Macau e o centenário da República

Sun-Yat-sen-1912

“Macau nunca faltou à Pátria em tempos severos, ou prósperos”. As sábias palavra do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, proferidas na sua última visita a Macau, aqui consubstanciadas livremente na sua ideia mestra, são o merecido reconhecimento do papel que o exíguo território chinês desempenhou como parceiro, ainda que humilde e pequenino, mas simultaneamente grande. Um papel que vale a pena recordar no ano em que se comemora o centenário da instauração da República na China e do seu primeiro Presidente, Sun Yat-sen. Um herói universal, reivindicado pelas esquerdas e pelas direitas, e figura que foi genuinamente um produto da iniludível singularidade histórica de Macau. A influência de Macau na proclamação da República da China, em 1911, é tanto evidente quanto mal conhecida universalmente. Isso deve-se à quase total ausência de estudos em língua portuguesa e a sua subsequente divulgação global. Ao contrário, a importância de Hong Kong na queda da dinastia imperial Manchu é sobrestimada precisamente pelo oposto, ou seja, pela abundância de bibliografia. O que existe em inglês dispersa-se por milhares de livros e outros tantos estudos académicos especializados, artigos de jornal, documentários de televisão e excertos na “blogosfera”. Sei lá que mais! Em português, o tema não chegará para ocupar prateleira inteira de uma pequena biblioteca particular. Certamente que ainda não ocupou minuto algum no “Canal de história” (ou Memória, não sei…) da RTP, por exemplo. Uma parte significativa dos revolucionários da segunda metade do século XIX e início do século XX que contribuíram para a implantação da República da China, em 10 de Outubro de 1911 (e numa segunda fase, para a instituição da República Popular em 1 de Outubro de 1949), era originária da província de Guangdong, com destaque para a figura incontornável de Sun Yat-sen.

Sun nasceu numa pequena localidade a pouco mais de 30 quilómetros de Macau, a 12 Novembro de 1866, numa família de etnia Hakka na aldeia de Cuiheng, no distrito de Xiangshan, mais tarde rebaptizado Zhongshan em sua honra. Em Macau, viveria durante vários períodos da sua vida. Aliás, o próprio reconheceu que foi por cá que ganhou consciência social. Mal concluiu o curso de medicina, em Hong Kong, passou a residir na então colónia portuguesa, exercendo clínica no Hospital Kiang Wu. Abriu na rua das Estalagens um consultório e uma farmácia. Esteve também à frente de uma outra “botica” – o mesmo que as antigas “pharmácias” – numa das pequenas casas térreas da Santa Casa da Misericórdia há muito demolida para dar lugar à sede dos Correios, Telégrafos e Telefones, em 1929, no Largo do Leal Senado. Sun afirmava que a militância política se sobrepunha ao exercício da sua profissão. De facto, em Macau, onde passava férias ou visitava grande parte da família que por cá residia, formaria o que ficou conhecido como o “bando dos quatro”. Uma espécie de tertúlia impulsionadora da formação de “clubes de leitura”, que incentivavam a população à leitura de jornais, revistas e livros, e levava a cabo sessões de propaganda política, aproveitando a disponibilidade dos teatros da cidade, juntamente com Yan Heling, Chen Shaobai e You Li. Todos cantoneses e nomes sonantes na história moderna da China. Estes teatros, diga-se, durante um certo período, foram muito mais palcos de realização de entusiásticos comícios do que centros de divulgação da “arte de Talma” ou da sétima arte nascente com o animatógrafo. Numa sessão que ficou célebre, os numerosíssimos presentes cortaram simbolicamente as tranças, um adorno capilar obrigatório de todo o povo chinês durante a última dinastia imperial. A sessão solene e politicamente entusiástica do corte contou com mais de duas centenas de tesouradas enérgicas. A juventude de Macau, entusiasmada pela propaganda de Sun e dos seus correligionários, decepava a trança odiada, num gesto que significava muito mais. Era deitar por terra um passado humilhante de quase um século, período durante o qual a China tinha sido submetida a todos os ditames do ideário mercantilista do “laissez faire, laissez aller, laissez passer”, comércio livre imperialista durante o qual o dinheiro foi quase tudo e a moral quase nada. Cortar a trança nesses tempos bárbaros poderia levar à pena de morte de acordo com o estabelecido pelo regime Qing. Tendo isso em conta, o acto de rebeldia que se repetiu nas outras colónias ocidentais das costas da China, e também em Singapura, Indochina, Malásia e Indonésia, onde a emigração chinesa era pujante, foi por demais significativo. Toda a bacia ocidental do Pacífico era um porto global aberto ao mundo. No entanto, os dois pontos de verdadeiro contacto da China com as ideias ocidentais eram, essencialmente, Macau e Hong Kong pela situação geográfica. Aí situavam-se verdadeiramente os baluartes que poderiam, para o bem ou para o mal, transformar ou perder o país. As actividades subversivas na vizinha colónia britânica contra a monarquia Manchu eram rigorosamente vigiadas pelas autoridades inglesas. Ao contrário, em Macau a permissividade oficial nesse campo era notória. Portugal contemporizava, como sempre fez ao longo da sua história, em matéria de “negócios estrangeiros”. Essa situação permitiu que, ao longo das duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX, um dos principais centros de apoio às correntes de oposição aqui estivesse sedeado. A tempo inteiro ou sempre que a conjuntura prevalecente assim o determinasse. Em Macau viveram nessa época alguns dos vultos mais destacados que a Nova China haveria de produzir. Igualmente aqui se publicavam os jornais de oposição proibidos para lá das Portas do Cerco e também em Hong Kong. Esses jornais derivavam de várias orientações políticas, desde os liberais, que apenas pretendiam a reforma da monarquia, até aos que se proclamavam abertamente anti-monárquicos. Os socialistas e sociais-democratas aqui imprimiam igualmente os seus órgãos de propaganda, com destaque, numa primeira fase, para os anarquistas. Os periódicos eram escritos e impressos nas tipografias locais. Umas legalmente estabelecidas, outras clandestinas (o governo português sabia o que se passava, mas pouca conta oficial dava dessas diferenças – deixava andar!). Posteriormente, eram distribuídos no Interior através, principalmente, da inextrincável rede de “tríades” que dominava o país de então. A sua circulação não se limitava às fronteiras de Guangdong. Chegava aos grandes centros urbanos incluindo Xangai, Pequim e Tianjin, e ainda mais longe: ao Sudeste Asiático, à Austrália, aos EUA e mesmo à longínqua Europa, com destaque para a França. No período da implantação da República na China, a maçonaria portuguesa encontrava-se extremamente activa e actuante não só em Macau, mas também em Cantão, Xangai e nas Filipinas, para não falar no distante Havai, onde Sun Yat-sen e um sem número de resistentes chineses possuíam laços políticos e de sangue iniludíveis. Em Macau, os maçons eram umas quantas figuras civis e militares, revestidas de diversos graus de responsabilidade institucional, incluindo os chefes máximos da administração – governadores, secretários-gerais e chefes de repartição. Nessa conjuntura, a maçonaria funcionava como organização supranacional que politicamente tudo coordenava, superando as rivalidades existentes entre facções na China e entre os interesses por vezes opostos das potências coloniais presentes no intrincado xadrez político-militar prevalecente. Na maçonaria de Macau, concentrada na Loja Luís de Camões II, tal como em Portugal, o republicanismo dominava claramente. Esta terá sido outra das razões que explicam a cumplicidade da colónia nas actividades subversivas contra a “Dinastia Celestial”. Alguns maçons apoiavam porque eram republicanos, outros porque eram monárquicos constitucionais, outros ainda porque estavam rendidos ao progresso imparável das “luzes” do século XIX, ainda que não sendo nem uma coisa nem outra. Todavia, para todas as tendências, a China era uma monarquia absoluta que não congregava as simpatias de ninguém. Nesse âmbito, é de salientar circunstancialmente a figura de Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de diversos jornais, que se tornou ponte de contacto proeminente entre os republicanos chineses das mais diversas matizes e as autoridades locais durante mais de duas décadas. Foi Francisco Fernandes que acolheu Sun Yat-sen em Macau após a sua primeira e malograda tentativa de revolta contra o regime, em 1895, organizando-lhe a fuga ulterior para o Japão. Há correspondência conhecida entre Fernandes e Sun, que revela que, além do grau de amizade pessoal, partilhavam os mesmos ideais políticos e particularmente laços “iniciáticos” evidentes. Nessa conjuntura de dobragem de século, por Macau passaram ainda muitos ideólogos e activistas chineses de grande renome nacional. Destaque para Zheng Guan Yin, autor de várias obras que reflectiam as correntes mais modernas do pensamento filosófico, político, social e económico do mundo positivista do “século da luzes”. Essas obras foram escritas e publicadas inicialmente em Macau, já que em Hong Kong tal feito seria impossível. As autoridades vizinhas controlavam muito de perto todas as actividades subversivas dirigidas contra Pequim e o seu regime, já que não pretendiam pôr em causa enquanto o “Celeste Império” estivesse disposto a ceder às imposições diplomáticas ditadas por razões essencialmente comerciais de “Sua Majestade Britânica”. Ainda bem que se restaurou ali perto da Fonte do Lilau a casa onde viveu essa grande figura que tanta influência teve no dealbar da Nova China. Uma outra personalidade bem menos conhecida – mas que registou influência determinante num certo período ainda que relativamente curto da história contemporânea – foi Liu Shifu, o nome mais proeminente do anarquismo no extremo-oriental do mundo. Liu era o principal redactor do jornal A Voz do Povo, dado à estampa simultaneamente em chinês e esperanto. Nas sua páginas constavam os grandes manifestos de Kropotkin, Bakunin, Tolstoi e outros anarquistas. Mas também niilistas como Turgeniev, o grande romancista russo, autor de “Pais e Filhos”.

