A retirada oficiosa de um governador corajoso (III) 29 – 03 -11

Retomo aqui a última parte de uma série de três artigos sobre a passagem de Carlos da Maia por Macau como Governador. Um assunto que me foi suscitado pelo facto de ter descoberto, um tanto inopinadamente, uma carta do Secretário-geral do Governo (Ferreira da Rocha) dirigida a Afonso Costa (eterno líder da 1ª Republica) em que se queixava amargamente do seu superior hierárquico.

Afonso Costa entre os líderes republicanos

É uma carta mais pessoal do que política, na qual Ferreira da Rocha se justifica até à exaustão. Revela bem o que era então a política em Macau e, afinal o que continuaria a ser nos anos e décadas seguintes, ou seja: – uma impossibilidade de destrinçar claramente entre ideologia, sentido de estado e rivalidades pessoais patentes que se sobrepunham, muitas vezes a quaisquer outras considerações  numa pequena cidade em que todos se conheciam e em que os defeitos, mais do que as virtudes eram facilmente exaltados e ampliados do que a defesa serena dos interesses colectivos.

Aliás a carta de Ferreira da Rocha termina elucidativamente assinando: – “Ferreira da Rocha, Secretário-Geral fazendo as vezes de Sua Ex.ª. O Governador na sua ausência” (!…).

Retomemos então: –

Foi assim que com a inopinada partida de Carlos da Maia, as rédeas da administração ficaram nas mãos do seu inimigo pessoal (mais do que político) que era Ferreira da Rocha, ainda que não na qualidade de governador interino.

De facto o despacho de Carlos da Maia deixava expresso que Ferreira da Rocha apenas administraria assuntos correntes e cumpriria à risca as instruções políticas que lhe continuaria a enviar de Portugal e que lhe seriam comunicadas pelo seu ajudante de campo (que permaneceu em Macau), governando Ferreira da Rocha em seu nome. Apenas e nada mais do que isso.

As relações de Carlos da Maia com, Ferreira da Rocha, que pessoalmente já não existiam, desde, praticamente, o início do seu mandato, tinham-se deteriorado totalmente e igualmente do ponto de vista institucional.

Sobre esse facto será ilustrativo citar o próprio Ferreira da Rocha em carta pessoal dirigida a Afonso Costa que o ilustra bem.

Diz Ferreira da Rocha:

…Depois S. Ex.ª. Mostrou-me categoricamente os termos em que queria assinadas as portarias provinciais na sua ausência e deu-me uma minuta de portaria para a entrega do governo.

… Começara eu a ler a portaria, quando S. Ex.ª me disse mais que eu não me serviria da carruagem do governo pois tinha eu verba de representação e com ela poderia alugar carros.

Seguidamente mandou que eu dissesse se aceitava o Governo porque precisava de saber a tempo o que tinha de fazer.

Hesitei um instante sem saber o que responder; não tinha eu que dizer se aceitava ou não uma função que como consequência da lei era inerente ao meu cargo.

Noutro passo escreve, Ferreira da Rocha:

Depois disse-me S. Ex.ª  o Governador que não queria que eu me servisse do Palácio do Governo (Palácio da Praia Grande). Respondi-lhe logo que não tencionava ir residir para o palácio e que continuaria a viver na casa alugada onde moro. S. Ex.ª  disse então que não se referia só à residência, mas também a qualquer uso do Palácio do Governo, que este ficaria fechado e que despachasse eu na Secretaria-geral, que reunisse os conselhos onde quisesse: que pedisse mesmo para esse fim, se tal precisasse, uma sala à Câmara Municipal.

Mostrei a S. Ex.ª: que a Secretaria Geral instalada juntamente com a Repartição do Expediente Sínico, a Procuradoria Administrativa dos Negócios Sínicos, a Administração do Concelho, O Comissariado da Polícia e os calaboiços dos presos, numa antiga casa particular comprada pelo Estado, não dispunha de mais um gabinete sequer onde eu pudesse receber chefes de repartições a despacho (actuais directores de serviços).

