lhe caíssem nas mãos os nomes de muitos dos agentes da subversão na Indochina e consequente emissão, contra eles de pedidos de captura internacionais contra os que alegadamente residiriam nas colónias ocidentais da China e em Singapura.

Ho Chi Min

Entre os visados encontrava-se Ho Chi Min, que no âmbito das suas actividades circulava constantemente, entre Hong Kong, Cantão e Macau. Ho era concretamente acusado de implicação na revolta anti-colonialista da Indochina de 1931, brutalmente sufocada pelo exército francês.

Ho Chi Min, acabaria por localizado em Hong Kong e preso, pelas autoridades britânicas. Todavia em vez de ser extraditado para Hanoi, o tribunal que julgou o caso, decidiu apenas expulsa-lo da colónia britânica, o que lhe permitiu refugiar-se de novo em Macau.

Acresce a tudo isto, o facto do governo de Hong Kong, alarmado pela crescente actividade dos grupos militantes de esquerda na colónia, que segundo as autoridades “se contavam por milhares” ter aumentado em 1930, o efectivo da polícia em 15% , com mais 300 elementos e criado dentro da corporação, um “special branch” (departamento especial) exclusivamente dedicado à vigilância e luta contra os  comunistas.

Esta atitude de Hong Kong, contrastava em absoluto com Macau, onde a atitude das autoridades primava pela passividade.

Isto apesar da década anterior ter sido politicamente uma das mais turbulentas da sua história no século XX.

De facto, em 1922, a tensão explodiu, com a eclosão de manifestações violentamente reprimidas pelas forças armadas que deixaram no terreno várias dezenas de mortos e centenas de feridos, e por uma greve geral que paralisou o Território durante mais de um ano.

Tudo isto tinha sido fomentado pelas várias associações nacionalistas e socialistas de variados matizes políticos, que actuavam legalmente em Macau.

Oficialmente registadas e alegadamente fiscalizadas pela polícia da Repartição da Administração Civil (RAC), a verdade é que o conhecimento que o Governo delas tinha não passaria muito além dos nomes dos corpos gerentes e objectivos gerais a que se propunham, informações de preenchimento obrigatório nos formulários, que a RAC visava, antes do registo notarial de qualquer associação, segundo mandava a lei.

A análise desta conjuntura laxista e persistente em Macau, terá sido por isso, determinante na escolha do Território, para a realização do congresso fundador do PCV.

Aliás, analisando os vários relatórios da RAC, que se encontram depositados no Arquivo Histórico de Macau, muito sobra sobre denúncias de actividades subversivas, por parte de associações (à data contavam-se em Macau mais de uma centena, devidamente registadas) ou elementos seus, mas muito pouco consta concretamente, sobre eventuais actividades subversivas que levariam a efeito. Muito menos ainda surgem referências às tendências ideológicas que professavam.

Percorrendo os jornais da época parece constatar-se que a ignorância sobre o que se passava entre a comunidade chinesa de Macau, era norma e realidade assente.

Um conhecimento mais exacto sobre a agitação revolucionária que submergia a Europa, o mundo em geral e o Extremo Oriente em particular, incluindo a China, não seria muito melhor.

Os jornais iam dando conta do caos da guerra civil chinesa, com notícias avulso sobre revoltas, declarações políticas, golpes e contra golpes, mas na verdade pouco esclareciam, se é que não contribuíam ainda mais para adensar a confusão no espírito dos leitores.

Ao consultar-se os jornais da época pareceria que a guerra se desenrolava em qualquer ponto longínquo do globo e não ali mesmo ao passar o arco das Portas do Cerco.

As agências noticiosas internacionais, com destaque para a “Reuters”, eram as grandes fontes de informação de Macau sobre o difuso palco da guerra civil chinesa e é através delas, que é estampada na imprensa local a que mais aproximadamente refere a existência do Comintern.

Trata-se de uma local incerta na Voz de Macau, denunciando a presença em Cantão do “perigoso bolchevista Borodino”.

Borodino (Mikhail Markovich Gruzenberg), era um agente do Comintern, enviado para a China, por Moscovo em 1922. Seria um dos principais conselheiros de Sun Yat-sen, até 1927, período em que perdurou um conjuntural  “flirt” do partido nacionalista (Kuomintang), com a União Soviética, mas que terminaria com o sangrento massacre da ala esquerda do partido, levado a efeito por Chang Kai Shek. 

Como excepção à regra de falta de informação sobre as actividades do Comintern em Macau regista-se apenas a existência de um processo aberto pela RAC, na sequência de um pedido do secretário português da “Entente International contre la IIIe Internacionale” para o envio de uma relação de todos os estrangeiros residentes em Macau. Porém não se sabe que resposta obteve esse pedido, ou sequer se a ele foi dado sequência

O primeiro congresso do PCV, em Macau, é considerado como aquele em que foram delineadas as linhas mestras para a reconstrução do Partido Comunista da Indochina (segundo consta da história oficial do PCV) que na altura compreendia os actuais, Vietname, Laos e Cambodja.

