Tóquio Rose a voz japonesa que embeveceu o Extremo Oriente durante a guerra 25-01-11

Macau 1939-46.

A taipa estava isolada porque as “seitas” cortaram o cabo telefónico que ligava a ilha a Macau, para vender o fio aos japoneses. Afinal, eram umas centenas, largas, de metros de cobre, que valiam muito dinheiro. Se Macau já estava isolada do mundo a ilha da Taipa mais o ficava ainda.

O chefe dos correios sem poder emitir ou receber telegramas arranjava maneira de comunicar através do código “Morse”, (TSF)que nessa altura era recurso reservado aos militares.

Para comunicar pessoalmente restava o barco velho, de carreira, desengonçado e ferrugento que fazia a ligação (quando fazia) entre a ilha e a cidade e que demorava pelo menos uma hora quando não havia avaria a registar durante o percurso. Que paralelo extraordinário!

Hoje, através das três pontes, atravessa-se, em menos de cinco minutos, sem ser preciso exceder os 80 quilómetros de limite de velocidade essa distância. Mas, então, o canal era uma verdadeira inacessibilidade. Mas, nesse tempo era o menos. O maior problema, passava a residir com o alferes Maneiras comandante adjunto da guarnição da ilha, que subitamente isolado se via arvorado numa espécie de general de um território que passava de um momento para o outro e por força das circunstâncias ao estatuto oficioso de “região militar independente”. Sobre ele pesavam todas as responsabilidades não só militares como civis na ilha e em volta.

Bem se sabe que a Taipa não tinha grande população residente, mas, em torno, vogavam milhares de juncos “sampanas” e “tancares”, de pescadores e contrabandistas, para além dos avisos, fragatas e “speed-boats” japoneses. Uns asseguravam o regular abastecimento de bens de consumo para o Território, os outros encarregavam-se de impedir o contrabando, outros, ainda, limitavam-se a assegurar a subsistência das sua próprias famílias. Que tempos esses!…

No entanto o Alferes Maneiras, militar consciente das suas responsabilidades, ainda que pouco amigo dos japoneses que tudo dominavam arranjou maneira de manter a situação. E para manter a situação não havia senão que manter a telefonia sem fios ligada, ou seja o rádio (seria um Grunding, seria um Philips, seria um Blaupunckt?) já que todas as outras comunicações eram impossíveis ou quase. Ouvir o que se dizia através da rádio era caso vital.

Através do seu aparelho, o alferes Maneiras mais do que se manter em contacto com o Governador Gabriel Teixeira (que, diga-se, saberia tanto como ele quanto ao que se passava no exterior) mantinha-se em contacto com o Mundo através da BBC, da Voz da América (que funcionavam a partir da “China Livre” com capital em, Chunking) e da “Rádio Tóquio” entre outras que funcionavam em ondas curtas e ondas médias.

Foi nesses tempos que o diminuto bairro constituído pelas casas museu da Taipa se transformou num centro conspirativo muito particular constituído pelo sobredito alferes, pelo chefe dos correios e de quando em vez pela presença do alferes Bragança (comandante de Coloane) e também por Herman Machado Monteiro, jornalista, civil e  republicano reformado, que entendia que lutar contra os japoneses era o mesmo que combater o Salazarismo vigente em Portugal, ou seja, luta ingloriamente perdida, em termos práticos.

Estes dois (Herman e Bragança) vinham de Coloane e juntavam-se ao jantar de quando em vez na casa do outro alferes para saber da guerra (imaginem o caminho que faziam já que não havia istmo, nem carreiras regulares de navios e muitíssimo menos o “Cotai Streep” de hoje que nem miragens eram então!). O tenente Viera, desterrado para a Taipa por ter tentado uma insurreição em Macau (de que falei em artigo anterior) era o ocupante da outra casa, mas, por isso mesmo, sem funções precisas deixava ao adjunto Maneiras a responsabilidade de tratar da administração local (civil e militar).

Nesse ponto da história os “cem anos de solidão” de Garcia Marques e a realidade deslocavam-se do ambiente sul Américo para os confins da Ásia.

“Ninguém escrevia ao coronel” e muito menos telegrafava. Tal era a situação!

