Macau e o centenário da República

Sun-Yat-sen-1912

“Macau nunca faltou à Pátria em tempos severos, ou prósperos”. As sábias palavra do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, proferidas na sua última visita a Macau, aqui consubstanciadas livremente na sua ideia mestra, são o merecido reconhecimento do papel que o exíguo território chinês desempenhou como parceiro, ainda que humilde e pequenino, mas simultaneamente grande. Um papel que vale a pena recordar no ano em que se comemora o centenário da instauração da República na China e do seu primeiro Presidente, Sun Yat-sen. Um herói universal, reivindicado pelas esquerdas e pelas direitas, e figura que foi genuinamente um produto da iniludível singularidade histórica de Macau. A influência de Macau na proclamação da República da China, em 1911, é tanto evidente quanto mal conhecida universalmente. Isso deve-se à quase total ausência de estudos em língua portuguesa e a sua subsequente divulgação global. Ao contrário, a importância de Hong Kong na queda da dinastia imperial Manchu é sobrestimada precisamente pelo oposto, ou seja, pela abundância de bibliografia. O que existe em inglês dispersa-se por milhares de livros e outros tantos estudos académicos especializados, artigos de jornal, documentários de televisão e excertos na “blogosfera”. Sei lá que mais! Em português, o tema não chegará para ocupar prateleira inteira de uma pequena biblioteca particular. Certamente que ainda não ocupou minuto algum no “Canal de história” (ou Memória, não sei…) da RTP, por exemplo. Uma parte significativa dos revolucionários da segunda metade do século XIX e início do século XX que contribuíram para a implantação da República da China, em 10 de Outubro de 1911 (e numa segunda fase, para a instituição da República Popular em 1 de Outubro de 1949), era originária da província de Guangdong, com destaque para a figura incontornável de Sun Yat-sen.

