O Navio Escola Sagres e a Fragata Salamandra 24-08-10

A rejeição por Pequim do pedido das autoridades portuguesas para o “Navio Escola Sagres” aportar a Macau, para além de embaraçosa, está longe de ser inédita na história do Território. Episódios semelhantes ocorreram antes, mas há um que vale a pena recordar, ainda que sem pretender estabelecer paralelos que diferentes períodos e circunstâncias históricas não comportam nem permitem subentender.

Navio Escola Sagres (Museu da Marinha, Lisboa).

O facto ocorreu há 187 anos.

Tudo se deveu aos reflexos da revolução liberal portuguesa de 1820, que se fizeram sentir em Macau com inédito vigor. Recebidas as notícias, do estabelecimento do novo regime em Portugal, não tardou que os principais dirigentes do governo, Leal Senado e militares desafectos à nova situação fossem literalmente varridos dos seus postos, sendo muitos deles presos e enviados para Goa a fim de ali serem julgados. Principalmente os militares que abertamente se recusaram a reconhecer a “Constituição”.

Decapitado o governo, o Leal Senado, foi a votos elegendo uma vereação liberal que passou a governar Macau segundo os princípios democráticos que a nova lei fundamental de Lisboa proclamava e garantia. Simultaneamente eram retiradas todas prorrogativas políticas ao Ouvidor, Miguel de Arriaga (juiz de direito cujos poderes à época extravasavam largamente os de um mero magistrando judicial) bem como as atribuições do Governador, José Osório Albuquerque que ficavam estritamente limitadas ao comando das tropas. Além disso Macau cortava os laços de dependência de Goa a que estava submetida no ordenamento colonial vigente proclamando oficialmente que passava a depender directamente de Lisboa. Na prática tratava-se de uma virtual declaração de independência, já que todas as comunicações entre Macau e o Terreiro do Paço passavam obrigatoriamente, ao tempo, pela “Índia Portuguesa”.

O triunfo dos liberais de Macau no entanto foi sol de pouca dura.

Em Goa, também o liberalismo mal teve tempo para se afirmar, regressando poucos meses depois um governo anti constitucional. Assim sendo havia que chamar à ordem os “rebeldes” macaenses. Para o efeito uma considerável força de infantaria apoiada por artilharia de campanha foi embarcada na fragata “Salamandra” e enviada para a China a fim de fazer regressar ao redil do “ancient regime” os insubmissos liberais. O capitão-de-mar-e-guerra Joaquim Mourão Garcez Palha comandava o corpo expedicionário e o imponente navio.

“Fragata D. Fernando II e Glória” navio de características semelhantes às da “Fragata Salamandra” (Pintura do Museu da Marinha, Lisboa).

Durante alguns meses, a fragata pairou ao largo esperando o momento propício para efectuar o assalto. Esse momento surgiria a partir da altura em que a China desse sinais claros de que não interviria na contenda. A certeza chegou a 18 de Setembro pela madrugada quando a “Salamandra” fundeou junto à fortaleza do Bom Parto (bem perto do local onde se ergue hoje a residência do Cônsul Geral de Portugal em Macau), desembarcando os cerca de duzentos fuzileiros que trazia a bordo bem como o esquadrão de artilharia. O golpe de mão foi bem sucedido.

Num só dia todas as posições estratégicas da cidade foram ocupadas, ou entregaram-se sem resistência incluindo o Leal Senado. Os liberais, que puderam, escaparam para Cantão, os restantes, nomeadamente o presidente da Câmara coronel Paulino Barbosa e vários outros oficiais foram detidos e internados nos presídios da fortaleza do Monte e da Guia. Garcez Palha por seu turno desembarcou também para assumir o cargo de Governador civil e militar declarando a lei marcial.

