E no pico do Verão chegou a ditadura 27-07-10


Foi no dia 22 de Julho de 1926, mais, ou menos no pico do Verão, que em Macau se encerrou o agitado “drama” político da 1ª República. Coube ao coronel Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães fazer descer o pano da democracia, demitido do cargo de Governador pela ditadura militar que se tinha estabelecido em Portugal na sequência do golpe de 28 de Maio desse ano liderado pelo marechal Gomes da Costa.

A Tamagnini Barbosa, um apoiante entusiasta do golpe de Braga, caberia o papel de fazer subir de novo o pano para o extenso acto político que se iniciava em Portugal e que teria como protagonista Salazar. Primeiro governador não militar a exercer o cargo em Macau, Tamagnini inaugurava com agrado a nova era, já que ao contrário dos irmãos democratas indefectíveis, era um dos apoiantes de primeira hora das correntes nacionalistas que queriam acabar com o parlamentarismo de uma vez por todas em nome da ordem pública.

A notícia do pronunciamento de 28 de Maio de 1926, chegou a Macau rapidamente e Maia Magalhães habituado aos golpes e contra-golpes da Metrópole não parece ter levado muito a sério os acontecimentos de Lisboa. Afinal, apesar de todas revoluções e conspirações fracassadas ou triunfantes da última década certo era que o Partido Democrático (PD) acabava por, de uma maneira, ou de outra, emergir sempre na governação do país. Apenas durante o breve consulado de Sidónio Pais (1917-18) o PD se viu afastado do governo.

Porque não haveria de ser assim mais uma vez? pensaria Maia Magalhães. Terá sido nessa ordem de ideias que o governador de Macau em vez de colocar o lugar à disposição das novas autoridades aguardou tranquilamente o desenrolar dos acontecimentos. Porém daquela vez não se tratava de apenas mais uma conspiração no seio do sistema, mas sim um movimento generalizado contra os partidos acusados de desgovernarem o país, que passava então por uma das mais graves crises financeiras desde a instauração da República em 1910.

Manuel Firmino Maia Magalhães, último Governador de Macau da 1ª República.

Face ao seco telegrama que lhe impunha a demissão e nomeava interinamente o almirante Hugo de Lacerda, governador, Maia Magalhães sentiu necessidade de se justificar perante o Conselho Legislativo da colónia afirmando que não o fez porque “ as contingências da política da Metrópole não deviam reflectir-se nas colónias pelo prejuízo causado e que não se encontrava filiado no Partido Republicano Português que perdera o poder”.

Mas se era um facto que Maia Magalhães, não era militante do PD, facto era também que não nutria qualquer simpatia pelas novas figuras que acendiam nem pelo seu ideário. Maia Magalhães era um democrata de longa data e créditos firmados em combate. Primeiro contra a “Monarquia do Norte”, tendo-se distinguido na defesa de Chaves contra as tropas de Paiva Couceiro e mais tarde integrando o “Corpo Expedicionário Português” que combateu em França na “Primeira Grande Guerra Mundial”.

Maia Magalhães continuaria a luta participando em 1931 na fracassada “revolta da Madeira” contra a ditadura, sendo então preso. Morreria no ano seguinte.

Embora em Macau não se conhecessem intenções revolucionárias notórias, a demissão de Maia Magalhães constituiu um sinal iniludível de que algo iria mudar e mudou mesmo. Era chegada de novo a hora de Tamagnini Barbosa, que já tinha governado Macau (1918-19), afastar quem lhe não convinha e nesse campo não perdeu tempo. Mas se o seu antecessor tinha abandonado o campo sem luta por força das circunstâncias, o campo democrático local manteve-se firme quanto pode tendo na liderança Damião Rodrigues, o prestigiado notário da cidade, que para além de um pequeno, mas activo grupo de correligionários fieis, era também o presidente do Leal Senado e desfrutava de forte influência que se estendia largamente à comunidade chinesa.

Tamagnini Barbosa 1º Governador de Macau nomeado pela ditadura

O combate entre Tamagnini Barbosa e Damião Rodrigues foi duro e sem quartel. O governador vendo-se impossibilitado de arredar sem mais justificações o inimigo político não hesitou mesmo numa tentativa de extinguir a edilidade e transforma-la como no século anterior o tinha feito Ferreira do Amaral, numa simples secretaria do Governo unindo as fileiras da oposição.

A luta durou até 1929, feita publicamente através do jornal “O Petardo” de Isidoro da Costa, que se publicava nas tipografias de Kowloon, em Hong Kong, eximindo-se assim à censura de Macau.

Durante cerca de dois anos este jornal constituiu um libelo acusatório semanal contra a política ultramarina da ditadura, sem que Tamagnini Barbosa pudesse fazer fosse o que fosse para o calar. A oportunidade surgiria no entanto um tanto inesperadamente quando o próprio Damião Rodrigues assinou um artigo atacando pessoalmente Tamagnini Barbosa e insinuando a implicação do próprio Governador no assassinato do comerciante de ópio Lee Hysan.

Acto contínuo o governador de Hong Kong (claramente pressionado por Macau) suspendeu a publicação de “O Petardo” e pouco depois Damião Rodrigues seria preso juntamente com outros democratas e subsequentemente deportado para Timor.

Apesar da vitória, Tamagnini Barbosa, não se livrava da sombra de Damião Rodrigues. De facto, a esposa assumiu o facho democrático do marido levantando a opinião pública e conseguindo fazer chegar a Lisboa um abaixo-assinado de protesto contra a prisão. Naturalmente que o protesto não obteve resultados práticos, mas reanimou as hostes levando a que nas eleições para o Conselho de Governo de 1930, Damião Rodrigues, apesar de desterrado se visse eleito como vogal suplente e o seu advogado vogal efectivo. A eleição de ambos seria no entanto anulada sob o pretexto de ambos serem funcionários públicos situação prevista na Carta Orgânica.

O “jornal de Macau” veria em tudo isto não só uma prepotência mas mais ainda uma censura ao “Estado Novo” afirmando: – O acto governativo a que acima nos referimos foi sancionado pelo Governo Central e assim somos levados à conclusão de que essa fracção do eleitorado de Macau elegendo neste momento o Sr. Dr. Damião Rodrigues para vogal suplente do Conselho de Governo, estando este Senhor afastado da Colónia por motivo desse sancionamento do poder superior, implicitamente envolve o Governo Central numa censura que outra coisa não procura ser essa mesma manifestação embora de um platonismo forçado pela Carta Orgânica”.

Como ilustração da fibra combativa de Damião Rodrigues, há quem recorde que depois de regressar a Macau do exílio timorense colocou na parede do átrio de entrada de sua casa um retrato de grandes dimensões do ex-líder do Partido Democrático Afonso Costa. Dizem que ali o manteve bem patente em simbólico desafio à ditadura até à sua morte em 22 de Julho de 1942.

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Portugal, Macau, o IPOR e o “Pátio das Cantigas” 20-07-10

Começo por parafrasear Vasco Santana, no “ O pátio das Cantigas”, quando o genial actor, bem “tocado” por uns quartilhos de tinto, pede lume ao candeeiro de iluminação pública e este, soberano, se exime a satisfazer o pedido manipulado pelo não menos famoso astro do cinema de então que se chamava Ribeirinho, que com seu irmão António Lopes Ribeiro fez o argumento do filme. Um “script repleto de equívocos e duplos sentidos”.

– “Compreendi-te (Diz Vasco Santana no papel de Narciso). Não te rebaixas a dar lume a este humilde cidadão. Pensas que és o Sol?…”. Este monólogo memorável ficou para a história do cinema nacional como as fábulas de Esopo para a história da ética e moral universais (penso que não exagero muito neste paralelismo!).

A citação surge tendo em conta a recente visita a Macau da Presidente do “Instituto Camões” Ana Paula Laborinho, que superintende sobre o IPOR.

Do que disse, ou deixou de dizer pode inferir-se que à semelhança do candeeiro de Vasco Santana, igualmente, o “Instituto Camões” se negou a dar lume ao humilde Narciso que precisava apenas de reacender o que restava de uma beata semi-apagada.

Nesse contexto de visita oficial citaria António Aleixo: – “Sou humilde, sou modesto; Mas, entre gente ilustrada, Talvez me digam que eu presto, Porque não presto p’ra nada”. Este trecho do poeta popular algarvio, que às vezes em momentos de irritação, apetecia chamar à colação como protesto geral, ou “grafity” anarquista de parede é pronunciamento evidentemente exagerado, ou mesmo liminarmente injusto, no âmbito do que me proponho dizer a seguir. Sendo assim peço ao leitor que tenha em conta Vasco Santana e esqueça António Aleixo.

Assim temos uma analogia que não parece descabida tendo em conta que com a retirada progressiva da “Fundação Oriente” da “frente de combate de Macau”, a beata da difusão da cultura portuguesa a nível local parece efectivamente condenada a esmorecer até final e languidamente cair de lábios bêbados e apagar-se de todo, irremediavelmente, na quadrícula preta e branca de basalto da calçada à portuguesa do Centro Histórico. Isto, enquanto o candeeiro da iluminação pública se vai retirando sorrateiro pela “Rua da Palha”, descendo as escadinhas traseiras do “Embaixador” até se esconder definitivamente no misterioso “Pátio da Mina” (dorme-se lá bem porque fica à sombra e costuma estar mais fresco nos dias de calor).

Ficam-se as pedras e vão-se as pessoas.

Um exemplo deste esmorecimento “imerecível” como diria Mário Henrique Leiria, posta-se diante de nós não muito longe. É em Malaca, onde uma comunidade votada durante séculos ao abandono sobreviveu encerrada em si e graças a si própria até hoje.

Esse diminuto grupo étnico não enfrentou a extinção por pouco, mas também não gerou cultura nem se afirmou no contexto geral de um país (Malásia).

Há umas décadas para cá essa pequeníssima comunidade “malaquenha”, lá começou a receber uns tímidos apoios oficiais de Portugal, ainda que parcos e curtos de vista.

Mas de que lhe serviram senão para continuar a ser a mesma comunidade de pescadores pobres que sempre foi. O “ban portuguete” (Creio que é assim que se diz em crioulo dessas partes), ou “bairro português” organizou um rancho folclórico que actua num restaurante chamado S. Pedro. Não sei se já haverá outros mais e semelhantes, actualmente, abertos ao público, com outros ranchos folclóricos e marchas de Santos Populares nos respectivos dias consagrados aos ditos que darão emprego a uma dúzia, ou duas, de pessoas. Mas o que se tenha acrescentado culturalmente desde há cinco décadas para agora à “extraordinária Malaca” dos Tempos de Albuquerque continua a ser parca esmola a pedinte de rua.

