Macau, uma ficção jurídica?

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Publiquei este artigo no número 57 da “Revista Vértice” de Novembro-Dezembro de 1993.

 

Para a grande maioria dos portugueses, Macau existe apenas como uma ideia imprecisa, um conceito que pouco ou nada tem a ver com as antigas colónias. Para uns, trata-se de mais um (embora pequeno) capítulo da geografia ultramarina que nos obrigavam a aprender na escola: território constituído por uma península e duas ilhas (uma das quais com o curioso nome de “Taipa”) e cuja indústria principal era o fogo de artifício. Para outros, Macau confunde-se um pouco com todo o Oriente mítico e místico, repleto de budismo e fumos de incenso, ópio, imagens de juncos diáfanos de velas de cana, a vogar contra um fundo brumoso… e outros estereotipos que, mais do que os escritores, talvez apenas Hergé tenha dado corpo plenamente em «Tin-Tin e O Lótus Azul». Para outros ainda, (porventura) mais literatos, Macau será a pátria do simbolismo, onde Camilo Pessanha inventou poemas demasiado  musicais para a sensibilidade romântica e excessivamente prolixos para o gosto neo-realista.

Mas, de todos os conceitos, um (o de um estrangeiro) parece ser a o mais adequado para definir a última colónia(?) portuguesa, paradoxalmente a mais longínqua de todas aonde os portugueses chegaram no tempo das Descobertas: “Macau, uma ficção jurídica” (1).

De facto, desde sempre Macau parece não ter passado de “ficção jurídica”, já que todos os dados históricos, quando compulsados, apontam para o facto de o território português do Sul da China ter sido ocupado um pouco à revelia dos interesses e das vontades do poder central de Lisboa. Isto, tanto quanto é possível extrair dos livros – e intenções – de Afonso de Albuquerque (o estratega e pioneiro da expansão Oriental) que considerava Malaca o último entreposto que Portugal precisava de conquistar. Contra as intenções realístico-políticas de Albuquerque surgiram, no entanto, meia dúzia de transfugas, seduzidos pela aventura ou, talvez apenas, pela ganância.

Um destes (provavelmente o mais famoso) foi Fernão Mendes Pinto, que se aventurou até ao longínquo Japão onde, dizem, introduziu a espingarda, pelo que, ainda hoje, é celebrado no Império do Sol Nascente como herói e percursor.

Outro, foi um comerciante vulgar (provavelmente semi-analfabeto), de seu nome Jorge Álvares. Embora referido en passant na história de Portugal, foi ele, nos idos de quinhentos, o primeiro a arribar a bordo de um junco (e não ao comando de uma caravela, como os cânones mandariam) às costas do Sul da China. Pela sua aventura, teve direito a ser perpetuado em Macau em estátua de granito, não logrando porém obter o estatuto de Cabral, Cão, ou Perestrelo e muito menos de Gama.

Mas pior sorte teve Tomé Pires, um boticário de Leiria, transformado à pressa em embaixador que, à custa da própria vida, tentou abrir para Portugal as portas da China. Contudo, mais não conseguiu que morrer em Cantão, sem que a história lhe concedesse nem um cantinho da lembrança universal nem, sequer, o direito a uma estátua.

Macau cresceu tambem à revelia da vontade institucional da China, que sempre viu com olhos desconfiados a chegada dos estrangeiros a quem chamava “diabos do Mar Ocidental”, epíteto que ficou até aos nossos dias. Porém, batalhas navais (ainda hoje mal provadas) contra piratas que assediavam a costa de Cantão e em que os portugueses teriam desempenhado papel de relevo, parecem ter servido de pretexto aos mandarins, nesses longínquos tempos, para fechar os olhos aos decretos imperiais que proibiam o contacto com o exterior, deixando assim que os “diabos” se fixassem em meia dúzia de cabanas de palha, que rapidamente se transformariam em exemplares monumentos de alvenaria da arquitectura colonial portuguesa. (Aqui, acresce dizer que a prata do Japão era artigo cobiçado na China, e que a seda chinesa era, por seu turno, disputada no Império do Sol Nascente; por isso, nada melhor que deixar que os portugueses se encarregassem de manter o fluxo comercial entre os dois colossos inimigos, que continuariam de costas voltadas por alguns séculos mais.)