O congresso realizou-se também num momento particular da história do movimento comunista internacional, com a realização em Moscovo, do VII congresso do Comintern, que consagrou a política das frentes populares contra o fascismo.

Resta acrescentar que as decisões tomadas em Macau seriam consideradas transitórias sendo posteriormente, sucessivamente revistas em plenários subsequentes, o primeiro dos quais teria lugar no ano seguinte (1936), já no interior do próprio Vietname.

Lee Hong Phong Secretário-geral do PCV (1935-36), eleito no congresso secreto de Macau

O mandato de Lee Hong Phong, não duraria muito, já que seria substituído logo, em 1936, por Ha Huy Tap, que com ele tinha disputado a liderança do PCV, no ano anterior, no congresso do Hotel Cantão.

Lee Hong Phong, acabaria juntamente com quase toda a direcção do PCV, por cair nas mãos das autoridades francesas que decapitariam quase por completo a liderança do PCV.

Lee seria preso e executado, juntamente com o seu sucessor Ha Huy Tap, bem como o sucessor deste, Nguyen Van Cu, em 1941.

A verdadeira hora de Ho Chi Min só chegaria em 1951 com a sua eleição para o cargo de presidente do Partido Comunista do Vietname.

O súbito desvanecer de um quotidiano

Juncos à vela eram uma imagem corrente no acesso ao Porto Interior, entre a Barra e a fronteira ilha da Lapa, ainda em 1982, data em que esta foto foi tirada.

A China, Macau e os países de língua portuguesa. Moçambique

Num momento em que Macau se posta como pólo de ligação entre a China e os países lusófonos, parece-me importante salientar que esse posicionamento não é de agora nem resulta estritamente de uma posição política “tout court” determinada por conjunturas económicas circunstanciais.

De facto, há raízes históricas e sociais mais profundas que a determinam.

O excerto do texto que reproduzo a seguir, da autoria de Eduardo Medeiros, intitulado: Os sino-moçambicanos da Beira. Mestiçagens Várias, é só uma faceta, mas, quanto a mim, muito esclarecedora.

Eduardo Medeiro, é Professor Auxiliar, do Departamento de Sociologia e investigador no Núcleo de Estudos sobre África (NESA), do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS), da Universidade de Évora.

Actualmente centra as suas investigações em Identidades, etnias e etnicidades. A Comunidade Chinesa de Moçambique e suas diásporas, 1858-1975.
Etnias e etnicidades em Moçambique: da sua construção e do seu uso.
O islamismo negro em Moçambique: história da formação das comunidades islâmicas negra e questões identitárias.

A formação das comunidades sino-moçambicanas e o sentido dos números

 

Data de 18 de Fevereiro de 1858 a chegada à Ilha de Moçambique – na altura capital

das possessões portuguesas da África Oriental4-, o primeiro grupo de 30 chineses da

época moderna contratado pelo Governador-geral João Tavares d’Almeida5. Eram

homens de diversos ofícios, sendo 8 carpinteiros, 12 pedreiros, 4 ferreiros, 4 cobreiros,

e 2 picadores de pedra que o governo da Metrópole «desejoso de promover o

melhoramento e progresso desta importante possessão mandou engajar em Macau, para

introduzir [na Ilha] trabalhadores laboriosos, e sóbrios, que poderão com o seu exemplo,

e com o seu trabalho utilmente aproveitado servir de grande vantagem a esta

Província»6. Na verdade, desta iniciativa do governador nada resultou de concreto. Ela

inscreveu-se por mimetismo no dinâmico contexto do engajamento de «coolies» pela

Inglaterra e pela França para as Ilhas do Oceano Índico ocidental7. O governador

português pretenderia certamente conservar e melhorar a sua cidade, mas o que estava

na ordem do dia no seu tempo era, nos portos do norte de Moçambique, o tráfico

4 Foi em 1898 que o Governador-Geral de Moçambique, o capitão-de-fragata Álvaro António da Costa Ferreira, resolveu transferir

da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques a sede do governo da Província, a título provisório, o que veio a tornar-se definitivo

três anos depois. Foi um Decreto com força de Lei, de 23 de Maio de 1907, que oficializou Lourenço Marques como capital,

Suplemento ao Boletim Oficial, n.º 26, 1/Julho/1907.

5 Antes desta época houve a vinda de alguns chineses, chinesas e mestiços chineses para Moçambique que deram origem a filhos

mestiços, como o famoso Nicolau Pascoal da Cruz, militar sino-tailandês ou luso-siamês, do Massangana (1767), na Zambézia, e

seus célebres descendentes António José da Cruz, Joaquim José da Cruz (o Nhaude = teia de aranha, terror), e António Vicente da

Cruz (o Bonga = gato bravo). Mas esses poucos chineses e mestiços chineses nunca deram origem a comunidades sinomoçambicanas.