Que tem a dizer de si actualmente o “ban portuguete” no contexto da Federação da Malásia?

Que validade terão tido tais esforços isolados e principalmente estrategicamente incoerentes implementados desde os anos sessenta do século passado?

Resposta: – Pouco mais do que acrescentar nada ao que já havia antes. E o que existia é o mesmo que ali jaz hoje, em dia, para turista ver: – fieis católicos, que vão à missa ao Domingo; procissões; inestimáveis homens da Igreja, como o malogrado Padre Pintado (autor de todas a monografias publicadas e conhecidas sobre o sítio depois dos cronistas de quinhentos); uma pequena porta de armas da muralha antiga (Porta de Santiago); a Igreja de S. Francisco, contemporânea de Afonso de Albuquerque, acerca de cujas paredes a “câmara municipal” da cidade continua ainda hoje a fazer exercícios de acrobacia financeira para manter de pé, sem ajudas de quase ninguém; e um museu pequenino e parcamente cuidado. Na verdade o que Malaca possui de substância histórica e cultural são pedras. O resto é Malásia onde se fala inglês.

Tudo isso é pouco, ou muito, consoante se entender, ou se tiver em conta que em Malaca, tal como no resto do Mundo, os orçamentos para a cultura costumam ser iguais ao das provas reais, ou seja: – noves fora nada. E o que é que faz Portugal nesta conjuntura lamentável? Nada!

Com esta comparação não pretendo ser catastrofista e muito menos fazer de ave de mau agoiro. Não!

Macau, dotado de uma comunidade viva e actuante, que luta actualmente, por exemplo, para instituir o “patuá como património intangível da humanidade e parece estar em vias de conseguir esse feito, não está, nem de longe nem de perto, a enfrentar situação comparável à dos “malaquenhos”. Bem pelo contrário.

No entanto tenho para mim que os exemplos da história devem ser tidos em conta para que erros não se repitam, ou então para que soluções inovadoras sejam encontradas de forma a evitar que o passado se volte a manifestar de maneira idêntica, irritantemente repetitiva e com consequências semelhantes, ou piores, como o girar do mundo evidencia nas mais diversas partes do globo e sob as mais diversas formas. Ou então para não ter que aceitar as teses do taoismo que nos informa que a vida são ciclos. Umas vezes a roda está em cima, outras em baixo. A civilização lusa rejeita tais fatalismos. Quanto mais não seja o Portugal do fado nunca deixou de acreditar na redenção do “Quinto Império”.

Neste ponto não posso deixar de citar um trecho do malogrado Eduardo Prado Coelho, num dos seus últimos escritos, publicado em 2007: – “Pertenço a um país: – … Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem  que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica”.

Longe de mim implicar nesta citação os agentes do Estado Português, que fazem o seu melhor tendo em conta os orçamentos de que dispõem e principalmente a ordem de que se têm vindo a ver incumbidos que é a de dar prioridade aos negócios. Não aos negócios estrangeiros, a que os nossos embaixadores estiveram habituados desde que a diplomacia é diplomacia em Portugal, mas apenas ao primeiro vocábulo da composta palavra, ou seja: – negócios “tout court”.

Se a nossa política externa se ficar pelos tais negócios “tout court” receio bem que, pelo menos no que toca ao Extremo-Oriente, tenhamos fracasso certo à vista.

Há porém neste contexto aparentemente ominoso muitos mais motivos de optimismo do que o contrário.

Primeiro: – porque a comunidade macaense no seu todo (por muito que tal se ponha em duvida) possui uma identidade própria independentemente da origem dos cidadãos que a compõem vai para meio milénio.

Segundo: – porque o segmento lusófono que a integra não é amorfo (poderá ser fatalista reflectindo atavismos), nem alheio, nem neutral, e muito menos imigrante.

Terceiro: – porque existe um acordo entre Portugal e a China que informa, forma e indica uma etapa sobre a qual ainda restam 40 anos por cumprir.

Quarto: – porque a China tem demonstrado, até agora (e nada indica que modifique essa atitude), a maior das boas fés em matéria de cumprimento da “Declaração Conjunta”. Mesmo quando se sabe que os tratados internacionais não passam de facto de “papéis de vento” circunstanciais e a China motivos teria (e de sobra) para os rasgar a todos, tendo em conta as humilhações sofridas pelas potências ocidentais durante o século XIX.

Quinto: “Last, but not the least” porque Pequim entende que a lusofonia em Macau é um instrumento útil que deve não só ser preservado como incentivado e muito provavelmente não só pelas 40 décadas que juridicamente restam.

Tendo tudo o que disse tem em conta que não se pede ao Estado português que mande dinheiro directamente, ou por interpostas pessoas, ou instituições, para sustentar uma escola, um asilo, um jornal, ou um qualquer projecto privado. Não! As instituições lusófonas locais não precisam de pedir dinheiro a Portugal que (muito mais neste tempos de crise) é evidente que o não tem. Aliás Macau terá sido das poucas colónias portuguesas que nunca pediu dinheiro à Metrópole para se financiar (ao contrário de outras), mas exige apenas ao “Palácio das Necessidades” que não se esqueça do que no livro de contas do deve e haver da história Macau sempre constou e com proeminência na lista dos activos com super-avit.

Acima de tudo o Território nunca foi nem será nunca um livro de balanços contabilísticos. Para a actualmente abrangente, global e lusa Pátria, Macau é pura e simplesmente uma questão de cultura. A nossa cultura que existe viva e actuante pelos quatro continentes.  Haja quem o entenda e o assuma (em Lisboa é claro) porque aqui já sabemos, há muito, onde vivemos e com o que contamos.

Dois irmãos na ponte de comando contra os piratas de Coloane. 13-07-10

Passa agora o centenário dos combates contra os piratas na Ilha de Coloane, no que terá sido talvez a última grande campanha naval ultramarina da monarquia. Muita coisa se tem dito sobre o assunto, mas um estudo mais aprofundado sobre o episódio está ainda por fazer.

Na generalidade sabe-se bem como as coisas aconteceram e o eco que lhes foi dado não só na imprensa portuguesa como internacional. Permanecem porém alguns detalhes que nunca foram referidos e que vale a pena salientar a propósito desta efeméride.

Um deles é o facto de dois dos mais importantes chefes da marinha de guerra portuguesa presentes nas operações serem irmãos.

Refiro-me ao comandante do “Cruzador Rainha D. Amélia”, que com os seus fuzileiros forneceu o grosso das tropas de desembarque e ao imediato da Canhoneira Macau, navio que efectuou o bombardeamento da vila de Coloane, barragem de artilharia que cobriu e antecedeu o avanço das forças de assalto.

Trata-se de António e Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Basto.

António era o comandante do “Cruzador Rainha D. Amélia” que efectuava em 1910 o habitual périplo da marinha portuguesa pelas colónias asiáticas. Manuel era o imediato da “Canhoneira Macau”.

Mas enquanto António efectuava a sua primeira viagem ao Extremo-Oriente, já como oficial superior, Manuel era ainda apenas um segundo-tenente que iniciava uma comissão de serviço na colónia portuguesa da China. Uma comissão que haveria de ser longa mais longa do que o inicialmente esperado (o habitual eram quatro anos), recheada de episódios misteriosos e que terminaria num fim inesperadamente extemporâneo e dramático.

Manuel Jervis  de Athougya Pinto Bastos. Fotocópia da foto constante no seu processo existente no Arquivo da Marinha.

Manuel Jervis foi o oficial que após o bombardeamento da vila, em Julho de 1910, desembarcou com cerca de 40 fuzileiros que seguiam a bordo da canhoneira para efectuar a ocupação efectiva da vila e das imediações. Só depois disso o grosso das tropas apoiado pela artilharia poria pé em Coloane e iniciaria a escalada sistemática dos alcantis montanhosos da ilha varrendo o terreno de lés a lés numa operação que culminou com o aprisionamento dos últimos piratas refugiados numas grutas do lado oposto ao desembarque alguns dias depois.

Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Basto nasceu em Lisboa em 1882 e entrou para a Marinha exactamente ao dobrar do século (1900). O seu primeiro contacto com Macau ocorreu em 1905, quando integrou a tripulação da “Canhoneira Rio Lima”, vazo de guerra envelhecido, que a “Canhoneira Macau” viria a substituir em 1909.

Apesar da sua juventude, para além de oficial corajoso, como ficou demonstrado em Coloane era igualmente dotado de valor intelectual e científico acima da média. Essa faceta é revelada pelo trabalho desenvolvido na determinação das coordenadas geográficas exactas do Farol da Guia.

Farol da Guia. Cortesia Blog Macau Antigo.

Este trabalho foi tanto mais relevante quanto o “GPS” seria aparelho que só surgiria cem anos mais tarde para banalizar a questão e obliterar de todo bússolas, altímetros e mais ainda sextantes quinhentistas.

Na altura determinar as coordenadas, mesmo de um objecto físico imóvel como era o Farol da Guia, exigia um sem número de operações no terreno, consulta de cartas geográficas e topográficas, cálculos, novos cálculos, correcções e mais correcções que exigiam não só estóica paciência e disciplina como particular rigor e sólidos conhecimentos científicos. O trabalho revelava-se na altura tanto mais importante quanto se negociava nas chancelarias diplomáticas de Pequim e Lisboa a delimitação das águas territoriais de Macau. A sua persistência valeu-lhe um louvor do Governo do Território publicado em Boletim Oficial em Agosto de 1906.

Pouco depois, e um ano antes de rumar para a sua última comissão de serviço em Macau, Manuel Jervis, viria a ser também louvado pelo Governo de Lisboa pelo seu trabalho de sondagens e estudos de marés que executou no Funchal (Ilha da Madeira) em 1908 quando fazia parte da tripulação do “Cruzador Vasco da Gama”.

Para além dos seus conhecimentos científicos, Manuel Jervis era também particularmente dotado em matéria linguística como o prova o facto de falar e escrever fluentemente chinês, conhecimentos que lhe valeram passagem nos exames formais que prestou em 1917 que o deram como proficiente no dialecto cantonense com nota final de 15 valores.