Mais adiante continua:

Eu não devia enquanto substituísse S. Ex.ª dispensar um gabinete próprio adequado, onde recebesse chefes de serviços, ou pessoas de categoria, que, em dias de recepção oficial, como o aniversário da República, não podia receber os funcionários senão no Palácio do Governo; que se tivesse de dar um jantar oficial não poderia faze-lo na minha modesta residência; que não tinha onde reunir os conselhos do Governo de Instrução Pública, Obras Públicas, Obras do Porto, etc. que à testa do Governo não pediria à Câmara Municipal casas emprestadas para esse fim, estando convencido que nem mesmo S. Ex.ª  faria tal pedido e pedi finalmente a S. Ex.ª  que fechasse o primeiro andar do Palácio onde instalara a sua residência mas que deixasse abertas as salas exteriores do rés do chão, isto é o gabinete de despacho e a sala de reuniões dos Conselhos(estas salas seriam mais tarde continuadamente ocupadas pelo (Conselho Legislativo, anterior ao 25 de Abril de 1974 e mais tarde pela Assembleia Legislativa).

… S. Ex.ª manteve-se por fim intransigente afirmando que à sombra de excepções que fizesse, os seus inimigos o iriam desprestigiar na sua própria casa enquanto ele ainda fosse Governador.

Insisti em que não iria residir para o Palácio do Governo, embora o pudesse fazer. S. Ex.ª  exclamou que não devia eu dizer tal coisa, porque não ia nem havia de ir para o Palácio.

Palácio da Praia Grande.  Sede do Governo e residência dos governadores até à década de 1950. Actualmente continua a ser a sede (ainda que apenas formal para as grandes recepções do governo da Região Administrativa Especial de Macau) .

Claro que a intransigência de Carlos da Maia não teve efeitos práticos, embora a situação de indefinição quanto à manutenção no cargo do Governador, se prolongasse pelos sete meses seguintes até Maio de 1917, data em que um despacho do novo governo de Afonso Costa, o exonerava do cargo.

Mas o caso acabaria por se prolongar afinal ainda mais.

É que a exoneração seria logo a seguir anulada, e o governo de Macau, mais uma vez entregue a um interino, Vieira de Matos, que substituía um Conselho de Governo, que antes, por seu turno, tinha substituído, Ferreira da Rocha.

Assim e para todos os efeitos, Carlos da Maia continuou durante mais de um ano a ser nominalmente, Governador de Macau, até finalmente a sua demissão ser plenamente aceite e nomeado Governador, Artur Tamagnini Barbosa, em 1918 (esta situação faz lembrar o longo e atribulado período de substituição do Governador Carlos Montez Melancia (1987-91) durante o qual Macau foi governado igualmente interinamente pelo Secretário-Adjunto Murteira Nabo sem se saber quem seria o próximo governador. Se o interino, ou se alguma nova personalidade que Lisboa decidisse nomear.

Em todo este “imbroglio” de salientar o facto de Carlos da Maia apesar da sua condição militar, ter optado sempre, em Macau, por se apoiar não nos seus camaradas da marinha, mas nos da guarnição de terra.

Alguns casos exemplares eram não só os rumores sobre a intenção de pretender entregar o governo da Colónia a um oficial do exército, mas também o de ter conferido o comando da guarnição da Ilha da Lapa a outro oficial do mesmo ramo, embora este comando estivesse sedeado num navio surto no Porto Interior, o que motivou novas queixas da Armada.

Outra questão relevante para a qual não encontro resposta cabal é o facto de em Macau a maioria dos inimigos políticos de Carlos da Maia (maçom e carbonário), o serem igualmente também.

