As seitas histórias do crime e da política em Macau

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Capa da Primeira edição Abril de 1991, Livros do Oriente. Esgotada.

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Capa da segunda edição, Novembro de 1999, Livros do Oriente.

* João Guedes

Cinco anos depois

Cinco anos mais tarde releio o penúltimo capítulo do livro As Seitas, Histórias do Crime e da Política em Macau que a Revista de Investigação Criminal e Justiça decidiu inserir neste número. Como todos os autores (creio?), depois de o escrever, dei o dito como caso encerrado. Exactamente como um polícia, que ao descobrir o criminoso abre vista ao Ministério Público e fecha a última página do processo regressando a casa com a certeza de ter ganho uma batalha. Mas apenas uma batalha, nada mais. Alías, creio, que a glória dos polícias é essa mesmo, merecerem a reforma depois de vencerem um sem fim de batalhas pequeninas no sem fim da guerra contra o crime, sem nunca terem ensejo de adormecer um dia na beatitude de terem ganho a guerra: Para isso é que são os polícias, diria o Estado e, repete-lhes a consciência dia a dia. Aparentemente, o capítulo de que o livro faz parte, constituía assunto arquivado. Curiosamente, ao relê-lo verifiquei que se tratava apenas de processo a aguardar melhor prova. Ainda bem que existe tal figura penal, pois, sem ela não me seria possível rescrever sobre um tema acerca do qual ninguém antes tinha escrito em português sobre Macau e, sobre o qual, também, tinha decidido colocar uma pedra.
O historiador nipónico Yuky, disse-me, não há muito tempo, que se absteve (porventura, com soberana propriedade), de escrever sobre um dos maiores agentes secretos de Portugal no Extremo Oriente – Rodrigues, “O Tradutor”. Porquê?
– Ora! porque Cooper (historiador jesuíta de renome mundial) disse tudo quanto haveria a dizer sobre tão misteriosa personalidade do século XVI. O que é que eu poderia dizer mais? Respondeu-me, o jesuíta com a simplicidade dos eruditos. No entanto, Yuky, que é um historiador vivo, ao falar-me de Cooper deixou-me com a sensação de que o que foi dito de Rodrigues, ficou longe de esgotar o tema. Há sempre alguma coisa a dizer mais, há sempre um documento inédito, ou um testemunho inesperado. Enfim, a história, não é um processo arquivado, mas sim um caso que permanece sempre a aguardar melhor prova. Bendita figura do Código Penal!
É também assim que cinco anos depois verifico que para além de alterações de pormenor, que me permitiriam subscrever Cooper e Yuky, tudo quanto ficou dito no penúltimo capítulo de As Seitas se mantém no essencial, o que pessoalmente não deixa de ser reconfortante. Verifico, no entanto, hoje também, que pelo menos a estatística se apresenta inflacionada e os receios acrescidos.
É assim que um responsável policial me informa que os números vagos de chineses em Portugal, computados em 1990, ascendem em concreto, em 1995 a 2125. A mesma fonte diz-me que a somar a esta cifra oficial permanece incógnito um número elevado de ilegais, da mesma origem, que vivem em Portugal à revelia dos Serviços de Emigração. Qual será esse número ao certo? A fonte citada recusa-se a adiantar quaisquer cálculos, mas implicitamente admite que se trata de um problema sério. Tão sério que passou, do nível zero, (de há cinco anos) a mobilizar meios significativos da secção de análise das informações da D.C.C.B. (Direcção Central de Combate ao Banditismo, da Directoria-Geral da Polícia Judiciária). Em cinco anos, o que era uma hipótese remota que não atemorizava ninguém, passou a constituir um sector de trabalho que ocupa vários agentes de investigação da Polícia Judiciária. Em meia década a possibilidade da transferência das seitas de Macau para Portugal passou iniludivelmente a constituir um assunto a ter em conta. Tanto mais que os políticos o tomaram em consideração. É por isso que a construção de uma China Town em Portugal (Oeiras), vista inicialmente como mera questão de investimento estrangeiro, em finais dos anos oitenta, passou a ser assunto de debate nos ministérios. Será que Portugal aceita uma repetição das China Towns de Inglaterra e da Holanda, ou prefere uma integração serena dos imigrantes chineses, um pouco por todo o país, sem guetos, nem zonas de exclusão? Será que Portugal prefere por ignorância, ou lassidão aceitar que morram vítimas inocentes como as que morreram nas guerras inter-seitas de Manchester de finais dos anos 80? Será que Portugal vai permitir que se reconstituam (porventura com mais pujança ainda) os carteis orientais da heroina de Amsterdão? Provavelmente não, se a experiência de 400 anos em Macau servir a Lisboa de alguma coisa.