Terão sido estes dotes juntamente com o facto de se encontrar bem integrado no seio da comunidade chinesa local e manter contactos, muitos de alto nível, com Cantão, que fizeram com que se tornasse responsável pelo sector das informações estratégica e de segurança da Marinha em Macau.

Neste âmbito, qual precursor “007” de Ian Fleming, ele próprio se encarregaria de uma das mais delicadas e perigosas missões que lhe foram atribuídas durante a sua carreira.

A China levava dois anos de república e Yuan Chi Kay, recebia o poder de Sun-Yat-sen, preparando-se para criar o ambiente político necessário a fim de restabelecer a monarquia consigo próprio como imperador.

Postal ilustrado a cores de Yuan Chi Kay, Presidente da República da China, 1913.

Em todo o país as facções digladiavam-se e Guangdong rebelava-se contra o governo central declarando a cessação do resto do país. Saber ao certo o que se passava do outro lado das Portas do Cerco era pergunta a que nem a nossa embaixada em Pequim, nem o consulado português em Cantão conseguiam responder. Principalmente no que tocava às intenções prevalecentes relativamente ao futuro de Macau. Recorde-se que as proclamações nacionalistas inflamadas contra a presença europeia na China tinham subido alarmantemente de tom desde a proclamação da República em 10 de Outubro de 1911.

Assim, para tentar esclarecer cabalmente o confuso panorama político Manuel Jervis foi encarregado de se deslocar a Cantão, indagar e depois fornecer relato sério e coerente às aflitas autoridades de Macau, que no interior do Território tinham que gerir também as actividade subversivas de uma miríade de facções e grupos de interesse os mais dispares. Tolerar essas actividades, proibir alguma, ou expulsar líder político errado poderia trazer consequências políticas gravíssimas a curto, médio, ou mesmo longo prazo. A aliar a tudo isso a intensificação do tráfego da marinha de guerra chinesa que cruzava junto às costas de Macau em rotas cada vez mais próximas adensavam as nuvens negras que ascendiam no horizonte.

A missão de Manuel Jervis foi coroada de êxito. Depois de vários dias em Cantão e de contactos com as mais diversas fontes aos mais diversos níveis, o oficial da marinha que tinha levado consigo um agente da Polícia Secreta de Macau “disfarçado de boy” (criado particular) regressou com notícias optimistas.

Congresso da República da China (1913).

Macau podia descansar. Yuan Chi Kai tinha de momento mais com que se preocupar no Norte do que em desenhar estratégias para expulsar os portugueses de Macau, ou os ingleses de Hong Kong no tumultuoso Sul.

Por seu turno Sun Yat-sen conjunturalmente afastado do poder estaria igualmente interessado em tudo menos pôr em causa um território onde continuava a contar com apoio unânime e que em qualquer eventualidade lhe poderia servir para voltar ao exílio, ou regressar à China, como o tinha feito tantas vezes antes sempre que os ventos da política lho impuseram.

Depois dessa missão (cujo relatório publiquei há uns anos na “Revista da Cultura ”) Manuel Jervis continuou a efectuar inúmeras deslocações a Cantão, sempre oficialmente justificadas como viagens de turismo e recreio como consta dos arquivos da Marinha.

Cantão. Rua Tang Lam. 1913

Tudo indica que terá sido através dessas digressões aparentemente lúdicas que o diálogo oficioso entre os governos de Cantão e de Macau fluiu até ao dia 11 de Junho de 1919.

Quatro dias depois dessa data os jornais de Macau publicavam uma notícia que chocava toda a gente: – “De chofre caiu no dia 11, sobre a cidade a notícia do falecimento repentino a bordo do Sui-an (vapor que efectuava a carreira regular entre Cantão e Macau) do ilustre 1º Tenente Manuel Athouguia, comandante da “lancha Canhoneira Macau”. É impossível descrever a comoção que de todos se apoderou, sabido como é que o distinto oficial tinha um amigo, um admirador em todo aquele que com ele convivia… O infeliz oficial sucumbiu vítima de uma congestão que em menos de dois minutos o roubou à vida… Foi uma grande desgraça e uma enorme perda para a nossa Marinha de Guerra.

O funeral realizou-se em 12, às seis e trinta incorporando-se nele toda a população da Colónia… S. Ex.ª o Governador (Joaquim Augusto dos Santos) acompanhou o cortejo fazendo um discurso junto da sepultura”.

Para além das condecorações e louvores que possuía, Manuel Jervis era também detentor da mais alta distinção militar portuguesa; o grau de “Cavaleiro da Antiga e Muito Nobre Ordem da Torre e Espada de Valor Lealdade e Mérito”.

Curiosamente, quando consultei o que constava sobre este oficial no Arquivo da Marinha, há mais de uma década, o almirante Vítor Crespo que então era seu director manifestou-se um tanto perplexo.

– Sabe, disse-me, há neste processo uma coisa estranha que é o facto de lhe ter sido atribuída a “Torre e Espada”, mas não constar justificação para tal.

Perante o meu olhar interrogativo o almirante concluiu: – É que a concessão da “Torre e Espada” tem que ter sempre exarada publicamente a justificação, não é como as outras condecorações, acentuou, é a mais elevada distinção de Portugal.

O almirante esboçou então um assomo de subtil sorriso, passou-me as fotocópias do processo para as minhas mãos e não disse mais nada…

Ambos percebemos que quaisquer que tenham sido os feitos de Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Bastos, nunca poderiam ser publicamente revelados. Foi um herói e pronto.

Morreu com apenas 37 anos de idade.

Repercussões do 25 de Abril de 1974 em Macau

Maiores, ou menores, as repercussões das revoluções portuguesas fizeram-se sempre sentir em Macau com um impacto igual (ou quase igual) ao da Metrópole. Uma história que se repete desde sempre. Naturalmente que, noutros tempos as notícias andavam mais devagar, mas não é menos certo que produziam efeitos.

A revolução liberal de 1820 chegou ao sabor dos ventos das escunas, atracando a Macau com um atraso de dois anos. No entanto, quando chegou, provocou alterações de vulto transformando nomeadamente durante cerca de um ano a colónia portuguesa da China numa república virtualmente independente.

Oitenta anos depois (5 de Outubro de 1910), veio a República verdadeira, e Macau sofreu de novo o efeito das mudanças, ainda que de novo efémeras. Os heróis da Rotunda subverteram o regime na Metrópole do lado do Atlântico. Do lado do Pacífico, não em dois anos, como antes, mas em poucos dias, graças ao telex (sucessor do telégrafo do século anterior), sabia-se  dos acontecimentos. A agência Reuter, precursora, pela palavra, da televisiva CNN dos tempos de hoje, dava as primeiras notícias da revolução, com um lapso de tempo que pouco ultrapassava os três dias reduzindo a lacónico telegrama  o epílogo da saga da centenária Casa de Bragança; ” Rei D. Manuel abandona Paço e refugia-se a bordo de fragata inglesa surta no Tejo”. Parcas e economicistas palavras para anunciar o fim de uma dinastia, plena de romance e de mistério que vinha da revolução restauradora de 1640, mas o progresso impunha-se…

No entanto, ressalvadas as diferenças de quase um século de progresso, a situação acabava por se repetir. Macau aceitava o impacto de mais uma revolução metropolitana, conhecia excessos similares aos de 1820, embora sem a dimensão daqueles e regressava depois à normalidade de sempre, sem mudanças excessivas, nem paixões inadequadas. Assim, passado o fervor revolucionário a quente, reposto o câmbio da pataca e substituída a edilidade, as alterações acabaram por se traduzir, quando muito, na conclusão dos ofícios que deixaram de ser em nome D`El Rey e passaram a desejar “Saúde e Fraternidade” …

Regressados os jesuítas, alguns anos mais tarde, Macau voltava obedientemente ao controlo do Terreiro do Paço e ao sossego.

Pelos dezasseis anos seguintes que mediaram entre a proclamação da República e a eclosão do 28 de Maio de 1926, movimento liderada pelo prestigiado marechal Gomes da Costa que Macau conhecia muito bem, tudo correu dentro dos limites da decência e da normalidade histórica. O Marechal, aos olhos de Macau, que o tinham visto crescer, era apenas um “pequeno estudante” que tinha sido educado no seminário de S. José (ao alto da Calçada do Tronco Velho) e que, regressado a Portugal, tinha feito a academia militar distinguindo-se nos combates da Flandres, durante a “Primeira Grande Guerra Mundial, nos idos de 1914-18. Todos lhe reconheciam mérito, mas não se podiam esquecer da sua juventude de aluno traquina, cujas proezas os velhos professores de S. José se lembravam, sorrindo, como sabem sorrir os sábios complacentes.

A revolução do marechal seminarista, ao contrário das anteriores, foi insidiosa. Mais insidiosa do que qualquer outra. Por isso, os seus efeitos em Macau não se mostraram tão drásticos, nem tão perversos. A marcha  do marechal  desde Braga até Lisboa  não levantou fervores revolucionários particularmente assinaláveis, e os seus ecos em Macau limitaram-se tão somente a determinar por decreto a exoneração do governador Maia Magalhães nomeando Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, um incondicional do novo estado de coisas (que ainda não era Estado Novo) para o substituir, ou seja, tudo dentro da discrição burocrática de um regime que não admitia excessos. Mas se excessos ouve, estes não passaram dos protestos e da ordem de deportação dada pelo novo chefe da administração local, ao Dr. Damião Rodrigues que teimava em continuar indefectível na senda republicana e ameaçava a “estabilidade” continuando a publicar os seus pontos de vista nos jornais. Mudanças significativas apenas se podem assinalar precisamente nos jornais, onde os directores passaram, por força de lei, a ter de ser licenciados, o que levou a que os democratas de antes,  como José Constâncio da Silva (“A Verdade”) possuidor apenas do quinto ano liceal, tivesse que ceder (ainda que nominalmente) no cabeçalho da sua primeira página o título de director a um engenheiro maquinista naval. Quanto ao resto, o Território, adaptava-se ao Estado Novo sem sobressaltos de maior. A atestá-lo ficava o testemunho da conversão do dito Constâncio José da Silva, (maçon pertinaz e herético convicto), uns anos mais tarde, em Xangai, à hora da morte. Uma conversão igual à de Guerra Junqueiro umas décadas antes, significando no tempo e no espaço a distância a que Macau se encontrava de Lisboa e do correr do mundo.