 

Liu Shifu, que morreu prematuramente (tinha 31 anos, em 1915), desvaneceu-se na penumbra da história das ideias políticas face à ascensão imparável do marxismo-leninismo. No entanto, o seu ideário deu corpo à fugaz independência de Cantão que perdurou sob a dupla égide de Sun Yat-sen e Cheng Chiu Meng entre 1913 e 1925. Liu Shifu vagueou clandestino e a fugir à polícia muitas e muitas vezes pela rua das Estalagens, pelo Pátio da Mina, pela rua da Esperança e pelo Auto Novo. Enfim, pelas vielas que só não estão hoje desaparecidas porque o centro histórico de Macau foi preservado, graças à inclusão na lista de Património Mundial pela UNESCO. Finalmente, a subalternização de Macau como ponto relevante de influência sobre o pensamento político republicano e socialista chinês se deve não só à falta de estudos sobre a matéria em língua portuguesa, mas principalmente ao verdadeiro tiro de partida disparado com fragor mediático pelo mundialmente famoso cientista britânico James Cantlie. Devido essencialmente ao facto de ser maçom, Cantlie, reputado especialista de medicina tropical e antigo professor de Sun Yat-sen em Hong Kong, pontificava por isso nos círculos académicos internacionais. Mas estava essencialmente nos clubes sociais e políticos de Londres (tradicionalmente o chefe da maçonaria inglesa era sempre um membro da família real). Assim, foi capaz de forjar os apoios necessários para fazer saltar a figura de Sun Yat-sen de revolucionário mal conhecido, mesmo em Macau e Hong Kong, para o patamar de herói de projecção internacional, alcandorando-o à estatura de Mustafá Kemal Ataturck, na Turquia. Isto num momento em que Ataturck, figura disputada como ícone do futuro entre a Inglaterra, Alemanha e França (ainda que esta em menor grau), parecia não deixar campo para a ascensão de novos heróis mundiais, fosse nos telegramas da agência noticiosa Reuters ou nos artigos de fundo do londrino Times, que regiam a opinião pública mundial. Para isso concorreu indubitavelmente o lançamento da primeira biografia sobre o então obscuro médico cantonense: Sun Yat-sen and the Awakening of China, obra escrita por Cantlie em parceria com o jornalista Sheridan Jones. Foi um êxito estrondoso em todo o mundo. Creio que não existe tradução portuguesa desse livro, o que não deixa de constituir uma interrogação sem resposta cabal. Terá sido omissão politicamente motivada e intencional, pela conjuntura geopolítica do tempo, ou negligência histórica pura e simples? Inclino-me mais para a segunda hipótese. Neste ponto convém esclarecer, em abono da justiça, que em Sun Yat-sen and the Awakening of China as actividades de Sun Yat-sen em Macau não passaram em branco. Vale a pena ler histórias sobre cirurgias de extracção de cálculos renais – então uma inédita e hodierna inovação da medicina europeia e americana, que Sun praticava no hospital Kiang Wu sob a égide de Cantlie. Ali não eram bem os méritos da medicina ocidental que se provavam, mas significativamente as possibilidades práticas de curar os males sociais de uma nação inteira com novos métodos, ainda que em rota de colisão com a tradição milenar de Confúcio. Várias personalidades portuguesas de relevo de Macau estiveram em estreito contacto não só com Sun, mas com os seus correligionários, restando saber até que ponto o pensamento político dos republicanos chineses terá sido influenciado, ou até eventualmente moldado, por via desses contactos. Lou Lim Yok, Leong Kai Shio ou Shen Shaobai salientam-se do lado chinês. Horta e Costa, Carlos da Maia, Rodrigo Rodrigues e Álvaro de Melo Machado destacam-se do lado português. Outras figuras menos estudadas que no território viveram essas exaltantes épocas de militância política tiveram também papéis relevantes, como Damião Rodrigues, Vicente Jorge, o advogado Basto e o ainda hoje enigmático Leôncio Ferreira, este que pontificava em Xangai e foi agraciado com a “Torre e Espada”, a mais alta condecoração militar portuguesa, embora sempre tivesse sido um civil de gema. Possui uma pequena rua com o seu nome em Macau. Contudo, não se sabe ao certo o que fez, já que ninguém traçou-lhe uma biografia. Mas, certamente, coisa importante protagonizou no que toca ao relacionamento entre Portugal e a China. As actividades dos agentes do Komintern em Macau nos anos 20 foram, em certos aspectos, tão determinantes como envoltas no segredo em que ainda hoje se encontram e que permanecem por estudar a fundo. Também na formação do Partido Comunista da China Macau desempenhou papel de relevo e não pequeno. A fortíssima ligação a Macau do marechal Ye Jiening, presidente da República nos tempos de Deng Xiaoping, prova-o à saciedade. Aqui se refugiou mais do que uma vez e diz-se mesmo que, nos tempos caóticos da revolução cultural, em caso de emergência Ye Jiening e os principais líderes do PCC contariam com o território como último reduto de exílio e resistência. Não restam dúvidas de que Macau, se não funcionou como peça única na formação do pensamento político dos republicanos e comunistas chineses, foi, indubitavelmente, o cadinho, conveniente e discreto onde se forjaram alianças, se atingiram consensos, se delinearam grandes projectos e se arbitraram conflitos em campo neutro e nunca em pequena parte. Falta estudar com mais acuidade a relevância e influência resultante dos contactos entre os dois lados – português e chinês, diplomático e particular. Além das fontes e nomes que deixei citados, falta também vasculhar arquivos em Portugal, mas igualmente (diria primordialmente) na China onde, provavelmente, muito do que não se sabe se guarda e aguarda apenas a consulta de quem os queira, ou possa, esmiuçar e retirar conclusões do que se vier a conhecer. Creio que, se esse empreendimento for levado a sério e de uma forma sistemática, talvez se possa saber com mais ciência certa se o facto das repúblicas em Portugal e na China terem sido proclamadas com a pequena diferença de um ano foi apenas mera coincidência histórica ou bem mais do que isso. O agradecimento de Sun Yat-sen em carta ao Governador Carlos da Maia (no poder entre 1914 e 1916) revela bem até que ponto Macau, pequenino território da grande China, nunca pecou por abstenção. Sun agradecia sobretudo o apoio inequívoco que o então Governador concedeu aos republicanos chineses num dos mais incertos e conturbados períodos da história, quando Yuan Chi-kai (o presidente que queria ser imperador e só não o foi porque a morte o levou antes) ameaçava por ambição pessoal reverter a história e o progresso. A carta é conhecida. Está publicada e foi motivo de diversos comentários de abalizados sociólogos, historiadores ou meros divulgadores, tanto portugueses, brasileiros como chineses. No entanto, nenhum, que eu saiba, na imensidade de encómios que foram rendidos ao fundador da República Chinesa de 10 de Outubro de 1911, o foi em língua inglesa. É pena, mas é esclarecedor.

João Guedes

In Revista Macau, Março 2011

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Weapons of Yesteryear

canhoesWeapons of Yesteryear

Portuguese cannon foundries in Macao. (October 2011)

The name Krupp is one that must be familiar to a great many people. The German weapons manufacturer has supplied equipment to armies around the world for over 400 years.

The Krupp family first appear in historical documents in 1587, when Arndt Krupp joined the merchants’ guild of Essen. Arndt, a trader, arrived in the city just before a major plague epidemic took hold. He survived to become one of the city’s wealthiest merchants, buying up properties from families who had fled the city to escape from the disease. After he died in 1624, his son Anton took over the family’s affairs. Anton became responsible for the manufacturing of cannons during the 30 Years’ War (1618–1648). This marked the start of the family’s long association with the arms industry, lasting right up to the present day.

But most people probably don’t know that the making of cannons (at least modern cannons) was not invented by the German Krupps. Far from it. The manufacture of bronze and iron cannons for use on land and sea had been developed by the Portuguese decades beforehand.

This was the technology that enabled Portugal to bring half the world into submission. Thanks to the efforts of Afonso de Albuquerque, they were able to ensure Portuguese supremacy on the trade routes to India. Albuquerque used bronze and iron cannons (especially the latter) to his advantage, to dominate the Persian Gulf. The result was a cutting of trade links between the Italian republics, Persia and the Arab countries.

He was likewise able to conquer Malacca and its strait, which allowed Portugal to control trade between Europe and the Far East for more than two centuries.

But who was responsible for making the cannon that enabled an empire to rise from nothing? Until that point Portugal had been merely a small country at the far western fringe of Europe. How could it achieve this manufacturing feat?

The answer lies in Macao. Here, a master engineer from Portugal named Manuel Tavares Bocarro set up a cannon foundry.