Tudo o que ficou dito, serve apenas para ilustrar o verdadeiro estatuto de Macau: um pequeno ponto geográfico perdido nos confins do Oriente que, ao longo de mais de quatrocentos anos, sobreviveu, pode dizer-se, à sua própria custa, longe e à revelia da vontade d’El Rei. E certo é que, apesar de grandes vontades e estratégias reais, a história faz-se mercê da firmeza (ou da loucura) de pequenos caudilhos, como aquele capitão de artelharia de Borodino que Tolstoi descreve em «Guerra e Paz».

E foi, também, assim que se fez Macau, contra os tufões da China e os ventos da história Ocidental. Produto de uma aventura enjeitada (nem ao menos se sabe a data precisa em que nasceu a cidade), Macau foi, logo após a sua fundação, obscuro local de passagem de quantos heróis nacionais se conhecem.

Senão, vejamos: Camões, para além de ter estado na distante colónia, aí teria desempenhado o cargo de Provedor dos Defuntos e Ausentes. Este o pressuposto que, nos nossos dias, ainda carece de prova cabal. De concreto, sabe-se apenas que a gruta que hoje alberga o seu busto se situa em local a que documentos coevos atribuiem o nome de “Penedos de Camões”, que se diz igualmente ter dado origem à antiga lenda chinesa, segundo a qual um homem aí passava tardes, sozinho, escrevendo e dando de comer às pombas. Os chineses, apesar de pouco cuidarem da história portuguesa local, compreendem no entanto os poetas. Assim, através dos tempos acabariam por esquecer o nome daquele que alimentava os pássaros, retendo somente a romântica evocação do acto, preservada no nome por que ainda hoje designam a Praça Luís de Camões, em Macau: “Pá’ Kap Tchau”, ou Sítio das Pombas Brancas.

Um século e pico mais tarde, outro herói obscuro das letras nacionais passaria por Macau, tão fugazmente como Fernão Mendes Pinto (desconhecendo-se ainda que motivos o teriam movido a viajar para os tão distantes confins do Império português): Barbosa Bocage. Indigente e perseguido como o seu antecessor, ali, nos Penedos de Camões, compôs laudatórios sonetos a tudo quanto era figura grada da terra, “ganhando por isso o seu sustento”, como no tempo diziam.

Para a história que interessa, sobre Bocage ficou tão somente o seu nascimento sadino, os tratos de polé às mãos da Inquisição, o café Nicola (que, por coincidência, é hoje propriedade de uma macaense), as desditas da Índia… e as anedotas. Quanto à sua relação com Macau, esta é apenas mencionada num ou dois parágrafos da sua biografia e, mesmo assim insolitamente, por ter sido um modesto juíz a pagar-lhe a passagem de regresso à Europa, a bordo de um brigue. Pelo facto, dedicou-lhe o poeta mais algumas das suas gongóricas rimas que alcandoraram o benfeitor ao Olímpo, porventura a única elevação à altura do custo da passagem…

Mas, depois de Bocage, muitos outros vieram e se foram. Quantos saberão, por exemplo, que António Sérgio (essa figura mítica da oposição a Salazar) esteve, e escreveu, sobre Macau? Suponho tratar-se este de um segredo bem guardado, a que só outro, talvez ainda mais restrito, se sobreporá: o facto do pai de António Sérgio – António Sérgio de Sousa – ter sido governador da colónia (governador menor, diga-se, já que não teve direito a figurar, nessa capacidade, no dicionário Lello Universal, essa nossa lusa imitação do Larousse…).

