O general anarquista e a República Cantonense ( I ) 07 -09 -10

Nem o “socialismo com características chinesas” é conceito novo, nem a China foi sempre impermeável às novas ideias sociais e políticas que foram marcando a marcha do mundo como por vezes se pretende fazer crer. Bem pelo contrário. O que se pode dizer é que a evolução global do pensamento humano ao ultrapassar a “Grande Muralha” penetrava numa civilização há milénios estruturada. Uma civilização em que certos debates que se postavam noutros continentes como revolucionários, ou apenas modernos, principalmente depois da transformação europeia de 1789, já tinham sido feitos muitos séculos antes. Como exemplo pode citar-se a velha questão da existência, ou não de uma intrínseca bondade humana que tanto dividiu as correntes socialistas no século XIX e principalmente marxistas e anarquistas.

O anarquismo, penetrou na China, pode dizer-se, ao mesmo tempo que se alastrava pela Europa e pelas Américas. Porém, enquanto nestes dois continentes o debate não atendia à diversidade de povos ou às diferentes culturas, ali, pelo que se disse, não só se dividiu em variadíssimas correntes (ou não fosse absolutamente libertário), como adquiriu, em alguns casos, características muito próprias.

Tal como no resto do mundo também na China o anarquismo esteve na base dos grandes “ismos” que viriam a transformar e a dividir ideologicamente os povos, produzindo nomeadamente o marxismo-leninismo, embora posteriormente acrescentado de mais um. O de Mao Tse-Tung.

Assim não é de estranhar que nesse fervilhar revolucionário que avassalou tudo nas primeiras décadas do século XX venhamos a encontrar na China um general anarquista.

Chen Jiongming o general anarquista

Chamava-se Chen Jiongming e a sua história tem uma íntima ligação a Macau, lugar onde se refugiou várias vezes ao longo da sua acidentada carreira política.

Chen Jiongming é hoje uma figura quase totalmente obliterada pela história e convenientemente esquecida tanto por comunistas como pelos seus contrários. Isto apesar de não poucos aspectos do seu pensamento político terem sido adoptados pelo Partido Comunista que tanto o criticou e subsistirem também nos três célebres princípios do povo propostos por Sun Yat-sen, que constituem ainda hoje a base ideológica do “Kwomintang”.

Chen Jiongming nasceu em 1878 na cidade de Haifeng, situada nos limites entre as províncias de Guangdong e Fuqian. Filho de uma família de proprietários rurais abastados cedo revelou propensão para as letras tendo recebido uma formação clássica confucionista. Em 1906 matriculou-se na faculdade de direito de Cantão onde se licenciou, tendo participado na elaboração do projecto nacional de reformas destinado a transformar a China numa monarquia constitucional, como deputado provincial, depois de um período de estudos político-administrativos no Japão.

A certa altura porém a evidente resistência do regime à mudança leva-o a perder todas as esperanças na eficácia da acção pela legalidade e a interessar-se pelas obras de Marx, Bakunine e Kropotkin, que começavam a chegar ao Extremo Oriente ganhando adeptos principalmente no “Império do Sol Nascente” que desde finais do século XIX registava um período fulgurante de progresso e abertura ao exterior e às novas ieias. Chen convencia-se que a revolução era a única saída viável.

Convertido à causa internacionalista junta-se ao movimento anarquista cujo principal inspirador era Liu Shifu, com o qual se associa num movimento que advogava a acção directa como forma de derrubar o estado capitalista e feudal.

É integrado nesta corrente que arregimenta as massas em Guangdong contra a monarquia participando activamente em todas as sucessivas conspirações e sublevações que foram tendo lugar.

No dealbar do ano de 1911, Chen, já não é um mero propagandista, mas sim um general revolucionário que comanda um exército fortemente armado constituído por uma mistura de jovens intelectuais e camponeses. É nessa condição que participa na revolta final contra a dinastia “Manchu” e se torna governador militar de Guangdong na sequência da proclamação da República.

