Laboratório constitucional

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Capa do livro Macau Constitucional, IPOR-Livros do Oriente, Março de 1995.

Obscuridades e mistérios das ruelas da cidade

Quando cheguei a Macau há quase década e meia vim encontrar uma cidade sem grande orgulho, mas carregada de preconceito no que diz respeito à memória do passado recente. Embora a ditadura do Estado Novo se tivesse sumido havia já alguns anos e com ela a censura, pairava no ar um ambiente censório tacitamente aceite pela comunidade. Foi este ambiente que me despertou o interesse para conhecer com mais exactidão (por exemplo) os acontecimentos de 1966, o “Um, Dois, Três”, de que toda a gente falava em voz baixa sissiando factos de que nunca em Portugal (de onde tinha chegado havia pouco) tinha ouvido falar e que me eram relatados por uns e por outros com os exageros de quem conta um conto e lhe acrescenta um ponto. A ter em conta as conversas que ouvia, o caso teria sido uma hecatombe. No entanto, dos banhos de sangue que me referiam nem uma gota restava nas paredes ( muito menos nos jornais). Da fuga maciça da comunidade portuguesa de que alguns me falavam (embora soubesse depois que o êxodo se tinha ficado muito pelas intenções) restavam-me as estatísticas que indicavam uma população lusa sensivelmente igual, antes e depois do “Um, Dois, Três”. Estas contradições aguçaram-me o espírito curioso que mais curioso ficava ao consultar jornais e livros que se limitavam a reproduzir lacónicos comunicados oficiais do tempo e a tecer comentários que permaneciam longe de me informar sobre o que tinha sido na verdade tal convulsão de que toda a gente falava em voz baixa. Mas a minha surpresa aumentou, algum tempo depois, quando alguém, por interposta pessoa me forneceu documentos oficiais de um outro conflito, este passado nos idos de 1922, pedindo encarecidamente que não fosse revelado sob que pretexto fosse o nome que proporcionava ao jornalista tais documentos. Confesso ter ficado perplexo com tais precauções, ainda para mais relativas a factos passados há mais de meio século, mas mais espantado fiquei com as reacções que se seguiram à publicação de um artigo sobre o assunto; artigo que, diga-se, revelava toda a timidez de quem escreve tendo apenas como fonte um antigo Boletim Oficial do Governo e pouco mais. Mas a verdade é que a reportagem publicada nas páginas centrais de um semanário provocaram vivas reacções, sendo acusado até (pasme-se!)de “reavivar polémicas que podiam pôr em causa a estabilidade de Macau…” Confesso que ainda hoje não alcanço o sentido de tais críticas, mas confesso também que desde então compreendi que em Macau, havia assuntos sobre os quais se podia falar e escrever abertamente, outros não. Era assim que depois do “pontapé de saída” sobre os primórdios de Macau dado pelo professor Charles Boxer se pude encontrar nas bibliotecas uma profusão de artigos sobre os séculos XVI, XVII e XVIII, aparentemente escritos sem peias nem preconceitos de maior. À medida no entanto que caminhava pelo século XIX adiante, as lacunas omissões e distorções acentuavam-se até penetrar no século XX onde, se não se soubesse, diria que não existiu história. Assim, nas minhas procuras pude verificar que se muito se escrevera sobre o Ouvidor Miguel de Arriaga Brun da Silveira, quase nada tinha sido dito sobre os liberais. Teria, por conseguinte, permanecido na mais completa ignorância sobre os acontecimentos de 1820 se por acaso não tivesse tido acesso a uns artigos publicados pelo Pe. Videira Pires (os quais infelizmente, nunca mereceram publicação em livro) e ao ponto de vista inglês publicado por Austin Coats nas suas “Calçadas da História”.

Finalmente, tendo encontrado um original do “Historic Macau” de Montalto de Jesus como exemplar único existente no velho Arquivo Histórico, pensei suprir as lacunas com que me debatia. Mas era engano!… Lido o original em inglês voltava apenas a encontrar teses politicamente motivadas que se me levavam a simpatizar com o autor e com a sua desdita por ter tido o arrojo de propôr a entrega de Macau à Sociedade das Nações a fim de salvar a cidade do naufrágio que previa perante a estagnação da sua indústria e o alheamento de Lisboa, em nada esclarecia sobre o que de facto me interessava e que era apenas a história de Macau. Assim, para além de saber que o tráfico de cules e do ópio tinham constituido motivos que levaram a comunidade internacional a condenar Macau ninguém me informava com algum rigor sobre o que na verdade se tinha passado no século XIX. em tais casos. Mas se as lacunas e distorções classificavam o século das “luzes”, o caso agravava-se claramente no século XX. Aqui tudo se tornava mais nubloso e contraditório. Era assim que me via perante uma fotografia de garbosos militares posando para a posteridade entre as flores do jardim do Quartel da Flora em 1900. Como explicação surgia, em rodapé a legenda que informava tratar-se da companhia de voluntários de Macau, prontos para o que desse e viesse. No entanto, mistério dos mistérios!… ficava sem se saber o motivo que levara Macau a organizar voluntários para a sua defesa( vim a perceber mais tarde que a razão da mobilização se prendia com a aproximação das Portas do Cerco das labaredas revolucionárias dos “boxers”). Mas mais curioso ficava ( e ainda hoje não satisfiz tal curiosidade) ao entrevistar há alguns anos um antigo polícia que me relatava o massacre de 1914 de toda a população penal de um presídio de Coloane depois de uma alegada revolta, o transporte em batelões para uma vala comum do cemitério da Taipa das vítimas dos confrontos de 1922 e o assalto das milícias pró-japonesas ao vapor Sai Hon, em 1940 que se saldou pela morte de muitos polícias da esquadra do Ship Seng em pleno Porto Interior durante os anos de brasa da Guerra do Pacífico. De todas estas histórias não encontrei até hoje menções cabais, nem relatos completos. Muito menos descobri obras escritas que se tenham debruçado sobre tais assuntos. Mas, se no que diz respeito à história dos portugueses de Macau as lacunas despontam como cogumelos, não é menos certo que no que toca à influencia que o Território teve no desenrolar dos acontecimentos históricos contemporâneos na China menos se sabia ainda. Assim, sobre Sun Yat-sen encontrei apenas relatos que afirmavam ter o primeiro presidente da República da China ter exercido medicina em Macau, onde introduziu os conceitos ocidentais da ciência de Hipócrates” e nada mais. Sobre os clubes e associações secretas republicanas, existentes no Território, sobre o recrutamento de voluntários para a revolução, sobre o fornecimento de armas aos militantes que derrubaram a dinastia manchu, sobre as reuniões secretas no consultório de Sun Yat-sen na Rua das Estalagens nada constava. Mas, mais estupefacto fiquei ao saber que Lou Lim Iok, sobre o qual pouco mais sabia para além do facto de ter dado o nome a um jardim da cidade, ter sido também um dos militantes da república, e principal impulsionador das actividades clandestinas contra a dinastia manchu em Macau (razão pela qual foi incomodado várias vezes pela polícia). Com estupefacção soube também que as “Advertências Severas na Época Próspera”, obra que influenciou determinantemente o pensamento político de Sun Yat-sen e que Mao Tsé-tung leu nos primórdios da sua juventude foi escrito em Macau por um dos percursores do moderno nacionalismo chinês. Mas a verdade é que sobre tudo nada consta.

Criado a decorar que Geraldo Geraldes o Sem Pavor tinha sido um probo e fiel cristão que conquistara os castelos do Alentejo à moirama em nome da cristandade. Só muitos anos mais tarde vim a saber que a verdade é que este não só se tinha bandeado entre mouros e cristãos tantas vezes quantas lhe tinham permitido as andanças com o seu bando de marginais, pelas planuras alentejanas, como afinal teria acabado os seus dias num serralho do Atlas, rodeado de odaliscas e todos os prazeres do mundo se a sua propensão para a traição não o tivesse levado a escrever uma carta fatal ao rei português seu compatriota propondo-lhe conquistar por dentro o reino de Marrocos. Mas se a carta caíu nas mãos do califa e o levou-o ao cadafalso, o certo é que a sua acção acabou por figurar acima das traições tornando-o num dos pilares que fizeram a pátria portuguesa. É assim que, do mesmo modo, Macau foi feito de heróis e cobardes, traidores, trânsfugas e aventureiros, cidadãos impolutos e homens incompreendidos. Todos eles tiveram a sua quota parte na construção de uma cidade que não teria sobrevivido durante quatro séculos se a história contasse apenas com heróis. O que ainda hoje não se compreende é a razão pela qual alguns insistem em tentar apagar mazelas, quando a verdade é que sem estas os heroísmos não seriam possíveis.

Por tudo isto decidi debruçar-me sobre lacunas da história desta cidade contribuindo para trazer à luz alguns factos sobre os quais durante tantos anos nunca se escreveu.

As seitas histórias do crime e da política em Macau

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Capa da Primeira edição Abril de 1991, Livros do Oriente. Esgotada.

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Capa da segunda edição, Novembro de 1999, Livros do Oriente.