Entretanto, Herman Monteiro, um dos democráticos (de Afonso Costa) exilados pelo novo regime chegava a Macau, eivado de ideias republicanas. Inconsciente (como todos os recém-chegados) da verdadeira realidade de Macau, Herman Monteiro, pegava no jornal de Constâncio José da Silva (que morria na China) e ressuscitava a chama da oposição ao Estado Novo, de  parceria com  o capitão Rosa Duque (também ele um republicano de velha cepa) conseguindo, através de denodados esforços, os capitais necessários para manter o diário do defunto de Xangai, antes que se finasse com ele por falta de fé… e de patacas. Mas, nem “A Verdade”, nem o seu sucedâneo “O Combate” eram já títulos capazes de se defrontar com a “normalização” tenaz e burocrática implementada por Salazar.

A verdade, era agora monopólio do Estado Novo e combate constituía vocábulo demasiado duro no léxico do ditador de Santa Comba que não se confrontava ainda com a guerra no Ultramar. Assim, talvez para agradar ao progresso e evitar cortes mais drásticos do lápis azul da censura, foi decidido mudar o cabeçalho que ficou a ser “Notícias de Macau”.

O “Notícias” foi um jornal irredutível durante alguns anos, até perder a importância da palavra conjuntamente com a liderança do capitão, morto no seu posto de combate como recomendava o Regulamento de Disciplina Militar e a ética democrática.

Herman Monteiro, assumiu em seguida a direcção da voz heterodoxa macaense em nome do republicanismo que, diga-se, perdia terreno face às novas ideias. Na cidade, o doutor Vivaldo Rosa, um conhecedor do mundo, por exemplo, defendia teses tão imerecíveis como as do marxismo-leninismo (supremo sacrilégio…!) detestadas por Salazar, escrevendo-as em entrelinhas no “Notícias” ainda que a contra gosto da censura e a contracorrente dos ideias do director do diário, que no entanto aceitava o facto e eventuais consequências com a convicção dos democratas tolerantes por natureza.

No entanto, a verdade é que Macau se encontrava demasiado longe da Metrópole. Para a cidade, ocupada por duas comunidades distintas (portuguesa e chinesa) movidas e unidas apenas por interesses económicos coincidentes, pouco importava o debate (ainda que universal) entre comunistas e fascistas que se desenrolava no mundo ocidental dos anos 30, 40 e 50. No Território, as ideologias discutiam-se de uma forma teórica e literária. O verdadeiro debate acalorava-se nas tertúlias do “Riviera”, mais fleumáticas, como afirmavam alguns e às discussões da Solmar (desde a abertura deste restaurante, em 1961), onde em amenas cavaqueiras macaenses, se criticavam os passos do governador, se forjavam os borrões de futuros decretos de lei, se dizia mal da Administração, ou pura e simplesmente se “cortava na casaca” de quem quer que fosse, entre dois copos de whisky. Para o microcosmos da Solmar, porém, tudo isso era o mundo, e o mundo era um pequeno território de dezasseis quilómetros quadrados, onde o “governador da Praia Grande” era discutido como se se tratasse de um Estaline, Churchill, Deladier, Eisenhower, ou simples presidente da freguesia, conforme os pontos de vista dos circunstantes e o calor da discussão. O próprio Herman Monteiro, já então perfeitamente adaptado ao longínquo Oriente, e esquecido  dos gloriosos feitos da Rotunda de 1910, passou a considerar mais importante o diz-se que disse local do que as conspirações do Alfeite, transfigurando Salazar no governador  e os seus ministros no secretário-geral do governo (solução redutora, mas perfeitamente adequada ao Território) reconhecendo-lhes os mesmos defeitos, daqueles. Embora como bom republicano, civilizado e observador dos bons costumes (ou não fosse também maçon), não deixasse de apertar a mão a um e a outro nas recepções oficiais da Praia Grande, ou do Clube Militar.

Resumindo: Macau continuava como sempre tinha sido, ou seja, uma verdadeira metrópole cosmopolita nuclearmente formada por chineses e portugueses, mas onde não eram estranhos ingleses, alemães, franceses italianos, filipinos, malaios e, sabe-se lá quantas outras nacionalidades, coexistindo todos em boa paz e harmonia conjuntamente com os conceitos revolucionários de Mao Tsé-tung, as ideias revisionistas de Moscovo pós Kruschev, o espírito liberal dos exilados da “Revolução de Maio” o anticomunismo primário dos russos fugidos da revolução de 17 e os próprios representantes do regime. Tudo isto envolto num cenário formado por duas ou três colinas verdes, alguns fortes espalhados pelos cumes, e um casario baixo, de arquitectura colonial que se mostrava aos visitantes com contornos mediterrânicos no espraiado semicírculo de frontarias da Baía da Praia Grande. Enfim, um ambiente aparentemente plácido que formava a colónia mais distinta do ultramar português.

Uma opinião reiterada pelo antigo governador Nobre de Carvalho ao salientar que “de mais a mais, como diziam até vários estrangeiros que tinham visitado outras colónias portuguesas, Macau era o território mais livre de todos, a não ser uma censura benévola que havia. Mas não havia Legião Portuguesa, não havia polícia política, não havia opressões não havia perseguições de nenhuma ordem. Havia Mocidade Portuguesa, mas sem grande relevância“. Embora Macau não fosse o paraíso, como o antigo governador poderia deixar supor, registando-se aqui e ali casos de prepotências e compadrios, certo é que estes eram ditados muito mais pela política local do que por motivos de oposição ao regime da distante Metrópole. A mesma ideia, no que à censura se refere, é perfilhada pelo chefe de gabinete do governador, general (então major) Lajes Ribeiro que anteriormente tinha comandado a P.S.P. “Se em Portugal não tínhamos relações com países comunistas, também não tínhamos os livros publicados por eles e, se existiam eram clandestinos. Em Macau não. Em Macau toda a literatura comunista em todas as línguas estava nas montras! Toda a gente podia comprar. Nunca houve uma apreensão de um livro por estar no índex da PIDE. Devo dizer que, nós, na polícia, recebíamos o índex da PIDE e nunca na vida pensámos em entrar numa loja para apreender um livro. Aquilo que normalmente acontecia e que eu pessoalmente fazia era ver se ainda encontrava um exemplar para o comprar.(…) Os jornais chineses que são mais ou menos os que ainda agora existem, não eram vistos (pela censura). Não fazia sentido que o fossem, quando acabei de dizer que as livrarias vendiam tudo quanto, digamos, havia na antologia comunista. Não era a um artigo de jornal que nós podíamos fazer censura. Não tinha lógica. Os jornais portugueses, sem dúvida nenhuma, que mandavam as provas para os vogais que estavam de serviço. Não tenho de cor o número de cortes que tenham sido feitos. Mas do que me recordo é que algum artigo que eventualmente pudesse ter algum toque a que o governador fosse mais sensível eu levava-lho ( ainda que isso raramente acontecesse). Ele lia e perguntava sistematicamente a mesma coisa:

– O que pensa?

– Eu acho que deve ser publicado.

– Então publique“.

Tal situação permitia que muitos militares pudessem tomar contacto pela primeira vez com o socialismo, lendo as obras de Mao Tsé-tung, com a discrição devida, mas sem receio de serem presos pela PIDE. Entre estes ter-se-há contado o próprio Arnaldo Matos, antigo dirigente maoista (fundador do MRPP), que como oficial miliciano, fez a sua comissão de serviço em Macau nos tempos da guerra colonial.

Mas se a circulação da literatura subversiva se introduzia nos quartéis da guarnição portuguesa local mais facilmente ganhava adeptos e incendiava os espíritos da comunidade chinesa, principalmente dos jovens, contribuindo com a sua quota parte para que o caldeirão ardente da  Revolução Cultural tivesse transbordado para Macau.

Macau. Av. Almeida Ribeiro. Lei Marcial, “1, 2, 3”, 1966.

Em 1966 Macau tinha vivido um momento de incertezas. A Revolução Cultural da China, provocara danos incalculáveis que se estenderam ao Território onde os guardas do socialismo (operários e estudantes) empunhando o “livrinho vermelho”  tinham tido a ousadia de invadir o palácio da Praia Grande (derrubando as barragens policiais ) e obrigando o recém chegado governador Nobre de Carvalho, ignorante do que se passava  a ouvir  em indecifrável cantonense as palavras revolucionárias  de Mao Tsé-tung, facto que para além de ofender a ordem pública, perturbava o normal despacho da burocracia governamental que  teimava  em continuar apesar do “cataclismo” em curso. Nobre de Carvalho, apesar de ter sido avisado do que se passava apenas à chegada a Hong Kong pelo seu homólogo britânico, saiu-se menos mal do caos político  oriental conseguindo, ao contrário de Vassalo e Silva (em Goa) salvar Macau de uma eventual (ainda que muitos considerem duvidosa) invasão e retomar o ritmo de crescimento económico que se prefigurava antes, mas que tinha sido brutalmente interrompido quando ainda mal dava os primeiros passos.

Mas, Nobre de Carvalho “teve muito azar. Quando chegou a Macau apanhou com o 1, 2, 3, sobre o qual sabia talvez menos do que eu e no fim do mandato com o 25 de Abril”, recorda o então director da Rádio Macau, Alberto Alecrim. Mas se o governador nada sabia da Revolução Cultural que conheceria do que se preparava em vésperas de 25 de Abril de 1974? Provavelmente ignorava tudo. Quando muito, o seu chefe de gabinete; Lajes Ribeiro seria o mais avisado para os efeitos que uma guerra colonial, que se prolongava há 13 anos consecutivos, provocava nas fileiras militares, cada vez mais desmoralizadas. Isto a avaliar pelos contactos que tinha mantido pouco antes na Metrópole durante um breve curso de promoção com oficiais que participariam activamente na revolta de Abril, nomeadamente com o major Ramalho Eanes. O regresso a Macau afastou-o porém dos corredores da conspiração impedindo-o de seguir os acontecimentos. Quanto à generalidade da população mantinha-se alheia já que as notícias de Portugal chegavam previamente censuradas de Lisboa aos jornais e os rumores trazidos pelo correio, ou por um ou outro novo oficial que chegava não eram nem suficientemente claras nem consistentes para provocar mais do que boatos. A tentativa fracassada de sublevação do regimento de infantaria 5 das Caldas da Rainha de 16 de Março de 1974, também não esclareceu ninguém já que mais uma vez os três jornais de Macau (“Gazeta”, “Notícias” e “Clarim”) recebiam apenas para publicação inócuos telexes da Agência ANI informando que “a situação estava calma em todo o país” e nada mais. Por seu turno o serviço mundial da BBC, retransmitido pelas rádios de Hong Kong e amplamente escutado em Macau pouco mais acrescentava. No entanto, ” que o ambiente andava tenso em Portugal todos sabíamos, mas ninguém esperava uma acção tão súbita das forças militares. E que a insatisfação no país e a guerra em África tinham de ter um desfecho, também se sabia“, escreve nas suas memórias” Graciete Batalha, professora do ensino secundário e membro do então Conselho Legislativo.