Em todos estes episódios que como disse duraram vários meses até à conclusão final do desembarque a China manteve silêncio e cautelosa neutralidade. Afinal o caso parecia ser exclusivamente entre portugueses. O vice-rei de Cantão limitou-se apenas inquirir oficialmente sobre o estado de tranquilidade de Macau naquela conjuntura: – Recebi uma representação acerca do desembarque dos soldados de Goa e que o governo (de Macau) está entregue a homens bons… V. Mercê me referirá pormenorizadamente quais são os que governam e também lhe ordeno que mande todos os portugueses que coíbam os seus criados de beber vinho para não haver desordens”. Escrito no dia 28 de Setembro este seria o primeiro de uma série de ofícios do mandarim Choi-me que supervisava Macau dirigido ao Procurador dos Negócios Sínicos que por seu turno fazia a ligação com a China.

O segundo ofício, de Choi-me, muito mais imperativo surgiria pouco depois dizendo: “de acordo com a lei toda a fragata estrangeira não pode entrar nesse porto de Macau, por conseguinte esta também não. Qualquer correspondência com ela pode ser feita por meio de botes ou, lanchas. Que a fragata não demore o tempo da partida para não haver desordem. Tal lhe ordeno que obedeça”. O mandarim concluía exigindo explicação sobre quais as razões que levaram a Salamandra e infringir a legalidade e permanecer atracada a Macau em vez de se manter fundeada ao largo.

Na resposta, datada de 23 de Outubro seguinte, o Procurador de Macau explica que a atracação da “Salamandra” se devia à necessidade de efectuar reparações urgentes e desembarcar marinheiros doentes e que o navio partiria mal estivesse pronto. Todavia certo é que tal não aconteceu.

Essa demora parece ter alarmado a China, receando que o pretexto de reparações do vaso de guerra escondesse de facto intenções de Lisboa de iniciar uma presença naval permanente em Macau suficientemente capaz de apoiar operações hostis ao “Império do Meio” em qualquer ponto das suas extensas costas intenções que as dimensões da “Salamandra” poderosamente armada indiciavam ser possíveis. Recorde-se que desde o tempo das caravelas nunca um navio de guerra de tal envergadura tinha estado em Macau. A desconfiança levou o próprio Vice-rei de Cantão a ordenar ao Procurado de Macau que expedisse “já, Já! uma ordem à dita fragata para partir sem demora alguma e no dia da partida dar disso parte”. Esta ordem era datada de 4 de Janeiro de 1824. A “Salamandra” mantinha-se imperturbavelmente ancorada no Porto Interior há mais de cinco meses e ali haveria de permanecer bastante mais tempo.

Na verdade a presença demorada do navio não se devia a qualquer nova estratégia militar de Portugal relativamente à China, mas apenas a questões de política interna da colónia decorrentes da sublevação.

De facto, se o assalto dos absolutistas foi um êxito e executado com rapidez e precisão, já a pacificação do Território demorou o seu tempo. Os tribunais instituídos para julgar os rebeldes e as sentenças ditadas, bem como as nomeações efectuadas para o preenchimento dos principais cargos públicos civis e militares por elementos afectos ao antigo regime exaltaram a população. Politicamente Macau estava ao rubro. O regresso do antigo ouvidor, Miguel de Arriaga e as posições intransigentes do bispo Francisco Chacim não contribuíam também em nada para acalmar os espíritos. A revolta só não voltou a transbordar porque os poderosos canhões da “Salamandra” estavam bem à vista de todos e todos sabiam que Garcez Palha não hesitaria em usá-los ao mais leve sinal de desobediência civil, ou tentativa de pronunciamento dos militares liberais que aceitaram a derrota e disciplinadamente se integraram na nova (velha) cadeia de comando, mas que continuavam a dar evidentes sinais de terem sido vencidos, mas não estarem convencidos.

A fragata zarpou finalmente de Macau com destino a Goa, no dia 23 de Novembro de 1824, ou seja mais de um ano depois da primeira exigência de partida do governo de Cantão fazendo suspirar de alívio o Vice-rei.

Depois da partida definitiva da “Salamandra” e do interregno absolutista a democracia liberal regressaria definitivamente a Macau cerca de dez anos depois com a tomada de posse do 1º tenente da Armada Bernardo José de Sousa Soares Andrea, como governador de Macau.

