Divagações inócuas sobre ideologias arquivadas 18-01-11


Encerrado o ano centenário da República, que passou, devo “afirmar aqui e agora” como se dizia nos tempos do “PREC” processo revolucionário em curso), acho eu, embora não me lembre ao certo se a frase era um slogan revolucionário, ou uma declamação de alguma das peças em cena no “Teatro a Barraca”, ou no “Vasco Santana” de Luzia Martins, ou ainda, alguma “boca” do antigo “Zip Zip” da RTP dita talvez pelo Mário Viegas, Solnado, Fanhais, ou apenas trecho de alguma canção revolucionária sem autoria discernível.

Bom…! não importa. O que importa é que “aqui e agora”, ao fechar de um ano e ao dealbar de outro devo dizer que em matéria politica me situo acima dos partidos, embora tivesse militado num, nos meus tempos de juventude, ainda que fugazmente e um pouco “ad latere”.

Há alguns partidos de que gosto mais, outros menos, outros não lhes acho a mínima graça, enfim… Mas, em matéria de opções políticas fundamentais certo é que nunca tive dúvidas, ou seja: – sempre fui republicano.

Não porque tenha nada de especial contra as monarquias actuais. Contra as antigas, que personificavam regimes absolutos e ditatoriais. Àh! isso tinha e tenho. Mas felizmente esses tempos passaram e hoje as monarquias, penso que não fazem mal a ninguém. Pelo menos incrementam o turismo.

Em Inglaterra por exemplo o render da guarda em Buckingham atrai milhares senão milhões de turistas anualmente. Entre o render da guarda de Buckingham e a rendição da Guarda Republicana do Palácio de Belém não há comparação possível. A primeira rende directa e indirectamente alguns milhões de libras esterlinas. A segunda renderá, quando muito, a atenção fugaz de uns quantos turistas que por ali passam e poucos euros no cômputo estatístico da economia nacional. Isto embora, em pose e garbo, entre os corpos militares que cumprem o ritual não exista, em minha opinião, diferença muito assinalável. Há que reconhecer que a GNR nesse quadro sai-se bem com os seus cavalos, fardas verdes e brancas, plumas e equídeos de porte. Os granadeiros da Rainha (em minha opinião) são mais cinzentões, principalmente nos seus capotes de Inverno.

Em muitos países (incluindo a dita Grã-Bretanha), todavia, as monarquias aumentam exponencialmente a circulação dos tablóides de cada vez que surge escandaleira real. As revistas “Óla”, “Olá” e quejandas, mais o “Daily Mirror”, teriam igualmente menores tiragens se as famílias reais não existissem. Mas nada disto faz mal ao mundo, que me pareça.

Devo dizer que nutro, por exemplo, admiração pelo Rei Juan Carlos de Espanha, que com a sua inteligência e capacidade de decisão salvou o país de um regresso de imprevisíveis consequências aos lamentáveis anos do galego ditador Franco Baamondes, quando arrumou, nas Cortes, com palavras firmes, serenas e sábias o acto de banditismo arruaceiro do coronel Tejero em 23 de Fevereiro de 1981, quando o inenarrável coronel (que dir-se-ia inopinadamente saído de uma ópera bufa do século XIX, ou de uma novela de Garcia Marques) puxou da pistola, deu uns tiros para o ar e tentou sequestrar as Cortes de Madrid. Claro que nessa conjuntura, D. Juan Carlos percebeu que os sepultados no “Val de los Caídos”, estavam isso mesmo, ou seja mortos e sepultados sem apelo e que Tejero não teria nunca o auxílio dos “mortos”, como Franco, na Guerra Civil” teve, dos “mouros”pelo simples facto de que Marrocos já era reino independente há décadas e não colónia de Espanha

Claro que igualmente admiro outros reis da história, como D. João II, que lançou Portugal para um nova e extraordinária era de avanço político, científico e imperial. O império, nesses tempos idos, significava sem dúvida progresso. E que progresso se registou então.

Neste momento do meu pronunciamento poderão dizer. Então com tanta admiração por monarcas não é isso uma confissão de subconscientes simpatias, pelo menos? A essa interrogação respondo liminarmente: – Não! E isto apesar de concluir dizendo que admiro também, enquanto personalidade o assassinado rei D. Carlos I, que se elevava no seu tempo acima de muita gente incluindo alguns, republicanos, como artista de mérito e promotor das ciências. Os seus quadros a óleo e aguarelas, bem como as expedições oceanográficas que efectuou e patrocinou, no âmbito da biologia marítima, contribuíram, pelo menos com alguma coisa, se não com grande préstimo, para o prestígio de Portugal no Mundo.