Mas, apesar da sensação de que algo ia mal na Metrópole certo é que tal facto esteve longe de constituir óbice à reunião solene da sessão legislativa para ouvir um longo discurso do governador Nobre de Carvalho, no qual figurava as grandes linhas de acção futura, com destaque para os grandes benefícios que a eminente conclusão da ponte entre Macau e a Taipa traria ao Território. Terminado o discurso foi a vez do deputado Henrique de Senna Fernandes, agradecer protocolarmente a presença e os esclarecimentos do governador. Depois disso e também de acordo com o costume, o Conselho elaborou o habitual telegrama de apoio ao regime e à sua política ultramarina. Fui até eu que redigi o telegrama, que seguiu para Lisboa (chegando à capital precisamente no dia 25 de Abril), lembra Senna Fernandes, que acrescenta: – Fi-lo com convicção, porque nós ultramarinos gozava-mos de uma situação privilegiada no antigo regime. Sentíamo-nos garantidos com essa política.

Senna Fernandes com o Governador Nobre de Carvalho

Vinte anos depois, Senna Fernandes recorda com humor a situação então vivida que no entanto, quando chegadas, as notícias da revolução estiveram longe de constituírem novidade que lhe fosse agradável: Cerca das três e tal, da tarde do dia 25 de Abril fui para o meu escritório, quando recebo um telefonema do Pedrinho Lobo que me diz: “Tu estás lixado! Acabaste de fazer o discurso de apoio ao regime e o regime caiu”. Cinco minutos depois telefona-me meu pai a dizer também que Marcelo Caetano e Américo Tomaz “tinham ido ao ar”. Claro que já não trabalhei mais nesse dia. Eram notícias tão impossíveis para nós que tínhamos sido criados no regime“.

Durante todo esse dia Alberto Alecrim continuou a manter no ar a programação normal da rádio, sem que os telexes das agências Reuter e France Press, recentemente instalados nos estúdios da emissora mostrassem nada que merecesse destaque especial nos boletins noticiosos. Só à noite Alecrim soube da revolução e não através dos telexes, mas sim graças a um visitante da emissora. “Ficamos logo a recolher toda a informação disponível nos telexes e nas rádios estrangeiras, que levei depois ao Portas do Sol onde estava o senhor major Lajes Ribeiro a jantar (era o Abril em Portugal que se comemorava todos os anos) e a quem entreguei tudo o que tinha podido recolher. Mas o chefe de Gabinete do Governador já sabia.

Já sabia porque a notícia chegou-me por um telefonema do posto de rádio da polícia o qual recebia a Press (então assim chamada) que me deu conhecimento de que tinha acontecido o movimento e tinha sido feita aquela declaração inicial que recebi passado algum tempo e tive ocasião de dar a notícia ao major Rocha Vieira (Chefe do Estado Maior do Comando Territorial Independente de Macau). Foi com muita alegria, porque todos nós, ou pelo menos muitos de nós ansiavam que a solução viesse. Esclarece Lajes Ribeiro.

Independentemente das suas próprias convicções, também o governador Nobre de Carvalho confirmava em entrevista à televisão de Macau, onze anos depois dos acontecimentos que “o 25 de Abril foi recebido bem por todos os portugueses e chineses. Os chineses, evidentemente, tendem uma ignorância grande sobre o que se estava passando embora eu tivesse tido ocasião de no Conselho Legislativo, com as notícias que recebia de Lisboa de os pôr ao corrente do que se passava.

No entanto, Macau ouvia com cautela as novas informações que iam chegando, estando longe de registar (como seria de esperar, aliás) as esfusiantes cenas das ruas de Lisboa. “Aqueles factos mais emblemáticos do 25 de Abril, não tinham possibilidade de concretização em Macau. Em Portugal, foram abertas as prisões e soltos os presos políticos, mas Macau não tinha presos políticos. Foi o encerramento da PIDE/DGS, até com cenas de algum dramatismo. Mas Macau era o único ponto do território português que não tinha PIDE/DGS. Sublinha Lajes Ribeiro.

Se alguns vivas se pronunciaram, ou garrafas de champanhe se abriram em honra da revolução não foi nas ruas mas tão-somente na discrição disciplinada de alguns quartéis ou na intimidade das casas dos democratas.

O primeiro sinal verdadeiro de entusiasmo e rebeldia que se quadunava perfeitamente com o espírito da revolução veio não em forma de manifestação, de rua mas através de um soneto à liberdade do poeta proscrito Manuel Alegre, declamado de forma arrebatada em plena sessão do Conselho de Governo. Quem o fez foi o jovem deputado Celestino Maneiras, um arquitecto formado no Porto, que ali se tinha ligado aos círculos estudantis da oposição. Um acto inesperado que deixou estupefactos os seus colegas. Mas a atitude do jovem deputado ainda que de uma forma anti-regimental limitava-se a declarar oficialmente autorizada a liberdade de pensamento e expressão no território português da China. O caso ocorria na véspera da fundação da primeira associação cívica, o Centro Democrático de Macau agrupamento de democratas de diversas tendências formado com vista a contribuir para a democratização de Macau. Na sua fundação, claro, o arquitecto José Maneiras, o igualmente irrequieto advogado oposicionista Jorge Neto Valente e naturalmente os velhos republicanos, como Damião Rodrigues e Vivaldo Rosa.

Mas exceptuando um ou outro pronunciamento claro a timidez continuava imperar, ainda que no dia 29 de Abril, os deputados (que então ainda não possuíam essa designação) tivessem concordado em rever a situação vivida por Senna Fernandes alguns dias antes (por ocasião do telegrama nacionalista) e a insistência  do governador decidissem enviar novo telegrama para Lisboa, mas desta vez de incondicional apoio à Junta de Salvação Nacional.

Para além de uma deputada que se recusou a aprovar o teor do texto, ninguém mais pareceu registar qualquer contradição no facto. O governador Nobre de Carvalho, acabava de anunciar ter sido confirmado no cargo pelo novo poder de Lisboa, o que era bom sinal, levando a generalidade os deputados a acreditar nas boas intenções dos elementos da Junta, entre os quais se contava o general Jaime Silvério Marques que governara Macau (1959/62) e ao qual foi enviada também uma mensagem especial de regozijo.

À margem das mensagens oficiais, um amplo grupo de democratas reunia-se entretanto no restaurante Fat Siu Lau, à rua da Felicidade redigindo igualmente um telegrama emocionado dirigido por intermédio do “Jornal Republica”, um dos símbolos da luta contra Salazar e Caetano, a todos os portugueses. Nele saudavam “o patriótico movimento de 25 de Abril que pôs fim ao período fascista“, celebrando também o facto de levarem a cabo a primeira reunião política aberta, em Macau, dos últimos 40 anos. Ao fim da noite, os 38 subscritores da missiva abandonavam por entre vivas e aclamações o restaurante de regresso a casa sem receio de terem cometido qualquer acto sedicioso, ou virem a ser presos pela polícia.

Mas, a reunião do Fat Siu Lau, apenas culminou um dia de conquistas democráticas. Nessa mesma tarde, o chefe de gabinete do governador, reunira no Palácio da Praia Grandes os directores e representantes dos jornais comunicando-lhes oficialmente o fim da censura em Macau. Lajes Ribeiro fazia-o com agrado. Depois de numa primeira vez se ter recusado a integrar como vogal a comissão de censura, ao ser para o efeito convidado quando era ainda oficial da polícia, acabaria por se tornar seu presidente, alguns anos mais tarde, por constituir obrigação inerente ao cargo de chefe de gabinete, facto de que não se apercebera antes de aceitar o convite de Nobre de Carvalho.

Na sequência da fundação do CDM, também as forças conservadoras locais se sentiram na necessidade de se agruparem fundando a “Associação para a Defesa dos Interesses de Macau” (ADIM), liderada pelo antigo deputado à Câmara Corporativa Carlos Assumpção. Ao contrário do CDM, não eram os objectivos de democratização da sociedade o seu principal objectivo, mas sim a criação de um grupo de pressão capaz de lutar contra os receios de alguns sectores da população local de que o processo de descolonização encetado pudesse ser de alguma forma (pensada, ou apressada) aplicado em Macau. Com a formação da ADIM, ainda que claramente conservadora, acentuava-se a pressão no sentido da transformação das estruturas coloniais ancilosadas que Nobre de Carvalho, embora aderindo aos novos princípios do regime e implementando “as alterações que podia” não estava em condições de fazer.

Entretanto nos quartéis registava-se uma certa turbulência, reflectindo as mudanças de conceitos e de objectivos das forças armadas que punham termo à guerra e ocupavam o centro do poder político.

Os principais responsáveis militares, entre os quais se contava o chefe de estado maior, Rocha Vieira, mais tarde delegado do MFA em Macau procuravam manter a agitação que fervilhava entre os milicianos (oficias e sargentos) dentro dos limites que consideravam aceitáveis perante o novo quadro político, enquanto Nobre de Carvalho que aguardava indicações claras de Lisboa sobre qual a direcção a seguir fazia saber que fosse qual fosse a evolução dos acontecimentos deixaria o território no final do mandato para que tinha sido nomeado, ou seja Outubro de 1974.

Embora beneficiando ainda da simpatia de grande parte da população, simpatia que lhe advinha dos tempos conturbados do 1,2,3, Nobre de Carvalho começava a tornar-se alvo cada vez mais exposto. “Grande parte da população não aceitava a sua continuação, sofrendo por isso uma grande contestação durante muitos meses” recorda o general Garcia Leandro, que seria juntamente com o major Rebelo Gonçalves o primeiro a deslocar-se a Macau como enviado oficial do novo regime para esclarecer a população local e ouvir o que esta tinha a dizer. O próprio Nobre de Carvalho, por seu turno, ia mais longe no desenho do quadro local preferindo usar o termo revolução em vez de contestação: “Foi uma outra revolução, que houve, desta vez dentro da população portuguesa. Principalmente, (chinesa não) macaenses e outros europeus. Mas foi uma minoria que estou convencido (muitos já morreram) que no fundo se devem ter arrependido do que fizeram porque foi uma vergonha essa actuação“. Apesar destas amargas palavras, o velho general no entanto não chegaria a conhecer os verdadeiros tempos de agitação que se seguiriam em Macau após a sua resignação.