A conspiração do silêncio 17-08-10

Macau nunca foi terra de conservar arquivos. A história prova-o já que dos primórdios do território não existe sombra de documento. Assim a data de 1553, ou 1554 atribuída à fundação de Macau não passa da teoria já que os portugueses poderão ter chegado bastante antes, ou porventura uns anos depois até 1557 altura em que surge documentação chinesa que prova a presença lusa neste local.

Depois disso a documentação histórica continuou sempre a ser esparsa e largos períodos permanecem hoje por conhecer irremediavelmente perdidos.

Porém nos tempos mais modernos em que começou vigorar consenso sobre a importância de guardar o passado para aconselhamento futuro, ou quanto mais não seja para descobrir precedentes politicamente convenientes, ou paradigmas morais didáticos, a situação não melhorou muito.

É certo que documentos preciosos se salvaram da incúria, mas foram poucos. Demasiado poucos para a quantidade que se perdeu. Relativamente à conservação de documentos oficiais, ou jornais, por exemplo, houve sempre a boa desculpa, sincera, ou dolosa, da falta de espaço. De facto a exiguidade geográfica de Macau reflectia-se na pequena dimensão dos edifícios e das repartições que neles funcionavam e que por isso comportavam apenas espaço limitado para guardar “dossiers”. De tempos a tempos, havia que varrer papeis que não cabiam.

Um arquivo central é idealização relativamente moderna, por isso à falta dele os documentos sobejantes eram literalmente queimados, ou vendidos a peso. Quando não havia justificação plausível para tais acessos de higiene burocrática, surgia sempre como responsável última a praga endémica de Macau. A “formiga branca”. Os exemplos de incúria são demasiado numerosos para citar, mas um episódio referido pelo historiador Monsenhor Manuel Teixeira é exemplar. Trata-se do desaparecimento da rica biblioteca do Clube Militar. Os exemplares dela constantes não foram levados à “surrelefa” pelos frequentadores da sala, mas pura e simplesmente mandados deitar fora, porque eram um empecilho às obras de renovação de interiores de que o edifício necessitava. Outro caso semelhante ocorreu com a transferência da biblioteca do “Clube União” para o seu sucedâneo “Clube 1º de Junho” nos anos 30 do século passado. Até hoje não se sabe onde paira esse acervo, ou o que dele foi feito.

Para além da incúria casos houve em que a memória histórica foi intencionalmente eliminada pelas convulsões políticas, como o foi a destruição dos documentos e livros existentes no Leal Senado e Santa Casa da Misericórdia, destruídos durante os tumultos do “1, 2, 3” de finais de 1966 e princípios de 1967. Porém, casos como estes foram raros na história de Macau. A maior parte deveu-se sim à inexistência de uma política coerente de conservação de arquivos. Aliás se se folhear as páginas da “Cronologia da História de Macau”, de Beatriz Basto da Silva não são poucas as referências à constituição de comissões para a instalação de um arquivo histórico no Território. Na verdade o tal arquivo acabaria por surgir em moldes consistentes apenas já bem no interior da segunda metade do século XX.

Apesar de toda a história pouco menos que calamitosa que rodeia a preservação da memória de Macau existe todavia um hiato que fica por agora inteiramente por explicar. Trata-se da quase total eliminação de toda a documentação referente ao período de 1940 a 1946, ou seja os seis anos durante os quais lavrou a “Guerra do Pacífico”.

De facto, sobre essa época restam apenas as memórias orais de quem viveu esses tempos e pouco, ou mesmo nada mais.

Ora o desaparecimento da documentação oficial e não oficial do período da guerra não parece ter sido produto de incúria, nem obra da “formiga banca”, mas sim decisão premeditada e politicamente motivada.