6 Boletim Oficial do Governo-geral da Província de Moçambique, n.º 9, Sábado, 27 de Fevereiro de 1958, Parte Oficial – grafia

actualizada pelo autor, E.M.

7 Foi em 1829 que colonos britânicos importaram a título de experiência para as plantações de cana-de-açúcar da Ilha Maurícia

quarenta trabalhadores chineses. Seguiram-se outros para as plantações de cana-de-açúcar na África do Sul e demais territórios

coloniais sob domínio britânico e francês. A partir dos anos 60 do século XIX, milhares de «coolies» indianos foram recrutados para

as plantações de cana-de-açúcar na província do Natal, na África do Sul. No seguimento destes chegaram «coolies» e imigrantes

livres chineses. A imigração livre esteve relacionada com toda a problemática e política do sudeste asiático.

clandestino de escravos e a venda dos “libres engajados” (libres engagés) para essas

mesmas Ilhas do Índico8.

Sabemos pouco do destino que tiveram esses 30 homens. Se fizermos fé na memória

local, pelo menos alguns deles terão permanecido na Ilha e outros foram para as Terras

Firmes do Continente, em particular na Cabaceira Grande, “onde de dedicaram à

horticultura e mais tarde à colecta e exportação de holotúrias9 (macajojos, na

terminologia local). Os poucos que ficaram pela Ilha também se terão dedicado à

horticultura numa zona que ainda hoje se chama Rua das Hortas, e onde há uma casa de

tipo colonial que se diz ter sido um Templo Chinês”10. Filhos destes homens com

mulheres africanas da região, que os houve certamente, foram “absorvidos” pela

dinâmica linhageira matrilinear, não constando que tenham renovado o grupo asiático

originário dos seus pais.

Foi a partir de 1881 – já num contexto de implantação do capitalismo imperial – que a

procura de «coolies» chineses se tornou consistente na colónia. A construção das duas

principais cidades, Beira e Lourenço Marques, os respectivos portos e caminhos de

ferro, as açucareiras do Baixo Zambeze (Sena Sugar States) e do vale do rio Búzi

(Companhia do Búzi)11 e outros empreendimentos coloniais modernos careciam de

artesãos mais ou menos hábeis e a baixo preço que a mão-de-obra especializada

proveniente da Europa não satisfazia pelo seu elevado custo12. Por isso, a 20 de Agosto

deste ano, o governador-geral, visconde de Paço d’Arcos, enviou um ofício ao

governador de Macau, J. A.A Carlos Real, que foi recebido na secretaria daquele

governo a 17 de Novembro13, para solicitar contratados chineses para Moçambique. O

visconde argumentava que os negros de Moçambique não estavam aptos para o trabalho

e, por isso, pretendia recorrer aos chineses, pois conhecia a sua índole trabalhadora e

activa, e engenho para a indústria, agricultura e artes, e sabia também da contratação de

“coolies” por diferentes colónias14. O governador-geral explicitava que pretendia

“carpinteiros (de barco e de machado) ou marceneiros; alguns pedreiros, canteiros,

estucadores ou outros que possam ser utilizados nas obras públicas; carregadores para as

companhias braçais das alfândegas (homens habituados ao serviço de embalagem e de

armazenagem); homens para serviço de polícia, como os que havia em Macau, com

boas notas e habituados no manejo das armas. O pagamento seria feito em Moçambique

pela Direcção das Obras Públicas, de acordo com o merecimento de cada um e a

natureza do seu trabalho. De acordo com o que já se praticava com trabalhadores

indianos havia o pagamento de 800 réis diários (mínimo) e 1.500 réis (máximo).

Podiam vir com família”15. Veremos ao longo deste texto que Moçambique nunca

chegou a ser propriamente uma terra de contratados chineses em larga escala, mas na

leva dos «coolies» vieram imigrantes livres. Veremos também que apesar da permissão

8 Vide textos de Edward A. Alpers, Ivory & Slaves in East central Africa . Londres, Heinemann, 1975; Recollecting Africa:

Diasporic memory in the Indian Ocean world. Paper presented at the conference “African Diaspora Studies on the Eve of the 21st

Century. Department of African American Studies. University of California, Berkeley. April 30 – May 2, 1998; José Capela, (de

Col.) O tráfico de escravos de Moçambique para as Ilhas do Índico, 1720-1902, Maputo, 1982; O escravismo colonial em

Moçambique, Afrontamento, 1993; O tráfico de escravos nos portos de Moçambique, Afrontamento, 2002, e Eduardo Medeiros, As

etapas da escravatura no norte de Moçambique, Maputo, 1988.

9 Género de equinodermos de tegumento coriáceo e cilíndrico (Cândido de Oliveira)

10 Padre António Lopes: «Carta aberta aos Amigos da Ilha», jornal Notícias, 9 de Outubro de 1982.

11 Há referências bastantes sobre os pequenos núcleos de sino-asiáticos de Marromeu e de Nova Lusitânia, ambos fazendo parte da

comunidade beirense.