Macau, foi desde sempre vista de Lisboa muito mais como uma pérola exótica do que uma colónia credível. Por isso não é de admirar que no computo dos problemas gerados pela descolonização de regiões tão vastas, como Angola, Moçambique, ou mesmo a Guiné, o território português do Oriente permanecesse durante algum tempo na gaveta dos assuntos pendentes da revolução, protelando a chegada dos representantes oficiais do governo de Lisboa que trouxessem indicações claras sobre o que ia acontecer, facto que parece ter contribuído para fazer aumentar os receios, ainda que a República Popular da China parecesse do mesmo modo não ter pressa em dar qualquer indicação das suas intenções sobre o futuro do território.

O vazio que se sentia levou o governador a enviar a Lisboa o seu chefe de Gabinete que manteve um encontro com o ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, e trouxe boas notícias: – vim de lá com uma certa tranquilidade porque senti que o ministério estava a encarar o governo de Macau com muito realismo, com muito pragmatismo e foi quando ele anunciou que viria a Timor e a Macau. Mas esta boa impressão trazida por Lajes Ribeiro, não parecia capaz de apaziguar receios. Por isso, quando é anunciada a deslocação de Almeida Santos para tratar da descolonização, a notícia é recebida com certo pânico principalmente entre a população chinesa registando-se mesmo corridas aos bancos.

Almeida Santos

Tentando desdramatizar a situação, o governo esclarece que o termo descolonização contido no dossier de Almeida Santos se referia exclusivamente a Timor. Os esclarecimentos porém não produziram efeitos seguros, tanto que Garcia Leandro, que acompanharia Almeida Santos na sua viagem ao Oriente, refere ter encontrado em Macau “um grande receio. Era como se para a população local o 25 de Abril tivesse aberto uma grande porta para lá da qual era a mais completa escuridão, sublinha.

Garcia Leandro um oficial ligado ao M.F.A. e desde o início vocacionado para os assuntos de Macau, manteve-se no Território auscultando a população sobre o perfil do novo governador que substituiria Nobre de Carvalho a quem Almeida Santos perante o teatro Diocesano repleto, teceria um “rasgado” elogio. Pouco depois, o jovem major regressaria a Portugal para voltar de novo, mais tarde, dessa vez graduado em coronel a fim de Ocupar o assento vago do Palácio da Praia Grande. Seia o primeiro governador de Macau da era pós revolução.

General Garcia Leandro ex-Governador de Macau

Tanto para os democratas como para os conservadores de Macau, as notícias da eclosão do 25 de Abril de 1974 causaram generalizada satisfação. Para os primeiros abria-se uma nova era de liberdade. Para os outros entreabria-se a possibilidade de conseguir a tão almejada autonomia do Território ansiada desde os idos da revolução de 1822.

No entanto, passada a euforia inicial, uma parte da população, incluindo a comunidade chinesa não escondeu apreensões relativamente ao futuro. A descolonização tomava a prioridade em todas as agendas de Lisboa e nenhuma indicação chegava que permitisse claramente depreender que Macau seria tratada de maneira diferente de Angola, Moçambique, Guiné, ou Timor.

É nesse contexto de ansiedade que o Ministro da Coordenação Interterritorial do primeiro governo provisório efectua a sua primeira deslocação ao Oriente, uma deslocação vista com ansiedade não só por Macau, como também pela vizinha Hong Kong, onde o governador enviou insistentes telegramas a Almeida Santos para se encontrar com este antes de embarcar no “hidrofoyl” para Macau. Almeida Santos encontrou-se de facto com o governador britânico e procurou descansa-lo.

Foi em razão dessa ansiedade crescente que Almeida Santos, depois de ter estado em Timor, onde se colocava de facto um problema de descolonização que era necessário resolver decidiu passar por Macau. Quando chegou constatou as informações que possuía:

Quando cheguei havia uma grande ansiedade de facto. A pataca tinha baixado de cotação e as pessoas estavam preocupadas. Qual vai ser o futuro de Macau? E eu pude fazer uma comunicação pública num teatro da cidade em que afirmei: Macau é uma jóia rara. É um caso especial, para nós não é uma colónia. Para Macau não se põe o problema de nenhum processo de descolonização. Isso aquietou os ânimos.

No dia seguinte a cidade era outra e eu fiquei muito feliz por ter contribuído para desfazer essa ansiedade.

Antes, porém, Nobre de Carvalho teria ainda ensejo de concluir da melhor maneira o seu atribulado mandato inaugurando em Outubro, como estava previsto, a nova ponte entre Macau e a Taipa que receberia o seu nome. Cinco dias depois partia para Lisboa convencido de que “Macau não viria a beneficiar muito com o 25 de Abril. – Viria a beneficiar sim, de uma maior representatividade dada à população nos órgãos do governo próprio do Território e nas autarquias. Isso impunha-se e principalmente aquilo que eu nunca tive, que era ter maior liberdade de acção, não estar piado como sempre estive em consequência das leis que então estavam em vigor, pelo Terreiro do Paço, digamos, por Lisboa.

A opinião de Nobre de Carvalho é subscrita muitos anos depois por Garcia Leandro que sublinha: “A primeira impressão com que fiquei foi que o território teria grandes possibilidades de desenvolvimento, estava numa área económica muito importante, mas devido ao sistema político que existia então se encontrava atrofiado“.

Depois da partida de Nobre de Carvalho, o inevitável processo de adaptação às novas condições levantou ainda mais a agitação, centrada quase exclusivamente na comunidade portuguesa civil e militar. Nos meses seguintes acentuaram-se clivagens e divergências, a polémica redobrou nos jornais e os comícios inflamaram-se mais ainda, culminando num período que registou algumas semelhanças com que ficou conhecido em Portugal por “Verão Quente” de 1975. Todavia, apesar das divergências de pontos de vista é hoje unânime que mais do que qualquer outro anseio, o 25 de Abril trouxe para Macau acima de tudo uma autonomia que tardava pelo menos desde que os liberais de 1822 tinham fracassado na sua tentativa de se eximir à obediência de Goa.

Nota. Artigo extraído do livro “Laboratório Constitucional” de João Guedes

Liu Shifu: – O anarquista de Macau que a memória oficial preferiu esquecer. 06-07-10

Em Macau há uma história antiga que permanece por contar.

– Não, contrapõe a bibliografia. O padre Teixeira já contou tudo quanto havia a contar.

– Não, não é verdade! contraponho. – O padre Teixeira falou de tudo quanto havia a falar sobre a presença dos portugueses em Macau, mas o que disse sobre os chineses? Muito pouco, ou quase nada.

-Mas o Padre Videira Pires? Interpela-me de novo a bibliografia que mostra centenas de artigos e mais de uma dezena de livros em abono da sua causa.

– Não! respondo eu novamente: – Esse autor era mais profundo, ainda que menos prolífico, mas igualmente apenas disse e só sobre os portugueses.

– E Montalto de Jesus e Charles Boxer e Anders Ljungstedt. Ou então Austin Coates, que bem sei, que fica entre historiador e romancista, mas que escreveu muita coisa e muita história? Volta a retorquir a bibliografia como se tivesse a última palavra.

A esta última interpelação (mais generalista, ou globalizante) respondo em forma de documento judicial; – aos costumes chineses disseram nada, pouco, ou mesmo intencionalmente muito pouco!

E é assim que Liu Shifu, a maior figura do anarco-sindicalismo chinês do dobrar de dois séculos não consta em qualquer bibliografia. Nem na portuguesa, nem na chinesa e muito menos na toponímia local. Na bibliografia inglesa igualmente passa praticamente despercebida, já que era incómoda para toda a gente.

Pessoa que acredita que o ser humano é bom por natureza e que por isso hierarquias, polícias, governos e repressão em geral são dispensáveis face à eficácia superior do diálogo, liberdade, igualdade e fraternidade, por muito que pugnem arriscam-se a morrer sem deixar assinatura neste mundo.

No entanto Liu Shifu, apesar de toda a ingenuidade que pautou a sua curta existência deixou marca.

Vale a pena saber quem foi e o que defendia. Principalmente face à sua íntima ligação a Macau.

Li Shifu iniciou a carreira política como adepto do que de mais radical existia no último quartel do século XIX. Niilista militante privilegiava a acção directa, ou seja o terrorismo revolucionário, nomeadamente o assassinato das elites criminosas. Para Liu Shifu, como para os niilistas desse tempo, o estado não era uma entidade abstracta mas sim um conjunto de pessoas (elites criminosas do seu ponto de vista). Por isso cada um dos seus elementos era alvo a abater. Assim se iniciou como membro do “Grupo de Assassinos da China”, um movimento anti-colonial fortemente influenciado pelas tácticas dos niilistas russos.

Ele próprio arquitectou com o seu grupo de seguidores um atentado contra o governador de Guangdong, que só não se consumou porque a bomba que estava a montar para erradicar deste mundo mais um vilão explodiu durante o processo de preparação da dita, deixando-o gravemente ferido.

Entretanto os anos foram passando e sempre com a sua colaboração activa Liu viu a República ser instaurada na China (1911).

A partir dessa data renegou publicamente o niilismo e converteu-se sem reservas ao anarquismo de Kropotkine, Bakunine, Tosltoi e Malatesta.

É durante esse período que inicia um trabalho teórico tão importante quanto actualmente ignorado, que o leva a esquematizar a importância fulcral da organização dos camponeses na revolução socialista. Esta tese pioneira ia frontalmente contra as ideias já estabelecidas por Marx, Engels, Lenine e Trotsky que entendiam que a revolução só seria possível com a organização dos operários. Isto, alegadamente, por que os camponeses eram possuidores de um intrínseco espírito reaccionários e simultaneamente imprestáveis numa revolução hodierna como era a socialista.

Neste âmbito Liu Shifu manteve uma viva polémica com o principal teórico do marxismo chinês de então, Jiang Khangu (1883-1954), (fundador do Partido Socialista da China) sobre esse tema. Naturalmente perdeu, como o futuro político do mundo viria a comprovar.

