Áureo Nunes e Castro, Missionário, músico e pedagogo

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Juntamente com o “Macau Confidencial” vai ser apresentada a biografia do Pe Áureo Nunes e Castro, também de minha autoria, num evento que vai decorrer amanhã sábado dia 23 de Abril no Club Militar pelas 15 horas e 45.

Sobre esta biografia a agência de notícias LUSA dizia o seguinte:

Missionário, músico e pedagogo. É como o padre Áureo Nunes e Castro, um açoriano do Pico, é descrito numa biografia recentemente publicada em Macau, um território onde ainda se mantém vivo o seu legado.

A obra, que constitui o volume VIII da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau, foi escrita por João Guedes, jornalista e investigador da história de Macau, autor de diversos livros, que fez a sua “estreia” no género da biografia.

Nascido na Candelária do Pico (Açores) em Janeiro de 1917, o padre Áureo Nunes e Castro morreu em Janeiro de 1993 em Macau, onde passou a maior parte da sua vida dedicada à Igreja e à música, sendo a Academia S. Pio X – que fundou e dirigiu desde o início até praticamente à sua morte – uma espécie de marca viva da importância que teve na cultura em geral e na música erudita.

“Creio que esta biografia traz a público uma coisa ignorada: a própria vida dele. Em Macau várias figuras distinguiram-se em diversos campos, mas a música no âmbito cultural é uma coisa pouco falada, não aparecem na história da música vultos como aparecem na literatura ou na pintura. O padre Áureo e Castro é uma excepção importantíssima na área da música e particularmente na da música sacra”, realçou João Guedes à agência Lusa.

Áureo e Castro veio para Macau aos 14 anos para integrar o Seminário de São José, numa altura em que “havia uma corrente de estudantes que eram recrutados pela Igreja Católica e que vinham de dois pontos de Portugal – Freixo de Espada à Cinta e Açores”. A evangelização da China seria o destino, como contextualiza João Guedes.

Contudo, “quando o padre Áureo já está formado, a revolução já tinha acontecido e surge a República Popular da China [1949] e, portanto, esses padres todos ficaram impedidos de seguir para a China e ficaram em Macau”.

“Normalmente eram professores, mas dedicavam-se a outras coisas. Por exemplo, o padre [Manuel] Teixeira dedicava-se à História, (…) o padre Lancelote Rodrigues aos refugiados, o padre Benjamim Vieira Pires era poeta (…). Eles constituíam, na altura, a inteligência de Macau”, indicou João Guedes, antes de avançar para a figura que traça ao longo de uma centena de páginas.

“O padre Áureo e Castro gostava de música, era um músico acima da média e acaba por ser escolhido para ir para o Conservatório de Música de Portugal para tirar o curso de maestro/compositor. Vai para lá, sai formado com altas notas e regressa a Macau para fundar uma filial do Conservatório de Música de Lisboa, o que depois não acontece por vicissitudes várias, de maneira que acaba por se fundar a Academia S. Pio X”.

Como nota João Guedes, “ele não emparceirou com os grandes compositores mundiais apenas porque escreveu pouco”. Esta é, aliás, a opinião, que vem citada no livro, do maestro Simão Barreto, que foi aluno do padre Áureo e Castro.

Entrando pela musicalidade, o autor da biografia destaca um “Te Deum”, composto em finais da década de 1950, “que se manteve inédito durante muitos anos depois da sua morte e que foi tocado há poucos anos”, e peças soltas, definindo-o com um “precursor”, dado que tem uma série de trechos em que “foi capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica”.

Esses trechos “são tocados por vários pianistas de renome internacional”, segundo João Guedes.

“A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o Governo reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi alma inspiradora e trave mestra”, lê-se na obra, em que se salienta que Áureo e Castro “encerrou definitivamente um ciclo da cultura em que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época”.

Quinta-feira 7 de Janeiro 2016

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“The Lone Flag”, Memórias do Cônsul Britânico em Macau na II Guerra Mundial

Sobre Macau no período da “Guerra do Pacífico”, bem longe de tudo estar dito, quase tudo continua por dizer. Para além de um primeiro livro dado ao prelo há menos de dois anos, que se pode considerar ter abordado a questão em profundidade, escrito pelo jornalista João Botas, o panorama bibliográfico nessa matéria resume-se a uma ou duas monografias, um livro de memórias, artigos de jornal avulsos e pouco mais.

Face a esse panorama, a importância de “The Lone Flag”, livro da autoria de John Pownall Reeves, o cônsul britânico que permaneceu em Macau durante toda a guerra, salienta-se por si só. Mas mais ainda se agiganta por ser um testemunho privilegiado, contado na primeira pessoa por alguém que viveu por dentro as mais diversas situações, e conheceu os quês e porquês de acordos, alianças e relações internacionais que ainda hoje nos parecem misteriosas, ou nos causam pelo menos perplexidade. O cônsul John Reeves explica muitas delas num discurso de inquestionável simplicidade literária, mas que revela um domínio sólido da escrita, alinhando fluentemente uma narrativa que prende o leitor do princípio ao fim.

O livro vale a pena não só pelo que revela, mas também pela forma como o faz e, acima de tudo, pelo modo como desfaz alguns mitos que circulam por aí sobre esse período terrível e conturbado, que na parca bibliografia disponível é geralmente caracterizado como anos de festas, bailes e torneios desportivos intermináveis.

Não foi assim, ou melhor esteve muito longe de ter sido apenas assim. De facto, os bailes, os saraus e as festas faziam antes parte de um plano de guerra meticulosamente planeado por Reeves e destinado a manter elevado o moral de uma comunidade de refugiados vindos quase todos de Hong Kong, que se arrastavam penosamente pelos centros de acolhimento disponibilizados para o efeito, nomeadamente o Grémio Militar (actual Clube Militar), o Clube de Macau e o desaparecido Clube de Sargentos, instituições sedeadas em edifícios que estavam preparados para tudo menos para acolher refugiados e mais ainda num tão elevado número. Neste âmbito, Reeves desfaz algumas imprecisões de ordem histórica e, como disse, uns tantos mitos, nomeadamente no que diz respeito aos propalados braços abertos e ao calor com que os refugiados foram recebidos pelos seus irmãos de Macau. O que se pode deduzir do que diz Reeves é que reinou mais a indiferença, senão mesmo a hostilidade, do que o calor. Para compensar, Reeves salienta por contraposição a acção da igreja católica, que parecia conseguir multiplicar os pães que não existiam para matar a fome a uma população que tinha crescido em pouco tempo de cerca de cem mil almas para mais de meio milhão (há quem diga que chegou a um milhão, mas na ausência de estatísticas ficam os números do cônsul britânico). Ainda para mais, uma população quase exclusivamente confinada aos limites da península de Macau, cuja superfície era então menos de metade do que é hoje. Reeves, ele próprio um católico praticante, enaltece a acção da igreja e em particular a dos Salesianos, que para além do apostolado ajudavam também, sempre que podiam, na protecção e fuga de prisioneiros de guerra e aviadores abatidos pelos japoneses na região. Neste ponto não pode deixar de dizer-se, igualmente, que foi graças aos salesianos que Reeves se pode manter em comunicação com o comando aliado em Chunking, onde estava sedeado o governo da chamada “China livre”, beneficiando de um emissor clandestino que operava no colégio dessa ordem situado na Rua Central. Fica assim a saber-se que a igreja católica pendia mais para os aliados do que para os japoneses, mas principalmente que o governador Gabriel Maurício Teixeira, que sabia pelo próprio Reeves da existência desse emissor, permitiu sempre que operasse, demonstrando assim o seu lado resolutamente anglófilo. Esse posicionamento do comandante Gabriel Teixeira poderá explicar talvez o facto de, para além de não ter atingido o topo da carreira naval, não ter visto devidamente reconhecida a sua acção depois do que passou nos anos de fogo da colónia portuguesa da China. Provavelmente Salazar preferiria que o governador de Macau se declarasse mais propenso ao “eixo” para o deixar chegar a almirante.

Em “The Lone Flag”, Reeves esclarece também algumas facetas da amizade que o ligava ao seu homólogo japonês Fukui, que vivia paredes meias com o consulado britânico nas faldas da Guia. Dizem até que um corredor secreto permitia a comunicação entre as casas de um e outro, mas Reeves não fala nisso. Fukui seria assassinado por um comando a soldo dos próprios serviços secretos militares japoneses, a temível “Kempentai”. O incidente revestiu-se da maior gravidade, já que o governo nipónico acusou Portugal de responsabilidade no caso, por não ter garantido as medidas de segurança necessárias em torno do seu representante diplomático. Apesar de se saber à saciedade que o homicídio tinha sido obra nipónica, Portugal não teve remédio senão pedir desculpas a Tóquio e indemnizar o governo imperial por perdas e danos.

No âmbito da segurança, Reeves fala de Macau como o verdadeiro “far west” que nesse tempo era. Descreve nomeadamente os frequentes tiroteios entre facções rivais que tinham lugar na Calçada da Guia, entre o Cemitério dos Parses, lá no alto, e o Jardim Vasco da Gama, cá em baixo. Nessas alturas, o cônsul não tinha remédio senão permanecer de portas bem trancadas no interior do consulado, protegido pelos seus vinte guarda-costas armados até aos dentes, e esperar que a tempestade bélica passasse, para então recolher à sua residência que ficava no lado oposto da cidade, perto de S. Tiago da Barra. O cônsul, para além dos guarda-costas, não dispensava um revolver de grosso calibre, que apenas tirava para tomar banho ou dormir. O correspondente da agência Reuters dizia que mesmo quando praticava no Tap Seak hóquei em campo, o seu desporto favorito, não se desfazia da arma. Reeves diz que a afirmação do amigo jornalista era um exagero e que entregava o revólver a um guarda-costas durante os jogos.

Aliás, é no âmbito da segurança que  “The Lone Flag” desfaz um outro mito relativo desta vez ao temível Wong Kong Kit, o chefe de piratas que com o seu bando manteve Macau a ferro e fogo durante esses anos de guerra, tendo levado a cabo assaltos, raptos, homicídios e atentados bombistas que provocaram numerosas vítimas, perante a impotente passividade da polícia e dos militares portugueses.

Segundo a história corrente, Wong Kong Kit fugiu no fim da guerra para escapar às polícias de Macau, Hong Kong, China e E.U.A. que o queriam fazer julgar pelos seus hediondos crimes. Na caça ao foragido ter-se-ia destacado um agente da polícia de Macau, que teria descoberto o paradeiro do criminoso numa ilha da foz do Rio das Pérolas. Segundo ainda a mesma versão, o esperto polícia português prendeu o malfeitor, escondeu-o no porão de um rebocador que tinha pedido emprestado à “Royal Hong Kong Police”, a quem ficara de o entregar. Em vez disso, transbordou o preso para outra embarcação, rumando com ele a Macau. Wong Kong Kit nunca seria julgado, já que o mesmo polícia que o prendeu o abateu a tiros de pistola, alegadamente quando tentava fugir da carrinha celular onde era transportado, algures na Rua Francisco Xavier Pereira.