Carlos da Maia, um dos fundadores da República, conduziu os destinos de Macau durante vários anos e em tempos de difícil conjuntura internacional, enquanto Camilo Pessanha, na sua casa avarandada que dava para a praia, a pouco mais de quinhentos metros do Palácio do Governo de Macau, se evolava em sonhos de ópio e, como Bocage e Camões, também compunha versos.

Isto, no preciso momento em que Venceslau de Morais (que, ao que se sabe, não era opiómano…), furioso por não ter sido nomeado Capitão dos Portos, declarava o seu ódio à cidade demitindo-se da Marinha e exilando-se em Kobe, no Japão. Em Macau, deixaria apenas testemunhos literários, em forma de ofício, nos arquivos da Capitania e filhos bastardos.

Todos estes ilustres personagens que perpassaram pelas suas calçadas portuguesas e bazares chineses, constituíam já para Macau, no dealbar do século XX, um palmarés invejável (afinal, Angola, até aquela data pouco mais tinha tido do que a sonante presença do Zé do Telhado).

No entanto, o desfile das letras nacionais prosseguiria, sempre renovado, pelos anos vindouros.

Joaquim Paço D’ Arcos (o escritor do regime, como era chamado no tempo de Salazar), dava os primeiros passos na vida e na literatura nessa colónia portuguesa do Oriente, mais ou menos por alturas em que Gomes da Costa, o fundador do Estado Novo, aprendia o ABC no seminário de S.José, instituição de letras que descendia da primeira universidade Ocidental em toda a Ásia, erguida em Macau no século XVII. (Aqui, interrogo-me sobre a contribuição dos padres do seminário na formação ideológica do futuro Marechal, e em que medida ela terá influído no próprio Movimento do 28 de Maio, pois, que me conste, nada há publicado sobre a matéria).

 

Tenacidade diletante da inteligência nacional

 

Entretanto, e do que atrás fica dito, poderá apenas concluir-se que, enquanto as outras colónias portuguesas eram pasto da cobiça nacional e internacional por via das suas exaltadas riquezas, a minúscula Macau sobrevivia mercê da tenacidade diletante da inteligência nacional, transfigurada em funcionários públicos ultramarinos, oficiais da Marinha e do Exército em comissão de serviço e burocratas locais, que teimavam em manter viva uma cidade improvável que, passada que foi a fabulosa, mas fugaz, era da prata do Japão e das sedas de quinhentos, só conheceu, de forma perene, a crise económica, facto que, desde sempre, espantou os cronistas estrangeiros que demandavam tais portos.

Assim é que, ainda hoje, os pragmáticos ingleses se interrogam como é que Portugal, sem exército nem força nem inluência política, teve a ousadia de se estabelecer – e permanecer – tão longe, em território que nunca poderia albergar heróis como Mouzinho (já que nada havia a pacificar) ou Serpa Pinto (tendo em conta a própria exiguidade geográfica que, à partida, invalidava quaisquer valorosas expedições – Macau, no seu maior comprimento mede apenas quatro quilómetros)…

Os ingleses, esses sim, possuíam forças navais e faziam juz à sua condição de superpotência, arrebatando para si Hong Kong (a menos de cem quilómetros do território português) a tiros de canhão, em 1841, e em poucas dezenas de anos ali estabelecendo um impório económico internacional, que obliterou Macau como porta exclusiva de entrada e saída para a China.

Nesses anos iniciais, apenas um pintor irlandês de nome George Chinnery (perseguido por credores desde Dublin a Bombaim) se recusou a acompanhar os opulentos negociantes britânicos no seu êxodo para a sede da nova riqueza que nascia em Hong Kong, preferindo morrer em Macau. Chinnery sabia que, apesar de tudo, a cidadezinha portuguesa não morreria com ele.