Face à ausência de mensagens oficiais regulares a telefonia do alferes Maneiras possuía a supremacia. E a supremacia era disputada entre a geração mais velha agarrada às notícias. Os mais jovens que por não terem nada que fazer brincavam descuidados e aparentemente alheados, na sala do comandante, davam prioridade a tudo registando (nos seus cérebros de crianças) notícias, música, “talck shows” e programas de entretenimento.

Os últimos êxitos musicais da América, curiosamente, não provinham, porém, dos aliados mas do “eixo”. Chegavam pela voz de “Tóquio Rose” a locutora que não ocupava mais do que uma meia hora de emissão por dia, mas que falava ao coração de toda gente. As outras estações davam notícias que empolgavam ou enraiveciam os mais velhos, mas “Tóquio Rose” mantinha filhos e netos, crianças e adolescentes a par dos últimos êxitos da música do mundo. E nesse tempo a música do mundo era Glen Miller: –  In the Mood, American Patrol, Chattanooga Choo Choo, String of Pearls, Tuxedo Junction, Monlight Serenade, Litle Brown Jug, etc. Melodias que faziam mover os serões de sexta-feira e as matinés sensaboronas de Domingo.

Tudo isso de que nos lembramos hoje de ter ouvido, pelo menos uma vez na vida, era transmitido quotidianamente não pela “BBC”, nem pela “Voz da América”, mas sim pela “Rádio Tóquio”.

E os jovens de Macau, locais e refugiados de Hong Kong e Xangai, ouviam também e iam reproduzindo nas orquestras improvisadas esses tons nos serões de casa de cada um, ou nos salões dos hotéis da Colónia (principalmente no “Hotel Central” onde o grupo de “Hart Carneiro” – pai do antigo ministro da Educação de Portugal Roberto Carneiro, entretinha toda a gente, japoneses, ingleses, portugueses, americanos, franceses, indochineses, enfim… sabe-se lá quantas raças e etnias que no Território conviviam obrigadas por força maior.

Claro que ninguém sabia, ou melhor, só muito poucos, tinham conhecimento que quando a voz de “Tóquio Rose” anunciava discos pedidos e o êxito seguinte de Glen Miller, o texto que lia era, de facto, uma mensagem cifrada com destino específico.

Cada palavra correspondia a um endereço postal militar que tanto podia ser uma companhia de uma unidade imperial, na China, na Malásia, na Indonésia, ou no Vietname, como um agente secreto encoberto em missão algures, sabe-se lá onde? Talvez numa qualquer ex-colónia europeia da Ásia (Macau incluído).

“Tóquio Rose” empolgava mais ainda quando dirigia a música seguinte a um  “GI” em missão numa ilha qualquer do Pacífico totalmente ignota tratando-o pelo nome.

Como é que “Tóquio Rose sabia” o nome e apelido do soldado raso, mais o seu número mecanográfico no pelotão, na companhia, ou no batalhão?

Se o dito não ouvia a menção radiofónica à hora certa, algum dos seus companheiros a ouvia certamente e lhe chamava a atenção: – Então ontem a “Tóquio Rose” dedicou-te uma música?. O soldado, o cabo, o sargento, ou o oficial ficava desvanecido como não seria de esperar outra coisa.

A sequência das músicas correspondia também a um código secreto que só os agentes japoneses conheciam e sabiam interpretar.

Os códigos foram destruídos antes do final da guerra e do que “Tóquio Rose “ disse de secreto nas suas mensagens subliminares nunca se saberá. Os códigos foram eliminados, como disse, quando o Japão se apercebeu que estava  na eminência de ser derrotado. Isto uns meses antes das bombas atómicas que o presidente Harry S. Truman mandou lançar sobre Hiroshima e Nagasaky.

Para os europeus, preocupados com a guerra no seu continente “Tóquio Rose” (actualmente) não diz nada a ninguém. “Tóquio Rose” é um nome inexoravelmente esquecido por todos. Um pequeno episódio de uma guerra há muito passada e de que ninguém lembra detalhes.

Para o Extremo Oriente, EUA, e particularmente Macau “Tóquio Rose” foi, porém uma lenda viva, num tempo particular, que sobreviveu muito para além da guerra. Foi a inspiração romântica do pós-guerra apesar de não se saber ao certo quem teria sido (na “Rádio Tóquio” trabalhavam de facto muitas locutoras das mais diversas nacionalidades) mas certo é que foi tema da sétima arte e citação obrigatória de romances e novelas.