No entanto a sua derrota revelar-se ia apenas circunstancial já que as suas teses viriam a ser recuperadas mais tarde e seria com os camponeses e não com os operários que a República Popular da China, seria proclamada em 1 de Outubro de 1949, por Mao Tsé Tung. Um feito que o próprio Estaline nunca pensou ser possível e só relutantemente aceitou.

Aliás o assunto nunca seria verdadeiramente dirimido e o divórcio entre Pequim e Moscovo, nos tempos de Nikita Krushev, vieram provar isso mesmo. Curiosamente, diga-se, o socialismo soviético ortodoxo e operário acabaria por se estilhaçar, enquanto que a experiência revolucionária baseada no campesinato da China continua actualmente a singrar e ameaça mesmo transformar o país na maior potência mundial nas próximas décadas.

Liu Shifu a grande figura do anarquismo chinês

Em 1912, Liu Shifu fundou a “Sociedade dos Galos que Cantam no Escuro”, sendo considerado o seu líder. No entanto nela recusou-se sempre a deter qualquer posição ascendente sobre os camaradas. Liu era apenas um entre os que a constituíam. Não era mais nem era menos.

Esta sociedade, também conhecida como “Grupo de Cantão” teve como primeira e mais visível acção a formação de uma aliança entre intelectuais e trabalhadores e serviu numa primeira fase para propagandear a diferença entre o anarquismo e os vários socialismos que ascendiam.

Da sua plataforma política é de salientar a completa ausência de referências a minorias, ou maiorias étnicas (outro marco histórico pioneiro) isto porque na base da sua plataforma constava como ponto fundamental a eliminação das identidades, raciais e nacionais em prol de um verdadeiro internacionalismo. O seu compromisso era com a humanidade e não com qualquer grupo social independentemente de regiões, países, ou continentes.

O próprio combate contra a dinastia “Manchu”, segundo Liu, era falacioso, tendo em conta que se combatia apenas e só contra a opressão universal. O facto de o imperador e os seus mandatários serem manchus era questão totalmente irrelevante (de referir que os manchus, que reinaram na China durante mais de dois séculos, actualmente, constituem uma etnia numericamente irrelevante que se fica pelos 8 milhões de pessoas. O resto do país é constituído por mais de mil milhões de habitantes das etnias mais diversas).

Neste quadro ideológico universalista, Liu Shifu foi, também, um dos maiores proponentes do esperanto como língua universal, publicando em Macau, a partir de Agosto de 1913, o jornal “La Voco del Popolo” (voz do Povo) que era dado à estampa nessa língua que lutava (utopicamente, como posteriormente se verificou) por se universalizar e simultaneamente, em chinês. Era um jornal bilingue. Nesse contexto global o português não contava (tal como o manchu) para o efeito. Eram naturalmente irrelevantes nesse contexto.

A emancipação da mulher, assunto que tardaria mais de meio século a afirmar-se, ocupava já em a “Voz do Povo” prioridade central a par de outros temas, como o do sufrágio universal, que igualmente viria apenas a mostrar-se politicamente importante muitas décadas mais tarde.

O jornal viria a ser alvo de ordem de apreensão nos locais onde se encontrasse à venda, por ordem do governador Sanches de Miranda. Curiosamente essa ordem limitava-se a proibir a leitura do periódico na cidade e não a sua impressão propriamente dita, já que “A Voz do Povo” singraria sem interrupção pelos anos seguintes impresso nas tipografias locais e distribuído clandestinamente por toda a China e pelo ultramar.

“La Voco del Popolo” e Liu Shifu são ao mesmo tempo um título e um nome que espelham bem o que foram sempre as especificidades de Macau.

Resta dizer que apesar de todos os mandados de captura de que foi alvo, nos tempos do império e posteriormente no efémero interregno monárquico de Yuan Shi kai, subsequente à implantação da República, Liu Shifu, nunca deixou de publicar o seu jornal e difundir o seu ideário, sem incómodos de maior na colónia portuguesa da China.

Num período da história em que as ideologias políticas se opunham, no Extremo Oriente, de forma mais virulenta do que nunca e o anarquismo era o menor e o mais fraco dos “ismos” em disputa, por que razão Liu Shifu conseguiu viver escrever e principalmente publicar sem ter sido particularmente incomodado?

A pergunta revela-se tanto mais importante e enigmática quanto será preciso ter em conta que as ideias que defendia colidiam contra tudo quanto as autoridades coloniais republicanas, que faziam gala no seu progressismo, tinham “cientificamente” por postulado assente e como moralidade social e politicamente demonstrada.

Liu Shifu morreria tuberculoso em 1915 com apenas 31 anos de idade. Vida tão curta para tão extraordinária obra.

Para nós portugueses, em paralelo, Liu Shifu suscita-nos à ideia António Nobre e Cesário Verde, entre outros, que morreram ingloriamente mais cedo e igualmente de tuberculose, do que basta obra prometia e deixaram por escrever.

Alguém saberá onde param os números perdidos de “La Voco del Popolo” de Macau? Sabe-se que nalguns, sob alguns artigos, portugueses apuseram a sua assinatura. Quem seriam? Dizem que o advogado Damião Rodrigues que com Liu Shifu privou de perto terá deixado ali alguma impressão de chumbo, já que era em caracteres de chumbo que se imprimiam os jornais nesses tempos de brasa. Mas de resto não se sabe mais nada.

O mediatismo anglo-saxónico e a subalternização histórica de Macau. 29 – 06 – 10

A influência de Macau na proclamação da república da China é tão evidente quanto mal conhecida e isso deve-se essencialmente à quase total ausência de estudos em língua portuguesa.

Ao contrário, a importância de Hong Kong, na queda da dinastia imperial chinesa é sobre estimada precisamente pelo oposto, ou seja, pela abundância de bibliografia publicada sobre o assunto.

O que existe em inglês dispersa-se por milhares de livros e outros tantos estudos académicos especializados, artigos de jornal, documentário de televisão, excertos na “blogosfera”. Sei lá que mais!… Inversamente em português o tema não chegará para ocupar prateleira inteira de uma pequena biblioteca particular. Certamente que ainda não ocupou minuto algum no “Canal de história” (ou Memória, não sei…) da RTP, por exemplo.

Mas a verdade é que uma parte significativa dos revolucionários da segunda metade do século XIX, e inícios do século XX que contribuíram para a implantação da República da China, em 10 de Outubro de 1911 (e numa segunda fase, para a instituição da República Popular em 1 de Outubro de 1949), era originária da província de Guangdong, com destaque naturalmente para o incontornável Sun Yat-Sen.

Sun nasceu numa pequena localidade, a pouco mais de 30 quilómetros de Macau e em Macau, viveria, como se sabe, durante vários períodos da sua vida. Aliás ele próprio reconhece que foi em Macau, que ganhou consciência social.

Sun Yat-sen como trajava nos tempos em que viveu em Macau.

Formado em medicina em Hong Kong, imediatamente após a licenciatura passou a residir na colónia portuguesa, exercendo clínica no Hospital Kiang Wu. Abriu na Rua das Estalagens um consultório e uma farmácia. Abriria uma segunda “botica” numa das casas há muito demolidas (para dar lugar à sede dos Correios) no Largo do Leal Senado, que pertenciam, então, à Santa Casa da Misericórdia.

Sun Yat-sen numa visita ao Hospital Kiang Wu de Macau, 1912.

Sun afirma que a militância política se sobrepunha ao exercício da sua profissão. De facto, em Macau onde vinha durante as férias, já que a maior parte da sua família por cá residia, formaria o que ficou conhecido como “bando dos quatro”, grupo impulsionador da formação de clubes de leitura que incentivavam a população à leitura de jornais e levava a cabo sessões de propaganda política, nomeadamente, aproveitando a disponibilidade dos teatros da cidade. Estes teatros, durante um certo período, foram muito mais palcos de realização de entusiásticos comícios, do que centros de divulgação da “arte de Talma”, ou da sétima arte nascente com o animatógrafo.

Sun Yat-sen e o “bando dos quatro”. Da esquerda para a direita: Yang Heling, Sun Yat-sen, Chen Shaobai e You Lie. De pé Guan Jingliang. Reuniam na casa de Yang Heling na íngreme Travessa dos Santos que desemboca na Rua do Campo em Macau e não em Hong Kong, como sistematicamente surge nas legendas referentes a esta fotografia.

Num deles, por exemplo (que ficou célebre), os numerosíssimos presentes cortaram simbolicamente as tranças, que eram adorno capilar obrigatório de todo o povo chinês durante a última dinastia imperial que caiu em 1911.

Cortar a trança, nesses tempos bárbaros correspondia a punição com pena de morte. Tendo isso em conta tal acto de rebeldia que se repetiu nas outras colónias ocidentais nas costas da China e também em Singapura, Indochina, ou Indonésia, onde a emigração chinesa era pujante, foi por demais significativo.

Mas os dois pontos de verdadeiro contacto da China com as ideias ocidentais eram, essencialmente, Macau e Hong Kong por óbvias razões geográficas.

Nestas se situavam verdadeiramente os baluartes que poderiam, para o bem ou para o mal, transformar, ou perder o país.

As actividades subversivas na vizinha colónia britânica contra a monarquia “Manchu” eram rigorosamente vigiadas, pelas autoridades inglesas. Ao contrário, em Macau, a permissividade oficial nesse campo, era notória.

Essa situação permitiu que ao longo das duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX, um dos principais centros de apoio às correntes de oposição aqui estivessem naturalmente sedeados. Ou a tempo inteiro, ou sempre que a conjuntura prevalecente assim o determinava.

Em Macau viveram nessa época alguns dos vultos mais destacados que a “Nova China” haveria de produzir. Igualmente aqui se publicavam os jornais de oposição proibidos para lá das Portas do Cerco.

Esses jornais derivavam de várias orientações políticas, desde os liberais, que apenas pretendiam a reforma da monarquia, até aos que se proclamavam abertamente anti-monárquicos.

Os socialistas aqui imprimiam igualmente os seus órgãos de propaganda, com destaque, numa primeira fase, para os anarquistas.

Os referidos periódicos eram escritos e impressos nas tipografias locais. Umas legalmente estabelecidas, outras clandestinas (o governo português pouca conta oficial dava dessas diferenças). Posteriormente eram distribuídos no interior através, principalmente, da inextrincável rede de “tríades” que dominavam o país de então. A sua circulação não se limitava às fronteiras de Guangdong, atingindo também os grandes centros urbanos incluindo Xangai e Pequim. Mas também o Sudoeste Asiático, Austrália, EUA e Europa, com destaque, neste último caso, para a França.