Desde o início da decadência da cidade – que, simbolicamente, coincidiu com a Restauração da Independência em 1640 – Macau mergulhou na crise, à qual subsistia ano após ano, pode dizer-se, no fio da navalha. Vezes incontáveis a cidade foi isolada, privada de abastecimentos e comunicações, na eminência de se ver varrida do mapa. No entanto, a História sempre encontrou uma forma de salvar o Território. Umas vezes, para tanto bastava o golpe de génio de um qualquer diplomata improvisado que encontrava a fórmula exacta de aplacar as iras do Vice-Rei de Cantão; outras, por via de uma das várias revoluções que, amiúde, rebentavam na China, transformando Macau em cidade-asilo de milhares de refugiados que, regressados às suas cidades no País do Meio mal passava a tormenta, não esqueciam a pequena urbe que lhes dera abrigo. O próprio Sun Yat-sen, primeiro Presidente da República chinesa foi um desses refugiados da colónia portuguesa, para onde fugiu para se salvar da decapitação certa às mãos dos torcionários do imperador, em 1895, nunca se tendo esquecido dos amigos que o albergaram e da conivência das autoridades locais, graças à qual pôde escapar dos seus carrascos.

Uma ou duas vezes na sua história, Macau salvou-se pela intervenção das potências coloniais que, para não perderem Hong Kong ou Xangai, se viam na necessidade de defender o bastião português, ainda que relutantemente . Em todos os casos, porém (e ao contrário das outras colónias nacionais e estrangeiras) nunca a força das armas foi decisiva para manter a permanência portuguesa nas paragens da China. Aliás, na história das crises mais recentes, fica bem expresso no anedotário local a sobreposição do diálogo ao factor militar. Durante a II Guerra Mundial, os japoneses ocuparam toda a China – incluindo Hong Kong – poupando apenas a pequena Macau, porque pertencia a uma neutral Lisboa. No entanto, um comando militar japonês instalou-se na cidade e um anel de ferro estabeleceu-se à sua volta, asfixiando-a. Os dois ou três mil soldados da guarnição local pouco mais podiam fazer do que assumir que nada de anormal se passava, cumprindo as rotinas de tempo de paz, enquanto à volta se ouvia o deflagrar dos obuses e os tiros das metralhadoras e, na cidade que crescia num ápice (de cem mil para mais de um milhão de habitantes) a peste, a fome e a guerra faziam lembrar os tempos mediavais. Neste contexto, por mais de uma vez, pequenos incidentes urbanos envolvendo militares japoneses estiveram à beira de constituir os pretextos desejados pelo alto comando nipónico para bombardear e invadir o Território, à semelhança de Timor. Mas a cidade tinha uma arma secreta : chamava-se Pedro José Lobo. Originário, precisamente, de Timor, funcionário público, folgazão e compositor nas horas vagas era, para além de Chefe dos Serviços de Economia, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros a quem o governador recorria, graças aos seus múltiplos contactos que o faziam amigo de toda a gente – incluindo dos japoneses.

Nas alturas de crise, essa figura que hoje tem mais de mito (como Camões) que de realidade, descia à cave de sua casa, armava-se de algumas garrafas de Vinho do Porto de colheita especial, dirigia-se ao alto comando Imperial do outro lado da fronteira e, entre dois fados que acompanhava à viola, e alguns cálices de boa cêpa do Douro, acabava por convencer o general japonês de que teria muito mais a ganhar em poupar obuses, do que arriscar-se a destruir uma tal adega. Estas surtidas de Pedro Lobo  revelaram-se sempre coroadas de êxito até ao fim da guerra, preservando Macau (ao contrário de Timor que, se tivesse tido um filho assim, teria talvez sido poupada à ocupação nipónica e ao sacrifício de D. Aleixo).

Os louros da sagaz neutralidade de Macau, sabiamente mantida, foram, claro, direitinhos para a política externa de Salazar, eximindo o pequeno Pedro Lobo da ribalta da história. E como não havia nenhum Tolstoi para retirar os créditos ao marechal Kotuzov e dá-los a um qualquer capitão de artilharia, à semelhança do romance, o Chefe dos Serviços de Economia perdeu-se no anonimato nacional, por falta de cronista à altura.