Afinal, a história não foi definitivamente assim. De facto, segundo Reeves, o foragido foi apanhado por um grupo de guerrilheiros comunistas que o venderam aos americanos. Para o efeito, dois agentes do FBI deslocaram-se a Macau e o agente da polícia português limitou-se apenas a ser o intermediário no negócio, trazendo o procurado para Macau a salvo, ou seja, sem que no trajecto pudesse cair nas mãos dos ingleses.

Neste livro recheado de peripécias tudo são novidades e todas mereceriam destaque, mas fiquemo-nos apenas pela revelação do papel de Y. C. Liang, o grande magnata de Macau dessa época, que, com empréstimos vultuosos ao cônsul, viabilizou a protecção concedida aos refugiados pelo consulado britânico. Esse dinheiro pagava ordenados, dispensava cuidados de saúde e garantia alojamentos, o que ficava muito caro. Por outro lado, essas volumosas transacções financeiras fizeram com que na prática a pataca fosse vista como indexada à libra esterlina, mantendo, por isso, uma estabilidade que outras moedas, mesmo as mais fortes, não tinham, subindo e descendo vertiginosamente muitas vezes em apenas um dia.

John Pownall Reeves deixou Macau em 1946, para ocupar temporariamente um posto consular em Roma, local onde concluiu a escrita do livro “The Lone Flag”, que assina em 1949. Depois disso, passou ainda pela conturbada Indonésia do ditador Suharto, terminando a sua carreira como cônsul na cidade sul-africana do Cabo, onde se sumiria definitivamente no anonimato.

Morreu ali na sua casa, recheada de preciosas recordações que amigos lhe tinham oferecido ou que ele mesmo tinha comprado nas pequenas lojas das ruelas de Macau, de que falava com a verdadeira saudade de um português.

Mas morreu sem nunca mais voltar à China. E o seu livro permaneceu proibido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico até ser agora dado ao prelo.

João Guedes

In Jornal Ponto Final, 4 de Maio de 2014

Macau e a Primeira Grande Guerra

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Carlos da Maia visita Hong Kong no dia 10 de Junho de 1914.

O ano de 2014 assinalou o centenário da Primeira Grande Guerra Mundial, período que assistiu em Macau à governação de Carlos da Maia e a um esforço de preparação para resistir aos conflitos mundial e chinês vividos na altura.

O assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo que desencadeou a 1ª Grande Guerra Mundial foi apenas o percutor de um conflito latente que apenas precisava de uma justificação, fosse ela qual fosse, para eclodir. De facto na era dos caminhos-de-ferro a Alemanha e a Grã-Bretanha eram duas locomotivas a avançar a pleno vapor em sentidos contrários na mesma ferrovia sem que aos maquinistas ocorresse que era necessário mudar de agulha para fugir ao desastre.

Ainda hoje se debate sobre quem, nesse contexto, assumiu o papel de agressor. Essa discussão, porém, parece pouco contribuir para a compreensão de um conflito que era de facto inevitável. É que, voltando à alusão ferroviária, os “maquinistas” das duas locomotivas já não dominavam as máquinas limitando-se fatalisticamente a aceitar que o Mundo se encontrava inexoravelmente em rota de colisão.

As causas da Primeira Grande Guerra Mundial estão hoje bem determinadas prendendo-se essencialmente com a entrada da Alemanha na expansão colonial por um lado e com a corrida aos armamentos, nomeadamente através do plano de desenvolvimento da marinha germânica que significava uma ameaça directa ao domínio absoluto dos mares exercido até então pela Grã-Bretanha.

A Alemanha entrou tardiamente na corrida imperial ultramarina e mais tarde ainda na busca de uma presença na China, que conseguiu obter em 1898 com o estabelecimento de uma colónia na localidade portuária de Tsingtao, na província de Shandong Esta presença foi conseguida (senão mesmo extorquida à China) a pretexto da protecção dos missionários alemães alegadamente ameaçados pelas forças “anti-estrangeiras” que se organizavam e ganhavam terreno no Império. Este movimento viria a culminar com a revolta dos “boxers” que eclodiria dois anos mais tarde ao abrir do pano para o século XX (1900).

Rapidamente a Alemanha transformaria Tsingtao num activo entreposto comercial cuja estrutura seria completada com a construção de cais de acostagem que passariam a abrigar o comando naval da esquadra alemã do Pacífico constituída por vários navios de guerra entre os quais sete dos mais modernos cruzadores que a indústria naval alemã, em plena expansão, tinha produzido.

A potência destruidora dessa esquadra seria demonstrada já durante a guerra na batalha naval de Coronel (junto à ilha do mesmo nome nas costas do Chile). Este recontro travado no início de Novembro de 1914 culminou com a derrota da esquadra inglesa. Tratou-se da primeira derrota britânica significativa em dois séculos de supremacia naval indisputada da Inglaterra. A vitória alemã era adivinhada muito antes e a base naval de Tsingtao vista como uma ameaça directa e uma “intromissão intolerável de um recém-chegado” ao concerto das potências coloniais que já desde, pelo menos, a “Conferência de Berlim” (1884) tinham dividido os seus domínios colonias e estabilizado esferas de influência.

Nesse contexto de confronto asiático a tensão geopolítica incrementava-se tendo em conta que Tsingtao fechava estrategicamente o domínio da bacia do Pacífico onde a Alemanha tinha colonizado vários arquipélagos (Ilhas Bismark, Marshal e parte do arquipélago de Samoa).

Para além da ameaça directa à Grã-Bretanha a presença alemã no Extremo Oriente inquietava naturalmente as restantes potências europeias, mas também o Japão que prosseguia igualmente uma política colonial de expansão regional nomeadamente no Nordeste Asiático.

De entre as potências coloniais a que menos se encontrava representada na China em termos de extensão territorial) era Portugal que apenas possuía a sua colónia de Macau constituída por uma península onde se erguia a cidade com uma população de cerca de 120 mil habitantes, e duas pequenas ilhas (Taipa e Coloane), praticamente sem potencial militar nem capacidade de defesa face à pequenez das suas dimensões. Tendo essas circunstâncias em conta dir-se-ia que Macau não teria qualquer importância no vasto contexto político militar do Extremo Oriente. Mas a realidade era exactamente a oposta. Para Portugal, era essencial que cada uma das suas possessões ultramarinas participasse activamente nos planos político-militares que os aliados lhes destinassem, fossem eles quais fossem independentemente das dimensões geográficas de cada uma. Isto tendo como fim último a preservação do seu todo colonial (principalmente africano) sempre exposto à cobiça das potências europeias mais fortes, sem excluir a velha aliada Inglaterra.

A entrada de Portugal na guerra foi pois um imperativo ditado pela preservação das colónias cujo reconhecimento foi assegurada desde logo através de uma declaração de Londres em que “o governo britânico pedia expressamente a Lisboa que não declarasse neutralidade nem participação na guerra. Em contrapartida assegurava que: “…ao abrigo da aliança anglo-portuguesa, o Reino Unido reconhece o direito de Portugal às colónias africanas, contra as pretensões ou iniciativas da Alemanha”. Essa declaração vinha ao encontro das expectativas portuguesas postando-se como uma garantia contra eventuais acordos de partilha das suas possessões pelas potências vencedoras no final do confronto.

Tendo em conta a conjuntura que marcava o limiar da eclosão da Grande Guerra” onde se avolumavam nuvens de borrasca negras de dúvidas no horizonte geopolítico mundial, Macau apesar de diminuta geograficamente valia tanto para Portugal como as grandes colónias africanas de Angola e Moçambique, ainda que nas garantias inglesas as poções asiáticas portuguesas (Goa, Macau e Timor) não tivessem merecido menção.

Parece ter sido essa omissão a razão essencial que leva Lisboa a quebrar com uma tradição secular na escolha de governadores para Macau que recaía entre os militares que iniciavam carreira na administração colonial, nomeando em vez disso, um peso pesado da política portuguesa, Carlos da Maia.

Um dos fundadores da república (5 de Outubro de 1910), Carlos da Maia deixou o serviço activo na marinha com a patente de capitão-tenente para se dedicar por inteiro à política ocupando o lugar de deputado na Assembleia Constituinte. Depois disso passou a integrar os quadros da Direcção-Geral das Colónias, conhecendo por dentro todos os meandros da política colonial portuguesa bem como a geoestratégia internacional nessa área. Terá sido por esse facto que o governo o nomeou para o então sensível cargo de governador Macau. Saliente-se que à data da nomeação (10 de Junho de 1914) Carlos da Maia se encontrava já em oposição à corrente maioritária do regime que tinha ajudado a implantar. Essa corrente que viria a cindir a república constituiria o que veio a ser conhecido como Partido Democrático (PD) liderado por Afonso Costa e Bernardino Machado que directa, ou indirectamente governaria o país ao longo dos 16 anos que durou a primeira república em Portugal. Carlos da Maia acusava os políticos do “PD” de se afastarem da pureza dos genuínos ideais revolucionários. No entanto o facto de à data Bernardino Machado, responsável pela nomeação de Carlos da Maia, se afirmar como chefe de um governo de “reconciliação nacional” justificou a escolha extra partidária.

Carlos da Maia chegou a Macau num momento em que todo o extremo oriente se agitava. A Norte o Japão ocupava a Manchúria e a Coreia enquanto paredes meias a China que três anos antes tinha proclamado a república via um dos seus mais prestigiados caudilhos (general Yuan-chi-kai) voltar com a palavra atrás, fazer ressuscitar o antigo regime e autoproclamar-se imperador. A China divide-se então mergulhando numa guerra civil que esfrangalha o país e que só terminará verdadeiramente em 1949 com a derrota dos nacionalistas e a proclamação da República Popular em 1 de Outubro de 1949.

Nesse contexto de divisão a província de Guangdong declara-se independente e republicana deixando de obedecer a Pequim. Por seu turno Yuan-chi-kai responde enviando tropas para o sul que momentaneamente sobrelevam os republicanos cujos líderes retiram estrategicamente para os “santuários” de que dispunhas nas colónias britânica e portuguesa na foz do Rio das Pérolas. Em Macau estabeleceram mesmo um dos principais quartéis-generais militares da contra ofensiva republicana.

A minúscula Macau encontrava-se assim, mergulhada num caldeirão politico em ebulição que ameaçava transbordar a todo o momento. Entretanto o conflito mundial eclodia na Europa e o Japão depois de um breve período de neutralidade declarava guerra à Alemanha em 15 de Agosto de 1914 pondo cerco a Tsingtao que seria a primeira colónia germânica a cair nas mãos dos aliados da “entente”.

No final do conflito a presença alemã na China e na bacia do Pacífico seria totalmente erradicada.

Nesse processo de clarificação de posições a China mergulhada na guerra civil e sem um centro político de decisão nacional tardava em pronunciar-se.