* João Guedes

Cinco anos depois

Cinco anos mais tarde releio o penúltimo capítulo do livro As Seitas, Histórias do Crime e da Política em Macau que a Revista de Investigação Criminal e Justiça decidiu inserir neste número. Como todos os autores (creio?), depois de o escrever, dei o dito como caso encerrado. Exactamente como um polícia, que ao descobrir o criminoso abre vista ao Ministério Público e fecha a última página do processo regressando a casa com a certeza de ter ganho uma batalha. Mas apenas uma batalha, nada mais. Alías, creio, que a glória dos polícias é essa mesmo, merecerem a reforma depois de vencerem um sem fim de batalhas pequeninas no sem fim da guerra contra o crime, sem nunca terem ensejo de adormecer um dia na beatitude de terem ganho a guerra: Para isso é que são os polícias, diria o Estado e, repete-lhes a consciência dia a dia. Aparentemente, o capítulo de que o livro faz parte, constituía assunto arquivado. Curiosamente, ao relê-lo verifiquei que se tratava apenas de processo a aguardar melhor prova. Ainda bem que existe tal figura penal, pois, sem ela não me seria possível rescrever sobre um tema acerca do qual ninguém antes tinha escrito em português sobre Macau e, sobre o qual, também, tinha decidido colocar uma pedra.
O historiador nipónico Yuky, disse-me, não há muito tempo, que se absteve (porventura, com soberana propriedade), de escrever sobre um dos maiores agentes secretos de Portugal no Extremo Oriente – Rodrigues, “O Tradutor”. Porquê?
– Ora! porque Cooper (historiador jesuíta de renome mundial) disse tudo quanto haveria a dizer sobre tão misteriosa personalidade do século XVI. O que é que eu poderia dizer mais? Respondeu-me, o jesuíta com a simplicidade dos eruditos. No entanto, Yuky, que é um historiador vivo, ao falar-me de Cooper deixou-me com a sensação de que o que foi dito de Rodrigues, ficou longe de esgotar o tema. Há sempre alguma coisa a dizer mais, há sempre um documento inédito, ou um testemunho inesperado. Enfim, a história, não é um processo arquivado, mas sim um caso que permanece sempre a aguardar melhor prova. Bendita figura do Código Penal!
É também assim que cinco anos depois verifico que para além de alterações de pormenor, que me permitiriam subscrever Cooper e Yuky, tudo quanto ficou dito no penúltimo capítulo de As Seitas se mantém no essencial, o que pessoalmente não deixa de ser reconfortante. Verifico, no entanto, hoje também, que pelo menos a estatística se apresenta inflacionada e os receios acrescidos.
É assim que um responsável policial me informa que os números vagos de chineses em Portugal, computados em 1990, ascendem em concreto, em 1995 a 2125. A mesma fonte diz-me que a somar a esta cifra oficial permanece incógnito um número elevado de ilegais, da mesma origem, que vivem em Portugal à revelia dos Serviços de Emigração. Qual será esse número ao certo? A fonte citada recusa-se a adiantar quaisquer cálculos, mas implicitamente admite que se trata de um problema sério. Tão sério que passou, do nível zero, (de há cinco anos) a mobilizar meios significativos da secção de análise das informações da D.C.C.B. (Direcção Central de Combate ao Banditismo, da Directoria-Geral da Polícia Judiciária). Em cinco anos, o que era uma hipótese remota que não atemorizava ninguém, passou a constituir um sector de trabalho que ocupa vários agentes de investigação da Polícia Judiciária. Em meia década a possibilidade da transferência das seitas de Macau para Portugal passou iniludivelmente a constituir um assunto a ter em conta. Tanto mais que os políticos o tomaram em consideração. É por isso que a construção de uma China Town em Portugal (Oeiras), vista inicialmente como mera questão de investimento estrangeiro, em finais dos anos oitenta, passou a ser assunto de debate nos ministérios. Será que Portugal aceita uma repetição das China Towns de Inglaterra e da Holanda, ou prefere uma integração serena dos imigrantes chineses, um pouco por todo o país, sem guetos, nem zonas de exclusão? Será que Portugal prefere por ignorância, ou lassidão aceitar que morram vítimas inocentes como as que morreram nas guerras inter-seitas de Manchester de finais dos anos 80? Será que Portugal vai permitir que se reconstituam (porventura com mais pujança ainda) os carteis orientais da heroina de Amsterdão? Provavelmente não, se a experiência de 400 anos em Macau servir a Lisboa de alguma coisa.
Macau tem sido, e continua a ser, a terra por excelência dos monopólios. No que às seitas diz respeito, porém, essa tradição alterou-se profundamente desde finais da década de sessenta. Acompanhando o surto de desenvolvimento do Território, também elas começaram a proliferar, numa tendência que se acentuou a partir do início dos anos oitenta. Assim, treze associações secretas principais encontram-se hoje em cena. Entre elas, os diversos grupos (ou “regimentos “, como também são conhecidos) da 14 Quilates, Gasosa, Iau Lun, Sun Yee On e Grande Círculo dividem entre si, e dirigem, a maior fatia da actividade criminal em Macau. Todas mantêm estreitos laços – por vezes de dependência – com congéneres de Hong Kong, reflectindo compreensivelmente o íntimo relacionamento existente entre os dois territórios em todos os sectores de actividade, com destaque para a área económica.
A fluidez de circulação através das fronteiras marítimas de Macau não só facilita a fuga de malfeitores como permite também que o planeamento e a preparação de muitos crimes sejam feitos num território e a sua execução no outro, dificultando deste modo o trabalho das polícias. Ao mesmo tempo, Hong Kong, a terceira praça financeira mundial, com os seus quase seis milhões de habitantes, estende a Macau uma nítida influência, definindo-lhe em grande medida os graus e os limites de actuação das seitas. Os exemplos desta sujeição são muitos, mas o mais recente está ligado à instalação das corridas de cavalos na ilha de Taipa, projecto que inicialmente se apresentava como fonte de gigantescos lucros, e que por isso despertou desde logo o interesse das associações secretas da colónia britânica.
Praticamente desconhecida em Macau apenas um ano antes, a Sun Yee On chegou, viu e venceu ao afastar do hipódromo, meses depois da sua inauguração, no Verão de 1989, as rivais locais do controlo das apostas clandestinas e de outras fontes de lucro ilícito ligadas às corridas.
Fundada em 1921 em Hong Kong como sociedade comercial, a Sun Yee On aliou-se aos japoneses durante a ocupação, conseguindo obter o contrato de ampliação do aeroporto internacional de Kai Tak. Finda a guerra, o alvará de que dispunha foi cancelado em 1947 e, em 1953, o seu fundador deportado para a Formosa. Mesmo assim, a Sun Yee On não parou de crescer; contando actualmente com mais de 35 mil membros, é também uma das mais fortes e bem organizadas seitas da colónia britânica. A Sun Yee On atingiu particular notoriedade em Abril de 1988 quando, no final de uma operação secreta de infiltração de mais de dois anos, a Royal Hong Kong Police (RHKP) capturou o seu Cabeça de Dragão, Heung Wah-yim, um solicitador de Kowloon e neto do fundador, juntamente com vários dos membros da mais elevada graduação.
Mas a intervenção do mundo secreto de Hong Kong em Macau vai mais longe, chegando mesmo ao interior dos casinos, onde disputa a supremacia das rivais locais. Ao mesmo tempo, é na outra margem do Rio das Pérolas que grande parte dos desertores com a cabeça a prémio, ou fugitivos da justiça, encontra abrigo, principalmente nos dédalos imensos de Kowloon, uma área que a RHKP, mais do que controlar, tenta essencialmente fazer parecer que controla. Santuário seguro, Kowloon abrigou, em meados de 1989, o último fugitivo notório, Chiu Chung Peng, um dos chefes da 14 Quilates. Condenado à revelia, em finais desse ano, a vinte e quatro anos de prisão, é um dos principais motores da “guerra” em curso pela conquista dos casinos.
Chiu, que com o seu grupo dominava, entre outros negócios, a agiotagem e a troca ilícita de fichas, viu-se a certa altura confrontado com o assédio de uma outra facção da 14 Quilates originária de Hong Kong que, unida à Gasosa, pretendia afastá-lo. Esse assédio levou-o, por seu turno, a procurar o apoio da Iau Lun, com quem se juntou a fim de sustentar a sua posição. Aliada de circunstância, a Iau Lun lançou-se num jogo duplo, bandeando-se com o grupo de Hong Kong, o que agravou a situação e desencadeou um confuso e descontrolado processo de arruaças e agressões. A luta culminou no assassínio de um dos elementos da facção de Hong Kong da 14 Quilates, croupier no casino, esfaqueado em retaliação por anterior agressão a um dos homens de Chiu. Nessa altura a polícia (que vinha seguindo com atenção o curso dos acontecimentos, conhecendo-os em todas as suas ramificações) decidiu intervir.
Para além de resultar na detenção da maior parte dos implicados, o caso fez história essencialmente ao constituir o primeiro processo de que há memória nos últimos doze anos a ser entregue ao tribunal contra uma sociedade secreta específica, e expressamente nomeada: a 14 Quilates. Os crimes que constavam dos  autos foram todos dados como provados, e os juízes não tiveram contemplações.

Ao rigor da sentença escapou, contudo, entre outros, Chiu Chung Pen, cuja fuga abalou as suas fileiras mas não pôs termo ao conflito. Embora afastada das mesas de jogo, a seita contra-atacou pouco depois, desferindo o seu golpe no coração do local de onde tinha sido desalojada: o Casino Lisboa. O alvo escolhido foi precisamente o chefe da facção rival da 14 Quailates, cuja eliminação poderia fazer voltar tudo ao princípio. O atentado ocorreu quando a vítima se encontrava a jantar num dos restaurantes do rés-do-chão. Dois homens armados de revólveres atingiram-no com vários tiros, pondo-se imediatamente em fuga. Os disparos, feitos do exterior e através de uma das janelas do restaurante, junto à qual se sentava, foram amortecidos pela invulgar espessura do vidro, causando-lhe apenas alguns ferimentos de que se recompôs após breve passagem pelo hospital.
O atentado frustrou-se, prolongando um conflito que, segundo é voz corrente, só será encerrado quando a morte de um chefe permitir a negociação da paz sem ninguém “perder a face”.
Mas as seitas de Macau não limitam já o seu campo de actuação a Hong Kong ou à Zona Económica Especial de Zhouhai, na RPC (onde vão sofisticando os seus esquemas de controlo do contrabando de material electrodoméstico e electrónico, bem como o tráfico de divisas). O território sob administração portuguesa encontra-se já em pleno período de transição, indicando às seitas limites de menos de dez anos para além dos quais tudo é duvidoso – o que as obriga a procurar novos horizontes.
Em Hong Kong, entretanto, esse mesmo período de transição está já a provocar movimentos concretos das seitas para o exterior, e que dia a dia se tornam mais evidentes. Essa tendência fez acender sinais de perigo em vários continentes, que levaram de imediato à realização, na cidade francesa de Lyon, de um encontro de representantes policiais dos países e territórios interessados, no âmbito da Interpol, destinado exclusivamente a debater as implicações da expansão mundial do fenómeno “seitas”. A inédita agenda que ali reuniu polícias de meio mundo mostrou claramente o grau de preocupação que o assunto gera (e, ao que parece, plenamente justificada, pelo menos nalguns países mais afectados).
Na Grã-Bretanha, por exemplo, a polícia tem-se concentrado na tentativa de controlo de uma guerra protagonizada por grupos da seita Soi Fong e da Wo Sing Wo, com incidência em Londres, Southampton, Birmingham,  Liverpool, Glasgow, Nothingham, Bristol, Cardiff e Belfast. O controlo do negócio da venda e aluguer de vídeos (ligado a Hong Kong) é uma das áreas que têm motivado os confrontos. Neste contexto, a polícia assinalou já a presença em solo inglês de assassinos enviados da colónia britânica do Extremo Oriente para selar ajustes de contas, assim como grupos de lutadores de Kung Fu (por vezes com mais de vinte elementos) da mesma procedência, como “reforços” para as partes em conflito. A dimensão do problema tornou-se mais evidente com as revelações da imprensa de que 90 por cento dos negociantes da comunidade chinesa de 250 mil membros residente na Grã-Bretanha se encontravam directa ou indirectamente ligados às seitas. A questão cresce ainda mais de importância perante os números divulgados pelo comandante da RHKP, segundo os quais mais de cem mil pessoas pertencem às associações secretas em Hong Kong.
Mas nem só nas cidades britânicas se sente com cada vez maior intensidade a presença das seitas oriundas do Sul da China. Em Roterdão, nove chineses de Hong Kong foram condenados, em Janeiro de 1990, a penas de mais de dez anos de prisão por diversos crimes, entre os quais o de pertencerem a uma associação de malfeitores. Este foi o primeiro julgamento de uma seita secreta chinesa da história dos tribunais holandeses. Também em Amesterdão, Nova Iorque, S. Francisco, Toronto, Vancôver e Sidney, principais destinos dos que preferem trocar a colónia britânica por locais que se afiguram de futuro mais tranquilo, fenómenos idênticos têm lugar.
Relativamente a Macau, salvaguardando naturalmente as proporções, o processo é paralelo. Ao que se sabe, as escolhas dos que querem sair do território antes da transferência da administração portuguesa para a RPC são sensivelmente as mesmas. Para as seitas de Macau, abre-se porém uma fronteira que não consta do catálogo de hipóteses das suas congéneres do outro lado do Rio das Pérolas: Portugal – um dos poucos países onde até agora a actividade das seitas chinesas tem sido praticamente desconhecida. De facto, apenas de longe em longe um dos seus correios cai nas mãos da polícia ao escalar, em trânsito para outras paragens, os aeroportos de Lisboa ou do Porto, transportando heroína. Todavia, a partir de agora passam a existir fortes possibilidades de as seitas se estabelecerem, pela primeira vez, no ponto mais ocidental da Europa. Essas possibilidades serão tanto mais concretas quanto forem para a frente os projectos anunciados de construção de vários bairros chineses (Chinatowns) em diversos pontos do país, preparados para alojar milhares de famílias oriundas de Macau e também de Hong Kong. Mas estarão já as seitas a preparar o terreno para a mudança?
O caso de um investidor imobiliário encontrado morto a tiro numa estrada de Sintra em 1985 poderá fornecer alguns elementos de resposta, sabendo-se que alguém ligado à vítima recebeu pouco depois garantias de desinteressada protecção, em nome de uma associação secreta. Poderá este episódio dar consistência a rumores de que o negócio de compra e venda de propriedades em Portugal (onde a presença de interesses chineses é sensível) começou já a ser infiltrado pelas seitas, num sector em que estas detêm larga experiência acumulada nas “selvas” da construção civil de Macau e Hong Kong?
Seja qual for a resposta, as autoridades policiais estão já a observar o desenvolvimento da situação, que parece entretanto apontar de facto para a chegada, a médio prazo, dos desconhecidos e estranhos criminosos do “Oriente Secreto” aos grandes centros urbanos e industriais portugueses. As proporções e a dimensão da luta que se adivinha não serão, é certo, as mesmas do peculiar palco macaense; no entanto, a violência de que será portadora não pode ser ainda avaliada. Os exemplos que vêm dos Estados Unidos da América,  da Grã-Bretanha ou da Holanda endereçam todavia, e desde já, uma clara mensagem de advertência a Lisboa para que actue de imediato sobre um problema cuja prevenção não depende apenas dos esforços da polícia. A experiência portuguesa em Macau talvez sirva, neste caso, para alguma coisa.