Depois da hecatombe mundial, o curso dos acontecimentos rapidamente se alterou: Mao Tsé-tung libertou a China das férreas correntes do seu passado feudal e, mais uma vez, Macau se transformou em azilo dos vencidos de nova convulsão. No entanto, Lin Piao, com o seu Oitavo Exército de Campanha, que erradicou o Sul da China dos nacionalistas, parou junto às Portas do Cerco… O País do Meio continuava a respeitar o território português, apesar da liminar recusa de Salazar em reconhecer o novo regime de Pequim. No entanto, na sequência da primeira visita a Macau de um Ministro do Ultramar e do seu discurso proferido no Leal Senado, em que garantiu que o Território permaneceria como sempre foi, incidentes fronteiriços estalaram (1952), resultando do tiroteio a morte de dois ou três soldados africanos portugueses (landins de Moçambique) e de uma dezena de chineses. Só Pedro Lobo (ainda ele…) conseguiu aplacar a ira vermelha: afinal, que significavam tais baixas num exército constituído por milhões? (A China apenas pretendia demonstrar que o futuro de Macau não dependia de um discurso de qualquer ministro, mas tão somente exclusiva vontade). No final (e de novo) Pedro Lobo acabou por levar a melhor – embora os seus nóveis interlocutores não soubessem o que era o vinho do Porto.

Lisboa pediu desculpas públicas pelo incidente (apesar de a censura nada tivesse deixado transpirar em Portugal) e a história seguiu em frente, transformando Macau no principal ponto de apoio à entrada de tecnologia militar de ponta para as forças militares da Coreia do Norte, apoiadas pela China e conduzidas por Kim Il Sung, na sua guerra contra os “fascistas” do Sul da península e os seus aliados americanos.

No Palácio da Praia Grande, o governador, Almirante Marques Esparteiro, fiel de Salazar, preferia ignorar tudo, incluindo o bloqueio internacional da ONU a Pequim. Entretanto, parece ter sido neste ponto da história (1953) que a China de Mao Tsé-tung se apercebeu da verdadeira importância de Macau como porta discreta de contacto com os inimigos, com os quais não convinha manter, a nível formal, qualquer espécie de laços (repetindo-se, assim, o contexto histórico do século XVI, no que às relações entre chineses e japoneses diz respeito). Daí, talvez, também a razão de Pequim em entender não ser ainda azado o momento de reivindicar Macau para a sua soberania, como algumas décadas antes os nacionalistas de Chiang Kai-chek tinham tentado fazer.

Macau sossegou, então, mais de uma década até que, em 1966, a “Revolução Cultural” tomou conta do país.

 

A Revolução Cultural

 

Para a mentalidade ocidental, a “Revolução Cultural” era apenas um desenvolvimento da “teoria maldita” de Trostsky sobre a Revolução Contínua, mas, para a China, tratava-se de algo muito diferente, que se consubstanciaria (provavelmente, e em parte) nas teorias daquele revolucionário bolchevista de 1917, crente no papel exclusivo da classe operária, só que aplicada a um país de camponeses (o que Estaline nunca aceitou e que terá, talvez, gerado o desfecho final. de confusão…)

Macau viu-se, pois, envolvida, em finais de 1966, na convulsão universal.

Foi nesta conjuntura caótica – um governo colonial defendido por escassas forças militares e policiais, confrontado por uma população hostil de milhares e milhares, aguerrida e vociferante – que o novo governador do Território, o brigadeiro Nobre de Carvalho, chegou a Macau, sem ter sido prevenido do que se passava. Só à sua chegada a Hong Kong é que viria a ser informado da situação que o aguardava, e porque o governador da vizinha colónia britânica lhe perguntou quais as ordens que trazia do governo de Lisboa para tentar solucionar o conflito… Nobre de Carvalho, colhido de surpresa, confessou não ter trazido ordens nenhumas, por ignorar o que se passava…