Sun nasceu numa pequena localidade a pouco mais de 30 quilómetros de Macau, a 12 Novembro de 1866, numa família de etnia Hakka na aldeia de Cuiheng, no distrito de Xiangshan, mais tarde rebaptizado Zhongshan em sua honra. Em Macau, viveria durante vários períodos da sua vida. Aliás, o próprio reconheceu que foi por cá que ganhou consciência social. Mal concluiu o curso de medicina, em Hong Kong, passou a residir na então colónia portuguesa, exercendo clínica no Hospital Kiang Wu. Abriu na rua das Estalagens um consultório e uma farmácia. Esteve também à frente de uma outra “botica” – o mesmo que as antigas “pharmácias” – numa das pequenas casas térreas da Santa Casa da Misericórdia há muito demolida para dar lugar à sede dos Correios, Telégrafos e Telefones, em 1929, no Largo do Leal Senado. Sun afirmava que a militância política se sobrepunha ao exercício da sua profissão. De facto, em Macau, onde passava férias ou visitava grande parte da família que por cá residia, formaria o que ficou conhecido como o “bando dos quatro”. Uma espécie de tertúlia impulsionadora da formação de “clubes de leitura”, que incentivavam a população à leitura de jornais, revistas e livros, e levava a cabo sessões de propaganda política, aproveitando a disponibilidade dos teatros da cidade, juntamente com Yan Heling, Chen Shaobai e You Li. Todos cantoneses e nomes sonantes na história moderna da China. Estes teatros, diga-se, durante um certo período, foram muito mais palcos de realização de entusiásticos comícios do que centros de divulgação da “arte de Talma” ou da sétima arte nascente com o animatógrafo. Numa sessão que ficou célebre, os numerosíssimos presentes cortaram simbolicamente as tranças, um adorno capilar obrigatório de todo o povo chinês durante a última dinastia imperial. A sessão solene e politicamente entusiástica do corte contou com mais de duas centenas de tesouradas enérgicas. A juventude de Macau, entusiasmada pela propaganda de Sun e dos seus correligionários, decepava a trança odiada, num gesto que significava muito mais. Era deitar por terra um passado humilhante de quase um século, período durante o qual a China tinha sido submetida a todos os ditames do ideário mercantilista do “laissez faire, laissez aller, laissez passer”, comércio livre imperialista durante o qual o dinheiro foi quase tudo e a moral quase nada. Cortar a trança nesses tempos bárbaros poderia levar à pena de morte de acordo com o estabelecido pelo regime Qing. Tendo isso em conta, o acto de rebeldia que se repetiu nas outras colónias ocidentais das costas da China, e também em Singapura, Indochina, Malásia e Indonésia, onde a emigração chinesa era pujante, foi por demais significativo. Toda a bacia ocidental do Pacífico era um porto global aberto ao mundo. No entanto, os dois pontos de verdadeiro contacto da China com as ideias ocidentais eram, essencialmente, Macau e Hong Kong pela situação geográfica. Aí situavam-se verdadeiramente os baluartes que poderiam, para o bem ou para o mal, transformar ou perder o país. As actividades subversivas na vizinha colónia britânica contra a monarquia Manchu eram rigorosamente vigiadas pelas autoridades inglesas. Ao contrário, em Macau a permissividade oficial nesse campo era notória. Portugal contemporizava, como sempre fez ao longo da sua história, em matéria de “negócios estrangeiros”. Essa situação permitiu que, ao longo das duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX, um dos principais centros de apoio às correntes de oposição aqui estivesse sedeado. A tempo inteiro ou sempre que a conjuntura prevalecente assim o determinasse. Em Macau viveram nessa época alguns dos vultos mais destacados que a Nova China haveria de produzir. Igualmente aqui se publicavam os jornais de oposição proibidos para lá das Portas do Cerco e também em Hong Kong. Esses jornais derivavam de várias orientações políticas, desde os liberais, que apenas pretendiam a reforma da monarquia, até aos que se proclamavam abertamente anti-monárquicos. Os socialistas e sociais-democratas aqui imprimiam igualmente os seus órgãos de propaganda, com destaque, numa primeira fase, para os anarquistas. Os