12 Eduardo Costa, O território de Manica e Sofala e a administração da Companhia de Moçambique, 1892-1900. Lisboa, Typ. da

Comp. Nacional Editora, 1902.

13 A.H.U., D.G.U. – Moçambique, 1ª Rep., Pasta 3, Cap. 2, 20.08.1881

14 Carlos Eugénio Correia da Silva, visconde de Paço d’Arcos, fora ministro plenipotenciário nas cortes da China, Japão e Sião, e

governador de Macau.

15 Idem A.H.U., D.G.U. – Moçambique, 1ª Rep., Pasta 3, Cap. 2, 20.08.1881

para a vinda dos familiares dos contratados, essa vinda não se concretizou de modo

consistentes durante os três primeiros decénios da imigração. Só a partir dos anos trinta

do século XX é que as mulheres chinesas, esposas ou simplesmente familiares,

começaram a demandar Moçambique em número significativo16.

O pedido do governador teve resposta satisfatória, pois, seis anos volvidos, em 1887,

chegaram à região de Lourenço Marques os primeiros operários vindos de Cantão para

a construção do Caminho-de-ferro de Lourenço Marques para a África do Sul,

empreendimento que se realizou entre 1887 e 188917, e para o território de Manica e

Sofala, mais a norte, sob administração da Companhia de Moçambique, também foram

contratados «coolies» chineses para a construção do Porto e do Caminho-de-ferro para

a Rodésia Beira-Umtali, 1892-189818. Tanto nestas como noutras tarefas “vieram a

demonstrar vastos conhecimentos e muita perfeição, o que tornava impossível a

concorrência de operários europeus”, lastimava Eduardo Costa19. Os que ficaram pela

povoação depois das obras nos portos e caminhos-de-ferro deram valiosa contribuição

para o crescimento dos dois burgos, ajudando na construção dos edifícios públicos e

das casas de particulares.

Todavia, ainda não foram encontrados documentos com referências precisas sobre os

primeiros contingentes de «coolies» que chegaram a Lourenço Marques e à Beira,

como foi para o caso de 1858 no que respeita à Ilha de Moçambique. As estatísticas

demográficas conhecidas do último quartel do século XIX até 1928 vão referindo

pequenos grupos de trabalhadores chineses contratados e imigrantes que se lhes foram

juntando; os registos dos períodos coloniais seguintes mostram como a população

chinesa foi crescendo até à data da Independência. Referem também o nascimento de

filhos desses imigrantes na Colónia. No final do século passado, em 1899, os números

oficiais apontam para 69 indivíduos do sexo masculino e 2 do sexo feminino nos

territórios da Companhia de Moçambique, 52 em Lourenço Marques e no Sul do Save,

e mais alguns no norte da Colónia. No início dos anos 70 do século XX residiam 1370

indivíduos chineses (702 H e 668 M) nos distritos de Manica e Sofala, dos quais 1019

(518 H e 501 M) tinham a nacionalidade portuguesa, 2744 no restante território. Num

estudo que fizemos sobre a evolução demográfica dos chineses em Moçambique20

mostrámos que estes números não eram fiáveis, e isto porque nunca registavam os

clandestinos a cargo das Tríades21, e, mais importante do que isto, porque não

registavam como a própria comunidade o fazia, muitos dos filhos varões mestiços que

desde o começo da imigração foram nascendo.

16 Em meados de 1898 foi registada a primeira mulher chinesa em Manica e Sofala entre 104 homens; em 1928, dos 475 chineses,

64 eram mulheres; em 1935, foram registados 391 homens e 80 mulheres; em 1940: 536 homens e 200 mulheres, em 1950: 479

homens e 281 mulheres, e em 1970: 702 homens e 668 mulheres sino -asiáticas.

17 Há também uma vaga referência a trabalhadores chineses na construção da linha de caminho de ferro que ligou Lourenço

Marques a Komatipoort publicada em A Colónia Portuguesa de Moçambique. Lourenço Marques: Imprensa Nacional, 1929, p.24,

todavia não foram ainda encontradas provas documentais.

18 A linha-férrea Beira-Umtali começou a ser construída em 1892 num ponto situado a 40 milhas da foz do rio Pungué, num local

que passou a ser chamado Fontesvilla, e onde os chineses da linha começaram a abrir as suas primeiras «machambas». O transporte

entre o porto e essa estação ferroviária era feito por lanchas de pequeno calado. Os troços Beira-Fontesvila e Chimoio-Umtali foram

feitos mais tarde quando a fama de ouro em Manica correu mundo. A linha de via larga de Umtali a Salisbury ficou concluída em

Maio de 1899.

19 Eduardo Costa, O território de Manica e Sofala e a administração da Companhia de Moçambique, 1892-1900. Lisboa, Typ. da

Comp. Nacional Editora, 1902.