Mal chegado ao território que iria governar, o brigadeiro ficou remetido ao seu gabinete do Palácio da Praia Grande frente ao qual, durante dias seguidos, turnos de guardas vermelhos das escolas chinesas da colónia se revezavam, empunhando o livro vermelho e recitando pensamentos de Mao Tsé-tung, enquanto nas ruas as manifestações se sucediam. A situação agravou-se, entretanto, com a declaração da lei marcial e a saída das tropas para a rua, saldando-se os confrontos na morte de oito pessoas. Nessa altura, como afirma o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, a China poderia ter-se apoderado de Macau «nalgumas horas, quase sem disparar um tiro».

Mas não o fez. Preferiu que Portugal pedisse de novo desculpas públicas, indemnizasse as famílias das vítimas e expulssasse as organizações nacionalistas de Taipé, para além de outras imposições menores – ou apenas simbólicas, como foi a de retirar os cassetetes à polícia local. Com isto os colonialistas perdiam a face (forma muito oriental de humilhação) e Pequim não era obrigada a chegar às últimas consequências, que significariam a ocupação final.

Entretanto, em Lisboa e tal como em 1952, a censura encarregou-se de fazer com que a capitulação portuguesa na colónia não fosse conhecida no país. De facto, para Salazar, já bastava a perda de Goa e o irritante bom senso do general Vassalo e Silva…

Depois de 1966, nada voltaria a ser como dantes. A revolução comunista passou a ser comemorada com mais pompa e circunstância em Macau, requerendo a partir de então a presença do governador (que fazia brindes à prosperidade da nova pátria do socialismo), enquanto a data do Duplo Dez (revolução republicana de 10/10 de 1911, cara aos nacionalistas de Chiang Kai-chek) deixava de constar do calendário oficial e de contar com a presença do governador.

As autoridades da RPC (República Popular da China), através de uma companhia comercial estatal (a Nam Kwong), passaram a constituir-se como consultoras obrigatórias em todas as decisões importantes que o governador pretendesse tomar, enquanto a bandeira de listas azuis e brancas com o sol, dos nacionalistas, era substituída pela vermelha, vogando a par da das quinas, e sendo ambas hasteadas aos domingos nos departamentos públicos (há quem diga que Macau teve, então, e com oito anos de antecedência, o seu 25 de Abril).

Para a RPC, a questão de Macau ficava definitivamente arrumada em finais de 1966. A sua soberania tornava-se, desde aí, inegável, sendo apenas uma questão de tempo o encontrar o momento azado para reaver a administração do que era já, na realidade, uma ex-colónia portuguesa. Mas, para isso, não havia pressa. O aluguer dos Novos Territórios de Hong Kong, pela Grã Bretanha, terminava em 1997. Uns anos antes, civilizadamente como conviria a um país da ONU, a RPC poria o problema a Londres e, por arrastamento inevitável, a Lisboa. Daí não ser de estranhar que, na sequência do 25 de Abril, Pequim decidisse fazer orelhas moucas à generosidade da nascente democracia portuguesa, recusando amavelmente a devolução de Macau. Não porque não a quizesse, mas, simplesmente, porque ainda não tinha chegado a altura.

Entretanto, Macau libertou-se subitamente das peias de uma legislação colonial que a asfixiava. Afinal, tinha eclodido em Portugal a primeira revolução que não pretendia manter impérios coloniais, nem centralizar poderes no Terreiro do Paço. Logo que tal orientação se tornou sensível, as forças económicas actuaram, inciando rapidamente um processo de desenvolvimento sem paralelo, apoiado na acção transformadora da legislação colonial implementada pelo governador Garcia Leandro, jovem major nomeado para o efeito pelos capitães de Abril.

Com a chegada do governador Almeida e Costa (1981), processou-se a segunda fase do salto para o futuro, baseado na instalação de infraestruturas modernas, capazes de tornar Macau uma cidade viável, que não baseasse a razão da sua existência apenas no jogo, cujo monopólio foi concedido, desde os idos de 70, a uma sociedade anónima de que Stanley Ho, o conhecido milionário chinês, constituiu desde sempre o cabeça de cartaz.