Facto significativo neste âmbito não deixa de se demonstrar na lacuna existente na vasta obra bibliográfica de Monsenhor Manuel Teixeira. O número dos seus livros ascende a mais de centena e meia abordando neles os aspectos mais diversos de Macau. Alguns constituem tomos de grande fôlego, recheados de transcrições documentais e notas de rodapé. No entanto entre tanta obra, um dos períodos mais dramáticos, e socialmente relevante da história de Macau ocupou apenas na sua extensa obra um opúsculo de 35 páginas sob o título: – Macau Durante a guerra. Nessa pequena monografia o historiador, ao contrário do que habitualmente fazia, não cita documentação, limitando-se a transcrever as suas próprias memórias,. Isto apesar de confessar logo no primeiro parágrafo que “ Macau viveu o período mais crítico de toda a sua história, quatro vezes secular, durante os quatro anos da guerra do Pacífico (1941-1945” e acrescentar um pouco mais à frente que, “pouco, muito pouco se tem escrito sobre a vida em Macau” durante esse conflito.

Monsenhor Manuel Teixeira que tantas vezes verberou a negligência endémica no que toca à guarda das fontes da memória de Macau, nunca teve uma palavra para o vácuo gritante que neste caso se patenteia.

De facto, se pouco se escreveu e o que existe são memórias, como confessa o historiador, tal se deve a uma única razão a inexistência de fontes documentais. O misterioso desaparecimento dos arquivos desse período parece ter ocorrido não muito depois do encerrar das hostilidades, já que nem Monsenhor Manuel Teixeira, nem outros historiadores coevos referem a sua existência, ou citam documentos ao período referentes.

Uma busca recente que efectuei no Arquivo Histórico procurando o que existe sobre o governador Gabriel Teixeira que administrou Macau durante toda a guerra do Pacífico produziu cerca de meia centena de documentos avulso o mais antigo dos quais com data de 1960 e quase todos referentes a expediente relativo à escola primária que tinha o seu nome.

No que toca aos arquivos militares desse período não há mistério, pois sabe-se que em finais da década de 60, toda a documentação foi devidamente acondicionada, selada e enviada para Portugal. Repousa actualmente no arquivo militar anexo ao Museu Militar de Lisboa.

Mas quanto ao resto? Perdeu-se-lhe o rasto, ou gerou-se em torno desse mistério uma conspiração de silêncio?

Agosto de 1945: As doze mulheres especiais de Macau 10-08-10

 Alta ansiedade é o termo que melhor pode caracterizar o estado de espírito que se vivia em Macau no mês de Agosto de 1945.

No final de quatro anos de total bloqueio, as emissões da BBC e Voz da América, praticamente, os únicos meios de comunicação regular que mantinham o Território ligado ao mundo exterior, anunciavam o avanço imparável das forças aliadas por toda a região da Ásia Pacífico em direcção a Tóquio e as sucessivas derrotas do exército imperial nipónico.

As dúvidas sobre o resultado da guerra que já não eram muitas desde os primeiros meses do ano dissiparam-se no dia 6 desse mês com o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima. A partir daí a rendição do Japão já inevitável passava a ser questão de muito curto prazo.

Em Macau rejubilava-se, mas a vitória encontrava-se longe de estar completa. De facto, Hong Kong permanecia em mãos nipónicas e as várias dezenas de milhares de refugiados, portugueses de Hong Kong, ingleses, americanos e de diversas outras nacionalidades imersos na mais completa desmoralização depois de pesados e angustiantes anos de cerco, contavam as horas esperando a todo o momento o anúncio do desembarque  anglo americano do outro lado do Rio das Pérolas.

No entanto, apesar das novas libertadoras que perpassavam pelo Extremo Oriente o futuro de Hong Kong mantinha-se seriamente duvidoso no que tocava ao regresso à situação colonial anterior à guerra.

De facto, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt, tinha prometido ao governo nacionalista de Chang Kai Shek que, logo que expulsos os japoneses, Hong Kong seria restituído à China e não à Grã-bretanha.

Diga-se que no teatro de guerra a campanha aliada no Extremo Oriente decorria sob o alto comando americano (almirante Chester Nimitz), embora integrasse também forças navais inglesas.