20 Eduardo Medeiros, Evolução Demográfica das Comunidades Chinesas em Moçambique, 1858-1975. Não publicado.

21 Sobre a transformação das Confrarias políticas em Tríadas e sua caracterização na História do Século XX, ler Martin Booth, As

Tríades – As Irmandades Criminosas Chinesas (1990). Lisboa, tradução portuguesa de Silva Horta para as Publicações Europa –

América, 1992. João Guedes, As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau. Livros do Oriente, 1991.

Mesmo assim, os dados estatísticos mostram que desde o último decénio do século XIX

até aos anos sessenta do século passado, a população imigrante chinesa foi-se instalando

em vários pontos da colónia e diversificando as suas actividades ocupacionais. Os

artesãos mais ou menos especializados da primeira vaga transformavam-se em

horticultores na periferia22 das cidades da Beira e de Lourenço Marques quando não

tinham trabalho nas obras ou quando chegaram familiares e não tinham emprego;

dedicaram-se alguns à pesca e à colecta de holotúrias no Inhassoro e Mambone, na

região centro-sul da colónia, entre o rio Búzi e o rio Save, e no norte, em Mocímboa,

Ibo e outras praias do litoral do oceano Índico. Anos volvidos transformaram-se quase

todos e suas famílias em «cantineiros» para o comércio com a população negra. Por fim,

a partir dos anos 30, surgiram comerciantes na cidade de cimento dos colonos, e mais

tarde, nos anos 50 e 60, alguns abriram fabriquetas de confecções e de outras indústrias,

e os jovens saídos das escolas portuguesas passaram a trabalhar nas instituições públicas

e privadas.

Macau liberal e Macau republicano 09-02-2010

No ano em que se comemora o centenário da implantação da República em Portugal, Macau tem a responsabilidade (como afirmava aqui a semana) de olhar para o papel que desempenhou, na divulgação do novo ideário que desde a Revolução Francesa (1789), vinha alterando a pouco e pouco, as estruturas de poder por todo o mundo.
Macau só tem que se orgulhar pois foi, nesta matéria, precursora.
De facto, não poderá deixar de se salientar, que imediatamente após a revolução liberal do Porto de 1820, Macau, durante cerca de um ano, governou-se autonomamente. Expulsou o governador e o ouvidor (figura esta, que era uma espécie de primeiro-ministro), representantes do governo do reino e transferiu o poder para o município (então chamado Leal Senado), com a eleição livre de uma nova vereação, num movimento de contornos acentuadamente republicanos.
Esse período da história de Macau, ainda relativamente mal estudado, pode ser conhecido com alguma profundidade através da obra: “ A História e os Homens da Primeira República Democrática do Oriente”, que tem como subtítulo; Biologia e sociologia de uma ilha cívica. O livro é da autoria do antropólogo Almerindo Lessa.
Claro que a “Primeira República Democrática do Oriente”, foi Sol de pouca dura. O restabelecimento do antigo regime em Goa, de quem Macau dependia administrativamente, na organização política ultramarina de então, faria com que dalí fosse enviada, uma expedição punitiva, que depois de um prolongado bloqueio do porto acabaria por obter a rendição do Leal Senado e proclamar de novo o absolutismo antes reinante.
Este fenómeno não, surgiu por acaso, mas antes como efeito da presença no Território de uma colónia americana assinalável, mas principalmente de um grande número de militares brasileiros, alguns dos quais desempenhariam poucos anos depois papéis do maior destaque, na independência do Brasil e no governo desse novo país.
Na verdade, enquanto em Portugal, ou em Goa, se discutia liberalismo e absolutismo, em Macau já se falava em República. Alguns textos exemplares sobre novas ideologias, podem ser lidos nas páginas do primeiro jornal impresso no Extremo Oriente, “A Abelha da China”. Este jornal que, durou também, tanto quanto durou a autonomia macaense, ou seja, cerca de um ano, pode ser consultado no Arquivo Histórico e vale a pena fazê-lo. Aliás, o periódico, dirigido por um padre dominicano, despertou tais iras, que acabaria por ver o seu último número queimado em “auto de fé”, à porta do Leal Senado, em Agosto de 1822. Como se com esse acto pudessem ser queimadas as ideias que os seus libelos disseminavam semanalmente pelo espírito dos cidadãos.