Carlos da Maia chega a Macau essencialmente incumbido da missão de preparar a colónia para resistir a eventuais ameaças, ainda que militarmente pouco discerníveis e coordenar com os seus homólogos de Hong Kong e da Indochina políticas para fazer face às iniciativas estratégicas alemãs.

Para Macau o perigo decorria muito mais da anarquia em que a china se encontrava mergulhada do que da iniciativa alemã. Isto, tanto mais que, a esquadra germânica deixaria definitivamente a sua base da península de Shandong que se rendia às forças conjuntas anglo-nipónicas, depois de ferozes e prolongados combates, para se lançar em operações de caça às esquadras inimigas nas costas sul americanas e nos mares do Índico.

Para Macau a “Grande Guerra” seria sempre um conflito longínquo. Isto ainda que todos os seus desenvolvimentos se repercutissem nas páginas da imprensa local, ainda que raramente sobrelevavam os títulos de primeira página essencialmente dedicados aos acontecimentos do quotidiano local. Macau estava demasiado longe dos teatros da guerra europeia mas demasiado perto do palco revolucionário da China. Luís Nolasco, director do jornal “O Progresso” chamando a atenção para o facto de Macau se encontrar numa das situações mais delicadas da sua história e que teria de organizar a sua defesa para fazer face a agressões externas, ou subjugar “algum movimento insurreccional interno” sintetizava assim a situação: – “Temos de um lado a Europa empenhada nessa gigantesca e encarniçada luta fratricida despendendo milhões por dia e sacrificando milhares de vidas nessa hecatombe formidável dos campos de batalha. Por outro lado vemos nos jornais que a China está também em vésperas de uma contra revolução. O irrequieto dr. Sun-iat-sen e os seus agentes revolucionários seguiram pelos cabelos este ensejo da conflagração europeia para desfraldar novamente o pendão da revolta”.

Apesar da ameaça alemã ser vista pelos planeadores militares como bastante vaga e de difícil concretização o governo de Macau não deixou de tomar medidas, nesse âmbito, pedindo nomeadamente o envio de uma força militar para reforçar a guarnição existente considerada insuficiente, mesmo em tempos de paz. No entanto o governo de Lisboa fez “ouvidos moucos” ao pedido e em vez de mandar reforços exigiu antes o envio da quantia de “120 contos” para Angola, para onde, sim, Portugal estava a enviar consideráveis forças militares destinadas a proteger a fronteira Sul que confinava com a colónia germânica da Namíbia. A remissão de tão elevada quantia, não deixou de levantar os mais veementes protestos das forças vivas de Macau que, no entanto, não produziram qualquer efeito junto de um governo que canalizava todas as suas energias políticas e económicas para África.

Do ponto de vista administrativo Macau encontrava-se num estado de desorganização patente, ainda que economicamente os monopólios do ópio e do jogo, entre outros assegurassem ao governo elevadas receitas. Estas fontes foram aproveitadas por Carlos da Maia para por em marcha um plano de reorganização política e administrativa que vinha sendo adiada desde a mudança de regime em 1910.

Foram igualmente essas fontes de receita que lhe permitiram modernizar com sucesso o esquema defensivo em terra e no mar.

Perante a recusa do governo da metrópole de enviar tropas, o governador toma a iniciativa de organizar um batalhão de voluntários encarregado de auxiliar a guarnição militar local. Este corpo voluntário pouco acrescentava ao dispositivo militar existente não compensando de modo algum a lacuna deixada pela recusa metropolitana, Carlos da Maia sabia-o bem, mas apesar do seu pequeno número a organização do “batalhão de voluntários” visava essencialmente um efeito político e propagandístico exaltando o moral da população de Macau. Apesar de nunca terem tido oportunidade de entrar em acção os voluntários efectuaram treino regular ao longo de todo o período da guerra sendo amiúde citados na propaganda como um exemplo de orgulho nacional na imprensa metropolitana e estrangeira.

A par do “batalhão voluntário” o governado procedeu também à reorganização dos serviços de manutenção da ordem pública com a criação da polícia civil (30-10-1915), organização estruturada segundo os conceitos mais modernos em vigor.

Na área de marinha foram igualmente dados passos decisivos num sector que se encontrava em decadência e impossibilitado de efectuar uma guarda minimamente eficaz das costas de Macau e das ilhas, bem como a protecção contra a actividade dos piratas que se mostravam impunes na região do Delta e muitas vezes efectuavam assaltos em terra penetrando até aos mais movimentados bairros do interior da cidade. Para o efeito foi lançado um plano de aquisição de cinco lanchas canhoneiras que restabeleceram o sistema de defesa naval.

A culminar toda a estrutura Macau e as ilhas ficaram também ligadas pelo primeiro sistema de comunicações através da telegrafia sem fios. Esta novidade tinha uma importância fundamental tendo em conta que não existiam pontes entre Macau e as ilhas sendo as ligações efectuadas por embarcações civis que efectuavam o percurso com irregularidade, ou muitas vezes, pelas próprias lanchas da marinha à falta dessas carreiras regulares.

A par de tudo isto Carlos da Maia aproveitando, como disse, os plenos poderes com que vinha investido de Lisboa e a boa situação económica local interveio também noutros sectores ainda que nem sempre com o mesmo sucesso.

Para além de ter levado a efeito um plano de construção de um sistema de escolas primárias (que ficaram conhecidas como “Escolas República”), no plano da educação, construiu também, na área da saúde, uma leprosaria na ilha de D. João (actual Heng Chin), introduzindo igualmente um sistema de subsídios aos três principais hospitais (Kiang  Wu, S. Rafael e S. Januário).

A criação de uma inspecção dos incêndios comandada pelo major Craveiro Lopes (pai do antigo presidente da república Francisco Higino Craveiro Lopes), com a aquisição à Grã-Bretanha do mais moderno equipamento automóvel foi outro ponto importante da sua administração.

A par dos sucessos que a história lhe reconhece, Carlos da Maia também conheceu o fracasso em dois pontos importantes do seu mandato. O primeiro foi a tentativa de levar a cabo e concluir as obras de regularização do Porto Interior e o segundo a implementação uma Carta Orgânica de Macau.

O plano de reorganização do Porto Interior, que já vinha de trás, voltou a confrontar-se com a hostilidade chinesa que via nele uma tentativa de expansão de Macau tendente à ocupação por Portugal da ilha da Lapa fronteira ao referido porto. Apesar do bom relacionamento de Carlos da Maia com as autoridades republicanas de Cantão, as correntes nacionalistas ali prevalecentes boicotaram todas as tentativas o que acabaria por fazer fracassar o projecto. A implementação da carta orgânica que deveria substituir o antigo estatuto que vinha de 1842 e que corria em linha com a reorganização político-administrativa das colónias portuguesas, foi igualmente plano que fracassou antes mesmo de ver a luz do dia. Ao que parece a principal razão do desfecho deve-se ao facto de Carlos da Maia, à semelhança do que tinha feito antes dele o governador Ferreira do Amaral (1846-49), ter proposto a extinção do Leal Senado transformando a antiga instituição numa secretaria do governo para os assuntos municipais.

Esta proposta parece ter constituído uma das principais razões que levou à sua demissão. Uma demissão que Carlos da Maia contestou resolutamente mesmo depois de ter regressado a Lisboa, o que fez com que durante largos meses o governo de Macau tivesse ficado a cargo do secretário-geral Manuel Ferreira da Rocha com poderes limitados delegados pelo próprio Carlos da Maia que chegou a despachar assuntos correntes da colónia a partir de Lisboa.

Esta situação vista como anómala pelo direito administrativo era agravada pelo facto de Ferreira da Rocha, ser próximo do Partido Democrático de Afonso Costa, que tinha voltado à chefia do governo e que era inimigo político confesso de Carlos da Maia.

Carlos da Maia embarcou no dia 5 de Setembro de 1916 de regresso a Lisboa, num momento em que tropas portuguesas se preparavam para atravessar em Moçambique o rio Rovuma e penetrar em território alemão uma ofensiva que viria a ter custos terríveis para o exército português.

Do outro lado das Portas do Cerco Yuan-chi-kay depois de se ter autoproclamado imperador morria (6 de Junho de 1916) antes de ocupar o trono e de imediato a China mergulhou na guerra civil vendo-se dividida de facto pelos senhores da Guerra em várias províncias virtualmente independentes. Na província de Guangdong vizinha de Macau os republicanos voltaram ao poder ainda que coexistindo em frágeis alianças com os senhores da guerra.

Apesar do caos o governo central sedeado em Pequim existia ainda que apenas ou quase só nominalmente já que não tinha poder sobre o país. No entanto apenas pelo facto de existir era reconhecido diplomaticamente pela comunidade internacional o que permitiu ao presidente da república general Feng Guozhang, a 14 de Agosto de 1917, acabar com o impasse que persistia e declarar guerra à Alemanha. A tomada de posição chinesa visava não só obter um lugar à mesa dos vencedores no final da guerra, mas também retomar o controlo sobre a província de Shandong ocupada pelos japoneses. Os aliados deram como bem-vinda a entrada de Pequim na guerra, mas rejeitaram o envio de tropas para as frentes de combate preferindo negociar a contratação de trabalhadores para a construção e reparação das linhas de caminho-de-ferro na Europa. O contingente laboral chinês ascenderia até ao final do conflito a mais de 100 mil trabalhadores.

Terminado o consulado de Carlos da Maia, Macau voltou a perder protagonismo no seio do império e a política de maior ou menor indiferencia, porque sempre se tinham pautado os governos de Lisboa, relativamente à sua colónia da China regressou. Essa atitude ficou bem patenteada no facto de Macau ter ficado entregue a administrações interinas durante quase dois anos, até à chegada de Artur Tamagnini Barbosa como governador em Outubro de 1918. Precisamente um mês antes da assinatura do armistício (11 de Novembro de 1918) que poria termo à Grande Guerra Mundial.

João Guedes

In Jornal Ponto Final 14 de Janeiro de 2015

Macau, uma ficção jurídica?

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Publiquei este artigo no número 57 da “Revista Vértice” de Novembro-Dezembro de 1993.

 

Para a grande maioria dos portugueses, Macau existe apenas como uma ideia imprecisa, um conceito que pouco ou nada tem a ver com as antigas colónias. Para uns, trata-se de mais um (embora pequeno) capítulo da geografia ultramarina que nos obrigavam a aprender na escola: território constituído por uma península e duas ilhas (uma das quais com o curioso nome de “Taipa”) e cuja indústria principal era o fogo de artifício. Para outros, Macau confunde-se um pouco com todo o Oriente mítico e místico, repleto de budismo e fumos de incenso, ópio, imagens de juncos diáfanos de velas de cana, a vogar contra um fundo brumoso… e outros estereotipos que, mais do que os escritores, talvez apenas Hergé tenha dado corpo plenamente em «Tin-Tin e O Lótus Azul». Para outros ainda, (porventura) mais literatos, Macau será a pátria do simbolismo, onde Camilo Pessanha inventou poemas demasiado  musicais para a sensibilidade romântica e excessivamente prolixos para o gosto neo-realista.