A partir dessa data, e com Sun Yat sen em Pequim investido na presidência, Chen leva a efeito profundas reformas em Guangdong. O seu ideário fica desde logo expresso nos caracteres gravados nas três faces do monumento em granito que mandou edificar no centro da sua terra natal: – Ziyou (liberdade), Pingdeng (igualdade), bo’ai (amor fraternal).

Chen Jiongming, pensava que a China não se encontrava organizada de molde a expressar a sua vontade colectiva, mas antes estava habituada a auto governar-se a partir das bases nas comunidades rurais. Sendo assim, era necessário trabalhar politicamente debaixo para cima e não de cima para baixo como tinha acontecido em todas as revoluções anteriores para transformar o país.

“Acreditamos que se implementarmos as nossas ideias em Guangdong e tivermos sucesso, este exemplo levará as restantes províncias a implementar sistemas semelhantes e o movimento alastrará a todo o pais”, escrevia.

Sem publicar legislação nova e numa atitude sem precedentes, Chen pôs então em prática algumas medidas percursoras que só surgiriam nas sociedades industriais avançadas mais de uma década depois. Entre outras contava-se o direito dos trabalhadores negociarem colectivamente as suas condições de trabalho sem interferência do patronato. Ou seja surgiam na China os primeiros sindicatos.

No entanto as medidas radicais aplicadas pelo general revolucionário pouco passariam de mero esboço de projecto.

Em 1913, o novo presidente Yuan Shikai, que queria fazer regressar a China ao regime imperial, consigo no trono, intimou as províncias a aceitarem as alterações constitucionais por ele decretadas. Claro que Chen, de novo em aliança com Sun Yat-sen recusou.

Porém, apesar do apoio popular e do prestígio de que desfrutava, o general anarquista seria forçado a abandonar o poder derrotado pelas tropas enviadas para o Sul por Yuan Chi Kai.

Nessa altura, tanto os anarquistas de Chen como os socialistas revolucionários e republicanos de Sun Yat –sen, estavam longe de possuir as forças militares organizadas e disciplinadas de que viriam a dispor alguns anos mais tarde com a criação da “Academia Militar de “Whampoha”, onde se formariam entre outros Chang Kai-shek e Chu Enlai.

Em resultado da contra ofensiva monárquica, os dois líderes não tiveram alternativa senão fugir do país e estabelecer em Macau uma espécie de governo no exílio.

A escolha de Macau deveu-se ao facto de na colónia portuguesa se encontrarem em actividade os centros de comando partidários e as principais fontes de financiamento que pouco antes tanto tinham contribuído para a instauração da República. Simultaneamente, as rotativas das tipografias locais, semi-adormecidas desde 1911, voltavam a acelerar reiniciando a impressão de jornais e panfletos com inflamadas proclamações. Todavia desta vez aos órgãos de comunicação militantes tradicionais pré existentes juntavam-se novos títulos de índole anarquista e marxista, as duas principais correntes que sustentavam o republicanismo cantonense de então.

Esse fervilhar revolucionário, que não era dirigido contra a presença portuguesa em Macau colocava-a no entanto em sério risco.

Pequim exigia a Portugal a prisão dos revolucionários e o encerramento dos jornais hostis de Macau, deixando subentender que o recurso à força para o efeito não seria excluído se as autoridades de Lisboa não respondessem positivamente.

Os anos seguintes levantariam sérios desafios politico-diplomáticos para Portugal e para os governadores de Macau que se encontravam na linha da frente da crise.

O facto de Sun Yat-sen ter optado por permanecer pouco tempo em Macau exilando-se novamente no Japão contribuiu para aliviar em certa medida a tensão vigente, no entanto a presença reiterada de Chen Jiongming continuava a constituir problema momentoso, já que para além de inimigo político era também chefe militar o que o tornava ainda mais perigoso do ponto de vista do velho general Yuan Chi Kai, do que o próprio Sun Yat-sen, já que se sabia que apesar de exilado não perdera um segundo a reorganizar as suas forças dispersas nos dois “kuang” (Guangdong e Guanxi).