Nesse ponto da história é importante sublinhar que no período da implantação da república na China, a Maçonaria portuguesa se encontrava extremamente activa e actuante, não só em Macau, mas também em Cantão, Xangai e igualmente nas Filipinas, para não falar já no distante Havai onde Sun Yat-sen e um sem número de resistentes chineses possuíam laços políticos e de sangue iniludíveis.

Em Macau os “maçons” eram igualmente um sem número de figuras civis e militares, revestidas de diversos graus de responsabilidade institucional, incluindo os chefes máximos da administração, ou seja, os governadores. Nessa conjuntura a “Maçonaria” funcionava como organização supra nacional que politicamente tudo coordenava superando as rivalidades existentes entre facções na China e entre os interesses por vezes opostos das potências coloniais ali presentes.

Na “Maçonaria” de Macau, concentrada na “Loja Luís de Camões II”, tal como em Portugal, o republicanismo dominava claramente. Esta terá sido outra das razões que explicam a cumplicidade da colónia nas actividades subversivas contra a “Dinastia Celestial”. Uns “maçons” apoiavam porque eram republicanos, outros porque eram monárquicos constitucionais, outros ainda porque estavam rendidos ao progresso imparável das “luzes” do século XIX. Mas para todos a China era uma monarquia absoluta que não congregava as simpatias de ninguém.

Nesse âmbito é de salientar circunstancialmente a figura de Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de diversos jornais, que se tornou ponte de contacto proeminente entre os republicanos chineses e as autoridades locais durante mais de duas décadas.

Foi Francisco Fernandes, que acolheu Sun Yat Sen em Macau após a sua primeira e malograda tentativa de revolta contra o regime (1895), organizando-lhe a fuga ulterior para o Japão. Há correspondência conhecida entre Fernandes e Sun, que revela que para além do grau de amizade pessoal, partilhavam igualmente os mesmos ideais políticos e particularmente laços “iniciáticos” evidentemente maçónicos.

Nessa conjuntura de dobragem de século saliente-se que por Macau passaram igualmente muitos ideólogos e activistas chineses de grande renome nacional.

Entre outros destaque natural para Zheng Guan Yin, autor de várias obras que reflectiam as correntes mais modernas do pensamento filosófico, político, social e económico do Mundo positivista do século.

Essas obras foram escritas e (naturalmente) publicadas inicialmente em Macau, já que em Hong Kong seria impossível tendo em conta que as autoridades controlavam muito de perto todas as actividades subversivas dirigidas contra Pequim e o seu regime que não pretendiam pôr em causa. Isso enquanto o “Celeste Império” cedesse às imposições diplomáticas de “Sua Majestade Britânica”.

Em 1886, Zheng Guannying na sua casa, localizada na Travessa de António da Silva, meditou sobre as suas ideias e concluiu a sua obra prima Shengshi Weiyan (Advertências Severas em Tempos de Prosperidade). Neste seu livro, Zheng sugere a ideia que “um Pais deve desenvolver a sua riqueza de modo a assumir-se como uma Nação forte, notando que a riqueza em si motiva o desenvolvimento da economia, o desenvolvimento de industrias, enaltecendo ainda a importância da educação, leis actualizadas, promoção de valores éticos e reformas politicas”. Estas ideias propostas na sua obra Shengshi Weiyan, tiveram grande impacto sobre o Imperador Guangxu, Kang Youwei, Liang Qichao, Sun Yat-Sen e, mesmo, Mao Zedong.

Ainda bem que se restaurou ali perto da “Fonte do Lilau a casa onde viveu essa grande figura que tanta influência teve no dealbar da “Nova China”.

Uma outra personalidade bem menos conhecida mas que registou influência igualmente determinante num certo período, ainda que relativamente curto da história contemporânea foi Liu Shifu, o nome mais proeminente do anarquismo extremo-oriental do Mundo.

Liu Shifu  principal redactor  de a “A Voz do Galo a Cantar no Escuro”. Este periódico iniciou publicação em Agosto de 1913, data em que Liu Shifu, se encontrava fugido e a residir clandestinamente em Macau. Ostentava o título em esperanto de: – “La voco de La Popolo. Após alguns números, mudou o título em chinês para “Min Sheng “(A Voz do Povo).

Liu era o principal redactor do jornal “A Voz do Povo” dado à estampa simultaneamente em chinês e esperanto. Nas sua páginas constavam os grandes manifestos de Kropotkin, Bakunin, Tolstoi e outros anarquistas. Mas também “niilistas” como Turgeniev, o grande romancistas russo autor de “Pais e Filhos”.

Liu Shifu, desaparecido prematuramente (morreu com 31 anos de idade em 1915) desvaneceu-se na penumbra da história das ideias políticas face à ascensão imparável do marxismo-leninismo. No entanto o seu ideário deu corpo à fugaz independência de Cantão que perdurou sob a dupla égide de Sun Yat-sen e Cheng Chiu Meng entre 1913 e 1925.

Liu Shifu vagueou clandestino e a fugir à polícia, muitas e muitas vezes, pela rua das Estalagens, pelo Pátio da Mina, pela Rua da Esperança. Enfim…, pelas vielas que só não estão hoje desaparecidas, porque o centro histórico de Macau foi preservado graças à declaração do dito como “Património Mundial” pela UNESCO.

Finalmente refira-se que a subalternização de Macau como ponto relevante de influência sobre o pensamento político republicano e socialista chinês se deve não só à já referida falta de estudos sobre a matéria em língua portuguesa, mas principalmente ao verdadeiro tiro de partida disparado com fragor mediático pelo mundialmente famoso cientista James Cantlie, .

Devido essencialmente à sua filiação maçónica Cantlie, reputado especialista de medicina tropical que tinha sido professor de Sun Yat-Sen, em Hong Kong, pontificava nos círculos académicos internacionais, mas essencialmente nos clubes sociais e políticos de Londres (não esquecer que tradicionalmente o chefe da maçonaria inglesa foi sempre um membro da família real). Por isso foi capaz de forjar os apoios necessários para fazer saltar a figura de Sun Yat-sen de revolucionário mal conhecido, mesmo em Macau e Hong Kong, para o patamar de herói de projecção internacional.

Para isso concorreu indubitavelmente o lançamento da primeira biografia sobre o então obscuro médico cantonense – “Sun Yat- sen and the Awakening of China”- obra escrita em parceria com o jornalista, Sheridan Jones que foi um êxito estrondoso em todo o mundo. Creio que não existe tradução portuguesa desse livro, o que não deixa de constituir uma interrogação sem resposta cabal. Terá sido omissão politicamente motivada e intencional pela conjuntura do tempo, ou negligência histórica pura e simples? Inclino-me mais para a segunda hipótese.

Neste ponto convém esclarecer, em abono da justiça, que em “Sun Yat-sen and the Awakening of China” as actividades de Sun Yat-sen em Macau não passaram em branco. Ainda hoje vale a pena reler as páginas desse livro (algumas vezes mesmo superlativamente citadas por diversos autores ingleses) relativas às cirurgias de extracção de cálculos renais (uma inovação da medicina, mesmo em termos europeus) que Sun praticava no hospital Kiang Wu.

Hospital Kiang Wu tal como era no tempo em que nele Sun Yat-sen exerceu medicina.

Ali não eram bem os méritos da medicina ocidental que se provavam, mas significativamente mais as possibilidades práticas de curar os males político-sociais de uma nação inteira com novos métodos ainda que colidentes com a tradição milenar de Confúcio.

Finalmente de referir que várias personalidades portuguesas de relevo de Macau estiveram em estreito contacto, não só com Sun, mas com os seus correligionários, restando saber até que ponto o pensamento político dos republicanos chineses terá sido influenciado, ou até eventualmente moldado por via desses contactos.

Lou Lim Yok , Leong Kai Shio, Shen Shaobai salientam-se, entre muitas, do lado chinês. Horta e Costa, Carlos da Maia, Rodrigo Rodrigues, entre outras, destacam-se do lado português.

José Vicente Jorge. Orientalista, tradutor publicista, coleccionador de arte e figura marcante da intelectualidade macaense.

Outras figuras menos estudadas que no Território viveram, tiveram também papéis relevantes como: – Damião Rodrigues, Vicente Jorge, o advogado Basto e o ainda hoje enigmático Leôncio Ferreira, este que pontificava em Xangai e foi agraciado com a “Torre e Espada” a mais alta condecoração militar portuguesa embora sempre tivesse sido um civil de gema. Possui uma pequena rua com o seu nome em Macau. O que fez? não se sabe. Mas coisa importante foi no relacionamento entre Portugal e a China,

As actividades dos agentes do Komintern em Macau nos anos 20 do século XX foram, em certos aspectos, tão determinante quanto envoltas no segredo em que ainda hoje se encontram.

Também na formação do Partido Comunista da China, Macau desempenhou papel de relevo e não pequeno. A fortíssima ligação a Macau do marechal Ye Jiening prova-o à saciedade.

Marechal General Ye Jianying (com o Presidente Tito da Jugoslavia), Nascido Ye Yiwei (叶宜伟/叶宜伟), localidade da província de Guangdong, numa família de comerciantes de origem Hakka. Liderou a conspiração de generais e dirigentes históricos do PCC que derrubou Jian Qing e o “Bando dos Quatro” pondo ponto final ao conturbado período da “Revolução Cultural” e abrindo caminho à ascensão definitiva de Deng Xiaoping. Deixou a política activa como vice-presidente do PCC em 1982 e abandonou o Politburo em Setembro de 1985. Morreu em Pequim em 1989. Viveu em Macau durante vários períodos da sua vida.

Do que não resta dúvida é que Macau que não funcionou como peça única na formação do pensamento político dos republicanos e comunistas chineses, foi decerto o cadinho, conveniente e discreto, onde se forjou e não em pequena parte.

Falta estudar com mais profundidade a relevância e influência dos contactos pessoais entre os dois lados (portugueses e chineses), para além dos que deixei citados. Falta também vasculhar arquivos em Portugal, mas igualmente (diria primordialmente) na China onde, provavelmente, muito do que não se sabe se guarda e aguarda apenas a consulta de quem os queira, ou possa, consultar. Creio que se esse empreendimento for levado a sério e de uma forma sistemática talvez se possa saber com mais ciência certa se o facto das Repúblicas em Portugal e na China terem sido proclamadas com a pequena diferença de um ano foi apenas mera coincidência, histórica, ou muito mais do que isso.