Contra ventos e marés, o contra-almirante na reserva conseguiu pôr em prática os seus planos, e Macau transformou-se, deixando de ser, em dois ou três anos, o território sonolento e estagnado que o filósofo social Bernard Henry-Levy descreve no seu livro «Impression D’ Asie».

Mas Almeida e Costa foi o último governador colonial de Macau. Na sequência da eleição de Mário Soares para a chefia do estado, Portugal assinava, em 1987, uma declaração conjunta com a China, que mudaria por inteiro as perspectivas de futuro.

De um momento para o outro, uma população de cerca de meio milhão de pessoas apercebeu-se de que a fórmula política de Deng Xiao-ping “um país, dois sistemas“, não era apenas uma frase retórica como as que tinham servido a China durante mais de 20 anos, e sim um conceito que iria mexer com a vida de todos. Para a maioria chinesa (visceralmente avessa à revolução de 1949, mas essencialmente pragmática) o conceito passava a ter uma importância crucial, tornando-se imprescindível que a fórmula vingasse, na prática. Para tanto, era necessário que os “compatriotas ultramarinos” (designação dada oficialmente aos chineses que vivem em Macau, Hong Kong e noutras comunidades estrangeiras que não estejam a soldo de Taipé) mostrassem que o seu capitalismo podia contribuir para o desenvolvimento do povo Han.

Para os chamados macaenses (uma comunidade resultante do cruzamento de portugueses, chineses, malaios e indianos, quase todos funcionários públicos) não havia, contudo, ilusões: não se tratava do fim de uma era, mas sim do fim do Mundo. Tendo cultivado durante séculos um portuguesismo por vezes exacerbado, chegara o doloroso momento de optarem por Portugal, pátria que muitos nunca viram. Isto, somente porque a China, ignorando-os, apenas admitia a existência de chineses e portugueses, em Macau. Tão dada a subtilezas, a China não podia admitir a existência de tais gentes, nem de um terceiro povo que pudesse consubstanciar uma cidade-estado (como Singapura), e provocar eventuais sentimentos separatistas na vizinha Hong Kong (onde, no entanto, o colonialismo britânico – intrinssecamente racial – nunca forjou qualquer comunidade mista).

Mas, Pequim, a capital dos provérbios, adoptou neste ponto da história o dito ocidental «Cautela e caldos de galinha…», não fosse o vírus da subversão espalhar-se pela sua província mais recalcitrante – Cantão – que, por muitos anos, chegou a ser república independente (e, em certa altura mesmo, a alimentar esperanças de transformar o país em nação federalista).

 

1999

 

A menos de 7 anos da sua integregração na RPC sob a designação de Zona Administrativa Especial (ZAE), Macau prepara-se não para uma nova existência, mas para mais uma acomodação, sensata e pragmática. Os homens que, aos 20 anos, estiveram com o Kwomintang, deixaram falecer os seus ardores nacionalistas com o partido que, actualmente, se esboroa aceleradamente em Taiwan (Formosa), sendo hoje membros da Comissão Consultiva Popular da RPC, em Cantão e Pequim.

A segunda geração (que não conheceu os antagonismos sangrentos da guerra civil e da Longa Marcha) gere agora empresas e dirige bancos em Macau, não deixando, no entanto, de comparecer rigorosamente às reuniões da Assembleia Nacional Popular (órgão legislativo máximo da RPC). Quarenta e cinco anos depois da revolução, pertencer ao Partido Comunista já não é, em Macau, filiar-se no opróbio, nem uma opção clandestina. Simultaneamente, apertar a mão, em cerimónias públicas, aos homens do Kwomintang deixou de ser, há muito, uma traição ao povo, demonstrando apenas que os chineses não se dividem por partidos, e provando, porventura, que a Frente Popular não era só produto da propaganda maoista. Ao mesmo tempo, porém, a mesma comunidade (que representa mais de 95 por cento dos habitantes locais) não se esquece que deve a sua identidade à presença dos diabos ocidentais. Por isso, pactua com a administração, mesmo quando os actos desta lhe parecem demasiado alienígenas para o seu gosto chinês.