Nesta conjuntura, em que qualquer decisão poderia conduzir ao desastre, assumiu papel de relevo Lou Lim Iok, o então líder da comunidade chinesa local que desfrutando de boas relações com as hostes restauracionistas de Cantão conseguiu conter os ímpetos monárquicos no limite estrito da diplomacia aconselhando passo a passo os governadores nessa difícil conjuntura.

Para além de Lou Lim Iok, do lado português, assumiram igualmente destaque como preciosos auxiliares do governo o jornalista Francisco Hermenegildo Fernandes e o advogado Damião Rodrigues, para além de outros elementos da Maçonaria, instituição que, à época, possuía decisiva importância e influência na vida política do Território

No entanto, a morte inopinada de Yuan Chi Kai em 1916 contribuiu um pouco para distender a atmosfera política de chumbo que se vivia.

Com o desaparecimento do extemporâneo pretendente ao trono do “Celeste Império”, Chen Jiongming conseguiu fazer reverter a situação a seu favor e retomar o poder em Cantão. A ele se juntaria novamente Sun Yat-sen.

Nessa nova conjuntura, porém, a revolução passava estar confinada às fronteiras da província. Assim, os dois dirigentes não encontraram alternativa senão declarar a cessação de Cantão e ali de novo proclamar a República.

Facto consumado abria-se assim o pano para um segundo acto e nova crise. Com novos actores em palco a pressão voltaria a fazer-se sentir sobre Macau, com o mesmo impacte, mas agora de uma forma mais evidente contra a presença estrangeira.

O nacionalismo ganhava corpo entre anarquistas e republicanos que apesar das divergências ideológicas que os separavam comungavam do mesmo sentimento:- Erradicar a presença colonial na China.

No teatro local a década seguinte daria lugar a nova cena ainda mais crispada do que a anterior. No novo elenco o protagonista voltava a ser o general Chen Jiongming, nas mãos do qual repousou incerto, durante longo período, o futuro de Macau até finais dos anos 20.

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Autos de fé em Macau 31- 08 – 10

Felizmente que a inquisição nunca chegou a Macau. O mais longínquo lugar do império marítimo português por onde estendeu as suas ”queimadas de hereges ” foi Goa, com os estragos históricos que se conhecem. Em Macau a Igreja absteve-se de incinerar infiéis por duas razoes: – Primeiro porque o mais certo seria que a China se irritasse perante o lançamento à fogueira dos súbditos do império e pura e simplesmente obliterasse o Território, como aconteceu noutros pontos da sua costa mais a Norte onde os portugueses se tinham fixado antes. Segundo porque ao contrário de Goa, ou de Manila, por exemplo a ordem religiosa dominante era a Companhia de Jesus e não a dos Dominicanos. Os companheiros de Jesus, ao contrário dos de S. Domingos nunca foram adeptos de fogueiras para impor a fé.

Apesar de tudo o que ficou dito Macau não se eximiu à simbologia das chamas para purificar os espíritos. Também o Território teve os seus autos de fé. Felizmente que ninguém se chamuscou! Esses autos de fé em Macau foram mais tardios e levados a cabo não por motivos religiosos mas sim políticos. Igualmente os supliciados não foram os incréus, mas antes os instrumentos materiais da apostasia, ou seja livros e jornais.

Várias destas cerimónias “fúnebres” terão eventualmente ocorrido ao longo da história do Território, mas pelo seu simbolismo aberrante e extemporâneo tendo em conta as épocas em que tiveram lugar há duas que merecem referência. Quanto mais não seja como exemplares morais do que a intransigência ideológica em momentos particulares de polarização política pode produzir de barbárie anómala contra o espírito e o progresso sociais.

O primeiro caso ocorreu nos primórdios do liberalismo. Portugal e as suas colónias mergulhavam num período de forte instabilidade, com o fim do regime absoluto e a aprovação da primeira constituição do reino, na sequência da revolução de 1820 (falei já aqui, em anterior artigo, de alguns dos seus efeitos em Macau).