*Jornalista.
Extracto do livro As Seitas,
edição Livros do Oriente.

Duas instituições macaenses

“Duas Instituições Macaenses”, livro da autoria de João Guedes e José Silveira Machado, edição de 1998 que conta a história da APIM- Asociação Promotora da Instrução dos Macaenses e da Escola Comercial Pedro Nolasco. Esta escola funcionou em dois edifícios (na imagem vê-se o primeiro) e ambos ainda existem. O mais recente é de 1966 e ali funciona desde 1998 a Escola Portuguesa de Macau.
Escola ca. 1900
Na segunda metade do século XIX, a promoção do ensino em Macau era praticamente realizada pela Igreja. Apesar de ter havido algumas boas iniciativas de criação de instituições de educação, como o caso de James Matheson, que instituiu a Escola Principal de Instrução Pública, e de António Alexandrino de Melo, Visconde do Cercal, que fundou a Nova Escola Macaense, ambas tiveram curta vida por não terem conseguido atrair o interesse de mais ninguém.
O único estabelecimento de ensino que funcionava com regularidade e eficiência era o Seminário de S. José, onde se distinguia um brilhante corpo docente formado pelos padres da Companhia de Jesus, que eram maioritariamente estrangeiros.
Em 1870, no âmbito de uma reestruturação nacional do ensino religioso, de Lisboa veio uma ordem taxativa de expulsão de todos os professores estrangeiros das escolas de Macau.
Esta ordem caiu como uma bomba na cidade, pois a sua execução traria efeitos calamitosos no futuro da educação em Macau.

Não obstante os protestos da população e das petições dirigidas ao governo de Lisboa, nada conseguiu impedir que a lei de expulsão fosse aqui aplicada.
A preocupação de instituir um estabelecimento de ensino moldado para a área do comércio, que permitisse à maior parte da juventude se habilitar condignamente para poder aspirar a uma melhor colocação nos quadros do funcionalismo público ou das empresas de Hong Kong e Xangai, vinha já de longa data. No momento conturbado que se seguiu ao polémico decreto, aquela ideia ganhou forma.
Assim, em 17 de Setembro de 1871, um grupo de 19 mais preocupados e também mais ricos e influentes cidadãos de Macau reuniu-se em casa de Maximiano António dos Remédios e decidiu formalizar, por escritura pública, uma sociedade por quotas exclusivamente vocacionada para o desenvolvimento da educação, nascendo, deste modo, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM).
Desde a criação da APIM até ser fundada a almejada escola comercial passaram-se várias vicissitudes. A colaboração abnegada do colectivo de sócios e dos professores voluntários, em particular, o esforço empenhado de Pedro Nolasco da Silva, fez com que a escola pudesse abrir as suas portas no dia 8 de Janeiro de 1878.
O seu esforço mereceu o reconhecimento da comunidade que decidiu por unanimidade consagrá-lo, dando à Escola Comercial o nome de Pedro Nolasco da Silva.
Durante os cerca de 120 anos da sua existência, a Escola Comercial esteve sempre sob inteira responsabilidade da APIM que, apesar de ter em períodos diferentes lutado com imensas dificuldades financeiras, sempre a colocou como um desígnio primado.
NA: Excerto do livro já referido de onde as imagens foram retiradas.
Equipa de futebol dos anos 60 e direcção da Escola na mesma época já no novo edifício
Henrique de Senna Fernandes, Director da Escola (4º a contar da esquerda), com professores e contínuos, da esquerda para a direita, António Augusto Basaloco, João Conçalves Lucas (contínuo), João José Giga (contínuo), Cândida de Sousa Vieira, José Silveira Machado, António Pereira de Faria, Manuel Maria Sapage e António Maria da Conceição.
Texto de João Botas in Macau Antigo Blogspot

Áureo Nunes e Castro, Missionário, músico e pedagogo

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Juntamente com o “Macau Confidencial” vai ser apresentada a biografia do Pe Áureo Nunes e Castro, também de minha autoria, num evento que vai decorrer amanhã sábado dia 23 de Abril no Club Militar pelas 15 horas e 45.

Sobre esta biografia a agência de notícias LUSA dizia o seguinte:

Missionário, músico e pedagogo. É como o padre Áureo Nunes e Castro, um açoriano do Pico, é descrito numa biografia recentemente publicada em Macau, um território onde ainda se mantém vivo o seu legado.

A obra, que constitui o volume VIII da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau, foi escrita por João Guedes, jornalista e investigador da história de Macau, autor de diversos livros, que fez a sua “estreia” no género da biografia.

Nascido na Candelária do Pico (Açores) em Janeiro de 1917, o padre Áureo Nunes e Castro morreu em Janeiro de 1993 em Macau, onde passou a maior parte da sua vida dedicada à Igreja e à música, sendo a Academia S. Pio X – que fundou e dirigiu desde o início até praticamente à sua morte – uma espécie de marca viva da importância que teve na cultura em geral e na música erudita.

“Creio que esta biografia traz a público uma coisa ignorada: a própria vida dele. Em Macau várias figuras distinguiram-se em diversos campos, mas a música no âmbito cultural é uma coisa pouco falada, não aparecem na história da música vultos como aparecem na literatura ou na pintura. O padre Áureo e Castro é uma excepção importantíssima na área da música e particularmente na da música sacra”, realçou João Guedes à agência Lusa.

Áureo e Castro veio para Macau aos 14 anos para integrar o Seminário de São José, numa altura em que “havia uma corrente de estudantes que eram recrutados pela Igreja Católica e que vinham de dois pontos de Portugal – Freixo de Espada à Cinta e Açores”. A evangelização da China seria o destino, como contextualiza João Guedes.

Contudo, “quando o padre Áureo já está formado, a revolução já tinha acontecido e surge a República Popular da China [1949] e, portanto, esses padres todos ficaram impedidos de seguir para a China e ficaram em Macau”.

“Normalmente eram professores, mas dedicavam-se a outras coisas. Por exemplo, o padre [Manuel] Teixeira dedicava-se à História, (…) o padre Lancelote Rodrigues aos refugiados, o padre Benjamim Vieira Pires era poeta (…). Eles constituíam, na altura, a inteligência de Macau”, indicou João Guedes, antes de avançar para a figura que traça ao longo de uma centena de páginas.

“O padre Áureo e Castro gostava de música, era um músico acima da média e acaba por ser escolhido para ir para o Conservatório de Música de Portugal para tirar o curso de maestro/compositor. Vai para lá, sai formado com altas notas e regressa a Macau para fundar uma filial do Conservatório de Música de Lisboa, o que depois não acontece por vicissitudes várias, de maneira que acaba por se fundar a Academia S. Pio X”.

Como nota João Guedes, “ele não emparceirou com os grandes compositores mundiais apenas porque escreveu pouco”. Esta é, aliás, a opinião, que vem citada no livro, do maestro Simão Barreto, que foi aluno do padre Áureo e Castro.

Entrando pela musicalidade, o autor da biografia destaca um “Te Deum”, composto em finais da década de 1950, “que se manteve inédito durante muitos anos depois da sua morte e que foi tocado há poucos anos”, e peças soltas, definindo-o com um “precursor”, dado que tem uma série de trechos em que “foi capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica”.

Esses trechos “são tocados por vários pianistas de renome internacional”, segundo João Guedes.

“A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o Governo reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi alma inspiradora e trave mestra”, lê-se na obra, em que se salienta que Áureo e Castro “encerrou definitivamente um ciclo da cultura em que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época”.

Quinta-feira 7 de Janeiro 2016

“The Lone Flag”, Memórias do Cônsul Britânico em Macau na II Guerra Mundial

Sobre Macau no período da “Guerra do Pacífico”, bem longe de tudo estar dito, quase tudo continua por dizer. Para além de um primeiro livro dado ao prelo há menos de dois anos, que se pode considerar ter abordado a questão em profundidade, escrito pelo jornalista João Botas, o panorama bibliográfico nessa matéria resume-se a uma ou duas monografias, um livro de memórias, artigos de jornal avulsos e pouco mais.

Face a esse panorama, a importância de “The Lone Flag”, livro da autoria de John Pownall Reeves, o cônsul britânico que permaneceu em Macau durante toda a guerra, salienta-se por si só. Mas mais ainda se agiganta por ser um testemunho privilegiado, contado na primeira pessoa por alguém que viveu por dentro as mais diversas situações, e conheceu os quês e porquês de acordos, alianças e relações internacionais que ainda hoje nos parecem misteriosas, ou nos causam pelo menos perplexidade. O cônsul John Reeves explica muitas delas num discurso de inquestionável simplicidade literária, mas que revela um domínio sólido da escrita, alinhando fluentemente uma narrativa que prende o leitor do princípio ao fim.

O livro vale a pena não só pelo que revela, mas também pela forma como o faz e, acima de tudo, pelo modo como desfaz alguns mitos que circulam por aí sobre esse período terrível e conturbado, que na parca bibliografia disponível é geralmente caracterizado como anos de festas, bailes e torneios desportivos intermináveis.