The Krupp family business continues today. But Bocarro’s only lasted for two or three generations. His name was lost as different business lines took over, and is only kept alive in the annals of history.

Lime, bronze and iron

Tourists who visit Macao today are taken to the St Paul’s Ruins, the Kum Iam Tung Temple and the Barra Pagoda, among many other sites. Only rarely do they venture into a small and much-changed neighbourhood nestled in the shadow of the Portuguese consul general’s residence. It lies just over 200 metres from the Praia Grande Palace, which now houses the government seat of the Macao Special Administrative Region.

Practically nothing remains of the old properties in this neighbourhood. A small 19th century two-storey building stands awkwardly beside tall, modern edifices that reach towards the sky. Few passers-by have any historical awareness of the ground they are treading on.

The neighbourhood is known locally as Chunambeiro. According to historian Charles R. Boxer in ‘Macao Three Hundred Years Ago’, the word is derived from an Indian term for the lime obtained from seashells. Indeed, oyster-shell lime kilns once stood here. It also became the site of the old artillery foundry and powder magazine run by the famous Manuel Tavares Bocarro in the 17th century.

The two-storey Ricci building that nowadays houses the “ Estrela do Mar” school has a long past. It once served as the initial base of the great English trading company Jardines & Matheson – opium traders and tea merchants. But the foundations of this yellow-painted building have borne much more history than that. This was, in fact, the location of the foundry that cast the bronze and iron cannon made by master Tavares Bocarro.

Unsung hero

A search through historical records reveals scant details of Bocarro’s life.

In 1625 Manuel Tavares Bocarro arrived in Macao. He had travelled from Goa, where he had learned his craft from his father – namely managing the family foundry. At that point the foundry was situated in Chunambeiro, next to the Bom Parto Fortress and at the foot of Penha Hill.

The foundry went on to become famous for its metallurgical techniques, where Eastern and Western expertise converged. Over the years,it produced countless cannon, bells and statues. Although we know about the cannon and bells, not a single statue is known to have survived the passage of time.

Charles R. Boxer stated that “in 1623 Dom Francisco Mascarenhas, first captain general of Macao, signed a contract with two ‘Chinas’ to cast cannon at the colony’s foundry”. He added that “the main source of supply for the Portuguese forts and fleets in India continued to be Macao. Here a Sino-Portuguese foundry was ably run by Manuel Tavares Bocarro, son of Pedro Tavares Bocarro, head of the Goa casters. They manufactured both iron and bronze cannon”.

The chronicler António Bocarro wrote the following about Macao in 1635: “This place has one of the world’s best cannon foundries, whether of bronze, which has been here a long time, or of iron, which was done by order of the Viceroy Count of Linares. It’s where artillery for the whole State (of India) is continually cast, at a very reasonable price.”

Construction of the Chunambeiro landfill is dated at 1871. In 1873 work began on extending Praia Grande Street from the Chunambeiro landfill to Bom Parto. Before then, the Barra residents had crossed Santa Sancha Hill to get to Praia Grande, one of the city’s most isolated areas, containing only a few country houses.

Arrival in Macao

Manuel Bocarro arrived in Macao in mid-1625. He worked until the end of that year as an assistant at the Caza da Fundição (Foundry House). In 1626 the foundry was freed from management by ‘two Castilians’. This meant that Manuel Bocarro was able to dedicate himself entirely to producing iron and bronze cannon. The first cannon he cast was a 36-calibre that was active for centuries on the Monte Fortress. It is known in history texts as the ‘Mandarin Artillery Piece’.

In 1627 Manuel Bocarro cast several large cannon that could shoot stone projectiles weighing 50 lb each. All the cannon were dedicated to saints: St Alphonse, St Ursula, St Peter Martyr, St Gabriel, St James, Pope St Linus and St Paul, among others. For many years they defended Macao from their fortress positions. During the Pacific War (1937–45) they were all removed, and sold to the Japanese in exchange for rice. The St Lawrence and St Ildephonsus cannon are exhibited at the Tower of London, while those dedicated to St Anthony and St Michael belong to the Woolwich Museum.

In the Jakarta Museum’s inventory, the following artillery piece is described as item no. 27012: “Cannon; once the ‘holy cannon’ of Jakarta,origin: probably cast by the Portuguese, captured by the Dutch from the Portuguese at Malacca (1641).”

The ‘Holy Cannon’ is traditionally deemed to be of Portuguese origin and has been carefully studied by M. Neyens and K.C. Crucq. The latter wrote: “Finally, I’d like to say something of vital interest regarding the Holy Cannon of Batavia. Lisbon’s military museum has a cannon presumably cast by Manuel Tavares Bocarro which was shot with the same shape as our Holy Cannon, which again confirms the Portuguese origin of the Batavia cannon. It is now most probable that this cannon was cast by Manuel Tavares Bocarro. In this regard, Bocarro used a special soldering technique that allowed him to add grips to move the pieces, as well as fittings such as the dolphin handles that even today distinctively mark his artillery pieces.”

Manuel Tavares Bocarro’s life may be an interesting subject for historians, but what he produced in iron and bronze can still be seen in various museums around the world.

Buried in history

Unfortunately, little remains of Bocarro’s life and work in Macao – the territory Bocarro operated from. Historians have only identified a small cracked bell at St Michael’s Chapel next to the Guia lighthouse. It serves as a reminder of the golden days of Bocarro’s foundry, though even this is seldom mentioned in local guidebooks.

Legend has it that nearly three centuries after Bocarro’s death, Marshal Wellington used a number of his cannon. They proved very effective in many clashes and battles during the Peninsular War (1807–14), which resulted from the French invasions of Spain and Portugal.

The discovery of the Portuguese galleon Sacramento is a notable find. It sank in 1647 while transporting a cargo of Bocarro cannon from Goa to Lisbon. In 1978 divers were able to recover these bronze cannon, which were still in good condition. They had been cast in Macao in 1640, the very same year that Portugal recovered its independence from Spain. According to Charles Boxer, it was the first large cargo of cannon transported from Macao through the Dutch blockade.

The furnaces of Manuel Tavares Bocarro’s foundry are now forever lost under the foundations of buildings that began encroaching on the slopes of Penha Hill in the 1980s. Even the Jardines & Matheson building now overlooks a reclamation area that did not exist when the great 17th century cannon and bell maker worked in the area.

The discovery of the furnaces where Bocarro’s cannons, bells and statues were cast is an impossible task. Yet it is still worthwhile to seek out that small broken bell, still preserved at the Guia Fortress, just a few short metres from the lighthouse.

 

By João Guedes in Macao

(Issue N. 9, October 2011

Macau confidencial

Scan40007É o meu ultimo livro e já está nas livrarias a apresentação vai decorrer no próximo dia 23 pelas 15 horas no Clube Militar de Macau.

Sobre o livro a agência de notícias LUSA refere o seguinte:

“Macau Confidencial”, um livro sobre segredos como o jantar que desencadeou o Iberismo

Macau, China, 09 abr (Lusa) — “Macau Confidencial”, livro do investigador da História de Macau João Guedes recentemente publicado, relata episódios guardados a sete chaves durante décadas, como o jantar que desencadeou o Iberismo ou a fundação do Partido Comunista do Vietname.

O livro, publicado recentemente, fala “de variadíssimos episódios situados nos finais do século XIX mas principalmente nos inícios do século XX, até à ascensão de Salazar, que foi um período interessantíssimo da história de Macau”, explicou João Guedes à agência Lusa, destacando três momentos: o Iberismo, a coincidência (ou não) da I República em Portugal e na China e a fundação do Partido Comunista do Vietname.

O “Iberismo”, ideologia que defende a unificação política de Portugal e Espanha, que teve o seu apogeu na segunda metade do século XIX, como narra João Guedes, é “bem conhecido”. Contudo, talvez poucos saibam que a ideia de união ibérica, dois séculos depois da restauração de Portugal em 1640, teve o seu nascimento, de facto, no Paço Episcopal de Macau.

A corrente que pretendia unir as duas coroas teve como impulsionadores Jerónimo José da Mata, bispo da diocese de Macau, Carlos José Caldeira (seu primo), enviado especial do Governo português à China, Sinibaldo de Mas, catalão de origem e ministro plenipotenciário de Espanha na China, o padre canonista J. Foixa e o dominicano espanhol J. Fernando, que “selaram num jantar”, no verão de 1850, um pacto “em que se brindou à Ibéria e à ‘conveniência da união pacífica e legal de Portugal e Espanha'”, escreve o também jornalista na sua mais recente obra.

“Esses vultos da altura entendiam que Portugal e Espanha deviam unir-se porque estavam em perigo os seus respetivos impérios ultramarinos”, detalha o jornalista e investigador, observando que “este assunto é substancialmente mais tratado e publicado em Espanha do que em Portugal”.

Relacionado com o Iberismo surge outro “episódio raramente contado”: “O mistério do maior desastre naval ultramarino português dos últimos 200 anos”, em 1850.