Macau tem sido, e continua a ser, a terra por excelência dos monopólios. No que às seitas diz respeito, porém, essa tradição alterou-se profundamente desde finais da década de sessenta. Acompanhando o surto de desenvolvimento do Território, também elas começaram a proliferar, numa tendência que se acentuou a partir do início dos anos oitenta. Assim, treze associações secretas principais encontram-se hoje em cena. Entre elas, os diversos grupos (ou “regimentos “, como também são conhecidos) da 14 Quilates, Gasosa, Iau Lun, Sun Yee On e Grande Círculo dividem entre si, e dirigem, a maior fatia da actividade criminal em Macau. Todas mantêm estreitos laços – por vezes de dependência – com congéneres de Hong Kong, reflectindo compreensivelmente o íntimo relacionamento existente entre os dois territórios em todos os sectores de actividade, com destaque para a área económica.
A fluidez de circulação através das fronteiras marítimas de Macau não só facilita a fuga de malfeitores como permite também que o planeamento e a preparação de muitos crimes sejam feitos num território e a sua execução no outro, dificultando deste modo o trabalho das polícias. Ao mesmo tempo, Hong Kong, a terceira praça financeira mundial, com os seus quase seis milhões de habitantes, estende a Macau uma nítida influência, definindo-lhe em grande medida os graus e os limites de actuação das seitas. Os exemplos desta sujeição são muitos, mas o mais recente está ligado à instalação das corridas de cavalos na ilha de Taipa, projecto que inicialmente se apresentava como fonte de gigantescos lucros, e que por isso despertou desde logo o interesse das associações secretas da colónia britânica.
Praticamente desconhecida em Macau apenas um ano antes, a Sun Yee On chegou, viu e venceu ao afastar do hipódromo, meses depois da sua inauguração, no Verão de 1989, as rivais locais do controlo das apostas clandestinas e de outras fontes de lucro ilícito ligadas às corridas.
Fundada em 1921 em Hong Kong como sociedade comercial, a Sun Yee On aliou-se aos japoneses durante a ocupação, conseguindo obter o contrato de ampliação do aeroporto internacional de Kai Tak. Finda a guerra, o alvará de que dispunha foi cancelado em 1947 e, em 1953, o seu fundador deportado para a Formosa. Mesmo assim, a Sun Yee On não parou de crescer; contando actualmente com mais de 35 mil membros, é também uma das mais fortes e bem organizadas seitas da colónia britânica. A Sun Yee On atingiu particular notoriedade em Abril de 1988 quando, no final de uma operação secreta de infiltração de mais de dois anos, a Royal Hong Kong Police (RHKP) capturou o seu Cabeça de Dragão, Heung Wah-yim, um solicitador de Kowloon e neto do fundador, juntamente com vários dos membros da mais elevada graduação.
Mas a intervenção do mundo secreto de Hong Kong em Macau vai mais longe, chegando mesmo ao interior dos casinos, onde disputa a supremacia das rivais locais. Ao mesmo tempo, é na outra margem do Rio das Pérolas que grande parte dos desertores com a cabeça a prémio, ou fugitivos da justiça, encontra abrigo, principalmente nos dédalos imensos de Kowloon, uma área que a RHKP, mais do que controlar, tenta essencialmente fazer parecer que controla. Santuário seguro, Kowloon abrigou, em meados de 1989, o último fugitivo notório, Chiu Chung Peng, um dos chefes da 14 Quilates. Condenado à revelia, em finais desse ano, a vinte e quatro anos de prisão, é um dos principais motores da “guerra” em curso pela conquista dos casinos.
Chiu, que com o seu grupo dominava, entre outros negócios, a agiotagem e a troca ilícita de fichas, viu-se a certa altura confrontado com o assédio de uma outra facção da 14 Quilates originária de Hong Kong que, unida à Gasosa, pretendia afastá-lo. Esse assédio levou-o, por seu turno, a procurar o apoio da Iau Lun, com quem se juntou a fim de sustentar a sua posição. Aliada de circunstância, a Iau Lun lançou-se num jogo duplo, bandeando-se com o grupo de Hong Kong, o que agravou a situação e desencadeou um confuso e descontrolado processo de arruaças e agressões. A luta culminou no assassínio de um dos elementos da facção de Hong Kong da 14 Quilates, croupier no casino, esfaqueado em retaliação por anterior agressão a um dos homens de Chiu. Nessa altura a polícia (que vinha seguindo com atenção o curso dos acontecimentos, conhecendo-os em todas as suas ramificações) decidiu intervir.
Para além de resultar na detenção da maior parte dos implicados, o caso fez história essencialmente ao constituir o primeiro processo de que há memória nos últimos doze anos a ser entregue ao tribunal contra uma sociedade secreta específica, e expressamente nomeada: a 14 Quilates. Os crimes que constavam dos  autos foram todos dados como provados, e os juízes não tiveram contemplações.