Não foi assim, ou melhor esteve muito longe de ter sido apenas assim. De facto, os bailes, os saraus e as festas faziam antes parte de um plano de guerra meticulosamente planeado por Reeves e destinado a manter elevado o moral de uma comunidade de refugiados vindos quase todos de Hong Kong, que se arrastavam penosamente pelos centros de acolhimento disponibilizados para o efeito, nomeadamente o Grémio Militar (actual Clube Militar), o Clube de Macau e o desaparecido Clube de Sargentos, instituições sedeadas em edifícios que estavam preparados para tudo menos para acolher refugiados e mais ainda num tão elevado número. Neste âmbito, Reeves desfaz algumas imprecisões de ordem histórica e, como disse, uns tantos mitos, nomeadamente no que diz respeito aos propalados braços abertos e ao calor com que os refugiados foram recebidos pelos seus irmãos de Macau. O que se pode deduzir do que diz Reeves é que reinou mais a indiferença, senão mesmo a hostilidade, do que o calor. Para compensar, Reeves salienta por contraposição a acção da igreja católica, que parecia conseguir multiplicar os pães que não existiam para matar a fome a uma população que tinha crescido em pouco tempo de cerca de cem mil almas para mais de meio milhão (há quem diga que chegou a um milhão, mas na ausência de estatísticas ficam os números do cônsul britânico). Ainda para mais, uma população quase exclusivamente confinada aos limites da península de Macau, cuja superfície era então menos de metade do que é hoje. Reeves, ele próprio um católico praticante, enaltece a acção da igreja e em particular a dos Salesianos, que para além do apostolado ajudavam também, sempre que podiam, na protecção e fuga de prisioneiros de guerra e aviadores abatidos pelos japoneses na região. Neste ponto não pode deixar de dizer-se, igualmente, que foi graças aos salesianos que Reeves se pode manter em comunicação com o comando aliado em Chunking, onde estava sedeado o governo da chamada “China livre”, beneficiando de um emissor clandestino que operava no colégio dessa ordem situado na Rua Central. Fica assim a saber-se que a igreja católica pendia mais para os aliados do que para os japoneses, mas principalmente que o governador Gabriel Maurício Teixeira, que sabia pelo próprio Reeves da existência desse emissor, permitiu sempre que operasse, demonstrando assim o seu lado resolutamente anglófilo. Esse posicionamento do comandante Gabriel Teixeira poderá explicar talvez o facto de, para além de não ter atingido o topo da carreira naval, não ter visto devidamente reconhecida a sua acção depois do que passou nos anos de fogo da colónia portuguesa da China. Provavelmente Salazar preferiria que o governador de Macau se declarasse mais propenso ao “eixo” para o deixar chegar a almirante.

Em “The Lone Flag”, Reeves esclarece também algumas facetas da amizade que o ligava ao seu homólogo japonês Fukui, que vivia paredes meias com o consulado britânico nas faldas da Guia. Dizem até que um corredor secreto permitia a comunicação entre as casas de um e outro, mas Reeves não fala nisso. Fukui seria assassinado por um comando a soldo dos próprios serviços secretos militares japoneses, a temível “Kempentai”. O incidente revestiu-se da maior gravidade, já que o governo nipónico acusou Portugal de responsabilidade no caso, por não ter garantido as medidas de segurança necessárias em torno do seu representante diplomático. Apesar de se saber à saciedade que o homicídio tinha sido obra nipónica, Portugal não teve remédio senão pedir desculpas a Tóquio e indemnizar o governo imperial por perdas e danos.

No âmbito da segurança, Reeves fala de Macau como o verdadeiro “far west” que nesse tempo era. Descreve nomeadamente os frequentes tiroteios entre facções rivais que tinham lugar na Calçada da Guia, entre o Cemitério dos Parses, lá no alto, e o Jardim Vasco da Gama, cá em baixo. Nessas alturas, o cônsul não tinha remédio senão permanecer de portas bem trancadas no interior do consulado, protegido pelos seus vinte guarda-costas armados até aos dentes, e esperar que a tempestade bélica passasse, para então recolher à sua residência que ficava no lado oposto da cidade, perto de S. Tiago da Barra. O cônsul, para além dos guarda-costas, não dispensava um revolver de grosso calibre, que apenas tirava para tomar banho ou dormir. O correspondente da agência Reuters dizia que mesmo quando praticava no Tap Seak hóquei em campo, o seu desporto favorito, não se desfazia da arma. Reeves diz que a afirmação do amigo jornalista era um exagero e que entregava o revólver a um guarda-costas durante os jogos.

Aliás, é no âmbito da segurança que  “The Lone Flag” desfaz um outro mito relativo desta vez ao temível Wong Kong Kit, o chefe de piratas que com o seu bando manteve Macau a ferro e fogo durante esses anos de guerra, tendo levado a cabo assaltos, raptos, homicídios e atentados bombistas que provocaram numerosas vítimas, perante a impotente passividade da polícia e dos militares portugueses.

Segundo a história corrente, Wong Kong Kit fugiu no fim da guerra para escapar às polícias de Macau, Hong Kong, China e E.U.A. que o queriam fazer julgar pelos seus hediondos crimes. Na caça ao foragido ter-se-ia destacado um agente da polícia de Macau, que teria descoberto o paradeiro do criminoso numa ilha da foz do Rio das Pérolas. Segundo ainda a mesma versão, o esperto polícia português prendeu o malfeitor, escondeu-o no porão de um rebocador que tinha pedido emprestado à “Royal Hong Kong Police”, a quem ficara de o entregar. Em vez disso, transbordou o preso para outra embarcação, rumando com ele a Macau. Wong Kong Kit nunca seria julgado, já que o mesmo polícia que o prendeu o abateu a tiros de pistola, alegadamente quando tentava fugir da carrinha celular onde era transportado, algures na Rua Francisco Xavier Pereira.

Afinal, a história não foi definitivamente assim. De facto, segundo Reeves, o foragido foi apanhado por um grupo de guerrilheiros comunistas que o venderam aos americanos. Para o efeito, dois agentes do FBI deslocaram-se a Macau e o agente da polícia português limitou-se apenas a ser o intermediário no negócio, trazendo o procurado para Macau a salvo, ou seja, sem que no trajecto pudesse cair nas mãos dos ingleses.

Neste livro recheado de peripécias tudo são novidades e todas mereceriam destaque, mas fiquemo-nos apenas pela revelação do papel de Y. C. Liang, o grande magnata de Macau dessa época, que, com empréstimos vultuosos ao cônsul, viabilizou a protecção concedida aos refugiados pelo consulado britânico. Esse dinheiro pagava ordenados, dispensava cuidados de saúde e garantia alojamentos, o que ficava muito caro. Por outro lado, essas volumosas transacções financeiras fizeram com que na prática a pataca fosse vista como indexada à libra esterlina, mantendo, por isso, uma estabilidade que outras moedas, mesmo as mais fortes, não tinham, subindo e descendo vertiginosamente muitas vezes em apenas um dia.

John Pownall Reeves deixou Macau em 1946, para ocupar temporariamente um posto consular em Roma, local onde concluiu a escrita do livro “The Lone Flag”, que assina em 1949. Depois disso, passou ainda pela conturbada Indonésia do ditador Suharto, terminando a sua carreira como cônsul na cidade sul-africana do Cabo, onde se sumiria definitivamente no anonimato.

Morreu ali na sua casa, recheada de preciosas recordações que amigos lhe tinham oferecido ou que ele mesmo tinha comprado nas pequenas lojas das ruelas de Macau, de que falava com a verdadeira saudade de um português.

Mas morreu sem nunca mais voltar à China. E o seu livro permaneceu proibido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico até ser agora dado ao prelo.

João Guedes

In Jornal Ponto Final, 4 de Maio de 2014

Macau e a Primeira Grande Guerra

CdaMaia em HKong

Carlos da Maia visita Hong Kong no dia 10 de Junho de 1914.

O ano de 2014 assinalou o centenário da Primeira Grande Guerra Mundial, período que assistiu em Macau à governação de Carlos da Maia e a um esforço de preparação para resistir aos conflitos mundial e chinês vividos na altura.

O assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo que desencadeou a 1ª Grande Guerra Mundial foi apenas o percutor de um conflito latente que apenas precisava de uma justificação, fosse ela qual fosse, para eclodir. De facto na era dos caminhos-de-ferro a Alemanha e a Grã-Bretanha eram duas locomotivas a avançar a pleno vapor em sentidos contrários na mesma ferrovia sem que aos maquinistas ocorresse que era necessário mudar de agulha para fugir ao desastre.

Ainda hoje se debate sobre quem, nesse contexto, assumiu o papel de agressor. Essa discussão, porém, parece pouco contribuir para a compreensão de um conflito que era de facto inevitável. É que, voltando à alusão ferroviária, os “maquinistas” das duas locomotivas já não dominavam as máquinas limitando-se fatalisticamente a aceitar que o Mundo se encontrava inexoravelmente em rota de colisão.

As causas da Primeira Grande Guerra Mundial estão hoje bem determinadas prendendo-se essencialmente com a entrada da Alemanha na expansão colonial por um lado e com a corrida aos armamentos, nomeadamente através do plano de desenvolvimento da marinha germânica que significava uma ameaça directa ao domínio absoluto dos mares exercido até então pela Grã-Bretanha.

A Alemanha entrou tardiamente na corrida imperial ultramarina e mais tarde ainda na busca de uma presença na China, que conseguiu obter em 1898 com o estabelecimento de uma colónia na localidade portuária de Tsingtao, na província de Shandong Esta presença foi conseguida (senão mesmo extorquida à China) a pretexto da protecção dos missionários alemães alegadamente ameaçados pelas forças “anti-estrangeiras” que se organizavam e ganhavam terreno no Império. Este movimento viria a culminar com a revolta dos “boxers” que eclodiria dois anos mais tarde ao abrir do pano para o século XX (1900).

Rapidamente a Alemanha transformaria Tsingtao num activo entreposto comercial cuja estrutura seria completada com a construção de cais de acostagem que passariam a abrigar o comando naval da esquadra alemã do Pacífico constituída por vários navios de guerra entre os quais sete dos mais modernos cruzadores que a indústria naval alemã, em plena expansão, tinha produzido.

A potência destruidora dessa esquadra seria demonstrada já durante a guerra na batalha naval de Coronel (junto à ilha do mesmo nome nas costas do Chile). Este recontro travado no início de Novembro de 1914 culminou com a derrota da esquadra inglesa. Tratou-se da primeira derrota britânica significativa em dois séculos de supremacia naval indisputada da Inglaterra. A vitória alemã era adivinhada muito antes e a base naval de Tsingtao vista como uma ameaça directa e uma “intromissão intolerável de um recém-chegado” ao concerto das potências coloniais que já desde, pelo menos, a “Conferência de Berlim” (1884) tinham dividido os seus domínios colonias e estabilizado esferas de influência.

Nesse contexto de confronto asiático a tensão geopolítica incrementava-se tendo em conta que Tsingtao fechava estrategicamente o domínio da bacia do Pacífico onde a Alemanha tinha colonizado vários arquipélagos (Ilhas Bismark, Marshal e parte do arquipélago de Samoa).

Para além da ameaça directa à Grã-Bretanha a presença alemã no Extremo Oriente inquietava naturalmente as restantes potências europeias, mas também o Japão que prosseguia igualmente uma política colonial de expansão regional nomeadamente no Nordeste Asiático.