O jornal foi queimado, mas o que nele foi escrito não deixou de exercer influência indelével na cidade. A própria comunidade chinesa a isso não terá ficado alheia, pois seria para Cantão, que muitos dos principais dirigentes da revolta liberal local fugiriam à frente das baionetas dos soldados do comandante Garcês Palha, chefe da expedição, que afastaria o Leal Senado, nomeando vereação a seu gosto e assumindo o cargo de governador até ao total restabelecimento da velha ordem política.
Neste ponto convém salientar que alguns dos fugitivos, acabariam por ser acolhidos em Cantão, continuando dali a incendiar os ânimos de Macau, através da publicação de jornais e folhas volantes que muitas dores de cabeça haveriam de causar pelos anos seguintes aos governadores de Macau.
Isto até o liberalismo triunfar definitivamente em Portugal e Macau, aceitar a Carta Constitucional, promulgada em 1826, por D. Pedro IV.
Desde então, Portugal mudava de rosto político, mas Macau, também. Em curso idêntico embarcaria a China, menos de duas décadas depois.
De facto, seria a partir de Cantão, que a maior sublevação de sempre teria lugar contra a dinastia Ching, reinante em Pequim. Tratava-se da revolução “Tai Ping”, que durante doze anos assolou o império (1851- 1864).
Este verdadeiro cataclismo que chegou a envolver um exército revoltoso de mais de 20 milhões de homens armados, seria finalmente detido às portas de Pequim, pelas forças imperiais. Todavia depois da revolta dos “Tai Ping”, também a China política não voltaria a ser a mesma. Novas ideias começavam a germinar e o trono do “celeste império” começava a vacilar seriamente.
Desta vez, muitos dos dirigentes, ou simples combatentes da revolta, regressariam a Cantão e alguns procurariam o único refúgio seguro que se lhes apresentava na China: – Macau.

Assim se pode explicar a presença em Macau, de algumas figuras centrais que participaram, no primeiro processo de liberalização da China, conhecido como a reforma “Wuxu”, ou “Reforma dos Cem Dias”, durante o reinado do imperador Guangxu (1875/ 1908), que acabaria por ser frustrada por um golpe de estado das forças conservadoras.
Entre essas figuras conta-se Liang Qichao. Monárquico liberal, Liang Qichao, desenvolveu em Macau, intensa actividade política, através dos jornais, chegando a fundar alguns, promovendo a difusão de círculos literários e instituindo até escolas.
Outra figura contemporânea daquela seria Zheing Guanyin (a sua residência, na Rua da Barra, acabou de ser restaurada, a semana passada pelo Instituto Cultural de Macau e transformada numa casa museu.), o teórico reformador, igualmente monárquico, de que falamos já aqui, anteriormente. Este teria sido o principal mentor ideológicos de Sun Yat-sen, nos primeiros anos da sua juventude, mas não só.
Juntamente com Sun Yat, encontravam-se igualmente activos em Macau outros jovens revolucionários, que igualmente tinham bebido nos princípios de Liang Qichao e Zheng Guanyin, embora de carizes políticos mais radicais. Destes os mais célebres foram sem duvida, Yang Heling, Chen Shaobai, Guan Xinyan e You Li, que constituíam o que viria a ser o famosos “bando dos quatro”, ou seja um dos primeiros e mais activos embriões da subversão republicana na China.
As actividades de todas as figuras acima citadas, não passavam de modo algum, despercebidas às autoridades portuguesas de Macau, todavia poucas vezes seriam incomodados, mesmo quando levavam a cabo públicas manifestações contra o regime chinês, nomeadamente nos teatros da cidade.
Pedidos de captura dos agitadores eram amiúde enviados pelas autoridades de Cantão, mas certo é que nenhum surtia efeitos práticos. Macau, independentemente dos governadores que se iam sucedendo, optava sistematicamente por fazer “vista grossa” ao que se passava.
Nesta conjuntura desempenhavam inestimável papel de medianeiros, Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de vários jornais e o advogado António Basto, um dos mais conceituados causídicos de Macau.
Como pano de fundo em toda esta cena de oficiosas cumplicidades perfilava-se a Maçonaria (juntamente com a “Carbonária”, estas associações secretas desempenharam papel fundamental no derrube da monarquia portuguesa) a que Francisco Fernandes pertencia.

A Maçonaria contava também nas suas fileiras com uma boa parte dos governadores que administraram Macau, pelo menos, a partir da segunda metade do século XIX.

De entre muitos, destacaram-se, Francisco Isidoro Guimarães, o governador que mais tempo esteve à frente dos destinos de Macau (12 anos) e o Conselheiro, Custódio Miguel de Borja. Este chegou mesmo a ser o grão-mestre da Maçonaria portuguesa. Para além dos governadores variadíssimos outros funcionários civis e militares da administração local nela igualmente estavam filiados.
Resta assinalar que o papel de Macau, na história da China moderna, tem sido obliterado, em parte pelo que nela desempenharam Hong Kong e Xangai. Todavia, o seu não foi menor. A grande ignorância, que reina sobre o assunto, reside apenas e só numa questão de bibliografia. É que o que se sabe sobre os últimos duzentos anos da China, está largamente documentado na universalidade da língua inglesa. O que não se conhece está escrito, ou publicado quase exclusivamente em português. Não será muito, mas convinha universalizar um pouco mais esse conhecimento.