periódicos eram escritos e impressos nas tipografias locais. Umas legalmente estabelecidas, outras clandestinas (o governo português sabia o que se passava, mas pouca conta oficial dava dessas diferenças – deixava andar!). Posteriormente, eram distribuídos no Interior através, principalmente, da inextrincável rede de “tríades” que dominava o país de então. A sua circulação não se limitava às fronteiras de Guangdong. Chegava aos grandes centros urbanos incluindo Xangai, Pequim e Tianjin, e ainda mais longe: ao Sudeste Asiático, à Austrália, aos EUA e mesmo à longínqua Europa, com destaque para a França. No período da implantação da República na China, a maçonaria portuguesa encontrava-se extremamente activa e actuante não só em Macau, mas também em Cantão, Xangai e nas Filipinas, para não falar no distante Havai, onde Sun Yat-sen e um sem número de resistentes chineses possuíam laços políticos e de sangue iniludíveis. Em Macau, os maçons eram umas quantas figuras civis e militares, revestidas de diversos graus de responsabilidade institucional, incluindo os chefes máximos da administração – governadores, secretários-gerais e chefes de repartição. Nessa conjuntura, a maçonaria funcionava como organização supranacional que politicamente tudo coordenava, superando as rivalidades existentes entre facções na China e entre os interesses por vezes opostos das potências coloniais presentes no intrincado xadrez político-militar prevalecente. Na maçonaria de Macau, concentrada na Loja Luís de Camões II, tal como em Portugal, o republicanismo dominava claramente. Esta terá sido outra das razões que explicam a cumplicidade da colónia nas actividades subversivas contra a “Dinastia Celestial”. Alguns maçons apoiavam porque eram republicanos, outros porque eram monárquicos constitucionais, outros ainda porque estavam rendidos ao progresso imparável das “luzes” do século XIX, ainda que não sendo nem uma coisa nem outra. Todavia, para todas as tendências, a China era uma monarquia absoluta que não congregava as simpatias de ninguém. Nesse âmbito, é de salientar circunstancialmente a figura de Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de diversos jornais, que se tornou ponte de contacto proeminente entre os republicanos chineses das mais diversas matizes e as autoridades locais durante mais de duas décadas. Foi Francisco Fernandes que acolheu Sun Yat-sen em Macau após a sua primeira e malograda tentativa de revolta contra o regime, em 1895, organizando-lhe a fuga ulterior para o Japão. Há correspondência conhecida entre Fernandes e Sun, que revela que, além do grau de amizade pessoal, partilhavam os mesmos ideais políticos e particularmente laços “iniciáticos” evidentes. Nessa conjuntura de dobragem de século, por Macau passaram ainda muitos ideólogos e activistas chineses de grande renome nacional. Destaque para Zheng Guan Yin, autor de várias obras que reflectiam as correntes mais modernas do pensamento filosófico, político, social e económico do mundo positivista do “século da luzes”. Essas obras foram escritas e publicadas inicialmente em Macau, já que em Hong Kong tal feito seria impossível. As autoridades vizinhas controlavam muito de perto todas as actividades subversivas dirigidas contra Pequim e o seu regime, já que não pretendiam pôr em causa enquanto o “Celeste Império” estivesse disposto a ceder às imposições diplomáticas ditadas por razões essencialmente comerciais de “Sua Majestade Britânica”. Ainda bem que se restaurou ali perto da Fonte do Lilau a casa onde viveu essa grande figura que tanta influência teve no dealbar da Nova China. Uma outra personalidade bem menos conhecida – mas que registou influência determinante num certo período ainda que relativamente curto da história contemporânea – foi Liu Shifu, o nome mais proeminente do anarquismo no extremo-oriental do mundo. Liu era o principal redactor do jornal A Voz do Povo, dado à estampa simultaneamente em chinês e esperanto. Nas sua páginas constavam os grandes manifestos de Kropotkin, Bakunin, Tolstoi e outros anarquistas. Mas também niilistas como Turgeniev, o grande romancista russo, autor de “Pais e Filhos”.