Mas, de todos os conceitos, um (o de um estrangeiro) parece ser a o mais adequado para definir a última colónia(?) portuguesa, paradoxalmente a mais longínqua de todas aonde os portugueses chegaram no tempo das Descobertas: “Macau, uma ficção jurídica” (1).

De facto, desde sempre Macau parece não ter passado de “ficção jurídica”, já que todos os dados históricos, quando compulsados, apontam para o facto de o território português do Sul da China ter sido ocupado um pouco à revelia dos interesses e das vontades do poder central de Lisboa. Isto, tanto quanto é possível extrair dos livros – e intenções – de Afonso de Albuquerque (o estratega e pioneiro da expansão Oriental) que considerava Malaca o último entreposto que Portugal precisava de conquistar. Contra as intenções realístico-políticas de Albuquerque surgiram, no entanto, meia dúzia de transfugas, seduzidos pela aventura ou, talvez apenas, pela ganância.

Um destes (provavelmente o mais famoso) foi Fernão Mendes Pinto, que se aventurou até ao longínquo Japão onde, dizem, introduziu a espingarda, pelo que, ainda hoje, é celebrado no Império do Sol Nascente como herói e percursor.

Outro, foi um comerciante vulgar (provavelmente semi-analfabeto), de seu nome Jorge Álvares. Embora referido en passant na história de Portugal, foi ele, nos idos de quinhentos, o primeiro a arribar a bordo de um junco (e não ao comando de uma caravela, como os cânones mandariam) às costas do Sul da China. Pela sua aventura, teve direito a ser perpetuado em Macau em estátua de granito, não logrando porém obter o estatuto de Cabral, Cão, ou Perestrelo e muito menos de Gama.

Mas pior sorte teve Tomé Pires, um boticário de Leiria, transformado à pressa em embaixador que, à custa da própria vida, tentou abrir para Portugal as portas da China. Contudo, mais não conseguiu que morrer em Cantão, sem que a história lhe concedesse nem um cantinho da lembrança universal nem, sequer, o direito a uma estátua.

Macau cresceu tambem à revelia da vontade institucional da China, que sempre viu com olhos desconfiados a chegada dos estrangeiros a quem chamava “diabos do Mar Ocidental”, epíteto que ficou até aos nossos dias. Porém, batalhas navais (ainda hoje mal provadas) contra piratas que assediavam a costa de Cantão e em que os portugueses teriam desempenhado papel de relevo, parecem ter servido de pretexto aos mandarins, nesses longínquos tempos, para fechar os olhos aos decretos imperiais que proibiam o contacto com o exterior, deixando assim que os “diabos” se fixassem em meia dúzia de cabanas de palha, que rapidamente se transformariam em exemplares monumentos de alvenaria da arquitectura colonial portuguesa. (Aqui, acresce dizer que a prata do Japão era artigo cobiçado na China, e que a seda chinesa era, por seu turno, disputada no Império do Sol Nascente; por isso, nada melhor que deixar que os portugueses se encarregassem de manter o fluxo comercial entre os dois colossos inimigos, que continuariam de costas voltadas por alguns séculos mais.)

Tudo o que ficou dito, serve apenas para ilustrar o verdadeiro estatuto de Macau: um pequeno ponto geográfico perdido nos confins do Oriente que, ao longo de mais de quatrocentos anos, sobreviveu, pode dizer-se, à sua própria custa, longe e à revelia da vontade d’El Rei. E certo é que, apesar de grandes vontades e estratégias reais, a história faz-se mercê da firmeza (ou da loucura) de pequenos caudilhos, como aquele capitão de artelharia de Borodino que Tolstoi descreve em «Guerra e Paz».

E foi, também, assim que se fez Macau, contra os tufões da China e os ventos da história Ocidental. Produto de uma aventura enjeitada (nem ao menos se sabe a data precisa em que nasceu a cidade), Macau foi, logo após a sua fundação, obscuro local de passagem de quantos heróis nacionais se conhecem.

Senão, vejamos: Camões, para além de ter estado na distante colónia, aí teria desempenhado o cargo de Provedor dos Defuntos e Ausentes. Este o pressuposto que, nos nossos dias, ainda carece de prova cabal. De concreto, sabe-se apenas que a gruta que hoje alberga o seu busto se situa em local a que documentos coevos atribuiem o nome de “Penedos de Camões”, que se diz igualmente ter dado origem à antiga lenda chinesa, segundo a qual um homem aí passava tardes, sozinho, escrevendo e dando de comer às pombas. Os chineses, apesar de pouco cuidarem da história portuguesa local, compreendem no entanto os poetas. Assim, através dos tempos acabariam por esquecer o nome daquele que alimentava os pássaros, retendo somente a romântica evocação do acto, preservada no nome por que ainda hoje designam a Praça Luís de Camões, em Macau: “Pá’ Kap Tchau”, ou Sítio das Pombas Brancas.

Um século e pico mais tarde, outro herói obscuro das letras nacionais passaria por Macau, tão fugazmente como Fernão Mendes Pinto (desconhecendo-se ainda que motivos o teriam movido a viajar para os tão distantes confins do Império português): Barbosa Bocage. Indigente e perseguido como o seu antecessor, ali, nos Penedos de Camões, compôs laudatórios sonetos a tudo quanto era figura grada da terra, “ganhando por isso o seu sustento”, como no tempo diziam.

Para a história que interessa, sobre Bocage ficou tão somente o seu nascimento sadino, os tratos de polé às mãos da Inquisição, o café Nicola (que, por coincidência, é hoje propriedade de uma macaense), as desditas da Índia… e as anedotas. Quanto à sua relação com Macau, esta é apenas mencionada num ou dois parágrafos da sua biografia e, mesmo assim insolitamente, por ter sido um modesto juíz a pagar-lhe a passagem de regresso à Europa, a bordo de um brigue. Pelo facto, dedicou-lhe o poeta mais algumas das suas gongóricas rimas que alcandoraram o benfeitor ao Olímpo, porventura a única elevação à altura do custo da passagem…

Mas, depois de Bocage, muitos outros vieram e se foram. Quantos saberão, por exemplo, que António Sérgio (essa figura mítica da oposição a Salazar) esteve, e escreveu, sobre Macau? Suponho tratar-se este de um segredo bem guardado, a que só outro, talvez ainda mais restrito, se sobreporá: o facto do pai de António Sérgio – António Sérgio de Sousa – ter sido governador da colónia (governador menor, diga-se, já que não teve direito a figurar, nessa capacidade, no dicionário Lello Universal, essa nossa lusa imitação do Larousse…).

Carlos da Maia, um dos fundadores da República, conduziu os destinos de Macau durante vários anos e em tempos de difícil conjuntura internacional, enquanto Camilo Pessanha, na sua casa avarandada que dava para a praia, a pouco mais de quinhentos metros do Palácio do Governo de Macau, se evolava em sonhos de ópio e, como Bocage e Camões, também compunha versos.

Isto, no preciso momento em que Venceslau de Morais (que, ao que se sabe, não era opiómano…), furioso por não ter sido nomeado Capitão dos Portos, declarava o seu ódio à cidade demitindo-se da Marinha e exilando-se em Kobe, no Japão. Em Macau, deixaria apenas testemunhos literários, em forma de ofício, nos arquivos da Capitania e filhos bastardos.

Todos estes ilustres personagens que perpassaram pelas suas calçadas portuguesas e bazares chineses, constituíam já para Macau, no dealbar do século XX, um palmarés invejável (afinal, Angola, até aquela data pouco mais tinha tido do que a sonante presença do Zé do Telhado).

No entanto, o desfile das letras nacionais prosseguiria, sempre renovado, pelos anos vindouros.

Joaquim Paço D’ Arcos (o escritor do regime, como era chamado no tempo de Salazar), dava os primeiros passos na vida e na literatura nessa colónia portuguesa do Oriente, mais ou menos por alturas em que Gomes da Costa, o fundador do Estado Novo, aprendia o ABC no seminário de S.José, instituição de letras que descendia da primeira universidade Ocidental em toda a Ásia, erguida em Macau no século XVII. (Aqui, interrogo-me sobre a contribuição dos padres do seminário na formação ideológica do futuro Marechal, e em que medida ela terá influído no próprio Movimento do 28 de Maio, pois, que me conste, nada há publicado sobre a matéria).

 

Tenacidade diletante da inteligência nacional

 

Entretanto, e do que atrás fica dito, poderá apenas concluir-se que, enquanto as outras colónias portuguesas eram pasto da cobiça nacional e internacional por via das suas exaltadas riquezas, a minúscula Macau sobrevivia mercê da tenacidade diletante da inteligência nacional, transfigurada em funcionários públicos ultramarinos, oficiais da Marinha e do Exército em comissão de serviço e burocratas locais, que teimavam em manter viva uma cidade improvável que, passada que foi a fabulosa, mas fugaz, era da prata do Japão e das sedas de quinhentos, só conheceu, de forma perene, a crise económica, facto que, desde sempre, espantou os cronistas estrangeiros que demandavam tais portos.

Assim é que, ainda hoje, os pragmáticos ingleses se interrogam como é que Portugal, sem exército nem força nem inluência política, teve a ousadia de se estabelecer – e permanecer – tão longe, em território que nunca poderia albergar heróis como Mouzinho (já que nada havia a pacificar) ou Serpa Pinto (tendo em conta a própria exiguidade geográfica que, à partida, invalidava quaisquer valorosas expedições – Macau, no seu maior comprimento mede apenas quatro quilómetros)…

Os ingleses, esses sim, possuíam forças navais e faziam juz à sua condição de superpotência, arrebatando para si Hong Kong (a menos de cem quilómetros do território português) a tiros de canhão, em 1841, e em poucas dezenas de anos ali estabelecendo um impório económico internacional, que obliterou Macau como porta exclusiva de entrada e saída para a China.

Nesses anos iniciais, apenas um pintor irlandês de nome George Chinnery (perseguido por credores desde Dublin a Bombaim) se recusou a acompanhar os opulentos negociantes britânicos no seu êxodo para a sede da nova riqueza que nascia em Hong Kong, preferindo morrer em Macau. Chinnery sabia que, apesar de tudo, a cidadezinha portuguesa não morreria com ele.

Desde o início da decadência da cidade – que, simbolicamente, coincidiu com a Restauração da Independência em 1640 – Macau mergulhou na crise, à qual subsistia ano após ano, pode dizer-se, no fio da navalha. Vezes incontáveis a cidade foi isolada, privada de abastecimentos e comunicações, na eminência de se ver varrida do mapa. No entanto, a História sempre encontrou uma forma de salvar o Território. Umas vezes, para tanto bastava o golpe de génio de um qualquer diplomata improvisado que encontrava a fórmula exacta de aplacar as iras do Vice-Rei de Cantão; outras, por via de uma das várias revoluções que, amiúde, rebentavam na China, transformando Macau em cidade-asilo de milhares de refugiados que, regressados às suas cidades no País do Meio mal passava a tormenta, não esqueciam a pequena urbe que lhes dera abrigo. O próprio Sun Yat-sen, primeiro Presidente da República chinesa foi um desses refugiados da colónia portuguesa, para onde fugiu para se salvar da decapitação certa às mãos dos torcionários do imperador, em 1895, nunca se tendo esquecido dos amigos que o albergaram e da conivência das autoridades locais, graças à qual pôde escapar dos seus carrascos.