Para além do combate directo contra os japoneses na ilhas do Pacífico as forças americanas estavam envolvidas no continente, essencialmente no apoio e colocação de tropas num  xadrez estratégico previamente delineado que incluía as principais cidades da China, mas não contemplava Hong Kong.

Seria nesse quadro de indefinição que Macau assumiria um papel relevante no que toca às manobras político militares de Londres destinadas a evitar que Chang Kai Shek se reapossasse da colónia.

Nesse quadro Macau assumiu o papel de ponta de lança nas operações destinadas a preparar o regresso das autoridades britânicas de modo içar no “Porto de Vitória” de novo a “union jack” antes que as tropas nacionalistas ali fizessem flutuar a do Kwomintang.

Neste âmbito o destaque foi para o cônsul de Inglaterra em Macau, John P. Reevs e para o “BAAG” (British Army Aid Group), rede de resistência comandada a partir de Chongqing pelo coronel Lindsay Ride, o de que faziam parte, numeroso macaenses e chineses, como o médico Eddie Gozano, Roger Lobo, o historiador Jack Braga, Y.C.Liang e muitos outros.

Todas essas figuras se multiplicaram durante o ano de 1945 em missões clandestinas de vai e vem entre Macau e Hong Kong, destinadas a reorganizar o governo britânico e a nomear pessoal de confiança para os diversos postos políticos e administrativos. Para além de garantir a adesão de figuras influentes na sociedade de Hong Kong, nomeadamente antigos membros do Conselho Legislativo colonial, vários elementos da anterior administração que se encontravam presos em campos de concentração receberam instruções para se prepararem para reassumir funções.

Entre as várias personalidades contava-se o antigo secretário colonial Francklin Gimson e o presidente do supremo tribunal Athol MacGregor, ambos internados no campo de Sham Shui Po.

O plano posto em prática resultou em pleno, já que aproveitando o momento de hesitação imediatamente anterior à rendição formal do Império do Sol Nascente, Gimson brandindo as credenciais do governo de Londres que o davam como governador em exercício em nome a de sua majestade reocupou o palácio do governo. O sucesso de Gimson contou com a aquiescência tácita do comando japonês que não possuindo instruções formais sobre o que deveria fazer naquela conjuntura, não colocou obstáculos à ousadia do ex-prisioneiro de guerra.

O golpe foi levado a cabo no momento certo tendo em conta o facto das tropas do Kwomintang que acabavam de ocupar Cantão, se encontrarem já junto à fronteira de Kowloon prontas a receber a rendição japonesa. Graças a Gimson quem a receberia seria o almirante Cecil Hacourt que desembarcaria com a flotilha inglesa no dia 30 de Agosto, em Hong Kong.

Conhecida esta sucessão de episódios Macau fervilhava de emoção, no entanto um balde de água fria arrefeceu os ânimos. Através da edição inglesa do jornal “Renascimento”, os refugiados eram avisados de que pelo menos a breve prazo não haveria regresso a casa. O jornal acrescentava que as notícias sobre a reabertura das carreiras fluviais de passageiros entre os dois territórios eram falsas.

O frustrante anúncio do “Renascimento” prendia-se com o facto de a administração britânica ter reassumido apenas e quase só simbolicamente o controlo de Hong Kong, já que na prática o que funcionava era a estrutura montada  e operada pelos japoneses com auxílio de colaboracionistas. As autoridades britânicas previam um prazo mínimo de três anos para o restabelecimento da situação administrativa anterior à guerra e o regresso dos refugiados teria por isso de ser escalonado.

Nesse âmbito o plano do cônsul Reeves entrou numa segunda fase, ou seja a de seleccionar entre os refugiados em Macau aqueles que tinham sido funcionários públicos antes da ocupação japonesa e escolher outros que tivessem perfil capaz para substituir japoneses e colaboracionistas.

