A História na Toponímia de Macau (II) 12-04-11

Se os ministros de Buda foram em larga medida ignorados na toponímia de Macau, a omissão estendeu-se também aos plenipotenciários de outras religiões, que não a católica, embora alguns destes se tivessem destacado na memória colectiva. É o caso de Robert Morrisson. Pastor anglicano. Morrisson viveu em Macau, em meados do século XIX, e aqui se dedicou a fazer a primeira tradução da Bíblia para chinês. Além disso, iniciou a publicação de jornais, compilou o primeiro dicionário de inglês/chinês, fez conversões e desempenhou importante papel de tradutor nas primeiras relações entre britânicos e portugueses, na China.

De espírito obstinado, desafiou o poder católico no coração do “Padroado Português do Oriente”. Sem sombra de tacto político, ou diplomático, afirmou-se ministro de uma religião abjurada pela lei católica em pleno largo da Sé. Desafiou condescendências e hospitalidades ao publicar jornais e livros à revelia do “imprimatur” do cabido (tímida e encoberta sucursal macaense da Santa Inquisição de Goa). Declarou-se amigo dos maçons ingleses (senão irmão) e desferiu a estocada final no bispo macaense ao converter meia dúzia de chineses à dissidência teológica de Martinho Lutero e João Huss (suprema heresia!…). Não admira por isso que depois de ter visto os seus jornais proibidos e de ele próprio ter sido empurrado para bordo da última fragata que deixava Macau com destino à nascente Hong Kong em 1841, Robert Morrisson fosse a única personalidade que nenhuma vereação do catolicíssimo Leal Senado pudesse considerar como capaz de apadrinhar fosse que rua fosse. A sua dissidência não lhe permitia sequer o direito a figurar num beco esconso, nem sequer num pátio, por mais recôndito. Aliás o seu nome (como que para descanso de consciências inquietas) ficava afinal perpetuado em seis palmos de terra, no cemitério protestante a dois passos do Jardim de Camões. Para a toponímia macaense parece ter bastado a lápide de granito que conserva o seu epitáfio em inglês: “HE SWEETLY SLEPT IN JESUS. HE WAS BORN AT MORPHET IN NORTHUMBERLAND, JANUARY 5TH, 1782.AND DIED AT CANTON, AUGUST 1ST, 1834”. Afinal se já tinha direito a um epitáfio gravado em granito, para que precisava de uma rua? Isto terá perguntado o bispo da diocese quando os vereadores do senado o confrontaram (se é que alguma vez o fizeram) com a irritante possibilidade de ressuscitar Morrison na toponímia.

De todos os exemplos apontados até aqui seria lícito concluir ao tal investigador do futuro que Macau sempre foi terra católica não se falando mais nisso. Quanto a budistas, protestantes e outros “items alienígenas”(?…) seriam assuntos de pormenor indicados apenas e só ao estudo dos especialistas do insólito e o insólito permaneceu apenas no Ramal dos Mouros onde se encontra a Mesquita que revive apenas, na comunicação social  uma vez por ano por altura do “Grande Prémio Automóvel” quando os automóveis fazem e desfazem a famosa curva.

No que respeita a omissões políticas fica a história exemplar do comissário Lin. Este funcionário do governo de Pequim enviado a Cantão para pôr termo ao tráfico do ópio influiu muito directamente no desenvolvimento de Macau, que a certa altura tinha eleito aquela droga como principal produto do seu comércio externo. Lin, conseguiu cumprir as ordens de saneamento do imperador queimando milhares de caixas do mortífero estupefaciente na foz do Rio das Pérolas e, sendo mesmo recebido em Macau, com honras de estadista para verificar afinal, que a colónia portuguesa, ao contrário dos ingleses que aqui viviam não sujava as mãos com tais produtos (ou que, pelo menos, os portugueses desempenhavam papel menor no tráfico). Neste ponto da história interessa pouco se os comerciantes portugueses do ópio escondiam ou não o produto ilegal enterrando-o nos quintais, ou se o ópio era carregado na ilha da Taipa para os “clipers” apenas para demonstrar que na península não se traficava. Ou mesmo se, a Companhia Britânica das Índias Ocidentais possuía a sede oficial de altas frontarias sobre o Porto Exterior onde lançava nos livros de contas os magros dividendos do licitíssimo comércio do chá e outra oficiosa (como actualmente nos off-shores finjanceiros) na quinta recuada da Casa Garden, do lado oposto da cidade, onde, aí sim os livros de contas se mostravam repletos de lucros do tráfico da droga. O que interessa de facto é que o Comissário pôde visitar Macau acompanhado do governador e das mais autoridades verificando que a ilegalização do fumo subversivo era cumprida em forma de lei. No entanto, o comissário Lin, que tanta importância teve na história macaense da primeira metade do século XIX nunca teve direito a qualquer reconhecimento. Segundo a toponímia tal zelador da lei e dos bons costumes (actualmente universalmente aceites), não consta, nem nunca constou, de qualquer via macaense. Diga-se no entanto que a comunidade chinesa também nunca fez qualquer esforço para que tal se concretizasse, erguendo-lhe afinal uma estátua tímida no adro do templo de Lin Fong Miu em 1987, mais de meio século depois de todo o mundo concordar que o tráfico do ópio constitui um delito universal que não permite desculpas nem subterfúgios. Que dirá hoje a alma do impoluto comissário à homenagem macaense, depois de em vida ter sido exonerado de funções pelo imperador por ter cumprido o seu dever, apenas porque a China perdeu a primeira Guerra do Ópio (1839-42) contra os ingleses?