De entre as potências coloniais a que menos se encontrava representada na China em termos de extensão territorial) era Portugal que apenas possuía a sua colónia de Macau constituída por uma península onde se erguia a cidade com uma população de cerca de 120 mil habitantes, e duas pequenas ilhas (Taipa e Coloane), praticamente sem potencial militar nem capacidade de defesa face à pequenez das suas dimensões. Tendo essas circunstâncias em conta dir-se-ia que Macau não teria qualquer importância no vasto contexto político militar do Extremo Oriente. Mas a realidade era exactamente a oposta. Para Portugal, era essencial que cada uma das suas possessões ultramarinas participasse activamente nos planos político-militares que os aliados lhes destinassem, fossem eles quais fossem independentemente das dimensões geográficas de cada uma. Isto tendo como fim último a preservação do seu todo colonial (principalmente africano) sempre exposto à cobiça das potências europeias mais fortes, sem excluir a velha aliada Inglaterra.

A entrada de Portugal na guerra foi pois um imperativo ditado pela preservação das colónias cujo reconhecimento foi assegurada desde logo através de uma declaração de Londres em que “o governo britânico pedia expressamente a Lisboa que não declarasse neutralidade nem participação na guerra. Em contrapartida assegurava que: “…ao abrigo da aliança anglo-portuguesa, o Reino Unido reconhece o direito de Portugal às colónias africanas, contra as pretensões ou iniciativas da Alemanha”. Essa declaração vinha ao encontro das expectativas portuguesas postando-se como uma garantia contra eventuais acordos de partilha das suas possessões pelas potências vencedoras no final do confronto.

Tendo em conta a conjuntura que marcava o limiar da eclosão da Grande Guerra” onde se avolumavam nuvens de borrasca negras de dúvidas no horizonte geopolítico mundial, Macau apesar de diminuta geograficamente valia tanto para Portugal como as grandes colónias africanas de Angola e Moçambique, ainda que nas garantias inglesas as poções asiáticas portuguesas (Goa, Macau e Timor) não tivessem merecido menção.

Parece ter sido essa omissão a razão essencial que leva Lisboa a quebrar com uma tradição secular na escolha de governadores para Macau que recaía entre os militares que iniciavam carreira na administração colonial, nomeando em vez disso, um peso pesado da política portuguesa, Carlos da Maia.

Um dos fundadores da república (5 de Outubro de 1910), Carlos da Maia deixou o serviço activo na marinha com a patente de capitão-tenente para se dedicar por inteiro à política ocupando o lugar de deputado na Assembleia Constituinte. Depois disso passou a integrar os quadros da Direcção-Geral das Colónias, conhecendo por dentro todos os meandros da política colonial portuguesa bem como a geoestratégia internacional nessa área. Terá sido por esse facto que o governo o nomeou para o então sensível cargo de governador Macau. Saliente-se que à data da nomeação (10 de Junho de 1914) Carlos da Maia se encontrava já em oposição à corrente maioritária do regime que tinha ajudado a implantar. Essa corrente que viria a cindir a república constituiria o que veio a ser conhecido como Partido Democrático (PD) liderado por Afonso Costa e Bernardino Machado que directa, ou indirectamente governaria o país ao longo dos 16 anos que durou a primeira república em Portugal. Carlos da Maia acusava os políticos do “PD” de se afastarem da pureza dos genuínos ideais revolucionários. No entanto o facto de à data Bernardino Machado, responsável pela nomeação de Carlos da Maia, se afirmar como chefe de um governo de “reconciliação nacional” justificou a escolha extra partidária.

Carlos da Maia chegou a Macau num momento em que todo o extremo oriente se agitava. A Norte o Japão ocupava a Manchúria e a Coreia enquanto paredes meias a China que três anos antes tinha proclamado a república via um dos seus mais prestigiados caudilhos (general Yuan-chi-kai) voltar com a palavra atrás, fazer ressuscitar o antigo regime e autoproclamar-se imperador. A China divide-se então mergulhando numa guerra civil que esfrangalha o país e que só terminará verdadeiramente em 1949 com a derrota dos nacionalistas e a proclamação da República Popular em 1 de Outubro de 1949.

Nesse contexto de divisão a província de Guangdong declara-se independente e republicana deixando de obedecer a Pequim. Por seu turno Yuan-chi-kai responde enviando tropas para o sul que momentaneamente sobrelevam os republicanos cujos líderes retiram estrategicamente para os “santuários” de que dispunhas nas colónias britânica e portuguesa na foz do Rio das Pérolas. Em Macau estabeleceram mesmo um dos principais quartéis-generais militares da contra ofensiva republicana.

A minúscula Macau encontrava-se assim, mergulhada num caldeirão politico em ebulição que ameaçava transbordar a todo o momento. Entretanto o conflito mundial eclodia na Europa e o Japão depois de um breve período de neutralidade declarava guerra à Alemanha em 15 de Agosto de 1914 pondo cerco a Tsingtao que seria a primeira colónia germânica a cair nas mãos dos aliados da “entente”.

No final do conflito a presença alemã na China e na bacia do Pacífico seria totalmente erradicada.

Nesse processo de clarificação de posições a China mergulhada na guerra civil e sem um centro político de decisão nacional tardava em pronunciar-se.

Carlos da Maia chega a Macau essencialmente incumbido da missão de preparar a colónia para resistir a eventuais ameaças, ainda que militarmente pouco discerníveis e coordenar com os seus homólogos de Hong Kong e da Indochina políticas para fazer face às iniciativas estratégicas alemãs.

Para Macau o perigo decorria muito mais da anarquia em que a china se encontrava mergulhada do que da iniciativa alemã. Isto, tanto mais que, a esquadra germânica deixaria definitivamente a sua base da península de Shandong que se rendia às forças conjuntas anglo-nipónicas, depois de ferozes e prolongados combates, para se lançar em operações de caça às esquadras inimigas nas costas sul americanas e nos mares do Índico.

Para Macau a “Grande Guerra” seria sempre um conflito longínquo. Isto ainda que todos os seus desenvolvimentos se repercutissem nas páginas da imprensa local, ainda que raramente sobrelevavam os títulos de primeira página essencialmente dedicados aos acontecimentos do quotidiano local. Macau estava demasiado longe dos teatros da guerra europeia mas demasiado perto do palco revolucionário da China. Luís Nolasco, director do jornal “O Progresso” chamando a atenção para o facto de Macau se encontrar numa das situações mais delicadas da sua história e que teria de organizar a sua defesa para fazer face a agressões externas, ou subjugar “algum movimento insurreccional interno” sintetizava assim a situação: – “Temos de um lado a Europa empenhada nessa gigantesca e encarniçada luta fratricida despendendo milhões por dia e sacrificando milhares de vidas nessa hecatombe formidável dos campos de batalha. Por outro lado vemos nos jornais que a China está também em vésperas de uma contra revolução. O irrequieto dr. Sun-iat-sen e os seus agentes revolucionários seguiram pelos cabelos este ensejo da conflagração europeia para desfraldar novamente o pendão da revolta”.

Apesar da ameaça alemã ser vista pelos planeadores militares como bastante vaga e de difícil concretização o governo de Macau não deixou de tomar medidas, nesse âmbito, pedindo nomeadamente o envio de uma força militar para reforçar a guarnição existente considerada insuficiente, mesmo em tempos de paz. No entanto o governo de Lisboa fez “ouvidos moucos” ao pedido e em vez de mandar reforços exigiu antes o envio da quantia de “120 contos” para Angola, para onde, sim, Portugal estava a enviar consideráveis forças militares destinadas a proteger a fronteira Sul que confinava com a colónia germânica da Namíbia. A remissão de tão elevada quantia, não deixou de levantar os mais veementes protestos das forças vivas de Macau que, no entanto, não produziram qualquer efeito junto de um governo que canalizava todas as suas energias políticas e económicas para África.

Do ponto de vista administrativo Macau encontrava-se num estado de desorganização patente, ainda que economicamente os monopólios do ópio e do jogo, entre outros assegurassem ao governo elevadas receitas. Estas fontes foram aproveitadas por Carlos da Maia para por em marcha um plano de reorganização política e administrativa que vinha sendo adiada desde a mudança de regime em 1910.

Foram igualmente essas fontes de receita que lhe permitiram modernizar com sucesso o esquema defensivo em terra e no mar.

Perante a recusa do governo da metrópole de enviar tropas, o governador toma a iniciativa de organizar um batalhão de voluntários encarregado de auxiliar a guarnição militar local. Este corpo voluntário pouco acrescentava ao dispositivo militar existente não compensando de modo algum a lacuna deixada pela recusa metropolitana, Carlos da Maia sabia-o bem, mas apesar do seu pequeno número a organização do “batalhão de voluntários” visava essencialmente um efeito político e propagandístico exaltando o moral da população de Macau. Apesar de nunca terem tido oportunidade de entrar em acção os voluntários efectuaram treino regular ao longo de todo o período da guerra sendo amiúde citados na propaganda como um exemplo de orgulho nacional na imprensa metropolitana e estrangeira.

A par do “batalhão voluntário” o governado procedeu também à reorganização dos serviços de manutenção da ordem pública com a criação da polícia civil (30-10-1915), organização estruturada segundo os conceitos mais modernos em vigor.

Na área de marinha foram igualmente dados passos decisivos num sector que se encontrava em decadência e impossibilitado de efectuar uma guarda minimamente eficaz das costas de Macau e das ilhas, bem como a protecção contra a actividade dos piratas que se mostravam impunes na região do Delta e muitas vezes efectuavam assaltos em terra penetrando até aos mais movimentados bairros do interior da cidade. Para o efeito foi lançado um plano de aquisição de cinco lanchas canhoneiras que restabeleceram o sistema de defesa naval.

A culminar toda a estrutura Macau e as ilhas ficaram também ligadas pelo primeiro sistema de comunicações através da telegrafia sem fios. Esta novidade tinha uma importância fundamental tendo em conta que não existiam pontes entre Macau e as ilhas sendo as ligações efectuadas por embarcações civis que efectuavam o percurso com irregularidade, ou muitas vezes, pelas próprias lanchas da marinha à falta dessas carreiras regulares.

A par de tudo isto Carlos da Maia aproveitando, como disse, os plenos poderes com que vinha investido de Lisboa e a boa situação económica local interveio também noutros sectores ainda que nem sempre com o mesmo sucesso.

Para além de ter levado a efeito um plano de construção de um sistema de escolas primárias (que ficaram conhecidas como “Escolas República”), no plano da educação, construiu também, na área da saúde, uma leprosaria na ilha de D. João (actual Heng Chin), introduzindo igualmente um sistema de subsídios aos três principais hospitais (Kiang  Wu, S. Rafael e S. Januário).

A criação de uma inspecção dos incêndios comandada pelo major Craveiro Lopes (pai do antigo presidente da república Francisco Higino Craveiro Lopes), com a aquisição à Grã-Bretanha do mais moderno equipamento automóvel foi outro ponto importante da sua administração.

A par dos sucessos que a história lhe reconhece, Carlos da Maia também conheceu o fracasso em dois pontos importantes do seu mandato. O primeiro foi a tentativa de levar a cabo e concluir as obras de regularização do Porto Interior e o segundo a implementação uma Carta Orgânica de Macau.

O plano de reorganização do Porto Interior, que já vinha de trás, voltou a confrontar-se com a hostilidade chinesa que via nele uma tentativa de expansão de Macau tendente à ocupação por Portugal da ilha da Lapa fronteira ao referido porto. Apesar do bom relacionamento de Carlos da Maia com as autoridades republicanas de Cantão, as correntes nacionalistas ali prevalecentes boicotaram todas as tentativas o que acabaria por fazer fracassar o projecto. A implementação da carta orgânica que deveria substituir o antigo estatuto que vinha de 1842 e que corria em linha com a reorganização político-administrativa das colónias portuguesas, foi igualmente plano que fracassou antes mesmo de ver a luz do dia. Ao que parece a principal razão do desfecho deve-se ao facto de Carlos da Maia, à semelhança do que tinha feito antes dele o governador Ferreira do Amaral (1846-49), ter proposto a extinção do Leal Senado transformando a antiga instituição numa secretaria do governo para os assuntos municipais.