 

Fragata “HMS Parret” que trasportou o grupo especial de dactilógrafas de Macau

A fragata “HMS Parret” seria o navio enviado expressamente a Macau para transportar o primeiro grupo Curioso é que nessa operação de emergência as mulheres tiveram prioridade. Não porque o fossem, mas sim porque um grupo especial de dactilógrafas credenciadas para lidar com o expediente civil e militar classificado estava pronto a partir para iniciar funções de assessoria ao almirantado.

Segundo Stuart Braga, eram doze as escolhidas que constavam da lista secreta de John Reeves: -D. Jex, Olga Carvalho, Elsa Carvalho, Mercedes Roza, Marie Roza, Argentina Gonsalves, Lolita Yvanovich, Avelina Gosano, Betty Clarke, Philomena Gonsalves, Irene Alonso e Hilda May. Foi este o núcleo duro da refundação britânica de Hong Kong há 65 anos.

Mistérios de Macau na Guerra do Pacífico. 03-08-10

Para os historiadores e investigadores um dos maiores mistérios, ainda que dos mais recentes, é o período em que Macau mergulhou, como pequeno território neutral, na “Guerra do Pacífico”.

A principal razão para que tal se verifique prende-se com a gritante ausência de documentação sobre esses anos depositada nos arquivos locais e a quase inexistência de jornais que poderiam esclarecer alguma coisa.

Infelizmente, o Arquivo Histórico, poucos documentos possui referentes ao período entre 1940-46. Por outro lado os poucos jornais que subsistiram intermitentemente durante essa época surgiam a público fortemente censurados, pelo que deles pouco se pode extrair, mesmo relativamente a aspectos da vida social quotidiana.

Sendo assim, a maior parte dos estudos e monografias publicadas baseiam-se essencialmente na tradição oral e não em quaisquer fontes documentais oficiais, ou não. Refira-se que panorama de certa forma semelhante se verifica igualmente no que a Hong Kong diz respeito, embora na vizinha RAEHK se encontre disponível um acervo consideravelmente maior.

De salientar, neste aspecto, o estudo de Chan Sui jeung, intitulado – “East River Column, Hong Kong Guerrillas in the Second Worls War and After”, publicado o ano passado pela “Royal Asiatic Society”por exemplo. A investigação que trás à luz numerosos episódios tão determinantes quanto obscuros, particularmente no que se refere a Macau, baseia-se em grande parte na tradição oral. O autor despendeu anos a ouvir as memórias de numerosos combatentes e não combatentes que em vários graus intervieram nos acontecimentos, principalmente os guerrilheiros comunistas, que depois da guerra optaram por permanecer na antiga colónia britânica.

No que à documentação diz respeito sabe-se da existência de alguns arquivos, embora se encontrem todos fora de Macau.

Uma das mais celebradas fontes é a chamada “Biblioteca Jack Braga”. Trata-se do acervo documental do investigador do mesmo nome, que foi comprado por uma universidade australiana e repousa na Biblioteca Nacional da Austrália em Camberra. No entanto os documentos sobre a Guerra do pacífico que dele constam parecem ser apenas recortes de artigos de jornal e transcrições de emissões de rádio que, como referi, eram alvo de forte censura pelas autoridades.

Por estudar permanece o conjunto documental do exército que se encontra praticamente em bruto depositado no “Arquivo Histórico Militar” de Lisboa.

Outro arquivo que se encontra agora já disponível é o do antigo ditador Salazar, depositado na Torre do Tombo. Trata-se de uma colecção inestimável, que está já aberta à consulta pública e que os investigadores começam agora a estudar nos seus múltiplos aspectos.

Este arquivo já revelou alguma coisa quanto ao papel de Macau, nomeadamente a sua participação na rede de inteligência aliada na guerra.

No entanto muitos pontos obscuros permanecem por esclarecer. Tanto no que diz respeito à situação político-militar, como também nos domínios sociais e económicos.