“Na explosão da fragata D. Maria II [enviada para Macau após o assassínio do governador Ferreira do Amaral, em agosto de 1849], na Taipa, morre quase toda a tripulação constituída por 200 marinheiros. Foi um desastre que resultou de uma ação das seitas, das tríades, porque estava em Macau como parte de uma força expedicionária — que incluía depois a Corveta Íris e uma outra fragata — com a missão de invadir a região” vizinha em torno da então colónia portuguesa, desvenda João Guedes.

“Esse projeto, completamente peregrino, não chegou depois a ser subscrito em Portugal mas tinha defensores no governo português. Mas, com a explosão da fragata, esse plano tolo caiu completamente”, realça.

Neste livro de João Guedes “há também a história completamente escondida do movimento anarquista chinês que tem em Macau o seu quartel-general no início do século XX”.

“E depois tento esclarecer — mas não esclareço — a coincidência de datas na proclamação das duas repúblicas (1910 em Portugal, 1911 na China). Penso que não é apenas coincidência e dou algumas achegas nesse sentido, mas é preciso ainda estudar mais sobre isso”, continuou João Guedes.

Outro episódio revelado no livro prende-se com a fundação do Partido Comunista do Vietname, no Hotel Cantão, “um segredo que é guardado durante mais de 70 anos”.

“O Komintern, a Internacional Comunista desse tempo, está em pleno vigor e Macau é um dos centros de controlo do Komintern — clandestino, claro. E realiza-se aqui o primeiro congresso do Partido Comunista do Vietname, com Ho Chi Minh, que vivia em Macau”, explica.

“São estes episódios que eu diria confidenciais porque Macau era uma cidade demasiado pequenina para ter segredos verdadeiros. Creio que muita gente saberia do que se passava, mas o consenso era o de que era melhor não se falar sobre isso”, considera.

Também, “nessa altura já da formação do Partido Comunista Salazar já estava no poder, pelo que era melhor não tocar em assuntos incómodos”.

“Macau Confidencial” tem por uma base uma série de artigos escritos semanalmente no Jornal Tribuna de Macau ao longo de mais de dois anos, de uma forma esparsa.

A obra integra a coleção do Instituto Internacional de Macau (IIM) intitulada “Suma Oriental”, obra de Tomé Pires, o primeiro embaixador designado por Portugal para ser presente ao Imperador da China, e dos primeiros autores que escreveram sobre o Oriente. A coleção pretende dar “modesta continuidade” à “Suma Oriental” iniciada no século XVI.

 

Quem se lembra e quem não nas ruas de Macau. 11-05-11

Quem se lembra e quem não nas ruas de Macau

Macau  foi sempre um território constituído por uma esmagadora maioria de chineses de fé budista nas suas diversas formas. A população católica não vai além dos 25 a 30 mil fiéis num cômputo total de meio milhão de almas, ou seja, uma gota católica que se perde num mar ou, pelo menos, num grande lago budista e taoista. No entanto, qualquer estudioso do futuro que se debruçasse sobre a toponímia da cidade e das ilhas, sem se rodear das necessárias precauções, seria levado a pensar precisamente o contrário.

De facto, quanto a padres, bispos, e irmãs da caridade, não parece haver cidade que tanto tenha preservado os seus nomes como Macau.

Sobre o que fizeram, pouco se sabe em concreto, para além do facto de terem sido de facto padres, freiras, bispos e cónegos.

Tal é o caso do Padre António (António José da Costa) que para além de “administrar bem os dinheiros de vários fundos e legados que lhe tinham sido confiados”, nada mais terá feito de importante para merecer a posteridade. Mesmo assim teve direito a uma rua inteira.

Camões administrou também os dinheiros de vários fundos e legados, como Provedor dos Defuntos e Ausentes se é verdade que alguma vez ocupou tal posto? Eduardo Ribeiro, por exemplo, assevera que sim em dois livros e artigos impressos em revistas de grande valor cultural no mundo lusófono dados há não muito tempo à estampa. Mas seria profundamente duvidoso que o seu eventual zelo contabilístico lhe concedesse direito ao jardim que ostenta o seu nome, se não possuísse os outros dotes pelos quais ficou imperecível na história. E assim ficou para a tradição portuguesa o “Jardim de Camões” e para a chinesa o “Jardim das Pombas Brancas (Pack Hap Chau).

Quanto ao padre Vasconcelos (António Maria Augusto de Vasconcelos), os créditos são ainda menores, do que os do seu confrade António, constando apenas ter “pregado gratuitamente a oração fúnebre de D. Pedro V.

Cinquenta anos antes, o frade António de S. Gonçalo de Amarante pregou a oração fúnebre de D. João VI igualmente gratuita. Mas, para além de não lhe terem sequer concedido um beco ainda o levaram preso a ferros para Goa. No entanto este frade (prior dos Dominicanos) foi o autor do primeiro jornal português do Extremo Oriente (“A Abelha da China”), facto que por si só teria merecido justo reconhecimento se não se trata-se de um liberal “contaminado” pelas ideias subversivas da Revolução Francesa, ou se em vez de ter sido superior da ordem espanhola fosse reitor dos franciscanos, confraria mais adequada ao nacionalismo luso e menos eivada de fumos castelhanos, ou então se fosse jesuíta. Mas, certo é que Vasconcelos teve direito, a uma rampa, enquanto o frade liberal (e provavelmente “pedreiro-livre”), Frei António de S. Gonçalo, perdeu-se na história apenas com o epíteto de “malhado” sem rua nem beco, nem pátio sequer.

No que se refere ao jesuíta Roliz (António José Gonçalves Roliz), já se conhece mais alguma coisa. Formado pelo seminário local (S. José), partiu para a Europa a fim de repetir os cursos de filosofia e teologia, voltando à Ásia para leccionar em Cochim (Índia), missionando posteriormente na cidade chinesa de Shiu-Hing, antes de terminar os seus dias em Macau como perfeito, professor e director espiritual do seminário, promovendo aqui o culto de Nª. Sª. de Fátima. Teve por isso, direito a uma rua.

No que se refere ao padre Narciso (Narciso Firmiano) nada há que justifique os gastos de uma placa ainda que em simples azulejo, nem a sobrevivência da memória, tendo em conta que os autos biográficos oficiais referem apenas ter sido criado de um francês chamado Molinau que era piloto de uma chalupa pertencente ao rico comerciante António Correia de Liger e, mais nada. Sendo assim, não se encontra explicação capaz para a sua perpetuação, já que nem Molinau nem Liger (Liger talvez merecesse, mas não cabe aqui fazer a sua história) figuram em parte alguma como particularmente lembrados por pensamentos, palavras, ou obras como diria a Igreja.

O facto de ter falecido na dignidade de cónego não consegue, mesmo assim, resolver o enigma, tendo em, conta que na história local, os cónegos foram pelo menos mais de uma centena ao longo da história de Macau e pouco se sabe sobre o que tenham feito de relevante fora de portas do Paço Episcopal.

O mesmo se pode dizer do padre Soares (Luís Soares) que também não possui biografia própria. Segundo Mons. Manuel Teixeira, este sacerdote, era “filho de Francisco Xavier Placé Soares e de Ângela Vicência Osório Soares, tendo um irmão, Matias da Luz Soares que casou com Júlia de Vasconcelos, filha de António José Vasconcelos, natural de S. Miguel, nos Açores e de Júlia Maria Cândida de Castro…” Convenhamos que, se trata de um currículo manifestamente insuficiente para lhe conceder quaisquer direitos, mesmo que a uma travessa. Quem teria sido este padre do qual consta apenas a biografia dos seus parentes?

No caso de Madre Terezina (Maria Teresa Lucian), já a posteridade se justifica plenamente. Desde que fundou o convento das irmãs Canossianas no Território, distinguiu-se imediatamente, por ocasião do surto de “cólera morbus” que afectou Macau em 1888, auxiliando os doentes e também o Dr. Gomes da Silva, cirurgião-geral que se “matou” a trabalhar lutando contra as infecções e o maioritário preconceito que na cidade rejeitava a medicina ocidental.

Vencida a crise, Madre Terezina fundou e desenvolveu colégios, voltando a distinguir-se na luta contra novo surto de peste dez anos depois (1898). Entre crises, ergueu asilos e estendeu a acção das Canossianas a Singapura e a Malaca, ganhando assim com mérito os créditos necessários a fim de poder figurar na panóplia dos heróis e heroínas locais com todo o valor. Acho que, neste caso deveria ter direito a, pelo menos, um bonito jardim, ou alameda com árvores frondosas e crianças a brincar, mas enfim… a história às vezes é ingrata e a Madre Terezina ficou-se por uma rua traseira o que é pena, em minha opinião!…

No que toca a prelados, muitos ficaram esquecidos nos recônditos dos séculos, outros não. Da justiça, ou injustiça das homenagens toponímicas não nos compete julgar, mas apenas assinalar que, por exemplo, D. Melchior Carneiro, esse bispo esclarecido do século XVI (O mesmo que para além de construir a primeira misericórdia e o primeiro hospital e lançar as bases da organização política da cidade consubstanciadas no antigo Leal Senado, actual “IACM”, apenas teve direito a nome numa discreta rua das traseiras das ruínas de S. Paulo, num sítio onde, poucos peões frequentam a passagem, a não ser os moradores e os que vão à missa, ao sábado, ou Domingo à Igreja de Santo António.