Esta proposta parece ter constituído uma das principais razões que levou à sua demissão. Uma demissão que Carlos da Maia contestou resolutamente mesmo depois de ter regressado a Lisboa, o que fez com que durante largos meses o governo de Macau tivesse ficado a cargo do secretário-geral Manuel Ferreira da Rocha com poderes limitados delegados pelo próprio Carlos da Maia que chegou a despachar assuntos correntes da colónia a partir de Lisboa.

Esta situação vista como anómala pelo direito administrativo era agravada pelo facto de Ferreira da Rocha, ser próximo do Partido Democrático de Afonso Costa, que tinha voltado à chefia do governo e que era inimigo político confesso de Carlos da Maia.

Carlos da Maia embarcou no dia 5 de Setembro de 1916 de regresso a Lisboa, num momento em que tropas portuguesas se preparavam para atravessar em Moçambique o rio Rovuma e penetrar em território alemão uma ofensiva que viria a ter custos terríveis para o exército português.

Do outro lado das Portas do Cerco Yuan-chi-kay depois de se ter autoproclamado imperador morria (6 de Junho de 1916) antes de ocupar o trono e de imediato a China mergulhou na guerra civil vendo-se dividida de facto pelos senhores da Guerra em várias províncias virtualmente independentes. Na província de Guangdong vizinha de Macau os republicanos voltaram ao poder ainda que coexistindo em frágeis alianças com os senhores da guerra.

Apesar do caos o governo central sedeado em Pequim existia ainda que apenas ou quase só nominalmente já que não tinha poder sobre o país. No entanto apenas pelo facto de existir era reconhecido diplomaticamente pela comunidade internacional o que permitiu ao presidente da república general Feng Guozhang, a 14 de Agosto de 1917, acabar com o impasse que persistia e declarar guerra à Alemanha. A tomada de posição chinesa visava não só obter um lugar à mesa dos vencedores no final da guerra, mas também retomar o controlo sobre a província de Shandong ocupada pelos japoneses. Os aliados deram como bem-vinda a entrada de Pequim na guerra, mas rejeitaram o envio de tropas para as frentes de combate preferindo negociar a contratação de trabalhadores para a construção e reparação das linhas de caminho-de-ferro na Europa. O contingente laboral chinês ascenderia até ao final do conflito a mais de 100 mil trabalhadores.

Terminado o consulado de Carlos da Maia, Macau voltou a perder protagonismo no seio do império e a política de maior ou menor indiferencia, porque sempre se tinham pautado os governos de Lisboa, relativamente à sua colónia da China regressou. Essa atitude ficou bem patenteada no facto de Macau ter ficado entregue a administrações interinas durante quase dois anos, até à chegada de Artur Tamagnini Barbosa como governador em Outubro de 1918. Precisamente um mês antes da assinatura do armistício (11 de Novembro de 1918) que poria termo à Grande Guerra Mundial.

João Guedes

In Jornal Ponto Final 14 de Janeiro de 2015

Macau, uma ficção jurídica?

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Publiquei este artigo no número 57 da “Revista Vértice” de Novembro-Dezembro de 1993.

 

Para a grande maioria dos portugueses, Macau existe apenas como uma ideia imprecisa, um conceito que pouco ou nada tem a ver com as antigas colónias. Para uns, trata-se de mais um (embora pequeno) capítulo da geografia ultramarina que nos obrigavam a aprender na escola: território constituído por uma península e duas ilhas (uma das quais com o curioso nome de “Taipa”) e cuja indústria principal era o fogo de artifício. Para outros, Macau confunde-se um pouco com todo o Oriente mítico e místico, repleto de budismo e fumos de incenso, ópio, imagens de juncos diáfanos de velas de cana, a vogar contra um fundo brumoso… e outros estereotipos que, mais do que os escritores, talvez apenas Hergé tenha dado corpo plenamente em «Tin-Tin e O Lótus Azul». Para outros ainda, (porventura) mais literatos, Macau será a pátria do simbolismo, onde Camilo Pessanha inventou poemas demasiado  musicais para a sensibilidade romântica e excessivamente prolixos para o gosto neo-realista.

Mas, de todos os conceitos, um (o de um estrangeiro) parece ser a o mais adequado para definir a última colónia(?) portuguesa, paradoxalmente a mais longínqua de todas aonde os portugueses chegaram no tempo das Descobertas: “Macau, uma ficção jurídica” (1).

De facto, desde sempre Macau parece não ter passado de “ficção jurídica”, já que todos os dados históricos, quando compulsados, apontam para o facto de o território português do Sul da China ter sido ocupado um pouco à revelia dos interesses e das vontades do poder central de Lisboa. Isto, tanto quanto é possível extrair dos livros – e intenções – de Afonso de Albuquerque (o estratega e pioneiro da expansão Oriental) que considerava Malaca o último entreposto que Portugal precisava de conquistar. Contra as intenções realístico-políticas de Albuquerque surgiram, no entanto, meia dúzia de transfugas, seduzidos pela aventura ou, talvez apenas, pela ganância.

Um destes (provavelmente o mais famoso) foi Fernão Mendes Pinto, que se aventurou até ao longínquo Japão onde, dizem, introduziu a espingarda, pelo que, ainda hoje, é celebrado no Império do Sol Nascente como herói e percursor.

Outro, foi um comerciante vulgar (provavelmente semi-analfabeto), de seu nome Jorge Álvares. Embora referido en passant na história de Portugal, foi ele, nos idos de quinhentos, o primeiro a arribar a bordo de um junco (e não ao comando de uma caravela, como os cânones mandariam) às costas do Sul da China. Pela sua aventura, teve direito a ser perpetuado em Macau em estátua de granito, não logrando porém obter o estatuto de Cabral, Cão, ou Perestrelo e muito menos de Gama.

Mas pior sorte teve Tomé Pires, um boticário de Leiria, transformado à pressa em embaixador que, à custa da própria vida, tentou abrir para Portugal as portas da China. Contudo, mais não conseguiu que morrer em Cantão, sem que a história lhe concedesse nem um cantinho da lembrança universal nem, sequer, o direito a uma estátua.

Macau cresceu tambem à revelia da vontade institucional da China, que sempre viu com olhos desconfiados a chegada dos estrangeiros a quem chamava “diabos do Mar Ocidental”, epíteto que ficou até aos nossos dias. Porém, batalhas navais (ainda hoje mal provadas) contra piratas que assediavam a costa de Cantão e em que os portugueses teriam desempenhado papel de relevo, parecem ter servido de pretexto aos mandarins, nesses longínquos tempos, para fechar os olhos aos decretos imperiais que proibiam o contacto com o exterior, deixando assim que os “diabos” se fixassem em meia dúzia de cabanas de palha, que rapidamente se transformariam em exemplares monumentos de alvenaria da arquitectura colonial portuguesa. (Aqui, acresce dizer que a prata do Japão era artigo cobiçado na China, e que a seda chinesa era, por seu turno, disputada no Império do Sol Nascente; por isso, nada melhor que deixar que os portugueses se encarregassem de manter o fluxo comercial entre os dois colossos inimigos, que continuariam de costas voltadas por alguns séculos mais.)

Tudo o que ficou dito, serve apenas para ilustrar o verdadeiro estatuto de Macau: um pequeno ponto geográfico perdido nos confins do Oriente que, ao longo de mais de quatrocentos anos, sobreviveu, pode dizer-se, à sua própria custa, longe e à revelia da vontade d’El Rei. E certo é que, apesar de grandes vontades e estratégias reais, a história faz-se mercê da firmeza (ou da loucura) de pequenos caudilhos, como aquele capitão de artelharia de Borodino que Tolstoi descreve em «Guerra e Paz».

E foi, também, assim que se fez Macau, contra os tufões da China e os ventos da história Ocidental. Produto de uma aventura enjeitada (nem ao menos se sabe a data precisa em que nasceu a cidade), Macau foi, logo após a sua fundação, obscuro local de passagem de quantos heróis nacionais se conhecem.

Senão, vejamos: Camões, para além de ter estado na distante colónia, aí teria desempenhado o cargo de Provedor dos Defuntos e Ausentes. Este o pressuposto que, nos nossos dias, ainda carece de prova cabal. De concreto, sabe-se apenas que a gruta que hoje alberga o seu busto se situa em local a que documentos coevos atribuiem o nome de “Penedos de Camões”, que se diz igualmente ter dado origem à antiga lenda chinesa, segundo a qual um homem aí passava tardes, sozinho, escrevendo e dando de comer às pombas. Os chineses, apesar de pouco cuidarem da história portuguesa local, compreendem no entanto os poetas. Assim, através dos tempos acabariam por esquecer o nome daquele que alimentava os pássaros, retendo somente a romântica evocação do acto, preservada no nome por que ainda hoje designam a Praça Luís de Camões, em Macau: “Pá’ Kap Tchau”, ou Sítio das Pombas Brancas.

Um século e pico mais tarde, outro herói obscuro das letras nacionais passaria por Macau, tão fugazmente como Fernão Mendes Pinto (desconhecendo-se ainda que motivos o teriam movido a viajar para os tão distantes confins do Império português): Barbosa Bocage. Indigente e perseguido como o seu antecessor, ali, nos Penedos de Camões, compôs laudatórios sonetos a tudo quanto era figura grada da terra, “ganhando por isso o seu sustento”, como no tempo diziam.

Para a história que interessa, sobre Bocage ficou tão somente o seu nascimento sadino, os tratos de polé às mãos da Inquisição, o café Nicola (que, por coincidência, é hoje propriedade de uma macaense), as desditas da Índia… e as anedotas. Quanto à sua relação com Macau, esta é apenas mencionada num ou dois parágrafos da sua biografia e, mesmo assim insolitamente, por ter sido um modesto juíz a pagar-lhe a passagem de regresso à Europa, a bordo de um brigue. Pelo facto, dedicou-lhe o poeta mais algumas das suas gongóricas rimas que alcandoraram o benfeitor ao Olímpo, porventura a única elevação à altura do custo da passagem…

Mas, depois de Bocage, muitos outros vieram e se foram. Quantos saberão, por exemplo, que António Sérgio (essa figura mítica da oposição a Salazar) esteve, e escreveu, sobre Macau? Suponho tratar-se este de um segredo bem guardado, a que só outro, talvez ainda mais restrito, se sobreporá: o facto do pai de António Sérgio – António Sérgio de Sousa – ter sido governador da colónia (governador menor, diga-se, já que não teve direito a figurar, nessa capacidade, no dicionário Lello Universal, essa nossa lusa imitação do Larousse…).

Carlos da Maia, um dos fundadores da República, conduziu os destinos de Macau durante vários anos e em tempos de difícil conjuntura internacional, enquanto Camilo Pessanha, na sua casa avarandada que dava para a praia, a pouco mais de quinhentos metros do Palácio do Governo de Macau, se evolava em sonhos de ópio e, como Bocage e Camões, também compunha versos.