D. Carlos perdeu-se, apenas, quando decidiu imiscuir-se nos labirintos perdidos da intriga política e ofereceu a João Franco a possibilidade de governar em ditadura de uma forma serôdia e provavelmente leviana. João Franco não tinha as qualidades de ditador esclarecido como o marquês de Pombal e D. Carlos já não era definitivamente D. José I. Sobre o marquês e o rei carpinteiro já tinha decorrido mais de um século. O tempo era outro e bem outro.

Devo recordar neste momento o célebre discurso de Salazar, cuja ascensão ao poder se deveu em grande parte aos monárquicos que o apoiavam. Quando estes esperavam do “salvador da Pátria” a palavra final para a restauração da monarquia, Salazar disse apenas que “em Portugal não existia uma questão de regime”. Assim deixou ficar a República, mas o ressentimento monárquico não foi capaz de lhe beliscar o poder. Tratou-se da constatação de uma realidade tornada incontestável por esse primeiro-ministro incontestado (passe a redundância, já que em meu entender ele próprio era já redundante no seu tempo) e balde de água fria para quem pensava que a Casa de Bragança seria algum dia restaurada depois de definitivamente ter caído.

Já antes D. Carlos tinha diagnosticado o mesmo, ou seja, que Portugal era uma monarquia sem monárquicos e não se enganou. Mais tarde, ainda, o “Estado Novo” cairia, também, praticamente sem resistência, porque Portugal era um estado fascista sem fascistas (neste conceito igualmente Salazar se incluía).

Sendo assim resta acrescentar apenas que em termos de chefia do estado, de qualquer estado, um rei pode ser bom. O filho do rei não se sabe nunca o que será.

Veja-se o caso de D. Manuel II, filho segundo, que se “licenciou” em história e que quereria ser tudo menos monarca. Entregou o regime de boa mente à república. “Não tinha jeito para ser rei” como diria mais tarde. Ninguém o pode culpar por isso.

Pena foi que Portugal não fosse a China e a República não o tivesse autorizado a regressar à Pátria em vida, como aconteceu ao imperador Pu Yi (Aising-Gioro). Não seria um jardineiro humilde como o último imperador da dinastia Qing, depois da revolução chinesa de 1949, mas daria provavelmente, sei lá? talvez um bom presidente de uma qualquer fundação antecessora da Gulbenkian e teria continuado os eméritos estudos de seu pai movendo e promovendo vários outros campos da ciência.

Tendo em conta tudo o que disse, igualmente se pode dizer de mal, ou bem, nos últimos cem anos, de Manuel de Arriaga, Carmona, Craveiro Lopes, Américo Tomás, Costa Gomes, Ramalho Eanes, Mário Soares, Sampaio, Cavaco Silva e de outros que virão. O que não se poderá dizer nunca é que o filho sucedeu ao pai por herança. Não. Foram todos eleitos por sufrágio directo e universal.

Digam-me lá! Faz algum sentido que na Coreia do Norte (República Popular) Kim Jong Il tenha sucedido ao pai Kim Il Sung e o neto Kim Jong Nam lhes suceda agora também? Faz algum sentido que em Cuba) a não ser transitória e conjunturalmente, espero eu, Raul Castro suceda ao irmão e um eventual filho, ou sobrinho venha a herdar mais tarde a dinastia do Castro estado?

Não! Definitivamente não!

É só por isso que não sou monárquico e me declaro “aqui e agora” contra todas as ditaduras e oligarquias. É apenas por isso que sou republicano. De resto nada tenho contra as monarquias, particularmente quando reinam em países desenvolvidos e não se imiscuem na política, nem causam embaraços constitucionais, ou políticos aos chefes de governo. Mas mesmo assim e por via das dúvidas prefiro as repúblicas, como a americana, por exemplo, que umas vezes produz coisas como George W. Bush, outras o seu contrário, ou seja, Obama.

PS. Sabiam que D. Nuno Álvares Pereira era apenas um dos trinta e tal filhos de um padre (bastardo por condição desse tempo) e que  não tendo, por isso, qualquer pergaminho de nobreza a conquistou por mérito próprio?

Quanto aos filhos, netos e bisnetos, condes duques e marqueses sabe-se bem o que foram, ou melhor, o que não foram. Alguns acabaram degolados no “cepo” apenas por serem filhos de algo, que não por mais nada que tivessem feito na vida de relevante para Portugal, ou contra a “nação”. Foram condenados apenas por serem filhos, diria, de um “pecado original” que apesar de todas as revisões religiosas e laicas teima em deixar resquícios até hoje.

Que seca!…

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