A revolução liberal trouxe consigo um elemento novo que haveria de transformar profundamente o século. Tratava-se da liberdade de imprensa que anteriormente não existia de todo no Portugal ultramarino.

Mal conhecida a abertura do sistema, os jornais começaram a surgir um pouco por toda a parte, desde Cabo Verde a Macau.

A “Abelha da China” (macauantigo.blogspot.com)

No território a primeira publicação a ser dada à estampa foi a conhecida “Abelha da China”, periódico que era uma mistura de jornal noticioso e boletim oficial do Governo. Apesar desta indefinição porém a “Abelha da China não era de “meias tintas”. Bem pelo contrário! Tendo como seu principal redactor Frei António de S. Gonçalo de Amarante (curiosamente um dominicano), as suas páginas eram libelo constante contra a reacção absolutista e tribuna de propaganda sem peias da “liberdade, igualdade e fraternidade”, lema bebido nas ideias da revolução francesa que Frei António perfilhava. Quanto ao resto não punha em causa nem rei, nem religião, pelo que o triste fim do periódico se deve apenas ao extremar de posições e acender de ódios que atingiram o clímax no dia 23 de Setembro de 1823, quando todas as autoridades, civis, militares e homens bons em geral foram convocados para uma estranha cerimónia a ter lugar no Largo do Leal Senado. Tratava-se da “queima judicial” do último número da “Abelha da China”. Um número “virulento”, segundo os absolutistas, mas que aos olhos de hoje se afigura apenas como defensor dos princípios democráticos mais elementares que, aliás, viriam a triunfar em Portugal no final da guerra civil em 1834, ou seja menos de uma década depois. Felizmente que pouco antes da “queima” Frei António se conseguiu por a salvo fugindo para Cantão.

O segundo e último episódio do género ocorreu, espante-se! Já em pleno século XX. Este “auto de fé” teve tanto de anómalo como de premonitório. Ocorreu em 1926, e constituiu sinal claro da forma como o novo poder instalado em Lisboa em 28 de Maio desse ano encarava a liberdade de expressão e também a cultura em geral.

“Macau Histórico” (macauantigo.blogspot.com)

Desta vez a vítima foi o livro “Historic Macau” de Montalto de Jesus. Vítima inesperada, diga-se, já que o fogo do “Estado Novo” caiu sobre uma obra cuja primeira edição tinha conhecido larga difusão e recebido os maiores encómios junto do público e da crítica nacionais.

A segunda edição porém viria na pior altura. O autor era um republicano militante do Partido Democrático de Afonso Costa, principal formação política visada pelo golpe militar de Gomes da Costa, mas o que concitou a irritação do novo regime, foi o facto de nessa segunda edição Montalto ter acrescentado um capítulo à obra no qual punha em relevo a incompetência da política ultramarina portuguesa e sugeria a entrega da administração de Macau à recém criada “Sociedade das Nações”, antecessora da ONU (Organização das Nações Unidas).

A inadvertida proposta levantaria as iras dos poderes constituídos, que aproveitaram o pretexto para apontar o dedo ao republicanismo partidário como o mais anti patriótico dos sistemas políticos. “Ali estava, no livro de Montalto, claramente espelhada a justificação da ditadura militar”, bradavam o governador Tamagnini Barbosa e os seus seguidores.

Montalto de Jesus (macauantigo.blogspot.com)

A exaltação provocada por Montalto de Jesus levou a polícia efectuar rusgas casa a casa por toda a cidade a fim de apreender os exemplares da obra. Depois, o “maldito papel” encadernado foi empilhado perto do local onde hoje se situa a sede da “Fundação Macau” na Avenida da República e consumido em chamas, numa cerimónia percursora das grandes queimas de livros que seriam levadas a cabo alguns anos depois pelos nazis na Alemanha.

Os exemplares que sobraram escondidos por alguns, foram poucos, mas a principal vítima afinal seria o próprio autor que caído em desgraça seria completamente proscrito. Pobre, amargurado e só, Montalto de Jesus morreria em 1927, num asilo em Hong Kong, com 64 anos de idade.