Mais de trezentos anos depois, já que o cadastro de 1869 não o refere tendo sido perpetuado apenas no censo cadastral de 1925, D. Melchior, ainda que permanecendo na memória das conservatórias, da “Santa Casa da Misericórdia” e do “Arquivo Histórico”, ali ficou lembrado, mas foi praticamente eximido da toponímia. Desgraçado, jesuíta a quem Macau deve os alicerces da sua existência política de mais de quatro séculos mas, o qual a posteridade avara negligenciou negando-lhe a honra merecida de uma avenida, ou pelo menos de uma rua principal, ou de uma grande praça.

Mas, ainda no que se refere a bispos, as injustiças são evidentes. De todos os prelados de Macau (e foram alguns os recordados) ficaram apenas o bispo Enes, um franciscano doutorado por Coimbra, par do reino e comendador da Conceição, que dirigiu a diocese local entre 1877 e 1883, sendo depois transferido para Bragança e também o Bispo Medeiros. O primeiro foi mesmo considerado um dos maiores prelados da diocese (ainda que não se saiba lá muito bem porquê). Ambos conquistaram duas ruas.

D. João Paulino, fundador do Boletim Eclesiástico da Diocese, perpetuou-se, por seu turno, numa estrada ainda que deveras íngreme.

D. Jerónimo José da Mata, fundador da ideia do iberismo, talvez por isso, apesar do que fez e foi muito não só em Macau, mas também em todo o sudeste asiático, pelo catolicismo, esfumou-se nas brumas do tempo sem direito a memória a azul e branco em qualquer placa de azulejo que eu saiba, ou tenha visto (se calhar existe, mas não reparei nas minhas deambulações pela cidade).

Esquecido ficou também, em parte, o maior de todos os bispos de Macau depois de Melchior Carneiro, que foi D. José da Costa Nunes.

Esclarecida personalidade, D. José, para além de ter dinamizado a vida religiosa, social e cultural de Macau nas primeiras décadas do século XX atingiu as mais altas honras da Santa Sé. Seria o sucessor de Pedro Hispano (Papa João XXI  – 1276-77 – o único Papa português) se a morte não o tivesse levado prematuramente. No entanto, esta figura ímpar, de Portugal sobre a qual também há uma biografia por fazer não teve direito a quase nada, figurando apenas no pórtico de um infantário que esteve em risco de ser deitado abaixo há poucos anos por “ignorância dos povos” como diria o poeta e prevalência do camartelo do progresso e ganância da construção civil.

Que razões misteriosas levaram a toponímia macaense a esquecê-lo assim? Talvez um dia se saiba, embora antes de morrer o próprio bispo tenha queimado, todo o seu acervo de documentos pessoais. Que segredos pretenderia esconder este homem superior, magnânimo e esclarecido? Possivelmente terá apenas querido preservar a sua memória impoluta da incompreensão dos vindouros.

Passem as injustiças conclui-se todavia que a toponímia macaense regurgita de bispos, padres e freiras. No entanto, apesar da antiguidade da religião budista, do facto do templo da Barra ser anterior à chegada dos portugueses e de os pagodes se contarem por mais de uma centena na cidade e ilhas a toponímia macaense soberanamente decidiu ignorar esta fatia maioritária.

É assim que, apesar de existir o Largo do Pagode da Barra, ou a recentíssima rua “do Kun Iam Tung, não existe em Macau uma única via, nem um esconso beco que tenha merecido o nome de um monge budista de renome histórico. Em quatrocentos anos, não é crível que pelo menos um ou dois não tenham merecido ficar perpetuados.

Chega-me notícia de que agora já constam alguns nomes dos seguidores de Buda na toponímia de Macau. Ainda que embora poucos.

Ainda bem que assim é, mas falta divulgar o que fizeram tanto em chinês como em português

O 25 de Abril e Macau. O Fim de uma era antiga. 03-05-11

À margem das diligências oficiais que referi a semana passada, um amplo grupo de democratas reunia-se, entretanto, no restaurante “Fat Siu Lau”, à rua da Felicidade redigindo um telegrama emocionado por intermédio do “Jornal Republica” (um dos símbolos da luta republicana contra Salazar e Caetano), em jeito de carta aberta a todos os portugueses. Nele saudavam “o patriótico movimento de 25 de Abril que pôs fim ao “período fascista”, celebrando também o facto de levarem a cabo a primeira reunião política livre dos últimos 40 anos em Macau.

Ao fim da noite, os 38 subscritores da missiva abandonavam por entre vivas e aclamações o restaurante de regresso a casa sem receio de terem cometido qualquer acto criminoso previsto e punido pelo “Código Penal”, nem serem presos pelos subordinados do agente Noronha que sob a cobertura da Polícia da PS na Judiciária dirigia de facto a “PIDE-DGS” em Macau comandando de facto, ainda que oficiosamente, os serviços de informações da PSP.

Mas, a reunião do “Fat Siu Lau”, apenas culminou um dia de conquistas democráticas.

Nessa mesma tarde, o chefe de gabinete do Governador (Lajes Ribeiro), reunira no Palácio da Praia Grande os directores e representantes dos jornais, comunicando-lhes oficialmente o fim da censura.

A partir desse momento os periódicos portugueses poderiam escrever livremente o que quisessem. Os jornais chineses não foram convocados pelo simples facto de nunca terem sido submetidos à censura depois da convulsão de 1966-67 que ficou conhecida pelo número “1,2,3”.

Lajes Ribeiro, fazia-o com agrado e genuína convicção tanto quanto posso avaliar das inúmeras conversas que com esse oficial (actualmente general reformado) pude manter bem como com pessoas de vários quadrantes políticos que com ele conviveram em diversas épocas.

Depois de numa primeira vez se ter recusado a integrar como vogal a comissão de censura, ao ser para o efeito convidado quando era ainda oficial da polícia, acabaria por se tornar presidente da mesma comissão alguns anos mais tarde por inerência do cargo, facto de que não se apercebera antes de aceitar o convite de Nobre de Carvalho para ser seu “Chefe de Gabinete”. Nem tinha que se aperceber, digo eu, tendo em conta que se vivia então num regime totalitário onde qualquer lugar, ou posto nas forças armadas, ou na função pública implicava aceitar implicitamente tudo quanto não só a lei ditava como a sua regulamentação obrigava.

O discurso de Lajes Ribeiro ainda que sincero, não se traduziria em imediata liberdade já que meses depois o velho jornal “Notícias de Macau” acabaria por ser sancionado com uma coima de tal ordem por “excesso de liberdade de imprensa que teve que encerrar portas.

Na sequência da fundação do “CDM”, também as forças conservadoras locais se sentiram na necessidade de se agruparem fundando a Associação para a “Defesa dos Interesses de Macau” “ADIM”, liderada pelo antigo procurador à Câmara Corporativa Carlos Assumpção forte personalidade que para além da comunidade portuguesa estendia a sua influência à sobrepujante comunidade chinesa.

Ao contrário do “CDM”, não era a democratização da sociedade o principal objectivo da “ADIM”, mas sim a criação de um grupo de pressão capaz de lutar contra os receios de curto prazo de alguns sectores da população de que o processo de descolonização em curso pudesse ser de alguma forma apressadamente aplicado em Macau.

Com a formação da “ADIM”, ainda que exponencialmente mais conservadora do que o “CDM” acentuava-se a pressão no sentido da transformação das estruturas coloniais ancilosadas que Nobre de Carvalho, embora dizendo oficialmente aderir aos princípios da revolução dizia simultaneamente que “as alterações que podiam ser implementadas” não estava em condições de as fazer ele próprio.

Entretanto nos quartéis registava-se grande turbulência, reflectindo as mudanças de conceitos e de objectivos das forças armadas que punham termo à guerra do “Ultramar” e ocupavam vitoriosamente o poder político. Nesse contexto de indefinição o chefe de estado-maior (Rocha Viera) decidiu eximir-se a ser árbitro na situação local. Pediu licença militar (que foi aceite) e partiu para Lisboa a fim de verificar “in loco” quais era os novos rumos dos ventos da política nacional. Rocha Vieira, curiosamente, mais tarde acabaria por regressar a Macau afirmando-se delegado doMFA(Movimento das Forças Armadas).

Nessa altura no Território o comandante Salgado, Capitão dos Portos, dizia igualmente que o era antes dele e provavelmente teria razão. Porém à falta de documentos credíveis, vá lá saber-se quem era o verdadeiro delegado do “MFA” em Macau?…

O que se sabe ao certo é que o comandante Salgado acabaria preso e recambiado para Portugal, enquanto Rocha Vieira regressava como secretário adjunto para as Obras Públicas do novo governador Garcia Leandro. Mas, na verdade as suas funções excediam largamente as Obras Públicas, já que na prática se perfilava como comandante operacional da pacificação do Território e da sua guarnição que se tinha esquerdizado em demasia conforme o próprio Rocha Vieira afirma.

Independentemente de quem comandava oficial, ou oficiosamente o “MFA” em Macau a agitação social mantinha-se dentro de limites aceitáveis face aos novos tempos revolucionários que tinham surgido de supetão. Mas isto é o depois da história.

Antes Nobre de Carvalho aguardava indicações claras de Lisboa sobre qual a política a seguir e fazia saber (no limiar da sua própria reforma) que fosse qual fosse a evolução dos acontecimentos deixaria o território no final do mandato para que tinha sido nomeado, ou seja Outubro de 1974.