Mas quem era “Tóquio Rose” na verdade? Ainda hoje não se sabe, ao certo. E creio que nunca se saberá, para além do que consta de um processo militar aberto pelos americanos e que diz, mais, ou menos assim: – “Tóquio Rose permanece ainda hoje como uma espécie de lenda urbana. Uma personagem de ficção. Não existem provas concretas de quem tenha sido de facto, embora uma mulher tenha sido acusada e condenada como tal”.

Ao que se sabe “Tóquio Rose” era um nome genérico dado pelas forças aliadas a, pelo menos, uma dúzia de locutoras da propaganda japonesa. A intenção destas emissões era, obviamente corromper a moral das forças aliadas. “Tóquio Rose”, não falava apenas em generalidades, mas por vezes nomeava eventos, unidades e até nomes próprios de oficiais, sargentos cabos e soldados que combatiam na guerra”.

“Tóquio Rose” não era uma generalidade, mas sim uma pessoa, fosse ela qual fosse que era preciso descobrir e dar um nome próprio. E isso aconteceu, quando os jornalistas, na sequência da ocupação da capital nipónica invadiram os estúdios da “Rádio Tóquio” ansiosos à procura da voz que embevecera os “GI” e mais meio mundo na “Bacia do Pacífico”.

E não lhes foi difícil encontrar. À pergunta ansiosa dos média, funcionários e jornalistas da “Rádio Tóquio”, apontaram Iva Toguri D` Aquino como sendo “Tóquio Rose”.

E Iva, subitamente assediada pelas promessas de fama e também de dinheiro, já que os jornais e rádios americanas ofereciam mundos e fundos por uma entrevista e a sua transformação, num estalar de dedos, em estrela de Holywhood, concedendo-lhe mais fama e mais dinheiro, não hesitou em assumir-se como tal.

Sabe-se lá se era ela ou não?

Mas certo é que ao assumir-se e desdobrar-se em entrevistas a todos os órgãos de comunicação social que a solicitavam tornou-se mundialmente notada e consequentemente incorreu na alçada do tribunal americano encarregado de investigar os crimes de guerra do Japão, juntamente com mais algumas figuras da “Rádio Tóquio” que sendo detentoras da nacionalidade americana foram acusados de traição à Pátria pelo tribunal excepcional de guerra criado para o efeito que acabaria por condenar à morte por enforcamento o primeiro-ministro japonês, general Tojo, e  os principais comparsas políticos do seu governo (ainda que, cinicamente, deixando de lado o Imperador Hirohito principal ícone e mentor da guerra).

O processo de “Tóquio Rose” foi um dos mais caros da história judicial dos EUA. Inicialmente condenada à morte salvou-se porque foi provado em tribunal que afinal não tinha nacionalidade americana, mas sim portuguesa, já que era casada com um macaense de quem tinha recebido o apelido Aquino (descendente do célebre arquitecto Tomás de Aquino que construiu o Palacete de Santa Sancha e reconstruiu a Sé de Macau).

Mesmo assim não se livrou de uma condenação a dez anos de prisão e 10 mil dólares americanos de multa, por ter sido considerada culpada de ter anunciado aos microfones a perda de dez navios americanos na “Guerra do Pacífico” (convenhamos, que tal anúncio era fraco despacho de pronúncia em termos de direito para condenar quem quer que fosse).

Iva Toguri cumpriu a pena nos EUA, tendo sido libertada em 1956.

No entanto vinte anos mais tarde uma reportagem do programa “60 Minutes” da CBS retomaria o tema e a história de “Tóquio Rose” contada por ela própria. O programa teve repercussões imprevistas emocionando a opinião pública e levando o Presidente Gerald Ford a conceder-lhe, por decreto, a reabilitação total em 1977.

Infelizmente o marido, residente no Japão não quis ou não pode juntar-se à mulher, nos Estados Unidos, acabando por dela se divorciar em 1980. Aquino morreria em 1996.

Tóquio Rose” ainda é viva, segundo rezam as crónicas, e reside em Chicago. Está velhinha se é que já não partiu desta vida no momento em que escrevo esta crónica

Mas seria Iva Toguri De Aquino a voz que comovia corações em meio Mundo e particularmente em Macau?

Creio que isso nunca se saberá ao certo.

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