Uma ou duas vezes na sua história, Macau salvou-se pela intervenção das potências coloniais que, para não perderem Hong Kong ou Xangai, se viam na necessidade de defender o bastião português, ainda que relutantemente . Em todos os casos, porém (e ao contrário das outras colónias nacionais e estrangeiras) nunca a força das armas foi decisiva para manter a permanência portuguesa nas paragens da China. Aliás, na história das crises mais recentes, fica bem expresso no anedotário local a sobreposição do diálogo ao factor militar. Durante a II Guerra Mundial, os japoneses ocuparam toda a China – incluindo Hong Kong – poupando apenas a pequena Macau, porque pertencia a uma neutral Lisboa. No entanto, um comando militar japonês instalou-se na cidade e um anel de ferro estabeleceu-se à sua volta, asfixiando-a. Os dois ou três mil soldados da guarnição local pouco mais podiam fazer do que assumir que nada de anormal se passava, cumprindo as rotinas de tempo de paz, enquanto à volta se ouvia o deflagrar dos obuses e os tiros das metralhadoras e, na cidade que crescia num ápice (de cem mil para mais de um milhão de habitantes) a peste, a fome e a guerra faziam lembrar os tempos mediavais. Neste contexto, por mais de uma vez, pequenos incidentes urbanos envolvendo militares japoneses estiveram à beira de constituir os pretextos desejados pelo alto comando nipónico para bombardear e invadir o Território, à semelhança de Timor. Mas a cidade tinha uma arma secreta : chamava-se Pedro José Lobo. Originário, precisamente, de Timor, funcionário público, folgazão e compositor nas horas vagas era, para além de Chefe dos Serviços de Economia, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros a quem o governador recorria, graças aos seus múltiplos contactos que o faziam amigo de toda a gente – incluindo dos japoneses.

Nas alturas de crise, essa figura que hoje tem mais de mito (como Camões) que de realidade, descia à cave de sua casa, armava-se de algumas garrafas de Vinho do Porto de colheita especial, dirigia-se ao alto comando Imperial do outro lado da fronteira e, entre dois fados que acompanhava à viola, e alguns cálices de boa cêpa do Douro, acabava por convencer o general japonês de que teria muito mais a ganhar em poupar obuses, do que arriscar-se a destruir uma tal adega. Estas surtidas de Pedro Lobo  revelaram-se sempre coroadas de êxito até ao fim da guerra, preservando Macau (ao contrário de Timor que, se tivesse tido um filho assim, teria talvez sido poupada à ocupação nipónica e ao sacrifício de D. Aleixo).

Os louros da sagaz neutralidade de Macau, sabiamente mantida, foram, claro, direitinhos para a política externa de Salazar, eximindo o pequeno Pedro Lobo da ribalta da história. E como não havia nenhum Tolstoi para retirar os créditos ao marechal Kotuzov e dá-los a um qualquer capitão de artilharia, à semelhança do romance, o Chefe dos Serviços de Economia perdeu-se no anonimato nacional, por falta de cronista à altura.

Depois da hecatombe mundial, o curso dos acontecimentos rapidamente se alterou: Mao Tsé-tung libertou a China das férreas correntes do seu passado feudal e, mais uma vez, Macau se transformou em azilo dos vencidos de nova convulsão. No entanto, Lin Piao, com o seu Oitavo Exército de Campanha, que erradicou o Sul da China dos nacionalistas, parou junto às Portas do Cerco… O País do Meio continuava a respeitar o território português, apesar da liminar recusa de Salazar em reconhecer o novo regime de Pequim. No entanto, na sequência da primeira visita a Macau de um Ministro do Ultramar e do seu discurso proferido no Leal Senado, em que garantiu que o Território permaneceria como sempre foi, incidentes fronteiriços estalaram (1952), resultando do tiroteio a morte de dois ou três soldados africanos portugueses (landins de Moçambique) e de uma dezena de chineses. Só Pedro Lobo (ainda ele…) conseguiu aplacar a ira vermelha: afinal, que significavam tais baixas num exército constituído por milhões? (A China apenas pretendia demonstrar que o futuro de Macau não dependia de um discurso de qualquer ministro, mas tão somente exclusiva vontade). No final (e de novo) Pedro Lobo acabou por levar a melhor – embora os seus nóveis interlocutores não soubessem o que era o vinho do Porto.

Lisboa pediu desculpas públicas pelo incidente (apesar de a censura nada tivesse deixado transpirar em Portugal) e a história seguiu em frente, transformando Macau no principal ponto de apoio à entrada de tecnologia militar de ponta para as forças militares da Coreia do Norte, apoiadas pela China e conduzidas por Kim Il Sung, na sua guerra contra os “fascistas” do Sul da península e os seus aliados americanos.

No Palácio da Praia Grande, o governador, Almirante Marques Esparteiro, fiel de Salazar, preferia ignorar tudo, incluindo o bloqueio internacional da ONU a Pequim. Entretanto, parece ter sido neste ponto da história (1953) que a China de Mao Tsé-tung se apercebeu da verdadeira importância de Macau como porta discreta de contacto com os inimigos, com os quais não convinha manter, a nível formal, qualquer espécie de laços (repetindo-se, assim, o contexto histórico do século XVI, no que às relações entre chineses e japoneses diz respeito). Daí, talvez, também a razão de Pequim em entender não ser ainda azado o momento de reivindicar Macau para a sua soberania, como algumas décadas antes os nacionalistas de Chiang Kai-chek tinham tentado fazer.

Macau sossegou, então, mais de uma década até que, em 1966, a “Revolução Cultural” tomou conta do país.

 

A Revolução Cultural

 

Para a mentalidade ocidental, a “Revolução Cultural” era apenas um desenvolvimento da “teoria maldita” de Trostsky sobre a Revolução Contínua, mas, para a China, tratava-se de algo muito diferente, que se consubstanciaria (provavelmente, e em parte) nas teorias daquele revolucionário bolchevista de 1917, crente no papel exclusivo da classe operária, só que aplicada a um país de camponeses (o que Estaline nunca aceitou e que terá, talvez, gerado o desfecho final. de confusão…)

Macau viu-se, pois, envolvida, em finais de 1966, na convulsão universal.

Foi nesta conjuntura caótica – um governo colonial defendido por escassas forças militares e policiais, confrontado por uma população hostil de milhares e milhares, aguerrida e vociferante – que o novo governador do Território, o brigadeiro Nobre de Carvalho, chegou a Macau, sem ter sido prevenido do que se passava. Só à sua chegada a Hong Kong é que viria a ser informado da situação que o aguardava, e porque o governador da vizinha colónia britânica lhe perguntou quais as ordens que trazia do governo de Lisboa para tentar solucionar o conflito… Nobre de Carvalho, colhido de surpresa, confessou não ter trazido ordens nenhumas, por ignorar o que se passava…

Mal chegado ao território que iria governar, o brigadeiro ficou remetido ao seu gabinete do Palácio da Praia Grande frente ao qual, durante dias seguidos, turnos de guardas vermelhos das escolas chinesas da colónia se revezavam, empunhando o livro vermelho e recitando pensamentos de Mao Tsé-tung, enquanto nas ruas as manifestações se sucediam. A situação agravou-se, entretanto, com a declaração da lei marcial e a saída das tropas para a rua, saldando-se os confrontos na morte de oito pessoas. Nessa altura, como afirma o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, a China poderia ter-se apoderado de Macau «nalgumas horas, quase sem disparar um tiro».

Mas não o fez. Preferiu que Portugal pedisse de novo desculpas públicas, indemnizasse as famílias das vítimas e expulssasse as organizações nacionalistas de Taipé, para além de outras imposições menores – ou apenas simbólicas, como foi a de retirar os cassetetes à polícia local. Com isto os colonialistas perdiam a face (forma muito oriental de humilhação) e Pequim não era obrigada a chegar às últimas consequências, que significariam a ocupação final.

Entretanto, em Lisboa e tal como em 1952, a censura encarregou-se de fazer com que a capitulação portuguesa na colónia não fosse conhecida no país. De facto, para Salazar, já bastava a perda de Goa e o irritante bom senso do general Vassalo e Silva…

Depois de 1966, nada voltaria a ser como dantes. A revolução comunista passou a ser comemorada com mais pompa e circunstância em Macau, requerendo a partir de então a presença do governador (que fazia brindes à prosperidade da nova pátria do socialismo), enquanto a data do Duplo Dez (revolução republicana de 10/10 de 1911, cara aos nacionalistas de Chiang Kai-chek) deixava de constar do calendário oficial e de contar com a presença do governador.

As autoridades da RPC (República Popular da China), através de uma companhia comercial estatal (a Nam Kwong), passaram a constituir-se como consultoras obrigatórias em todas as decisões importantes que o governador pretendesse tomar, enquanto a bandeira de listas azuis e brancas com o sol, dos nacionalistas, era substituída pela vermelha, vogando a par da das quinas, e sendo ambas hasteadas aos domingos nos departamentos públicos (há quem diga que Macau teve, então, e com oito anos de antecedência, o seu 25 de Abril).

Para a RPC, a questão de Macau ficava definitivamente arrumada em finais de 1966. A sua soberania tornava-se, desde aí, inegável, sendo apenas uma questão de tempo o encontrar o momento azado para reaver a administração do que era já, na realidade, uma ex-colónia portuguesa. Mas, para isso, não havia pressa. O aluguer dos Novos Territórios de Hong Kong, pela Grã Bretanha, terminava em 1997. Uns anos antes, civilizadamente como conviria a um país da ONU, a RPC poria o problema a Londres e, por arrastamento inevitável, a Lisboa. Daí não ser de estranhar que, na sequência do 25 de Abril, Pequim decidisse fazer orelhas moucas à generosidade da nascente democracia portuguesa, recusando amavelmente a devolução de Macau. Não porque não a quizesse, mas, simplesmente, porque ainda não tinha chegado a altura.

Entretanto, Macau libertou-se subitamente das peias de uma legislação colonial que a asfixiava. Afinal, tinha eclodido em Portugal a primeira revolução que não pretendia manter impérios coloniais, nem centralizar poderes no Terreiro do Paço. Logo que tal orientação se tornou sensível, as forças económicas actuaram, inciando rapidamente um processo de desenvolvimento sem paralelo, apoiado na acção transformadora da legislação colonial implementada pelo governador Garcia Leandro, jovem major nomeado para o efeito pelos capitães de Abril.