Ao rigor da sentença escapou, contudo, entre outros, Chiu Chung Pen, cuja fuga abalou as suas fileiras mas não pôs termo ao conflito. Embora afastada das mesas de jogo, a seita contra-atacou pouco depois, desferindo o seu golpe no coração do local de onde tinha sido desalojada: o Casino Lisboa. O alvo escolhido foi precisamente o chefe da facção rival da 14 Quailates, cuja eliminação poderia fazer voltar tudo ao princípio. O atentado ocorreu quando a vítima se encontrava a jantar num dos restaurantes do rés-do-chão. Dois homens armados de revólveres atingiram-no com vários tiros, pondo-se imediatamente em fuga. Os disparos, feitos do exterior e através de uma das janelas do restaurante, junto à qual se sentava, foram amortecidos pela invulgar espessura do vidro, causando-lhe apenas alguns ferimentos de que se recompôs após breve passagem pelo hospital.
O atentado frustrou-se, prolongando um conflito que, segundo é voz corrente, só será encerrado quando a morte de um chefe permitir a negociação da paz sem ninguém “perder a face”.
Mas as seitas de Macau não limitam já o seu campo de actuação a Hong Kong ou à Zona Económica Especial de Zhouhai, na RPC (onde vão sofisticando os seus esquemas de controlo do contrabando de material electrodoméstico e electrónico, bem como o tráfico de divisas). O território sob administração portuguesa encontra-se já em pleno período de transição, indicando às seitas limites de menos de dez anos para além dos quais tudo é duvidoso – o que as obriga a procurar novos horizontes.
Em Hong Kong, entretanto, esse mesmo período de transição está já a provocar movimentos concretos das seitas para o exterior, e que dia a dia se tornam mais evidentes. Essa tendência fez acender sinais de perigo em vários continentes, que levaram de imediato à realização, na cidade francesa de Lyon, de um encontro de representantes policiais dos países e territórios interessados, no âmbito da Interpol, destinado exclusivamente a debater as implicações da expansão mundial do fenómeno “seitas”. A inédita agenda que ali reuniu polícias de meio mundo mostrou claramente o grau de preocupação que o assunto gera (e, ao que parece, plenamente justificada, pelo menos nalguns países mais afectados).
Na Grã-Bretanha, por exemplo, a polícia tem-se concentrado na tentativa de controlo de uma guerra protagonizada por grupos da seita Soi Fong e da Wo Sing Wo, com incidência em Londres, Southampton, Birmingham,  Liverpool, Glasgow, Nothingham, Bristol, Cardiff e Belfast. O controlo do negócio da venda e aluguer de vídeos (ligado a Hong Kong) é uma das áreas que têm motivado os confrontos. Neste contexto, a polícia assinalou já a presença em solo inglês de assassinos enviados da colónia britânica do Extremo Oriente para selar ajustes de contas, assim como grupos de lutadores de Kung Fu (por vezes com mais de vinte elementos) da mesma procedência, como “reforços” para as partes em conflito. A dimensão do problema tornou-se mais evidente com as revelações da imprensa de que 90 por cento dos negociantes da comunidade chinesa de 250 mil membros residente na Grã-Bretanha se encontravam directa ou indirectamente ligados às seitas. A questão cresce ainda mais de importância perante os números divulgados pelo comandante da RHKP, segundo os quais mais de cem mil pessoas pertencem às associações secretas em Hong Kong.