Embora beneficiando ainda da simpatia de grande parte da população, simpatia que lhe advinha dos tempos conturbados do “1,2,3”, Nobre de Carvalho começava a tornar-se alvo cada vez mais exposto:-

“Grande parte da população não aceitava a sua continuação, sofrendo por isso uma grande contestação durante muitos meses” recorda o general Garcia Leandro, que seria juntamente com o major Rebelo Gonçalves o primeiro a deslocar-se a Macau como enviado oficial do novo regime.

O próprio Nobre de Carvalho, por seu turno, ia mais longe preferindo usar o termo “revolução” a contestação: –

“Foi uma outra revolução, que houve, desta vez dentro da população portuguesa (chinesa não!) macaenses e outros europeus (o que quereria dizer com outros europeus?). Mas foi uma minoria que estou convencido – muitos já morreram – que no fundo se devem ter arrependido do que fizeram porque foi uma vergonha essa actuação”. Apesar destas amargas palavras, o velho general no entanto não chegaria a conhecer os verdadeiros tempos de agitação que se seguiriam em Macau após a sua resignação do cargo.

Macau logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 -04-26-11

Macau, foi desde sempre vista de Lisboa muito mais como uma “pérola exótica” de diletantes e intelectuais decorrente dos escritos de poetas e prosadores, nacionais e estrangeiros, que por aqui passavam do que uma colónia credível, verdadeiramente importante, ou pragmaticamente rentável para o Estado.

Os jornalistas das mais diversas nacionalidades acrescentavam pontos ao tema que romancistas e realizadores de cinema desenvolviam sobre este diminuto cantinho peninsular do Sul da China.

O filme “Macau o Inferno do Jogo” permanece como estereótipo protagonizado por Robert Mitchum e Jane Russel sobre uma cidade que, ao mesmo tempo era e não era, nos anos 50 e seguintes.

Na literatura o estereótipo permanece no que escreveu, por exemplo, o grande novelista republicano espanhol W. Fernandez Flores sobre a Rua da Felicidade, retracto exacto de um bairro dos anos 30 (século XX) que igualmente era e já não era. Os senhores de “chapéus brancos de abas largas”, o canto morno das “pei-pai-chai” que tocavam cítaras e alaúdes, na pequena viela eram muito mais produto de uma imaginação ocidental fértil perante o exótico oriental do que realidade quotidiana que pouco romance continha. Aliás essa imagem de W. Fernandez Flores é um retrato que já se perdeu da memória da cidade há décadas e décadas tal como a própria viela.

Quanto ao “Inferno do Jogo” nem tanto. Um pouco mais realista, já que americano ainda hoje contém em si traços de alguma verdade hodierna ainda que excessivamente ficcionada.

Sendo assim, Macau com os seus 16 quilómetros quadrados de perímetro (actualmente são 28.6 Km2 e mais se aguardam) perfilava-se negligenciável na géo-estratégia de Portugal. Porém, nos domínios da cultura o seu estatuto era outro e de quase primeiro plano. Mas a história e a cultura sempre foram disciplinas de ordem negligenciável perante dividendos financeiros e ganhos eleitorais, que só têm em conta estatísticas e grandes números.

Em Macau a demografia era escassa não indo além das duzentas mil almas que habitavam a cidade e as ilhas nos idos da década de 70 do século XX. Além disso nesses tempos para a ditadura do “Estado Novo” os votos nada contavam já que a vitória estava sempre assegurada pelo partido único. Primeiro a “União nacional” de Salazar, depois a “Acção Nacional Popular” de Marcelo Caetano. Por isso Macau permanecia como sempre, aliás, última prioridade do antigo “Império Português das Descobertas” quanto mais não fosse pela erosão da História!

Não é portanto de admirar que no computo dos problemas gerados pela descolonização de regiões tão vastas, como Angola e Moçambique, Macau, mais as suas pequenas ilhas anexas (Taipa e Coloane que na altura nem para Macau contavam coisa que se visse, já que nas ilhas a população era demasiadamente diminuta para mal conter um freguesia e meia), permanecesse durante algum tempo na gaveta dos assuntos pendentes da “Revolução de Abril”, protelando-se até à eventual chegada de representantes oficiais do Governo de Lisboa que trouxessem indicações claras sobre o que iria acontecer, facto que parece ter contribuído para fazer aumentar o “stress” local (Stress: – vocábulo novo com que a psiquiatria moderna elidiu o nervoso e a histeria antigas).

Isto tanto mais, que a “República Popular da China” (RPC), do mesmo modo, parecia não ter pressa em dar qualquer indicação das suas intenções sobre o futuro do território português (se não o tinha dado nos trezentos, ou quatrocentos anos anteriores que urgência teria em faze-lo agora?…). Mas nesse tempo a urgência de um sinal claro sentia-se profundamente não só entre portugueses, mas com igual intensidade entre chineses também.

Esse vazio de respostas a interrogações prementes levou o governador Nobre de Carvalho) a enviar a Lisboa o seu chefe de Gabinete (Lajes Ribeiro) que manteve um encontro com o “Ministro da Coordenação Interterritorial” (Almeida Santos), e trouxe boas notícias: – ” Vim de lá com uma certa tranquilidade porque senti que o Ministério estava a encarar o Governo de Macau com muito realismo, com muito pragmatismo e foi quando ele (Almeida Santos) anunciou que viria a Timor e a Macau“.

Mas a boa impressão trazida por Lajes Ribeiro, não parecia capaz de apaziguar receios. Por isso, quando é finalmente anunciada oficialmente a deslocação de Almeida Santos para tratar da descolonização extremo-oriental, a notícia é recebida com certo cepticismo, para não dizer, mesmo, pânico principalmente entre a população chinesa já que se registaram nessa altura corridas aos bancos e a toda poderosa “Associação Comercial” pareceu pela primeira vez titubeante.

Negócios eminentes e apalavrados foram desfeitos de um momento para o outro; projectos de investimento de grande envergadura congelados pelos seus promotores e até pequenos construtores civis deixaram a erecção de edifícios nas avenidas Novas (Horta e Costa e Ouvidor Arriaga) e também, na frontaria principal da Praia Grande a meio esperando que a situação se clarificasse.

A Pataca sem o aval do “Império Português” que patentemente se esboroava com a revolução poderia passar a valer zero e por isso o povo reagiu acorrendo às caixas bancárias para levantar as suas economias antes que fosse tarde.

O que é que iria dizer Almeida Santos quando chegasse? Ninguém sabia!…

Tentando desdramatizar a situação, o Governo Português esclarece que o termo “descolonização” contido no dossier do “Ministério da Coordenação Inter-territorial” se referia exclusivamente a Timor. Os esclarecimentos porém não produziram efeitos, nem imediatos nem seguros. Garcia Leandro, que acompanharia o Ministro no seu périplo oriental, refere mesmo ter encontrado em Macau “um grande receio. Era como se para a população local o 25 de Abril tivesse aberto uma grande porta para lá da qual era a mais completa escuridão“.

Garcia Leandro, oficial ligado ao “Movimento das Forças Armadas” (MFA) e desde o início vocacionado para os assuntos de Macau e Timor, manteve-se no Território algum tempo auscultando a população sobre o perfil do novo governador que deveria substituir Nobre de Carvalho sobre o qual,  Almeida Santos perante o “Teatro Diocesano” repleto, teceria “rasgados” elogios que terão calado fundo nalguns corações, mas não nos da maioria.

Pouco depois, Garcia Leandro regressaria a Portugal, apenas para voltar, mais tarde e dessa vez graduado em major a fim de ocupar o assento vago do Palácio da Praia Grande com a partida do velho general retirado.

Tanto para os democratas como para os conservadores, as notícias da eclosão do 25 de Abril de 1974 causaram generalizada satisfação.

Para os primeiros abria-se uma nova era de liberdade. Para os outros a possibilidade de conseguir a tão almejada autonomia ansiada desde os idos da revolução de 1822. No entanto, passada a euforia inicial, uma parte da população, incluindo a comunidade chinesa temeu (como disse antes) pelo futuro.

A descolonização tomava prioridade em todas as agendas do Portugal político e revolucionário e nenhuma indicação chegava que permitisse claramente depreender que Macau seria tratada de maneira diferente de Angola, Moçambique, Guiné, Timor, Cabo Verde, ou S. Tomé e Príncipe.

É neste contexto de reserva generalizada que o “Ministro da Coordenação Interterritorial” do primeiro Governo Provisório (Almeida Santos) efectua a referida deslocação ao Oriente.

Uma deslocação vista com ansiedade por Macau (como se disse antes), mas principalmente pela vizinha colónia inglesa de Hong Kong, onde o Governador Lord Crawford Murray MacLehose (preocupado) enviou insistentes telegramas a Almeida Santos para se encontrar com ele antes de embarcar no “hidrofoyl” (“hidrofoyls” eram os navios rápidos que antecederam os “jetfoils” ainda mais rápidos dos dias de hoje, que faziam a carreira entre Macau e Hong Kong e vice-versa) para Macau.