Com a chegada do governador Almeida e Costa (1981), processou-se a segunda fase do salto para o futuro, baseado na instalação de infraestruturas modernas, capazes de tornar Macau uma cidade viável, que não baseasse a razão da sua existência apenas no jogo, cujo monopólio foi concedido, desde os idos de 70, a uma sociedade anónima de que Stanley Ho, o conhecido milionário chinês, constituiu desde sempre o cabeça de cartaz.

Contra ventos e marés, o contra-almirante na reserva conseguiu pôr em prática os seus planos, e Macau transformou-se, deixando de ser, em dois ou três anos, o território sonolento e estagnado que o filósofo social Bernard Henry-Levy descreve no seu livro «Impression D’ Asie».

Mas Almeida e Costa foi o último governador colonial de Macau. Na sequência da eleição de Mário Soares para a chefia do estado, Portugal assinava, em 1987, uma declaração conjunta com a China, que mudaria por inteiro as perspectivas de futuro.

De um momento para o outro, uma população de cerca de meio milhão de pessoas apercebeu-se de que a fórmula política de Deng Xiao-ping “um país, dois sistemas“, não era apenas uma frase retórica como as que tinham servido a China durante mais de 20 anos, e sim um conceito que iria mexer com a vida de todos. Para a maioria chinesa (visceralmente avessa à revolução de 1949, mas essencialmente pragmática) o conceito passava a ter uma importância crucial, tornando-se imprescindível que a fórmula vingasse, na prática. Para tanto, era necessário que os “compatriotas ultramarinos” (designação dada oficialmente aos chineses que vivem em Macau, Hong Kong e noutras comunidades estrangeiras que não estejam a soldo de Taipé) mostrassem que o seu capitalismo podia contribuir para o desenvolvimento do povo Han.

Para os chamados macaenses (uma comunidade resultante do cruzamento de portugueses, chineses, malaios e indianos, quase todos funcionários públicos) não havia, contudo, ilusões: não se tratava do fim de uma era, mas sim do fim do Mundo. Tendo cultivado durante séculos um portuguesismo por vezes exacerbado, chegara o doloroso momento de optarem por Portugal, pátria que muitos nunca viram. Isto, somente porque a China, ignorando-os, apenas admitia a existência de chineses e portugueses, em Macau. Tão dada a subtilezas, a China não podia admitir a existência de tais gentes, nem de um terceiro povo que pudesse consubstanciar uma cidade-estado (como Singapura), e provocar eventuais sentimentos separatistas na vizinha Hong Kong (onde, no entanto, o colonialismo britânico – intrinssecamente racial – nunca forjou qualquer comunidade mista).

Mas, Pequim, a capital dos provérbios, adoptou neste ponto da história o dito ocidental «Cautela e caldos de galinha…», não fosse o vírus da subversão espalhar-se pela sua província mais recalcitrante – Cantão – que, por muitos anos, chegou a ser república independente (e, em certa altura mesmo, a alimentar esperanças de transformar o país em nação federalista).

 

1999

 

A menos de 7 anos da sua integregração na RPC sob a designação de Zona Administrativa Especial (ZAE), Macau prepara-se não para uma nova existência, mas para mais uma acomodação, sensata e pragmática. Os homens que, aos 20 anos, estiveram com o Kwomintang, deixaram falecer os seus ardores nacionalistas com o partido que, actualmente, se esboroa aceleradamente em Taiwan (Formosa), sendo hoje membros da Comissão Consultiva Popular da RPC, em Cantão e Pequim.

A segunda geração (que não conheceu os antagonismos sangrentos da guerra civil e da Longa Marcha) gere agora empresas e dirige bancos em Macau, não deixando, no entanto, de comparecer rigorosamente às reuniões da Assembleia Nacional Popular (órgão legislativo máximo da RPC). Quarenta e cinco anos depois da revolução, pertencer ao Partido Comunista já não é, em Macau, filiar-se no opróbio, nem uma opção clandestina. Simultaneamente, apertar a mão, em cerimónias públicas, aos homens do Kwomintang deixou de ser, há muito, uma traição ao povo, demonstrando apenas que os chineses não se dividem por partidos, e provando, porventura, que a Frente Popular não era só produto da propaganda maoista. Ao mesmo tempo, porém, a mesma comunidade (que representa mais de 95 por cento dos habitantes locais) não se esquece que deve a sua identidade à presença dos diabos ocidentais. Por isso, pactua com a administração, mesmo quando os actos desta lhe parecem demasiado alienígenas para o seu gosto chinês.

Quanto aos quatro ou cinco por cento não-chineses, o futuro divide-se entre os que, criados num mundo antigo que hipervalorizava Salazar, se recusam a aceitar a realidade, fazendo as malas com destino à pátria (que muitos apenas conheceram dos livros) e os que acreditam que Macau permanecerá uma “entidade política” como sempre foi. Os restantes, funcionários e militares em comissão de serviço, nada têm verdadeiramente a dizer sobre o drama secular, que consuma mais um acto: no final dos contratos – e antes de 1999 – regressarão à Metrópole sem traumas nem angústias particularmente importantes, para além das que lhes são exclusivamente particulares.

Para alguns arautos da desgraça (ou, talvez, apenas cultores do fado), a data de 1999 constitui a fronteira infernal da dissolução pátria de que falava o Velho do Restelo, pois se «nem sequer se fala português em Macau!…», exclamação do escandalizado turista, tetra-neto do dito “Velho”, que passa pela cidade dois ou três dias, nas férias de Verão, a meio de um tour que o levou a paraísos “muito mais interessantes” como a Tailândia (onde encontrou imitações pefeitas das melhores marcas mundiais de relógios, malas e  perfumes), ou mercados como o de Hong Kong (onde descobriu a aparelhagem Sony dos seus sonhos a um preço impossivelmente barato) e que, chegado a  Macau, já não encontrou nada que valesse a pena comprar.

De facto, em Macau (e por muito que se diga em contrário), o português é uma relíquia muito mais frágil do que a vetustez do granito das Ruínas de S. Paulo, que resistiram durante mais de dois séculos aos tufões e ao abandono.

Mas (por falar em turistas…), um dia, um casal português recém-chegado à capital da Malásia, jantava num restaurante do aeroporto de Kuala-Lumpur, quando um dos empregados perguntou, curioso, qual era a sua nacionalidade: «Espanhóis? Gregos? Paquistaneses?». O casal respondeu que era português. «Português? Tenho um colega que também é português», respondeu o empregado enquanto se apressava a chamá-lo nos fundos da cozinha. O casal, enquanto prosseguia a sua refeição, esperava a chegada de um qualquer transmontano ou minhoto, que tivesse preferido os confins do Oriente às promessas de França ou da Alemanha. Para grande espanto de ambos, porém, surgiu-lhes um malaio de olhos oblíquos e facies negro curtido pelo sol dos trópicos, que, sorridente, disse em inglês: «I am Portuguese. I was born in Malaca, in the Portuguese settlement!»

Como é que, quatrocentos anos depois de Albuquerque, um Malaio (quiçá apenas distinguível dos seus compatriotas muçulmanos e budistas por um pequeno crucifixo ao peito) tem ainda o prazer e o orgulho de se considerar português? Talvez apenas as malhas que o império tece…

Assim, se a comunidade portuguesa de Malaca sobreviveu à ignorância de Lisboa e ao preconceito dos seus compatriotas malaios, por maioria de razão Macau há-de sobreviver.

Para o português médio (absorvido pelo seu quotidiano feito de pressa, ensombrado por pesadelos inomináveis que se materializam em iniciais temíveis como IRS e IVA, ou em expressões cabalísticas como retenção na fonte, passe semanal, fundo de desemprego e quadro de excedentes) Macau nada significa. Quando muito, terá a importância de um título menor de um qualquer jornal diário que se lê, de relance, às oito da manhã no combóio de Sintra. Para Portugal, porém, Macau pesa mais do que a consciência nacional. Pena é que ninguém se preocupe com isso…

 

João Guedes

Macau e o centenário da República

Sun-Yat-sen-1912

“Macau nunca faltou à Pátria em tempos severos, ou prósperos”. As sábias palavra do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, proferidas na sua última visita a Macau, aqui consubstanciadas livremente na sua ideia mestra, são o merecido reconhecimento do papel que o exíguo território chinês desempenhou como parceiro, ainda que humilde e pequenino, mas simultaneamente grande. Um papel que vale a pena recordar no ano em que se comemora o centenário da instauração da República na China e do seu primeiro Presidente, Sun Yat-sen. Um herói universal, reivindicado pelas esquerdas e pelas direitas, e figura que foi genuinamente um produto da iniludível singularidade histórica de Macau. A influência de Macau na proclamação da República da China, em 1911, é tanto evidente quanto mal conhecida universalmente. Isso deve-se à quase total ausência de estudos em língua portuguesa e a sua subsequente divulgação global. Ao contrário, a importância de Hong Kong na queda da dinastia imperial Manchu é sobrestimada precisamente pelo oposto, ou seja, pela abundância de bibliografia. O que existe em inglês dispersa-se por milhares de livros e outros tantos estudos académicos especializados, artigos de jornal, documentários de televisão e excertos na “blogosfera”. Sei lá que mais! Em português, o tema não chegará para ocupar prateleira inteira de uma pequena biblioteca particular. Certamente que ainda não ocupou minuto algum no “Canal de história” (ou Memória, não sei…) da RTP, por exemplo. Uma parte significativa dos revolucionários da segunda metade do século XIX e início do século XX que contribuíram para a implantação da República da China, em 10 de Outubro de 1911 (e numa segunda fase, para a instituição da República Popular em 1 de Outubro de 1949), era originária da província de Guangdong, com destaque para a figura incontornável de Sun Yat-sen.