Quanto aos quatro ou cinco por cento não-chineses, o futuro divide-se entre os que, criados num mundo antigo que hipervalorizava Salazar, se recusam a aceitar a realidade, fazendo as malas com destino à pátria (que muitos apenas conheceram dos livros) e os que acreditam que Macau permanecerá uma “entidade política” como sempre foi. Os restantes, funcionários e militares em comissão de serviço, nada têm verdadeiramente a dizer sobre o drama secular, que consuma mais um acto: no final dos contratos – e antes de 1999 – regressarão à Metrópole sem traumas nem angústias particularmente importantes, para além das que lhes são exclusivamente particulares.

Para alguns arautos da desgraça (ou, talvez, apenas cultores do fado), a data de 1999 constitui a fronteira infernal da dissolução pátria de que falava o Velho do Restelo, pois se «nem sequer se fala português em Macau!…», exclamação do escandalizado turista, tetra-neto do dito “Velho”, que passa pela cidade dois ou três dias, nas férias de Verão, a meio de um tour que o levou a paraísos “muito mais interessantes” como a Tailândia (onde encontrou imitações pefeitas das melhores marcas mundiais de relógios, malas e  perfumes), ou mercados como o de Hong Kong (onde descobriu a aparelhagem Sony dos seus sonhos a um preço impossivelmente barato) e que, chegado a  Macau, já não encontrou nada que valesse a pena comprar.

De facto, em Macau (e por muito que se diga em contrário), o português é uma relíquia muito mais frágil do que a vetustez do granito das Ruínas de S. Paulo, que resistiram durante mais de dois séculos aos tufões e ao abandono.

Mas (por falar em turistas…), um dia, um casal português recém-chegado à capital da Malásia, jantava num restaurante do aeroporto de Kuala-Lumpur, quando um dos empregados perguntou, curioso, qual era a sua nacionalidade: «Espanhóis? Gregos? Paquistaneses?». O casal respondeu que era português. «Português? Tenho um colega que também é português», respondeu o empregado enquanto se apressava a chamá-lo nos fundos da cozinha. O casal, enquanto prosseguia a sua refeição, esperava a chegada de um qualquer transmontano ou minhoto, que tivesse preferido os confins do Oriente às promessas de França ou da Alemanha. Para grande espanto de ambos, porém, surgiu-lhes um malaio de olhos oblíquos e facies negro curtido pelo sol dos trópicos, que, sorridente, disse em inglês: «I am Portuguese. I was born in Malaca, in the Portuguese settlement!»

Como é que, quatrocentos anos depois de Albuquerque, um Malaio (quiçá apenas distinguível dos seus compatriotas muçulmanos e budistas por um pequeno crucifixo ao peito) tem ainda o prazer e o orgulho de se considerar português? Talvez apenas as malhas que o império tece…

Assim, se a comunidade portuguesa de Malaca sobreviveu à ignorância de Lisboa e ao preconceito dos seus compatriotas malaios, por maioria de razão Macau há-de sobreviver.

Para o português médio (absorvido pelo seu quotidiano feito de pressa, ensombrado por pesadelos inomináveis que se materializam em iniciais temíveis como IRS e IVA, ou em expressões cabalísticas como retenção na fonte, passe semanal, fundo de desemprego e quadro de excedentes) Macau nada significa. Quando muito, terá a importância de um título menor de um qualquer jornal diário que se lê, de relance, às oito da manhã no combóio de Sintra. Para Portugal, porém, Macau pesa mais do que a consciência nacional. Pena é que ninguém se preocupe com isso…

 

João Guedes

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