No que toca a personalidades vitais não se pode esquecer que, ao contrário de todo o antigo império ultramarino, a economia de Macau esteve sempre na mão dos chineses. Foram estes (depois de esvaídos os faustosos tempos do “Barco Negro” em que os comerciantes portugueses dominaram) que tomaram nas mãos o leme do lucro, deixando aos portugueses apenas o encargo de zelar pelo bom funcionamento da burocracia do Estado legitimadora de todas as transacções comerciais. Sendo assim, sem dúvida que desde sempre foram os grandes capitalistas chineses que com os seus empreendimentos (associados, ou não aos portugueses, mas principalmente a ingleses, americanos, franceses, alemães e outros da panóplia universal das potências reinantes) mantiveram viva a importância da cidade, particularmente nos séculos XVIII e XIX, quando Macau entrava em decadência e apenas sobrevivia do tráfico do ópio da exportação de “cules”, do fogo de artifício e das fábricas de fósforos.

A toponímia, não preservou nomes assinaláveis desses empreendedores chineses. No entanto, o primeiro que ficou foi Lou Lim Iok, um aristocrata chinês (curiosamente republicano) que cultivava as artes comportando-se como um verdadeiro mecenas da renascença. Senhor de vastos interesses em Macau e na China, Lou Lim Iok actuou em Macau em épocas decisivas de convulsão, nomeadamente nos tempos de “brasa” da proclamação da república, quando os chineses se consciencializavam mais do que nunca do orgulho nacional perante a humilhação da derrubada dinastia manchu que tinha ajoelhado face aos poderes coloniais europeus.

O fim de Macau esteve então por um fio, particularmente em 1922 data em que após um período de motins e greves as tropas chinesas da república estiveram a um passo de ditar o fim de Macau. Lou Lim Iok, porém, interpretando a sapiência do seu povo que ultrapassava as conjunturas políticas, radicando nas profundezas filosóficas da velha China milenária, conseguiu conter por um lado excessos de orgulho nacionalista e por outro arroubos coloniais extemporâneos, demonstrando que Macau não constituía território em disputa.

Foi assim que Macau se salvou da desaparição graças a Lou Min Iok como principal figura, entre outros que não cabe na exiguidade desta artigo referir. Esta personalidade ímpar da história do século XX de Macau recusou todas as honras de ter salvo a cidade, exigindo que a sua mediação fosse mantida completamente secreta e a toponímia fez-lhe jus dando o seu nome ao jardim público que antigamente ele próprio construiu nos quintais privados de sua casa na zona nova de Mong Há, no meio do qual, entre bambuais verdes ornados de rochas cinzentas de granito construiu com orgulho no centro o ” Jardim da Relva Primaveril”. Nome simbólico que resta por decifrar. Lou Lim Iok, aristocrata honrado, filho de mandarins e convicto republicano que em sua casa viu nascer a redenção do seu país albergando Sun Yat Sen e os seus correligionários recusaria sabiamente apadrinhar uma qualquer rua, ou avenida de Macau, de Cantão, ou mesmo de Pequim. O seu jardim era mais do que bastante para a posteridade. Era bonito e recatado, atributos que convinham ao seu gosto estético e à sua aversão às primeiras filas.

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