Isto, no preciso momento em que Venceslau de Morais (que, ao que se sabe, não era opiómano…), furioso por não ter sido nomeado Capitão dos Portos, declarava o seu ódio à cidade demitindo-se da Marinha e exilando-se em Kobe, no Japão. Em Macau, deixaria apenas testemunhos literários, em forma de ofício, nos arquivos da Capitania e filhos bastardos.

Todos estes ilustres personagens que perpassaram pelas suas calçadas portuguesas e bazares chineses, constituíam já para Macau, no dealbar do século XX, um palmarés invejável (afinal, Angola, até aquela data pouco mais tinha tido do que a sonante presença do Zé do Telhado).

No entanto, o desfile das letras nacionais prosseguiria, sempre renovado, pelos anos vindouros.

Joaquim Paço D’ Arcos (o escritor do regime, como era chamado no tempo de Salazar), dava os primeiros passos na vida e na literatura nessa colónia portuguesa do Oriente, mais ou menos por alturas em que Gomes da Costa, o fundador do Estado Novo, aprendia o ABC no seminário de S.José, instituição de letras que descendia da primeira universidade Ocidental em toda a Ásia, erguida em Macau no século XVII. (Aqui, interrogo-me sobre a contribuição dos padres do seminário na formação ideológica do futuro Marechal, e em que medida ela terá influído no próprio Movimento do 28 de Maio, pois, que me conste, nada há publicado sobre a matéria).

 

Tenacidade diletante da inteligência nacional

 

Entretanto, e do que atrás fica dito, poderá apenas concluir-se que, enquanto as outras colónias portuguesas eram pasto da cobiça nacional e internacional por via das suas exaltadas riquezas, a minúscula Macau sobrevivia mercê da tenacidade diletante da inteligência nacional, transfigurada em funcionários públicos ultramarinos, oficiais da Marinha e do Exército em comissão de serviço e burocratas locais, que teimavam em manter viva uma cidade improvável que, passada que foi a fabulosa, mas fugaz, era da prata do Japão e das sedas de quinhentos, só conheceu, de forma perene, a crise económica, facto que, desde sempre, espantou os cronistas estrangeiros que demandavam tais portos.

Assim é que, ainda hoje, os pragmáticos ingleses se interrogam como é que Portugal, sem exército nem força nem inluência política, teve a ousadia de se estabelecer – e permanecer – tão longe, em território que nunca poderia albergar heróis como Mouzinho (já que nada havia a pacificar) ou Serpa Pinto (tendo em conta a própria exiguidade geográfica que, à partida, invalidava quaisquer valorosas expedições – Macau, no seu maior comprimento mede apenas quatro quilómetros)…

Os ingleses, esses sim, possuíam forças navais e faziam juz à sua condição de superpotência, arrebatando para si Hong Kong (a menos de cem quilómetros do território português) a tiros de canhão, em 1841, e em poucas dezenas de anos ali estabelecendo um impório económico internacional, que obliterou Macau como porta exclusiva de entrada e saída para a China.

Nesses anos iniciais, apenas um pintor irlandês de nome George Chinnery (perseguido por credores desde Dublin a Bombaim) se recusou a acompanhar os opulentos negociantes britânicos no seu êxodo para a sede da nova riqueza que nascia em Hong Kong, preferindo morrer em Macau. Chinnery sabia que, apesar de tudo, a cidadezinha portuguesa não morreria com ele.

Desde o início da decadência da cidade – que, simbolicamente, coincidiu com a Restauração da Independência em 1640 – Macau mergulhou na crise, à qual subsistia ano após ano, pode dizer-se, no fio da navalha. Vezes incontáveis a cidade foi isolada, privada de abastecimentos e comunicações, na eminência de se ver varrida do mapa. No entanto, a História sempre encontrou uma forma de salvar o Território. Umas vezes, para tanto bastava o golpe de génio de um qualquer diplomata improvisado que encontrava a fórmula exacta de aplacar as iras do Vice-Rei de Cantão; outras, por via de uma das várias revoluções que, amiúde, rebentavam na China, transformando Macau em cidade-asilo de milhares de refugiados que, regressados às suas cidades no País do Meio mal passava a tormenta, não esqueciam a pequena urbe que lhes dera abrigo. O próprio Sun Yat-sen, primeiro Presidente da República chinesa foi um desses refugiados da colónia portuguesa, para onde fugiu para se salvar da decapitação certa às mãos dos torcionários do imperador, em 1895, nunca se tendo esquecido dos amigos que o albergaram e da conivência das autoridades locais, graças à qual pôde escapar dos seus carrascos.

Uma ou duas vezes na sua história, Macau salvou-se pela intervenção das potências coloniais que, para não perderem Hong Kong ou Xangai, se viam na necessidade de defender o bastião português, ainda que relutantemente . Em todos os casos, porém (e ao contrário das outras colónias nacionais e estrangeiras) nunca a força das armas foi decisiva para manter a permanência portuguesa nas paragens da China. Aliás, na história das crises mais recentes, fica bem expresso no anedotário local a sobreposição do diálogo ao factor militar. Durante a II Guerra Mundial, os japoneses ocuparam toda a China – incluindo Hong Kong – poupando apenas a pequena Macau, porque pertencia a uma neutral Lisboa. No entanto, um comando militar japonês instalou-se na cidade e um anel de ferro estabeleceu-se à sua volta, asfixiando-a. Os dois ou três mil soldados da guarnição local pouco mais podiam fazer do que assumir que nada de anormal se passava, cumprindo as rotinas de tempo de paz, enquanto à volta se ouvia o deflagrar dos obuses e os tiros das metralhadoras e, na cidade que crescia num ápice (de cem mil para mais de um milhão de habitantes) a peste, a fome e a guerra faziam lembrar os tempos mediavais. Neste contexto, por mais de uma vez, pequenos incidentes urbanos envolvendo militares japoneses estiveram à beira de constituir os pretextos desejados pelo alto comando nipónico para bombardear e invadir o Território, à semelhança de Timor. Mas a cidade tinha uma arma secreta : chamava-se Pedro José Lobo. Originário, precisamente, de Timor, funcionário público, folgazão e compositor nas horas vagas era, para além de Chefe dos Serviços de Economia, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros a quem o governador recorria, graças aos seus múltiplos contactos que o faziam amigo de toda a gente – incluindo dos japoneses.

Nas alturas de crise, essa figura que hoje tem mais de mito (como Camões) que de realidade, descia à cave de sua casa, armava-se de algumas garrafas de Vinho do Porto de colheita especial, dirigia-se ao alto comando Imperial do outro lado da fronteira e, entre dois fados que acompanhava à viola, e alguns cálices de boa cêpa do Douro, acabava por convencer o general japonês de que teria muito mais a ganhar em poupar obuses, do que arriscar-se a destruir uma tal adega. Estas surtidas de Pedro Lobo  revelaram-se sempre coroadas de êxito até ao fim da guerra, preservando Macau (ao contrário de Timor que, se tivesse tido um filho assim, teria talvez sido poupada à ocupação nipónica e ao sacrifício de D. Aleixo).

Os louros da sagaz neutralidade de Macau, sabiamente mantida, foram, claro, direitinhos para a política externa de Salazar, eximindo o pequeno Pedro Lobo da ribalta da história. E como não havia nenhum Tolstoi para retirar os créditos ao marechal Kotuzov e dá-los a um qualquer capitão de artilharia, à semelhança do romance, o Chefe dos Serviços de Economia perdeu-se no anonimato nacional, por falta de cronista à altura.

Depois da hecatombe mundial, o curso dos acontecimentos rapidamente se alterou: Mao Tsé-tung libertou a China das férreas correntes do seu passado feudal e, mais uma vez, Macau se transformou em azilo dos vencidos de nova convulsão. No entanto, Lin Piao, com o seu Oitavo Exército de Campanha, que erradicou o Sul da China dos nacionalistas, parou junto às Portas do Cerco… O País do Meio continuava a respeitar o território português, apesar da liminar recusa de Salazar em reconhecer o novo regime de Pequim. No entanto, na sequência da primeira visita a Macau de um Ministro do Ultramar e do seu discurso proferido no Leal Senado, em que garantiu que o Território permaneceria como sempre foi, incidentes fronteiriços estalaram (1952), resultando do tiroteio a morte de dois ou três soldados africanos portugueses (landins de Moçambique) e de uma dezena de chineses. Só Pedro Lobo (ainda ele…) conseguiu aplacar a ira vermelha: afinal, que significavam tais baixas num exército constituído por milhões? (A China apenas pretendia demonstrar que o futuro de Macau não dependia de um discurso de qualquer ministro, mas tão somente exclusiva vontade). No final (e de novo) Pedro Lobo acabou por levar a melhor – embora os seus nóveis interlocutores não soubessem o que era o vinho do Porto.

Lisboa pediu desculpas públicas pelo incidente (apesar de a censura nada tivesse deixado transpirar em Portugal) e a história seguiu em frente, transformando Macau no principal ponto de apoio à entrada de tecnologia militar de ponta para as forças militares da Coreia do Norte, apoiadas pela China e conduzidas por Kim Il Sung, na sua guerra contra os “fascistas” do Sul da península e os seus aliados americanos.

No Palácio da Praia Grande, o governador, Almirante Marques Esparteiro, fiel de Salazar, preferia ignorar tudo, incluindo o bloqueio internacional da ONU a Pequim. Entretanto, parece ter sido neste ponto da história (1953) que a China de Mao Tsé-tung se apercebeu da verdadeira importância de Macau como porta discreta de contacto com os inimigos, com os quais não convinha manter, a nível formal, qualquer espécie de laços (repetindo-se, assim, o contexto histórico do século XVI, no que às relações entre chineses e japoneses diz respeito). Daí, talvez, também a razão de Pequim em entender não ser ainda azado o momento de reivindicar Macau para a sua soberania, como algumas décadas antes os nacionalistas de Chiang Kai-chek tinham tentado fazer.

Macau sossegou, então, mais de uma década até que, em 1966, a “Revolução Cultural” tomou conta do país.

 

A Revolução Cultural

 

Para a mentalidade ocidental, a “Revolução Cultural” era apenas um desenvolvimento da “teoria maldita” de Trostsky sobre a Revolução Contínua, mas, para a China, tratava-se de algo muito diferente, que se consubstanciaria (provavelmente, e em parte) nas teorias daquele revolucionário bolchevista de 1917, crente no papel exclusivo da classe operária, só que aplicada a um país de camponeses (o que Estaline nunca aceitou e que terá, talvez, gerado o desfecho final. de confusão…)

Macau viu-se, pois, envolvida, em finais de 1966, na convulsão universal.

Foi nesta conjuntura caótica – um governo colonial defendido por escassas forças militares e policiais, confrontado por uma população hostil de milhares e milhares, aguerrida e vociferante – que o novo governador do Território, o brigadeiro Nobre de Carvalho, chegou a Macau, sem ter sido prevenido do que se passava. Só à sua chegada a Hong Kong é que viria a ser informado da situação que o aguardava, e porque o governador da vizinha colónia britânica lhe perguntou quais as ordens que trazia do governo de Lisboa para tentar solucionar o conflito… Nobre de Carvalho, colhido de surpresa, confessou não ter trazido ordens nenhumas, por ignorar o que se passava…

Mal chegado ao território que iria governar, o brigadeiro ficou remetido ao seu gabinete do Palácio da Praia Grande frente ao qual, durante dias seguidos, turnos de guardas vermelhos das escolas chinesas da colónia se revezavam, empunhando o livro vermelho e recitando pensamentos de Mao Tsé-tung, enquanto nas ruas as manifestações se sucediam. A situação agravou-se, entretanto, com a declaração da lei marcial e a saída das tropas para a rua, saldando-se os confrontos na morte de oito pessoas. Nessa altura, como afirma o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, a China poderia ter-se apoderado de Macau «nalgumas horas, quase sem disparar um tiro».