Almeida Santos encontrou-se de facto com o governador britânico antes de chegar a Macau e procurou descansa-lo, ainda que não se saiba se inteiramente o conseguiu.

Foi em razão dos receios crescentes que o “Foreign Office” fazia sentir que Almeida Santos, depois de ter estado em Timor entendeu ser indispensável, passar por Macau, ainda que aqui pensasse ir tratar de um problema menor e mais fácil de resolver do que o da Insulíndia. Mas não foi assim. Quando chegou constatou que as informações que possuía não seriam exactamente as que esperava: –

“Quando cheguei havia uma grande ansiedade de facto. A pataca tinha baixado de cotação e as pessoas estavam preocupadas. Qual vai ser o futuro de Macau? E eu pude fazer uma comunicação pública num teatro da cidade em que afirmei: Macau é uma jóia rara. É um caso especial, para nós não é uma colónia. Para Macau não se põe o problema de nenhum processo de descolonização. Isso aquietou os ânimos.

No dia seguinte a cidade era outra e eu fiquei muito feliz por ter contribuído para desfazer essa ansiedade”.

Nesse intróito (dramático, pode dizer-se), Nobre de Carvalho teria ainda ensejo de concluir da melhor maneira o seu atribulado mandato inaugurando em 5 de Outubro de 1974 (simbólico acto que coincidiu com a comemoração dos 64 anos da implantação da República Portuguesa) a nova e primeira ponte entre Macau e a Taipa que receberia o seu nome.

Cinco dias depois partia para Lisboa convencido de que Macau não viria a beneficiar muito com o 25 de Abril.

– “Viria a beneficiar sim, de uma maior representatividade dada à população nos órgãos do governo próprio do Território e nas autarquias. Isso impunha-se e principalmente aquilo que eu nunca tive, que era ter maior liberdade de acção, não estar piado como sempre estive em consequência das leis que então estavam em vigor, pelo Terreiro do Paço, digamos, por Lisboa”.

Uma opinião subscrita também por Garcia Leandro que sublinha: – “A primeira impressão com que fiquei foi que o território teria grandes possibilidades de desenvolvimento, estava numa área económica muito importante, mas devido ao sistema político que existia então se encontrava atrofiado“.

Depois da partida de Nobre de Carvalho, o inevitável processo de adaptação às novas condições levantou ainda mais a agitação. Uma agitação centrada quase exclusivamente na comunidade portuguesa civil e militar. Quanto à liderança da comunidade chinesa perante a “Revolução Cultural” rampante tinha muitas outras coisas políticas, financeiras e económicas, com que se preocupar.

Nos meses seguintes acentuaram-se clivagens e divergências, a polémica redobrou nos jornais e os comícios inflamaram-se mais ainda, culminando num período que registou algumas semelhanças, ainda que de escala bem diferente, com o que ficou conhecido em Portugal por “Verão Quente de 1975”.

Todavia, apesar das divergências de pontos de vista é hoje unânime que mais do que qualquer outro anseio, o 25 de Abril trouxe para Macau, acima de tudo, uma autonomia que tardava pelo menos desde que os liberais de 1822 tinham fracassado na sua tentativa de se eximir à obediência de Goa e governarem-se a si próprios quase duzentos anos antes.

A história repete-se e irá com certeza repetir-se. É pena que as gerações por vezes teimem em esquecer-se da história.

Macau 25 de Abril de 1974. Uma perspectiva e alguns testemunhos. 04-19-11

Em 1966 Macau tinha vivido o momento das maiores incertezas. A Revolução Cultural da China, provocara danos incalculáveis que se estenderam ao Território português onde os guardas do socialismo, operários e estudantes, já que em Macau não havia camponeses, a não ser os poucos que cultivavam hortas nas traseiras de suas casa nas ilhas da Taipa e Coloane e nos terrenos vagos do Bairro do Hipódromo (actualmente regurgitante de edifícios). Mas esses não se podiam classificar tecnicamente como tais e por lá ficaram sossegados nas suas hortas a regar hortaliças.

Os outros empunhando o “livrinho vermelho”  tinham tido a ousadia de invadir o palácio da Praia Grande, derrubando as vacilantes barragens policiais e obrigando o recém chegado governador Nobre de Carvalho, ignorante do que se passava  a ouvir  em indecifrável cantonense as palavras revolucionárias do “Livro Vermelho” de Mao Tsé-tung” recitadas pelos pequenos estudantes adolescentes da “Escola Hou Kong”, entre outras, no átrio do seu próprio gabinete, facto que para além de ofender a ordem pública, perturbava o normal despacho da burocracia do Estado que  teimava  em continuar apesar do “cataclismo” em curso.

Nobre de Carvalho, apesar de ter sido avisado do que se passava apenas à chegada a Hong Kong pelo seu homólogo britânico Sir David Clive Crosbie Trench, saiu-se bem  do caos político  oriental conseguindo, ao contrário de Vassalo e Silva (em Goa), salvar Macau de uma eventual (ainda que muitos considerem, ainda hoje, duvidosa) invasão e retomar o ritmo de crescimento económico que se prefigurava antes, mas que tinha sido brutalmente interrompido quando ainda mal dava os primeiros passos pela dita “Revolução Cultural”.

-“Nobre de Carvalho teve muito azar. Quando chegou a Macau apanhou com o “1, 2, 3”, sobre o qual sabia talvez menos do que eu e no fim do mandato apanhou com o 25 de Abril”, recorda o então director da “Rádio Macau” (“RM”), Alberto Alecrim um veterano da queda de Goa, onde conheceu o cativeiro como prisioneiro de guerra.

Mas se o Governador nada sabia da “Revolução Cultural” que conheceria do que se preparava em vésperas de 25 de Abril de 1974 em Portugal? Provavelmente saberia o mesmo, ou seja nada mais do que rumores sem importância pensaria o general?

Quando muito, o seu chefe de gabinete, Lajes Ribeiro, seria o mais avisado para os efeitos do que uma guerra colonial, que se prolongava há anos consecutivos, provocava nas fileiras militares, cada vez mais desmoralizadas. Isto a avaliar pelos contactos que Lajes Ribeiro tinha mantido pouco antes na Metrópole durante um dos seus cursos de promoção com oficiais que participariam activamente na revolta de Abril, nomeadamente com o major Ramalho Eanes (seu contemporâneo). A mobilização para Macau (e regresso já que antes tinha aqui cumprido comissão de serviço anterior) afastou-o, porém, dos labirintos da conspiração impedindo-o de seguir os acontecimentos que se desenvolviam em movimento acelerado na “Metrópole” nos anos de estertor do “Estado Novo”.

Quanto à generalidade da população de Macau mantinha-se alheia já que as notícias de Portugal chegavam previamente censuradas de Lisboa aos jornais e à “RM” e as notícias trazidas pelas cartas do correio, ou por um ou outro qualquer novo oficial, ou funcionário público, que chegava não eram nem suficientemente claras nem consistentes para serem, consideradas como mais do que anedotas, boatos e opiniões pessoais.

Tudo isso provocava, naturalmente, discussão (em voz baixa, é claro) no “Clube Militar”, “Restaurante Solmar” (centro da “má-língua” e dos diz-se que se diz), algumas conversas no “Clube de Macau” (local onde tudo interessava menos isso) e nas tertúlias em casa de cada uma.

O ”Universo” local não passava disso mesmo; – Tertúlia conspirativa eventualmente sem consequências de maior que se manifestava sem consequências há décadas e décadas. Dizer mal do Governador e da República era, pode dizer-se, desde sempre uma exercício cultural interessante mas politicamente inconsequente. Macau estava muito longe das “tricas” políticas do outro lado do Mundo, ou seja de Lisboa. O que interessava de facto eram os desenvolvimentos da China.

A tentativa fracassada de sublevação do regimento de infantaria 5 das Caldas da Rainha de 16 de Março de 1974, também não esclareceu ninguém já que, mais uma vez, os três jornais de Macau (“Gazeta”, “Notícias” e “Clarim”) recebiam apenas para publicação inócuos telexes do regime através da “Agência ANI” (antecessora da “ANOP” e da actual “Lusa”) informando que “a situação estava calma em todo o país” e nada mais.

Esses telegramas eram tão parcos que nem sequer referiam que tinha havido uma sublevação militar ainda que frustrada na Metrópole (?…). Na prática não diziam nada a não ser que Portugal do Minho a Timor continuava a vogar no “melhor dos mundos”…

Por seu turno o serviço mundial da “BBC” e amplamente escutado em Macau pouco mais acrescentava.

No entanto: – “que o ambiente andava tenso em Portugal todos sabíamos, mas ninguém esperava uma acção tão súbita das forças militares. E que a insatisfação no país e a guerra em África tinham de ter um desfecho, também se sabia”, escreve nas suas memórias” Graciete Batalha, professora do ensino secundário interventora na vida social e política local, membro do então chamado “Conselho Legislativo” e acérrima defensa do princípios mais conservadores do “Estado Novo”.