É imperioso assinalar 02-02-2010

Passa este ano um século sobre a data da implantação da República, em Portugal (5 de Outubro de 1910). O centenário não é apenas, mais uma, das muitas efemérides patrióticas, mais, ou menos perdidas nas brumas da memória, que pontuam o calendário politico português. Por isso o Estado, entendeu por bem, não só lembrar oficialmente o dia 5 de Outubro, mas implementar uma vasta gama de iniciativas que preencherão todo o ano. Para o efeito criou a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, que tem como principais objectivos os seguintes:

a) Evocar historicamente os acontecimentos de 1910 e honrar a memória daqueles que se entregaram à causa da República;

b) Promover a reflexão colectiva sobre a identidade nacional, os valores da República e o desenvolvimento e o futuro das instituições políticas;

     i. Identificar desafios que se colocam à sociedade portuguesa;

     ii. Contribuir para a renovação da relação entre a República e os cidadãos;

     iii. Mobilizar os mais novos para a participação cívica;

     iv. Aprofundar o debate em torno da ética republicana do século XXI;

     v. Reforçar a identidade nacional;

c) Aprofundar e divulgar o conhecimento histórico-científico sobre a República;

d) Dinamizar iniciativas culturais diversificadas capazes de mobilizar a participação alargada da sociedade portuguesa, especialmente junto das gerações mais jovens e das comunidades portuguesas no exterior.

Segundo o próprio doploma, que cria a Comissão, uma das suas dimensões comemorativas será necessariamente virada para o conhecimento do ideário republicano, dos valores que legitimaram o novo regime e dos acontecimentos e protagonistas da sua história. Mas, como advertiu a Comissão de Projectos, encarregada de definir o enquadramento das comemorações, há que evitar uma visão passadista, contrapondo-lhe uma preocupação prospectiva.

No texto acima citado, parece-me relevante o carácter prospectivo, que se pretende imprimir às comemorações, por contraposição às tais brumas da memória e formais ritualismos, mais, ou menos vazios em que invariavelmente, se envolvem este género de efemérides. Quer seja o próprio, 5 de Outubro, o longínquo, 1º de Dezembro de 1640, ou mesmo, o muito mais recente 25 de Abril de 1974. Isto, só para citar feriados do calendário oficial de Portugal.

Mas mais relevante parece ser ainda, a intenção expressa no ponto d, do mesmo texto que visa especialmente a mobilização e participação das comunidades portuguesas no exterior. Parece-me que neste ponto as comemorações devem ser particularmente assinaladas em Macau. Não por qualquer papel relevante que o território tenha desempenhado na proclamação da República em si mesma, mas sim pelo seu papel na implantação de duas repúblicas. A portuguesa e a chinesa. Aliás, o centenário, desta última, assinala-se no próximo ano (1 de Outubro de 1911).

Passo a explicar-me.

No que à comunidade portuguesa de Macau diz respeito, o fermento republicano sempre foi sensível, nomeadamente através da presença no Território, de vários altos funcionários civis e militares, incluindo governadores que pertenciam à Maçonaria, organização secreta, tida como principal aríete do derrube da monarquia em Portugal. Essa situação fazia com que se criasse um ambiente receptivo às novas ideias, que igualmente germinavam na China. Daí não ser de admirar que, grandes e influentes figuras da revolução chinesa, tenham escolhido Macau. Umas vezes como base de apoio da subversão do regime imperial, outras como local de refúgio temporário, sempre que as marés políticas corriam adversas.
Neste contexto, é de relevar a acção, por exemplo, de Lou Kao e seu filho Lou Lim Iok, líderes da comunidade chinesa de Macau, que ao longo de duas gerações, consertaram esforços locais, no sentido de prestar apoio aos revolucionários chineses e simultaneamente garantir, que o governo português, não hostilizava essas forças.
Assim foi possível, desde a segunda metade do século dezanove, que Macau, desempenhasse um papel relevante (maior do que as suas dimensões geográficas deixariam supor), em vários momentos da história da China. Tanto no período da primeira tentativa de transformação do império numa monarquia constitucional, como a seguir na implantação da República.
Mesmo mais tarde, na proclamação da República Popular (1949), Macau, também, desempenhou o seu papel, embora este último período permaneça ainda bastante na obscuridade, por falta de estudos e também, naturalmente, porque os acontecimentos ainda se encontram demasiado próximos para serem devidamente estudados.
De salientar também, no contexto da fundação das duas repúblicas do início do século XX, a acção relevante da imprensa clandestina chinesa de Macau, que durante décadas inundou a China, com novas ideias. Não esquecer também que um dos maiores pensadores da China moderna, Zheng Kwan Yin, escreveu no território algumas das suas mais influentes obras.
Finalmente e porventura, não menos importante, será lembrar as íntimas ligações do fundador da República Chinesa, Sun Yat-sen a Macau.
Por tudo isto parece-me duplamente imperioso que os portugueses celebrem este centenário, das mais diversas formas e que, nele se procure empenhar também, a comunidade chinesa. Celebrar por exemplo, alguns perfis que figuram na toponímia da RAEM , seria uma das formas de o fazer. Mas com certeza haverá outras. Haja vontade.

Quando poupar é prejuízo 26-01-2010

Manter ou aumentar mais valias é objectivo legítimo de qualquer empresário. Deste facto resultam naturais pressões no sentido fazer vigorar a política do quanto mais baixo salário melhor. Custos da mão de obra é em muitos casos o que melhor se pode controlar, já que os outros essencialmente dependem de factores exógenos às empresas.