Sun nasceu numa pequena localidade a pouco mais de 30 quilómetros de Macau, a 12 Novembro de 1866, numa família de etnia Hakka na aldeia de Cuiheng, no distrito de Xiangshan, mais tarde rebaptizado Zhongshan em sua honra. Em Macau, viveria durante vários períodos da sua vida. Aliás, o próprio reconheceu que foi por cá que ganhou consciência social. Mal concluiu o curso de medicina, em Hong Kong, passou a residir na então colónia portuguesa, exercendo clínica no Hospital Kiang Wu. Abriu na rua das Estalagens um consultório e uma farmácia. Esteve também à frente de uma outra “botica” – o mesmo que as antigas “pharmácias” – numa das pequenas casas térreas da Santa Casa da Misericórdia há muito demolida para dar lugar à sede dos Correios, Telégrafos e Telefones, em 1929, no Largo do Leal Senado. Sun afirmava que a militância política se sobrepunha ao exercício da sua profissão. De facto, em Macau, onde passava férias ou visitava grande parte da família que por cá residia, formaria o que ficou conhecido como o “bando dos quatro”. Uma espécie de tertúlia impulsionadora da formação de “clubes de leitura”, que incentivavam a população à leitura de jornais, revistas e livros, e levava a cabo sessões de propaganda política, aproveitando a disponibilidade dos teatros da cidade, juntamente com Yan Heling, Chen Shaobai e You Li. Todos cantoneses e nomes sonantes na história moderna da China. Estes teatros, diga-se, durante um certo período, foram muito mais palcos de realização de entusiásticos comícios do que centros de divulgação da “arte de Talma” ou da sétima arte nascente com o animatógrafo. Numa sessão que ficou célebre, os numerosíssimos presentes cortaram simbolicamente as tranças, um adorno capilar obrigatório de todo o povo chinês durante a última dinastia imperial. A sessão solene e politicamente entusiástica do corte contou com mais de duas centenas de tesouradas enérgicas. A juventude de Macau, entusiasmada pela propaganda de Sun e dos seus correligionários, decepava a trança odiada, num gesto que significava muito mais. Era deitar por terra um passado humilhante de quase um século, período durante o qual a China tinha sido submetida a todos os ditames do ideário mercantilista do “laissez faire, laissez aller, laissez passer”, comércio livre imperialista durante o qual o dinheiro foi quase tudo e a moral quase nada. Cortar a trança nesses tempos bárbaros poderia levar à pena de morte de acordo com o estabelecido pelo regime Qing. Tendo isso em conta, o acto de rebeldia que se repetiu nas outras colónias ocidentais das costas da China, e também em Singapura, Indochina, Malásia e Indonésia, onde a emigração chinesa era pujante, foi por demais significativo. Toda a bacia ocidental do Pacífico era um porto global aberto ao mundo. No entanto, os dois pontos de verdadeiro contacto da China com as ideias ocidentais eram, essencialmente, Macau e Hong Kong pela situação geográfica. Aí situavam-se verdadeiramente os baluartes que poderiam, para o bem ou para o mal, transformar ou perder o país. As actividades subversivas na vizinha colónia britânica contra a monarquia Manchu eram rigorosamente vigiadas pelas autoridades inglesas. Ao contrário, em Macau a permissividade oficial nesse campo era notória. Portugal contemporizava, como sempre fez ao longo da sua história, em matéria de “negócios estrangeiros”. Essa situação permitiu que, ao longo das duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX, um dos principais centros de apoio às correntes de oposição aqui estivesse sedeado. A tempo inteiro ou sempre que a conjuntura prevalecente assim o determinasse. Em Macau viveram nessa época alguns dos vultos mais destacados que a Nova China haveria de produzir. Igualmente aqui se publicavam os jornais de oposição proibidos para lá das Portas do Cerco e também em Hong Kong. Esses jornais derivavam de várias orientações políticas, desde os liberais, que apenas pretendiam a reforma da monarquia, até aos que se proclamavam abertamente anti-monárquicos. Os socialistas e sociais-democratas aqui imprimiam igualmente os seus órgãos de propaganda, com destaque, numa primeira fase, para os anarquistas. Os periódicos eram escritos e impressos nas tipografias locais. Umas legalmente estabelecidas, outras clandestinas (o governo português sabia o que se passava, mas pouca conta oficial dava dessas diferenças – deixava andar!). Posteriormente, eram distribuídos no Interior através, principalmente, da inextrincável rede de “tríades” que dominava o país de então. A sua circulação não se limitava às fronteiras de Guangdong. Chegava aos grandes centros urbanos incluindo Xangai, Pequim e Tianjin, e ainda mais longe: ao Sudeste Asiático, à Austrália, aos EUA e mesmo à longínqua Europa, com destaque para a França. No período da implantação da República na China, a maçonaria portuguesa encontrava-se extremamente activa e actuante não só em Macau, mas também em Cantão, Xangai e nas Filipinas, para não falar no distante Havai, onde Sun Yat-sen e um sem número de resistentes chineses possuíam laços políticos e de sangue iniludíveis. Em Macau, os maçons eram umas quantas figuras civis e militares, revestidas de diversos graus de responsabilidade institucional, incluindo os chefes máximos da administração – governadores, secretários-gerais e chefes de repartição. Nessa conjuntura, a maçonaria funcionava como organização supranacional que politicamente tudo coordenava, superando as rivalidades existentes entre facções na China e entre os interesses por vezes opostos das potências coloniais presentes no intrincado xadrez político-militar prevalecente. Na maçonaria de Macau, concentrada na Loja Luís de Camões II, tal como em Portugal, o republicanismo dominava claramente. Esta terá sido outra das razões que explicam a cumplicidade da colónia nas actividades subversivas contra a “Dinastia Celestial”. Alguns maçons apoiavam porque eram republicanos, outros porque eram monárquicos constitucionais, outros ainda porque estavam rendidos ao progresso imparável das “luzes” do século XIX, ainda que não sendo nem uma coisa nem outra. Todavia, para todas as tendências, a China era uma monarquia absoluta que não congregava as simpatias de ninguém. Nesse âmbito, é de salientar circunstancialmente a figura de Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de diversos jornais, que se tornou ponte de contacto proeminente entre os republicanos chineses das mais diversas matizes e as autoridades locais durante mais de duas décadas. Foi Francisco Fernandes que acolheu Sun Yat-sen em Macau após a sua primeira e malograda tentativa de revolta contra o regime, em 1895, organizando-lhe a fuga ulterior para o Japão. Há correspondência conhecida entre Fernandes e Sun, que revela que, além do grau de amizade pessoal, partilhavam os mesmos ideais políticos e particularmente laços “iniciáticos” evidentes. Nessa conjuntura de dobragem de século, por Macau passaram ainda muitos ideólogos e activistas chineses de grande renome nacional. Destaque para Zheng Guan Yin, autor de várias obras que reflectiam as correntes mais modernas do pensamento filosófico, político, social e económico do mundo positivista do “século da luzes”. Essas obras foram escritas e publicadas inicialmente em Macau, já que em Hong Kong tal feito seria impossível. As autoridades vizinhas controlavam muito de perto todas as actividades subversivas dirigidas contra Pequim e o seu regime, já que não pretendiam pôr em causa enquanto o “Celeste Império” estivesse disposto a ceder às imposições diplomáticas ditadas por razões essencialmente comerciais de “Sua Majestade Britânica”. Ainda bem que se restaurou ali perto da Fonte do Lilau a casa onde viveu essa grande figura que tanta influência teve no dealbar da Nova China. Uma outra personalidade bem menos conhecida – mas que registou influência determinante num certo período ainda que relativamente curto da história contemporânea – foi Liu Shifu, o nome mais proeminente do anarquismo no extremo-oriental do mundo. Liu era o principal redactor do jornal A Voz do Povo, dado à estampa simultaneamente em chinês e esperanto. Nas sua páginas constavam os grandes manifestos de Kropotkin, Bakunin, Tolstoi e outros anarquistas. Mas também niilistas como Turgeniev, o grande romancista russo, autor de “Pais e Filhos”.

 

Liu Shifu, que morreu prematuramente (tinha 31 anos, em 1915), desvaneceu-se na penumbra da história das ideias políticas face à ascensão imparável do marxismo-leninismo. No entanto, o seu ideário deu corpo à fugaz independência de Cantão que perdurou sob a dupla égide de Sun Yat-sen e Cheng Chiu Meng entre 1913 e 1925. Liu Shifu vagueou clandestino e a fugir à polícia muitas e muitas vezes pela rua das Estalagens, pelo Pátio da Mina, pela rua da Esperança e pelo Auto Novo. Enfim, pelas vielas que só não estão hoje desaparecidas porque o centro histórico de Macau foi preservado, graças à inclusão na lista de Património Mundial pela UNESCO. Finalmente, a subalternização de Macau como ponto relevante de influência sobre o pensamento político republicano e socialista chinês se deve não só à falta de estudos sobre a matéria em língua portuguesa, mas principalmente ao verdadeiro tiro de partida disparado com fragor mediático pelo mundialmente famoso cientista britânico James Cantlie. Devido essencialmente ao facto de ser maçom, Cantlie, reputado especialista de medicina tropical e antigo professor de Sun Yat-sen em Hong Kong, pontificava por isso nos círculos académicos internacionais. Mas estava essencialmente nos clubes sociais e políticos de Londres (tradicionalmente o chefe da maçonaria inglesa era sempre um membro da família real). Assim, foi capaz de forjar os apoios necessários para fazer saltar a figura de Sun Yat-sen de revolucionário mal conhecido, mesmo em Macau e Hong Kong, para o patamar de herói de projecção internacional, alcandorando-o à estatura de Mustafá Kemal Ataturck, na Turquia. Isto num momento em que Ataturck, figura disputada como ícone do futuro entre a Inglaterra, Alemanha e França (ainda que esta em menor grau), parecia não deixar campo para a ascensão de novos heróis mundiais, fosse nos telegramas da agência noticiosa Reuters ou nos artigos de fundo do londrino Times, que regiam a opinião pública mundial. Para isso concorreu indubitavelmente o lançamento da primeira biografia sobre o então obscuro médico cantonense: Sun Yat-sen and the Awakening of China, obra escrita por Cantlie em parceria com o jornalista Sheridan Jones. Foi um êxito estrondoso em todo o mundo. Creio que não existe tradução portuguesa desse livro, o que não deixa de constituir uma interrogação sem resposta cabal. Terá sido omissão politicamente motivada e intencional, pela conjuntura geopolítica do tempo, ou negligência histórica pura e simples? Inclino-me mais para a segunda hipótese. Neste ponto convém esclarecer, em abono da justiça, que em Sun Yat-sen and the Awakening of China as actividades de Sun Yat-sen em Macau não passaram em branco. Vale a pena ler histórias sobre cirurgias de extracção de cálculos renais – então uma inédita e hodierna inovação da medicina europeia e americana, que Sun praticava no hospital Kiang Wu sob a égide de Cantlie. Ali não eram bem os méritos da medicina ocidental que se provavam, mas significativamente as possibilidades práticas de curar os males sociais de uma nação inteira com novos métodos, ainda que em rota de colisão com a tradição milenar de Confúcio. Várias personalidades portuguesas de relevo de Macau estiveram em estreito contacto não só com Sun, mas com os seus correligionários, restando saber até que ponto o pensamento político dos republicanos chineses terá sido influenciado, ou até eventualmente moldado, por via desses contactos. Lou Lim Yok, Leong Kai Shio ou Shen Shaobai salientam-se do lado chinês. Horta e Costa, Carlos da Maia, Rodrigo Rodrigues e Álvaro de Melo Machado destacam-se do lado português. Outras figuras menos estudadas que no território viveram essas exaltantes épocas de militância política tiveram também papéis relevantes, como Damião Rodrigues, Vicente Jorge, o advogado Basto e o ainda hoje enigmático Leôncio Ferreira, este que pontificava em Xangai e foi agraciado com a “Torre e Espada”, a mais alta condecoração militar portuguesa, embora sempre tivesse sido um civil de gema. Possui uma pequena rua com o seu nome em Macau. Contudo, não se sabe ao certo o que fez, já que ninguém traçou-lhe uma biografia. Mas, certamente, coisa importante protagonizou no que toca ao relacionamento entre Portugal e a China. As actividades dos agentes do Komintern em Macau nos anos 20 foram, em certos aspectos, tão determinantes como envoltas no segredo em que ainda hoje se encontram e que permanecem por estudar a fundo. Também na formação do Partido Comunista da China Macau desempenhou papel de relevo e não pequeno. A fortíssima ligação a Macau do marechal Ye Jiening, presidente da República nos tempos de Deng Xiaoping, prova-o à saciedade. Aqui se refugiou mais do que uma vez e diz-se mesmo que, nos tempos caóticos da revolução cultural, em caso de emergência Ye Jiening e os principais líderes do PCC contariam com o território como último reduto de exílio e resistência. Não restam dúvidas de que Macau, se não funcionou como peça única na formação do pensamento político dos republicanos e comunistas chineses, foi, indubitavelmente, o cadinho, conveniente e discreto onde se forjaram alianças, se atingiram consensos, se delinearam grandes projectos e se arbitraram conflitos em campo neutro e nunca em pequena parte. Falta estudar com mais acuidade a relevância e influência resultante dos contactos entre os dois lados – português e chinês, diplomático e particular. Além das fontes e nomes que deixei citados, falta também vasculhar arquivos em Portugal, mas igualmente (diria primordialmente) na China onde, provavelmente, muito do que não se sabe se guarda e aguarda apenas a consulta de quem os queira, ou possa, esmiuçar e retirar conclusões do que se vier a conhecer. Creio que, se esse empreendimento for levado a sério e de uma forma sistemática, talvez se possa saber com mais ciência certa se o facto das repúblicas em Portugal e na China terem sido proclamadas com a pequena diferença de um ano foi apenas mera coincidência histórica ou bem mais do que isso. O agradecimento de Sun Yat-sen em carta ao Governador Carlos da Maia (no poder entre 1914 e 1916) revela bem até que ponto Macau, pequenino território da grande China, nunca pecou por abstenção. Sun agradecia sobretudo o apoio inequívoco que o então Governador concedeu aos republicanos chineses num dos mais incertos e conturbados períodos da história, quando Yuan Chi-kai (o presidente que queria ser imperador e só não o foi porque a morte o levou antes) ameaçava por ambição pessoal reverter a história e o progresso. A carta é conhecida. Está publicada e foi motivo de diversos comentários de abalizados sociólogos, historiadores ou meros divulgadores, tanto portugueses, brasileiros como chineses. No entanto, nenhum, que eu saiba, na imensidade de encómios que foram rendidos ao fundador da República Chinesa de 10 de Outubro de 1911, o foi em língua inglesa. É pena, mas é esclarecedor.