Mas nem só nas cidades britânicas se sente com cada vez maior intensidade a presença das seitas oriundas do Sul da China. Em Roterdão, nove chineses de Hong Kong foram condenados, em Janeiro de 1990, a penas de mais de dez anos de prisão por diversos crimes, entre os quais o de pertencerem a uma associação de malfeitores. Este foi o primeiro julgamento de uma seita secreta chinesa da história dos tribunais holandeses. Também em Amesterdão, Nova Iorque, S. Francisco, Toronto, Vancôver e Sidney, principais destinos dos que preferem trocar a colónia britânica por locais que se afiguram de futuro mais tranquilo, fenómenos idênticos têm lugar.
Relativamente a Macau, salvaguardando naturalmente as proporções, o processo é paralelo. Ao que se sabe, as escolhas dos que querem sair do território antes da transferência da administração portuguesa para a RPC são sensivelmente as mesmas. Para as seitas de Macau, abre-se porém uma fronteira que não consta do catálogo de hipóteses das suas congéneres do outro lado do Rio das Pérolas: Portugal – um dos poucos países onde até agora a actividade das seitas chinesas tem sido praticamente desconhecida. De facto, apenas de longe em longe um dos seus correios cai nas mãos da polícia ao escalar, em trânsito para outras paragens, os aeroportos de Lisboa ou do Porto, transportando heroína. Todavia, a partir de agora passam a existir fortes possibilidades de as seitas se estabelecerem, pela primeira vez, no ponto mais ocidental da Europa. Essas possibilidades serão tanto mais concretas quanto forem para a frente os projectos anunciados de construção de vários bairros chineses (Chinatowns) em diversos pontos do país, preparados para alojar milhares de famílias oriundas de Macau e também de Hong Kong. Mas estarão já as seitas a preparar o terreno para a mudança?
O caso de um investidor imobiliário encontrado morto a tiro numa estrada de Sintra em 1985 poderá fornecer alguns elementos de resposta, sabendo-se que alguém ligado à vítima recebeu pouco depois garantias de desinteressada protecção, em nome de uma associação secreta. Poderá este episódio dar consistência a rumores de que o negócio de compra e venda de propriedades em Portugal (onde a presença de interesses chineses é sensível) começou já a ser infiltrado pelas seitas, num sector em que estas detêm larga experiência acumulada nas “selvas” da construção civil de Macau e Hong Kong?
Seja qual for a resposta, as autoridades policiais estão já a observar o desenvolvimento da situação, que parece entretanto apontar de facto para a chegada, a médio prazo, dos desconhecidos e estranhos criminosos do “Oriente Secreto” aos grandes centros urbanos e industriais portugueses. As proporções e a dimensão da luta que se adivinha não serão, é certo, as mesmas do peculiar palco macaense; no entanto, a violência de que será portadora não pode ser ainda avaliada. Os exemplos que vêm dos Estados Unidos da América,  da Grã-Bretanha ou da Holanda endereçam todavia, e desde já, uma clara mensagem de advertência a Lisboa para que actue de imediato sobre um problema cuja prevenção não depende apenas dos esforços da polícia. A experiência portuguesa em Macau talvez sirva, neste caso, para alguma coisa.

*Jornalista.
Extracto do livro As Seitas,
edição Livros do Oriente.

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