Uma possível explicação para este facto aparentemente anómalo poderá prender-se com a ocorrência de uma cisão na Maçonaria Portuguesa, referida pelo historiador A. H. Oliveira Marques segundo a qual ocorreu nessa altura (1914) uma dissidência na principal obediência maçónica portuguesa, o “Grande Oriente Lusitano”, tendo sido Carlos da Maia um dos que a encabeçou.

Não esquecer que a Maçonaria e o seu braço armado que era a “Carbonária” serem unanimemente considerados pelos historiadores, como as organizações que estiveram na base da proclamação da República e os verdadeiros centros de poder acima dos partidos, durante todo o período da 1ª República.

Concluo referindo que apesar de todas as dissenções, jogos políticos amizades e inimizades pessoais, certo é que as grandes linhas políticas implementadas por Carlos da Maia, em Macau, não foram interrompidas com o seu mal esclarecido final de mandato, mas prosseguidas pelos seus sucessores, com maior, ou menor sucesso.

Ate mesmo a alteração do “Estatuto Orgânico do Território” foi levada a bom termo se exceptuarmos o tocante ao artigo que previa a extinção da Câmara Municipal (Leal Senado), que tacitamente seria deixado cair.

Depois de abandonar Macau Carlos da Maia, aderiu ao movimento nacionalista que antecedeu o 28 de Maio de 1926, liderado por Sidónio Pais, antes de se retirar da vida pública amargurado com a política e com os políticos.

A “Camioneta Fantasma”

…A camioneta continuou a sua marcha sangrenta, agora em busca de Carlos da Maia, o herói republicano do 5 de Outubro e ministro de Sidónio Pais. Carlos da Maia inicialmente não percebeu as intenções do grupo de marinheiros armados. Tinha de ir ao Arsenal por ordem da Junta Revolucionária. Na discussão que se seguiu só conseguiu o tempo necessário para se vestir. Então, o cabo Abel Olímpio, o Dente de Ouro, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para a camioneta que se dirigiu ao Arsenal. Carlos da Maia apeou-se. Um gesto instintivo de defesa valeu-lhe uma coronhada brutal. Atordoado pelo golpe, vacilou, e um tiro na nuca acabou com a sua vida.

A camioneta, com o Dente de Ouro por chefe, prosseguiu na sua missão macabra. Era seguida por uma moto com sidecar, com repórteres do jornal Imprensa da Manhã. Bem informados como sempre, foram os próprios repórteres que denunciaram: «Rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender Machado Santos venham por aqui…». Acometido pela soldadesca, Machado Santos procurou impor a sua autoridade: «Esqueceis que sou vosso superior, que sou Almirante!». Dente de Ouro foi seco: «Acabemos com isto. Vamos». Machado Santos sentou-se junto do motorista, com Abel Olímpio, o Dente de Ouro, a seu lado. Na Avenida Almirante Reis, a camioneta imobiliza-se devido a avaria no motor. Dente de Ouro e os camaradas não perdem tempo. Abatem ali mesmo Machado Santos, o herói da Rotunda.

Morreria, assim, com ficou descrito,  assassinado na noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, juntamente com Machado Santos, que com ele fundara a República, num episódio ainda hoje mal esclarecido, conhecido pelo incidente da “Camioneta Fantasma”. Um momento tão dramático, como pungente, que ficaria para a história de Portugal perpetuado de modo semelhante ao que para os Estados Unidos da América ficou o assassinato do presidente John F. Kenedy (Dallas, 2 de Novembro de 1963), dando lugar desde então a todo o tipo de especulações e boa pena a sucessivas gerações de cultores da “teoria da conspiração”.

Berta Maia
Páginas para a história da morte
vil de Carlos da Maia, republicano
-combatente de 5 de Outubro-
2ª Edição Aumentada
Lisboa
1929

Que “jagunço” de alguém seria o transmontano Abel Olímpio o  “Dente de Ouro”?  Quem seria ele próprio? ainda hoje está por se saber ao certo!… Apesar das entrevistas de Berta Maia

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2 Comments

  1. Obrigado pela partilha. Deliciosa história.


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