Apesar da sensação de que algo ia mal na Metrópole certo é que esse sentimento partilhado esteve longe de constituir óbice à reunião solene da sessão legislativa (no rés-do-chão do Palácio da Praia Grande) para ouvir um longo discurso do governador Nobre de Carvalho, no qual figuravam as grandes linhas de acção governativa para o ano seguinte, com destaque para os benefícios evidentes que a eminente conclusão da ponte entre Macau e a Taipa trariam ao Território (e que de facto truxeram, ainda que fosse pouco e parco, mesmo nesse tempo). Principalmente numa altura em que Macau se debatia com a escassez de abastecimento de água e electricidade por falta de meios de pagamento).

Terminado o discurso foi a vez do deputado Henrique de Senna Fernandes, agradecer protocolarmente a presença e os esclarecimentos do Governador. Depois disso e também de acordo com os costumes, o “Conselho” elaborou o habitual telegrama de apoio ao regime e à sua política ultramarina (que elaborava todos os anos numa burocracia antiga).

– “Fui até eu que redigi o telegrama, que seguiu para Lisboa e que chegou à capital precisamente no dia 25 de Abril”, lembra Henrique de Senna Fernandes, que acrescenta:- ” Fi-lo com convicção, porque nós ultramarinos gozávamos de uma situação privilegiada no antigo regime. Sentíamo-nos garantidos com essa política”.

Mais de 20 anos depois, Senna Fernandes (entrevista que me concedeu para um documentário sobre a passagem dos 15 anos do 25 de Abril em Macau para a “TDM”) recordou com humor a situação então vivida, ainda que na altura a chegada das notícias da revolução estivessem longe de lhe ser agradáveis.

– “Cerca das três e tal, da tarde do dia 25 de Abril fui para o meu escritório, quando recebo um telefonema do Pedrinho Lobo que me diz: – Tu estas “lixado”! Acabaste de fazer o discurso de apoio ao regime e o regime caiu! Exclamou o Pedrinho. Cinco minutos depois telefona-me meu pai a dizer também que Marcelo Caetano e Américo Tomas tinham ido ao ar. Claro que já não trabalhei mais nesse dia. Eram notícias impossíveis para nós que tínhamos sido criados no regime. Como era possível?”.

Durante todo esse dia, Alberto Alecrim continuou a manter no ar a programação normal da “RM” sem que os telexes das agências “Reuters” e “France Press”, recentemente instalados nos estúdios da “emissora” mostrassem nada que merecesse particular destaque para inserir no boletim noticioso seguinte, a não ser um desastre de Comboio na Índia, uns mortos em combate na guerra do ditador Marcos das Filipinas contra os comunistas em Manila e arredores e os últimos avanços do Vietname recém unificado (em Janeiro do ano anterior) sobre os países vizinhos. De resto mais nada de relevante para o mundo e muito menos para Macau.

Só à noite Alecrim soube da revolução e não através dos telexes, mas sim graças a um convidado para o seu programa. O visitante era Rui de Mascarenhas, um dos maiores expoentes do que era conhecido então como “nacional cançonetismo” que tinha combinado entrevista com Alecrim para essa noite antes de actuar no Hotel Lisboa (como é que Rui de Mascarenhas soube? Alecrim não explica. Qualquer dia hei-de lhe perguntar porquê…).

“Ficamos logo a recolher toda a informação disponível nos telexes e nas rádios estrangeiras, que levei depois ao “Portas do Sol” (famoso restaurante do Hotel Lisboa) onde estava o senhor major Lajes Ribeiro a jantar (era o “Abril em Portugal” que se comemorava todos os anos) e ao qual entreguei o que tinha podido colher”.

Mas Lajes Ribeiro já sabia.

–  “A notícia chegou-me por um telefonema do posto de rádio da polícia o qual recebia a “Press” (“Press” eram os chamados “SITREPES”, espécie  de relatórios de conjuntura distribuídos diariamente pelo “Estado Maior das Forças Armadas” para todas as unidades militares de Portugal e do Ultramar) que me deu conhecimento de que tinha acontecido o movimento e sido feita aquela declaração inicial que eu recebi passado algum tempo e tive ocasião de dar a notícia ao major Rocha Vieira (Chefe de Estado Maior da Guarnição de Macau). Foi com muita alegria, porque todos nós, ou pelo menos muitos de nós ansiavam que a solução viesse”.

Independentemente das suas próprias convicções, também o seu chefe Nobre de Carvalho confirmaria, em entrevista à “TDM”, onze anos depois dos acontecimentos, que “o 25 de Abril foi recebido bem por todos os portugueses e chineses. Os chineses, evidentemente, tendo uma ignorância grande sobre o que se estava passando embora eu tivesse tido ocasião de no “Conselho Legislativo”, com as notícias que recebia de Lisboa os pôr ao corrente do que se passava.”

No entanto, Macau (comunidade portuguesa e chinesa) recebia com cautela as novas informações que iam chegando, estando longe de registar (como seria de esperar, aliás) as esfusiantes cenas de entusiasmo das ruas de Lisboa.

– “Aqueles factos mais emblemáticos do 25 de Abril, não tinham possibilidade de concretização em Macau. Em Portugal, foram abertas as prisões e soltos os presos políticos, mas em Macau não tínhamos presos políticos. Foi o encerramento da PIDE/DGS, até com cenas de algum dramatismo. Mas, Macau era o único ponto do território português que não tinha PIDE/DGS (sublinha Lajes ribeiro). Se alguns vivas se pronunciaram, ou garrafas de champanhe se abriram em honra da revolução não foi nas ruas mas tão-somente na discrição disciplinada de alguns quartéis ou na intimidade das casas dos democratas”.

A este propósito diga-se que se efectivamente em Macau, formalmente, não havia PIDE/DGS (como a RPC tinha imposto anos antes, ao que se diz). De facto esta funcionava efectivamente sob cobertura de subsecções nas polícias Judiciária e de Segurança Pública.

O primeiro sinal verdadeiro de entusiasmo e rebeldia que se coadunava perfeitamente com o espírito da revolução veio não em forma de manifestação, de rua, mas através de um soneto à liberdade do então poeta proscrito Manuel Alegre, declamado de forma arrebatada em plena sessão do Conselho de Governo.

Quem o fez foi o jovem deputado José Celestino Maneiras, um arquitecto formado no Porto, que ali se tinha ligado aos círculos estudantis da oposição. Homem de esquerda que sempre manteve as suas convicções. Um acto inesperado de um jovem renovador que deixou estupefactos os seus colegas. Mas a atitude desse deputado ainda que de uma forma anti-regimental limitava-se, na prática, a declarar oficialmente, em nome de todos, autorizada a liberdade no território português da China. Isto ainda que o carimbo da censura perdurasse por mais de um mês em Macau depois da revolução de Abril.

O Conselho de Governo e o próprio Governador ficaram estupefactos, tanto mais que em Macau o autor de “A Praça da Canção” e de “O Canto e as Armas”, por não constar dos manuais do liceu era absolutamente desconhecido de quase todos, embora o não fosse há muito tempo dos círculos da oposição “portuguesa continental insular e ultramarina”. Manuel Alegre e Zeca Afonso já eram há muito os trovadores da liberdade em Portugal.

Mas a Macau nunca tinha chegado até então a voz grave e séria de Manuel Alegre que falava contra o regime nas ondas curtas desde Argel (Argélia) através da “Rádio Portugal Livre”. Enfim! Uma surpresa para Macau habituada no liceu a ouvir apenas as rimas de Camões, António Lopes Vieira e quejandos que constavam da selecta literária que Graciete Batalha ensinava no liceu e que via com maus olhos (supõe-se) a “Primavera Marcelista que já admitia outros trovadores mais hodiernos.

O caso ocorria em vésperas da fundação da primeira associação cívica local (concomitantemente com a restauração dos partidos políticos em Portugal) o “Centro Democrático de Macau” (CDM) agrupamento de democratas de diversas tendências formado com vista a contribuir para a liberalização política do Território.

Até ali a timidez continuava imperar, ainda que no dia 29 de Abril, os deputados (que então ainda não possuíam essa designação) tivessem concordado em obliterar o telegrama de Senna Fernandes enviado alguns dias antes e a insistências (diz-se)  do Governador reformular o dito decidindo-se por nova fórmula do mesmo texto, ou quase, reenviando desta vez com novo endereço e esse era não já o Palácio de S. Bento, mas o da Cova da Moura onde o General Spínola liderava a “Junta de Salvação Nacional” novo telegrama. Este, agora, transmitia incondicional apoio de Macau à nova liderança Nacional Revolucionária.

Para além de uma deputada (a inevitável Graciete Batalha), que se recusou a aprovar o teor do novo texto (como seria de esperar), ninguém mais pareceu registar qualquer contradição no facto.

O governador Nobre de Carvalho, acabava de anunciar ter sido confirmado no cargo pelo novo poder de Lisboa, o que parecia bom sinal, levando a generalidade dos deputados a acreditar nas boas intenções dos elementos da “Junta de Salvação Nacional”, entre os quais se contava o general Jaime Silvério Marques que governara Macau (1959/62) onde deixou numerosos amigos e saudades (ainda que também inimigos como é natural nestas coisas da política) e ao qual foi enviada igualmente uma mensagem especial de regozijo por constar na primeira fila da Revolução de 25 de Abril de 1974.

No “entrementes”, como se diria nas telenovelas brasileiras, Macau inteiro ficava na expectativa sobre o que iria acontecer a seguir.

E o que se seguiria não seria fácil para ninguém.

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