Mas não o fez. Preferiu que Portugal pedisse de novo desculpas públicas, indemnizasse as famílias das vítimas e expulssasse as organizações nacionalistas de Taipé, para além de outras imposições menores – ou apenas simbólicas, como foi a de retirar os cassetetes à polícia local. Com isto os colonialistas perdiam a face (forma muito oriental de humilhação) e Pequim não era obrigada a chegar às últimas consequências, que significariam a ocupação final.

Entretanto, em Lisboa e tal como em 1952, a censura encarregou-se de fazer com que a capitulação portuguesa na colónia não fosse conhecida no país. De facto, para Salazar, já bastava a perda de Goa e o irritante bom senso do general Vassalo e Silva…

Depois de 1966, nada voltaria a ser como dantes. A revolução comunista passou a ser comemorada com mais pompa e circunstância em Macau, requerendo a partir de então a presença do governador (que fazia brindes à prosperidade da nova pátria do socialismo), enquanto a data do Duplo Dez (revolução republicana de 10/10 de 1911, cara aos nacionalistas de Chiang Kai-chek) deixava de constar do calendário oficial e de contar com a presença do governador.

As autoridades da RPC (República Popular da China), através de uma companhia comercial estatal (a Nam Kwong), passaram a constituir-se como consultoras obrigatórias em todas as decisões importantes que o governador pretendesse tomar, enquanto a bandeira de listas azuis e brancas com o sol, dos nacionalistas, era substituída pela vermelha, vogando a par da das quinas, e sendo ambas hasteadas aos domingos nos departamentos públicos (há quem diga que Macau teve, então, e com oito anos de antecedência, o seu 25 de Abril).

Para a RPC, a questão de Macau ficava definitivamente arrumada em finais de 1966. A sua soberania tornava-se, desde aí, inegável, sendo apenas uma questão de tempo o encontrar o momento azado para reaver a administração do que era já, na realidade, uma ex-colónia portuguesa. Mas, para isso, não havia pressa. O aluguer dos Novos Territórios de Hong Kong, pela Grã Bretanha, terminava em 1997. Uns anos antes, civilizadamente como conviria a um país da ONU, a RPC poria o problema a Londres e, por arrastamento inevitável, a Lisboa. Daí não ser de estranhar que, na sequência do 25 de Abril, Pequim decidisse fazer orelhas moucas à generosidade da nascente democracia portuguesa, recusando amavelmente a devolução de Macau. Não porque não a quizesse, mas, simplesmente, porque ainda não tinha chegado a altura.

Entretanto, Macau libertou-se subitamente das peias de uma legislação colonial que a asfixiava. Afinal, tinha eclodido em Portugal a primeira revolução que não pretendia manter impérios coloniais, nem centralizar poderes no Terreiro do Paço. Logo que tal orientação se tornou sensível, as forças económicas actuaram, inciando rapidamente um processo de desenvolvimento sem paralelo, apoiado na acção transformadora da legislação colonial implementada pelo governador Garcia Leandro, jovem major nomeado para o efeito pelos capitães de Abril.

Com a chegada do governador Almeida e Costa (1981), processou-se a segunda fase do salto para o futuro, baseado na instalação de infraestruturas modernas, capazes de tornar Macau uma cidade viável, que não baseasse a razão da sua existência apenas no jogo, cujo monopólio foi concedido, desde os idos de 70, a uma sociedade anónima de que Stanley Ho, o conhecido milionário chinês, constituiu desde sempre o cabeça de cartaz.

Contra ventos e marés, o contra-almirante na reserva conseguiu pôr em prática os seus planos, e Macau transformou-se, deixando de ser, em dois ou três anos, o território sonolento e estagnado que o filósofo social Bernard Henry-Levy descreve no seu livro «Impression D’ Asie».

Mas Almeida e Costa foi o último governador colonial de Macau. Na sequência da eleição de Mário Soares para a chefia do estado, Portugal assinava, em 1987, uma declaração conjunta com a China, que mudaria por inteiro as perspectivas de futuro.

De um momento para o outro, uma população de cerca de meio milhão de pessoas apercebeu-se de que a fórmula política de Deng Xiao-ping “um país, dois sistemas“, não era apenas uma frase retórica como as que tinham servido a China durante mais de 20 anos, e sim um conceito que iria mexer com a vida de todos. Para a maioria chinesa (visceralmente avessa à revolução de 1949, mas essencialmente pragmática) o conceito passava a ter uma importância crucial, tornando-se imprescindível que a fórmula vingasse, na prática. Para tanto, era necessário que os “compatriotas ultramarinos” (designação dada oficialmente aos chineses que vivem em Macau, Hong Kong e noutras comunidades estrangeiras que não estejam a soldo de Taipé) mostrassem que o seu capitalismo podia contribuir para o desenvolvimento do povo Han.

Para os chamados macaenses (uma comunidade resultante do cruzamento de portugueses, chineses, malaios e indianos, quase todos funcionários públicos) não havia, contudo, ilusões: não se tratava do fim de uma era, mas sim do fim do Mundo. Tendo cultivado durante séculos um portuguesismo por vezes exacerbado, chegara o doloroso momento de optarem por Portugal, pátria que muitos nunca viram. Isto, somente porque a China, ignorando-os, apenas admitia a existência de chineses e portugueses, em Macau. Tão dada a subtilezas, a China não podia admitir a existência de tais gentes, nem de um terceiro povo que pudesse consubstanciar uma cidade-estado (como Singapura), e provocar eventuais sentimentos separatistas na vizinha Hong Kong (onde, no entanto, o colonialismo britânico – intrinssecamente racial – nunca forjou qualquer comunidade mista).

Mas, Pequim, a capital dos provérbios, adoptou neste ponto da história o dito ocidental «Cautela e caldos de galinha…», não fosse o vírus da subversão espalhar-se pela sua província mais recalcitrante – Cantão – que, por muitos anos, chegou a ser república independente (e, em certa altura mesmo, a alimentar esperanças de transformar o país em nação federalista).

 

1999

 

A menos de 7 anos da sua integregração na RPC sob a designação de Zona Administrativa Especial (ZAE), Macau prepara-se não para uma nova existência, mas para mais uma acomodação, sensata e pragmática. Os homens que, aos 20 anos, estiveram com o Kwomintang, deixaram falecer os seus ardores nacionalistas com o partido que, actualmente, se esboroa aceleradamente em Taiwan (Formosa), sendo hoje membros da Comissão Consultiva Popular da RPC, em Cantão e Pequim.

A segunda geração (que não conheceu os antagonismos sangrentos da guerra civil e da Longa Marcha) gere agora empresas e dirige bancos em Macau, não deixando, no entanto, de comparecer rigorosamente às reuniões da Assembleia Nacional Popular (órgão legislativo máximo da RPC). Quarenta e cinco anos depois da revolução, pertencer ao Partido Comunista já não é, em Macau, filiar-se no opróbio, nem uma opção clandestina. Simultaneamente, apertar a mão, em cerimónias públicas, aos homens do Kwomintang deixou de ser, há muito, uma traição ao povo, demonstrando apenas que os chineses não se dividem por partidos, e provando, porventura, que a Frente Popular não era só produto da propaganda maoista. Ao mesmo tempo, porém, a mesma comunidade (que representa mais de 95 por cento dos habitantes locais) não se esquece que deve a sua identidade à presença dos diabos ocidentais. Por isso, pactua com a administração, mesmo quando os actos desta lhe parecem demasiado alienígenas para o seu gosto chinês.

Quanto aos quatro ou cinco por cento não-chineses, o futuro divide-se entre os que, criados num mundo antigo que hipervalorizava Salazar, se recusam a aceitar a realidade, fazendo as malas com destino à pátria (que muitos apenas conheceram dos livros) e os que acreditam que Macau permanecerá uma “entidade política” como sempre foi. Os restantes, funcionários e militares em comissão de serviço, nada têm verdadeiramente a dizer sobre o drama secular, que consuma mais um acto: no final dos contratos – e antes de 1999 – regressarão à Metrópole sem traumas nem angústias particularmente importantes, para além das que lhes são exclusivamente particulares.

Para alguns arautos da desgraça (ou, talvez, apenas cultores do fado), a data de 1999 constitui a fronteira infernal da dissolução pátria de que falava o Velho do Restelo, pois se «nem sequer se fala português em Macau!…», exclamação do escandalizado turista, tetra-neto do dito “Velho”, que passa pela cidade dois ou três dias, nas férias de Verão, a meio de um tour que o levou a paraísos “muito mais interessantes” como a Tailândia (onde encontrou imitações pefeitas das melhores marcas mundiais de relógios, malas e  perfumes), ou mercados como o de Hong Kong (onde descobriu a aparelhagem Sony dos seus sonhos a um preço impossivelmente barato) e que, chegado a  Macau, já não encontrou nada que valesse a pena comprar.

De facto, em Macau (e por muito que se diga em contrário), o português é uma relíquia muito mais frágil do que a vetustez do granito das Ruínas de S. Paulo, que resistiram durante mais de dois séculos aos tufões e ao abandono.

Mas (por falar em turistas…), um dia, um casal português recém-chegado à capital da Malásia, jantava num restaurante do aeroporto de Kuala-Lumpur, quando um dos empregados perguntou, curioso, qual era a sua nacionalidade: «Espanhóis? Gregos? Paquistaneses?». O casal respondeu que era português. «Português? Tenho um colega que também é português», respondeu o empregado enquanto se apressava a chamá-lo nos fundos da cozinha. O casal, enquanto prosseguia a sua refeição, esperava a chegada de um qualquer transmontano ou minhoto, que tivesse preferido os confins do Oriente às promessas de França ou da Alemanha. Para grande espanto de ambos, porém, surgiu-lhes um malaio de olhos oblíquos e facies negro curtido pelo sol dos trópicos, que, sorridente, disse em inglês: «I am Portuguese. I was born in Malaca, in the Portuguese settlement!»

Como é que, quatrocentos anos depois de Albuquerque, um Malaio (quiçá apenas distinguível dos seus compatriotas muçulmanos e budistas por um pequeno crucifixo ao peito) tem ainda o prazer e o orgulho de se considerar português? Talvez apenas as malhas que o império tece…

Assim, se a comunidade portuguesa de Malaca sobreviveu à ignorância de Lisboa e ao preconceito dos seus compatriotas malaios, por maioria de razão Macau há-de sobreviver.

Para o português médio (absorvido pelo seu quotidiano feito de pressa, ensombrado por pesadelos inomináveis que se materializam em iniciais temíveis como IRS e IVA, ou em expressões cabalísticas como retenção na fonte, passe semanal, fundo de desemprego e quadro de excedentes) Macau nada significa. Quando muito, terá a importância de um título menor de um qualquer jornal diário que se lê, de relance, às oito da manhã no combóio de Sintra. Para Portugal, porém, Macau pesa mais do que a consciência nacional. Pena é que ninguém se preocupe com isso…

 

João Guedes

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