Neste âmbito, por exemplo, sabe-se que comunidades inteiras de expatriados evacuaram literalmente Tientsin, Xangai e Cantão entre outras cidades, com destino a Hong Kong perante o avanço japonês. Com a subsequente queda de Hong Kong, no Natal de 1941, todos esses refugiados acabaram por vir parar a Macau, que na altura era o único ponto neutral de todo o Extremo Oriente.

Sabe-se que o primeiro navio com alguns milhares de refugiados largou do Porto de Vitória, no dia 7 de Fevereiro de 1942, com alguns milhares de refugiados a bordo rumo à colónia portuguesa. Todavia não se conhecem quaisquer estatísticas que possam informar sobre o número de pessoas que o Território então acolheu. A tradição oral sobrepõe-se nesta área indicando que a população terá aumentado de cerca de 200 mil pessoas para 500 mil. Algumas testemunhas contemporâneas referem mesmo uma milhão de almas. Como foi possível absorver e manter tal número de pessoas num território de tão parcas dimensões por tão longo período? Negociar com os japoneses. Trocar os canhões da fortaleza do Monte e o principal navio da guarnição naval (Canhoneira Macau) por arroz. Enterramentos colectivos em valas comuns dos numerosos famintos que não resistiam. Atribulações da polícia para manter a ordem pública. Ocupação e transformação de monumentos e repartições públicas em centros de refugiados. Todas estas são respostas parciais, bebidas na tradição oral, que permitem traçar um quadro geral da situação mas pouco mais esclarecem.

Gabriel Maurício Teixeira governou Macau entre 1940 e 1947

Uma avaliação do governo do comandante Gabriel Maurício Teixeira (1940-47) está quase inteiramente por fazer.

Sabe-se alguma coisa do que empreendeu para manter uma sempre precária neutralidade durante esses anos. No entanto, poucos sabem que para além de resistir aos japoneses, Maurício Teixeira teve de enfrentar igualmente uma feroz oposição política interna traduzida, nomeadamente, na fuga para a Metrópole do chefe da “Administração Civil”, Menezes Alves, com auxílio das redes de espionagem aliadas. A consulta do “Arquivo de Salazar” permitiu desvendar parte desse mistério.

Outro mistério de que por agora pouco se sabe é o que se refere à situação de virtual rebelião militar que teve de enfrentar.

O súbito aumento do custo de vida e a escassez de géneros terá gerado forte descontentamento entre a guarnição militar, fazendo eclodir a rebelião que começou na Companhia de Metralhadoras, em Março de 1942.

Perante a insubordinação, militares fiéis a Gabriel Teixeira conseguiram restabelecer a ordem, prendendo o comandante da companhia tenente Viera Branco. No entanto a detenção do oficial, em vez de desactivar a revolta, fê-la alastrar-se mais ainda já que foi posto a correr o boato de que Vieira Branco tinha sido preso apenas por ter proposto ao Governador um aumento de vencimento dos soldados. Para além do exército e marinha, a Polícia de Segurança Pública esteve igualmente a um passo de aderir.

Apesar da agitação, no entanto, Gabriel Teixeira (como? Não se sabe.) conseguiu sufocar o motim, que resultou na demissão de vários oficiais sargentos soldados e civis. Alguns seriam detidos e enviados para Portugal, enquanto outros se viram desterrados para as ilhas (Taipa e Coloane) sob a acusação de “comunistas e revolucionários”.

Sobre este episódio que seguramente terá provocado forte comoção na Macau da época não restam vestígios que se conheçam na tradição oral conhecida dos tempos da guerra.

NOTA. Enquadrando-se este artigo essencialmente no ano de 1942, devo referir que foi precisamente naquela data, mais precisamente em 22 de Julho, que faleceu Damião Rodrigues, de que falei anteriormente em peça intitulada “E no pico do Verão chegou a ditadura”. Ali atribuí erradamente àquele a co-fundação do Centro Democrático de Macau em 1974. De facto quem participou na fundação do CDM foi obviamente seu filho que igualmente se chamava Damião Rodrigues e que do pai herdou a fibra combativa de republicano e democrata de antes quebrar que torcer.