João Guedes

In Revista Macau, Março 2011

Weapons of Yesteryear

canhoesWeapons of Yesteryear

Portuguese cannon foundries in Macao. (October 2011)

The name Krupp is one that must be familiar to a great many people. The German weapons manufacturer has supplied equipment to armies around the world for over 400 years.

The Krupp family first appear in historical documents in 1587, when Arndt Krupp joined the merchants’ guild of Essen. Arndt, a trader, arrived in the city just before a major plague epidemic took hold. He survived to become one of the city’s wealthiest merchants, buying up properties from families who had fled the city to escape from the disease. After he died in 1624, his son Anton took over the family’s affairs. Anton became responsible for the manufacturing of cannons during the 30 Years’ War (1618–1648). This marked the start of the family’s long association with the arms industry, lasting right up to the present day.

But most people probably don’t know that the making of cannons (at least modern cannons) was not invented by the German Krupps. Far from it. The manufacture of bronze and iron cannons for use on land and sea had been developed by the Portuguese decades beforehand.

This was the technology that enabled Portugal to bring half the world into submission. Thanks to the efforts of Afonso de Albuquerque, they were able to ensure Portuguese supremacy on the trade routes to India. Albuquerque used bronze and iron cannons (especially the latter) to his advantage, to dominate the Persian Gulf. The result was a cutting of trade links between the Italian republics, Persia and the Arab countries.

He was likewise able to conquer Malacca and its strait, which allowed Portugal to control trade between Europe and the Far East for more than two centuries.

But who was responsible for making the cannon that enabled an empire to rise from nothing? Until that point Portugal had been merely a small country at the far western fringe of Europe. How could it achieve this manufacturing feat?

The answer lies in Macao. Here, a master engineer from Portugal named Manuel Tavares Bocarro set up a cannon foundry.

The Krupp family business continues today. But Bocarro’s only lasted for two or three generations. His name was lost as different business lines took over, and is only kept alive in the annals of history.

Lime, bronze and iron

Tourists who visit Macao today are taken to the St Paul’s Ruins, the Kum Iam Tung Temple and the Barra Pagoda, among many other sites. Only rarely do they venture into a small and much-changed neighbourhood nestled in the shadow of the Portuguese consul general’s residence. It lies just over 200 metres from the Praia Grande Palace, which now houses the government seat of the Macao Special Administrative Region.

Practically nothing remains of the old properties in this neighbourhood. A small 19th century two-storey building stands awkwardly beside tall, modern edifices that reach towards the sky. Few passers-by have any historical awareness of the ground they are treading on.

The neighbourhood is known locally as Chunambeiro. According to historian Charles R. Boxer in ‘Macao Three Hundred Years Ago’, the word is derived from an Indian term for the lime obtained from seashells. Indeed, oyster-shell lime kilns once stood here. It also became the site of the old artillery foundry and powder magazine run by the famous Manuel Tavares Bocarro in the 17th century.

The two-storey Ricci building that nowadays houses the “ Estrela do Mar” school has a long past. It once served as the initial base of the great English trading company Jardines & Matheson – opium traders and tea merchants. But the foundations of this yellow-painted building have borne much more history than that. This was, in fact, the location of the foundry that cast the bronze and iron cannon made by master Tavares Bocarro.

Unsung hero

A search through historical records reveals scant details of Bocarro’s life.

In 1625 Manuel Tavares Bocarro arrived in Macao. He had travelled from Goa, where he had learned his craft from his father – namely managing the family foundry. At that point the foundry was situated in Chunambeiro, next to the Bom Parto Fortress and at the foot of Penha Hill.

The foundry went on to become famous for its metallurgical techniques, where Eastern and Western expertise converged. Over the years,it produced countless cannon, bells and statues. Although we know about the cannon and bells, not a single statue is known to have survived the passage of time.

Charles R. Boxer stated that “in 1623 Dom Francisco Mascarenhas, first captain general of Macao, signed a contract with two ‘Chinas’ to cast cannon at the colony’s foundry”. He added that “the main source of supply for the Portuguese forts and fleets in India continued to be Macao. Here a Sino-Portuguese foundry was ably run by Manuel Tavares Bocarro, son of Pedro Tavares Bocarro, head of the Goa casters. They manufactured both iron and bronze cannon”.

The chronicler António Bocarro wrote the following about Macao in 1635: “This place has one of the world’s best cannon foundries, whether of bronze, which has been here a long time, or of iron, which was done by order of the Viceroy Count of Linares. It’s where artillery for the whole State (of India) is continually cast, at a very reasonable price.”

Construction of the Chunambeiro landfill is dated at 1871. In 1873 work began on extending Praia Grande Street from the Chunambeiro landfill to Bom Parto. Before then, the Barra residents had crossed Santa Sancha Hill to get to Praia Grande, one of the city’s most isolated areas, containing only a few country houses.

Arrival in Macao

Manuel Bocarro arrived in Macao in mid-1625. He worked until the end of that year as an assistant at the Caza da Fundição (Foundry House). In 1626 the foundry was freed from management by ‘two Castilians’. This meant that Manuel Bocarro was able to dedicate himself entirely to producing iron and bronze cannon. The first cannon he cast was a 36-calibre that was active for centuries on the Monte Fortress. It is known in history texts as the ‘Mandarin Artillery Piece’.

In 1627 Manuel Bocarro cast several large cannon that could shoot stone projectiles weighing 50 lb each. All the cannon were dedicated to saints: St Alphonse, St Ursula, St Peter Martyr, St Gabriel, St James, Pope St Linus and St Paul, among others. For many years they defended Macao from their fortress positions. During the Pacific War (1937–45) they were all removed, and sold to the Japanese in exchange for rice. The St Lawrence and St Ildephonsus cannon are exhibited at the Tower of London, while those dedicated to St Anthony and St Michael belong to the Woolwich Museum.

In the Jakarta Museum’s inventory, the following artillery piece is described as item no. 27012: “Cannon; once the ‘holy cannon’ of Jakarta,origin: probably cast by the Portuguese, captured by the Dutch from the Portuguese at Malacca (1641).”

The ‘Holy Cannon’ is traditionally deemed to be of Portuguese origin and has been carefully studied by M. Neyens and K.C. Crucq. The latter wrote: “Finally, I’d like to say something of vital interest regarding the Holy Cannon of Batavia. Lisbon’s military museum has a cannon presumably cast by Manuel Tavares Bocarro which was shot with the same shape as our Holy Cannon, which again confirms the Portuguese origin of the Batavia cannon. It is now most probable that this cannon was cast by Manuel Tavares Bocarro. In this regard, Bocarro used a special soldering technique that allowed him to add grips to move the pieces, as well as fittings such as the dolphin handles that even today distinctively mark his artillery pieces.”

Manuel Tavares Bocarro’s life may be an interesting subject for historians, but what he produced in iron and bronze can still be seen in various museums around the world.

Buried in history

Unfortunately, little remains of Bocarro’s life and work in Macao – the territory Bocarro operated from. Historians have only identified a small cracked bell at St Michael’s Chapel next to the Guia lighthouse. It serves as a reminder of the golden days of Bocarro’s foundry, though even this is seldom mentioned in local guidebooks.

Legend has it that nearly three centuries after Bocarro’s death, Marshal Wellington used a number of his cannon. They proved very effective in many clashes and battles during the Peninsular War (1807–14), which resulted from the French invasions of Spain and Portugal.

The discovery of the Portuguese galleon Sacramento is a notable find. It sank in 1647 while transporting a cargo of Bocarro cannon from Goa to Lisbon. In 1978 divers were able to recover these bronze cannon, which were still in good condition. They had been cast in Macao in 1640, the very same year that Portugal recovered its independence from Spain. According to Charles Boxer, it was the first large cargo of cannon transported from Macao through the Dutch blockade.

The furnaces of Manuel Tavares Bocarro’s foundry are now forever lost under the foundations of buildings that began encroaching on the slopes of Penha Hill in the 1980s. Even the Jardines & Matheson building now overlooks a reclamation area that did not exist when the great 17th century cannon and bell maker worked in the area.

The discovery of the furnaces where Bocarro’s cannons, bells and statues were cast is an impossible task. Yet it is still worthwhile to seek out that small broken bell, still preserved at the Guia Fortress, just a few short metres from the lighthouse.

 

By João Guedes in Macao

(Issue N. 9, October 2011