No entanto o método, se capaz de suster perdas, ou aumentar lucros, na generalidade, nunca acrescenta progresso, ou desenvolvimento mas antes, estagnação económica e recuo social e económico.

Porém essa filosofia parece estar instalada e bem instalada em Macau e nem a chegada dos novos operadores do jogo, com vistas mais largas, oferecendo salários que em muitos casos duplicavam, ou mesmo triplicavam, os praticados no Território, anteriormente, parece ter contribuído, pelo menos de uma maneira sensível, para alterar o “status quo ante”.

Se bem me lembro o impacto, limitou-se a algumas concessões nas condições laborais de algumas empresas, que passaram a encerrar ao sábado, uns relutantes ajustamentos salariais e pouco mais.

Ainda assim, é certo que se registou um aumento significativo no nível de vida das pessoas, nos últimos anos, e a inflação continua, quase, a não se fazer sentir. Todavia tal não significa que Macau viva no melhor dos mundos. Bem pelo contrário. Há sectores, onde a filosofia subjacente de contenção salarial se reflecte de forma evidente, com os resultados negativos que lhe são consequentes.

O sector da saúde constitui um exemplo de que essa política, nada pode trazer de benéfico, nem para os cidadãos em particular, nem para o desenvolvimento de Macau, em geral.

Outro exemplo pode observar-se no sector da educação, ainda que com menor evidência, ao nível docente.

Na saúde, segundo os últimos de que disponho (2007), Macau contava com 1226 médicos e 1335 enfermeiros, profissionais estes, que serviam respectivamente: 473 e 430 habitantes, situação que se encontra acima da média mundial. Não está mal!

As existências, em termos de instituições de saúde (hospitais, centros de saúde e clínicas), parecem também, por enquanto, capazes de dar conta das ocorrências. Isto apesar do numero de camas de internamento, ficar por 1.9, por cada mil habitantes, muito abaixo, por exemplo, da média europeia, que se cifra em 3 camas por milhar. Em matéria de equipamentos, tanto a nível privado como público a situação parece igualmente ser, pelo menos, razoável.

Todavia o que se verifica na prática é que apesar de todo o equipamento existente, falta quem o opere com proficiência e apesar das camas, falta quem preste os cuidados especializados de quem nelas se aleita.

Neste ponto, há que citar algumas situações que parecem paradigmáticas. No hospital público, existem há anos especialidades por preencher. E quais as razões para isso? Uma delas (porventura a mais importante) terá a ver com as condições e níveis salariais praticados, tanto no que diz respeito à classes médica, como paramédica.

A abertura de um dos últimos concursos para o preenchimento de vagas de especialidade no sector público, levado a cabo em Portugal, resultou numa razoável afluência de interessados e terminou com a sua desistência em massa. Dos muitos, só um médico, se dispôs a fazer as malas e embarcar para, Macau. Os restantes consideraram as condições oferecidas muito menos do que atraentes, mesmo para um recém licenciado.Outro exemplo. O Hospital Kiang Wu, inaugurou, creio que o ano passado, uma nova e luxuosa ala. No entanto, muitos dos casos que ali dão entrada são reencaminhados para o Centro Hospitalar Conde de S. Januário. Por falta de especialistas?

Por outro lado é notável a maior afluência aquele hospital em certos dias da semana. Porquê? Porque é nesses dias que ali se deslocam reputados médicos de Hong Kong.

Por outro lado, ainda, (estatísticas não existem), mas serão muitas as pessoas, que se deslocam à vizinha RAEHK, ou ao Bunrumgrad, na Tailândia, para se tratarem, ou apenas, efectuar análises clínicas de rotina. Tudo isto, evidentemente, porque desconfiam da capacidade das instituições locais.

É necessário pôr termo a esta situação. Para isso não seria mal pensado começar primeiro, pela alteração das tabelas salariais. Depois pela criteriosa escolha dos locais onde recrutar especialistas. Em seguida, pela verificação cuidadosa das credenciais das instituições de onde são oriundos, não deixando de assegurar, a genuinidade das credenciais, bem como o nível técnico do pessoal a recrutar, que deve corresponder às mais altas exigências.

Com estes passos dados, creio que seria então possível começar a pensar (por enquanto tudo não passa, de castelos no ar) a sério, no caminho a seguir para instituir em Macau, uma tão necessária faculdade de medicina.

No âmbito da educação,  creio que a receita poderia ser semelhante. Mas a educação tem as suas próprias especificidades. Poderá caber, por isso, no âmbito de outra reflexão.

Seja como for, creio que antes de apostar na tecnologia de ponta é preciso cuidar de saber onde está o material humano que a saiba utilizar. Se não existir por cá que se busque lá fora, mas bem. O melhor é uma mais valia que custa dinheiro. Por vezes muito dinheiro. Mas, nem sempre a poupar é que se ganha e neste caso concreto, poupar continua a ser prejuízo evidente.