 

Liu Shifu, que morreu prematuramente (tinha 31 anos, em 1915), desvaneceu-se na penumbra da história das ideias políticas face à ascensão imparável do marxismo-leninismo. No entanto, o seu ideário deu corpo à fugaz independência de Cantão que perdurou sob a dupla égide de Sun Yat-sen e Cheng Chiu Meng entre 1913 e 1925. Liu Shifu vagueou clandestino e a fugir à polícia muitas e muitas vezes pela rua das Estalagens, pelo Pátio da Mina, pela rua da Esperança e pelo Auto Novo. Enfim, pelas vielas que só não estão hoje desaparecidas porque o centro histórico de Macau foi preservado, graças à inclusão na lista de Património Mundial pela UNESCO. Finalmente, a subalternização de Macau como ponto relevante de influência sobre o pensamento político republicano e socialista chinês se deve não só à falta de estudos sobre a matéria em língua portuguesa, mas principalmente ao verdadeiro tiro de partida disparado com fragor mediático pelo mundialmente famoso cientista britânico James Cantlie. Devido essencialmente ao facto de ser maçom, Cantlie, reputado especialista de medicina tropical e antigo professor de Sun Yat-sen em Hong Kong, pontificava por isso nos círculos académicos internacionais. Mas estava essencialmente nos clubes sociais e políticos de Londres (tradicionalmente o chefe da maçonaria inglesa era sempre um membro da família real). Assim, foi capaz de forjar os apoios necessários para fazer saltar a figura de Sun Yat-sen de revolucionário mal conhecido, mesmo em Macau e Hong Kong, para o patamar de herói de projecção internacional, alcandorando-o à estatura de Mustafá Kemal Ataturck, na Turquia. Isto num momento em que Ataturck, figura disputada como ícone do futuro entre a Inglaterra, Alemanha e França (ainda que esta em menor grau), parecia não deixar campo para a ascensão de novos heróis mundiais, fosse nos telegramas da agência noticiosa Reuters ou nos artigos de fundo do londrino Times, que regiam a opinião pública mundial. Para isso concorreu indubitavelmente o lançamento da primeira biografia sobre o então obscuro médico cantonense: Sun Yat-sen and the Awakening of China, obra escrita por Cantlie em parceria com o jornalista Sheridan Jones. Foi um êxito estrondoso em todo o mundo. Creio que não existe tradução portuguesa desse livro, o que não deixa de constituir uma interrogação sem resposta cabal. Terá sido omissão politicamente motivada e intencional, pela conjuntura geopolítica do tempo, ou negligência histórica pura e simples? Inclino-me mais para a segunda hipótese. Neste ponto convém esclarecer, em abono da justiça, que em Sun Yat-sen and the Awakening of China as actividades de Sun Yat-sen em Macau não passaram em branco. Vale a pena ler histórias sobre cirurgias de extracção de cálculos renais – então uma inédita e hodierna inovação da medicina europeia e americana, que Sun praticava no hospital Kiang Wu sob a égide de Cantlie. Ali não eram bem os méritos da medicina ocidental que se provavam, mas significativamente as possibilidades práticas de curar os males sociais de uma nação inteira com novos métodos, ainda que em rota de colisão com a tradição milenar de Confúcio. Várias personalidades portuguesas de relevo de Macau estiveram em estreito contacto não só com Sun, mas com os seus correligionários, restando saber até que ponto o pensamento político dos republicanos chineses terá sido influenciado, ou até eventualmente moldado, por via desses contactos. Lou Lim Yok, Leong Kai Shio ou Shen Shaobai salientam-se do lado chinês. Horta e Costa, Carlos da Maia, Rodrigo Rodrigues e Álvaro de Melo Machado destacam-se do lado português. Outras figuras menos estudadas que no território viveram essas exaltantes épocas de militância política tiveram também papéis relevantes, como Damião Rodrigues, Vicente Jorge, o advogado Basto e o ainda hoje enigmático Leôncio Ferreira, este que pontificava em Xangai e foi agraciado com a “Torre e Espada”, a mais alta condecoração militar portuguesa, embora sempre tivesse sido um civil de gema. Possui uma pequena rua com o seu nome em Macau. Contudo, não se sabe ao certo o que fez, já que ninguém traçou-lhe uma biografia. Mas, certamente, coisa importante protagonizou no que toca ao relacionamento entre Portugal e a China. As actividades dos agentes do Komintern em Macau nos anos 20 foram, em certos aspectos, tão determinantes como envoltas no segredo em que ainda hoje se encontram e que permanecem por estudar a fundo. Também na formação do Partido Comunista da China Macau desempenhou papel de relevo e não pequeno. A fortíssima ligação a Macau do marechal Ye Jiening, presidente da República nos tempos de Deng Xiaoping, prova-o à saciedade. Aqui se refugiou mais do que uma vez e diz-se mesmo que, nos tempos caóticos da revolução cultural, em caso de emergência Ye Jiening e os principais líderes do PCC contariam com o território como último reduto de exílio e resistência. Não restam dúvidas de que Macau, se não funcionou como peça única na formação do pensamento político dos republicanos e comunistas chineses, foi, indubitavelmente, o cadinho, conveniente e discreto onde se forjaram alianças, se atingiram consensos, se delinearam grandes projectos e se arbitraram conflitos em campo neutro e nunca em pequena parte. Falta estudar com mais acuidade a relevância e influência resultante dos contactos entre os dois lados – português e chinês, diplomático e particular. Além das fontes e nomes que deixei citados, falta também vasculhar arquivos em Portugal, mas igualmente (diria primordialmente) na China onde, provavelmente, muito do que não se sabe se guarda e aguarda apenas a consulta de quem os queira, ou possa, esmiuçar e retirar conclusões do que se vier a conhecer. Creio que, se esse empreendimento for levado a sério e de uma forma sistemática, talvez se possa saber com mais ciência certa se o facto das repúblicas em Portugal e na China terem sido proclamadas com a pequena diferença de um ano foi apenas mera coincidência histórica ou bem mais do que isso. O agradecimento de Sun Yat-sen em carta ao Governador Carlos da Maia (no poder entre 1914 e 1916) revela bem até que ponto Macau, pequenino território da grande China, nunca pecou por abstenção. Sun agradecia sobretudo o apoio inequívoco que o então Governador concedeu aos republicanos chineses num dos mais incertos e conturbados períodos da história, quando Yuan Chi-kai (o presidente que queria ser imperador e só não o foi porque a morte o levou antes) ameaçava por ambição pessoal reverter a história e o progresso. A carta é conhecida. Está publicada e foi motivo de diversos comentários de abalizados sociólogos, historiadores ou meros divulgadores, tanto portugueses, brasileiros como chineses. No entanto, nenhum, que eu saiba, na imensidade de encómios que foram rendidos ao fundador da República Chinesa de 10 de Outubro de 1911, o foi em língua inglesa. É pena, mas é esclarecedor.

João Guedes

In Revista Macau, Março 2011

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