Os ideólogos de Macau que moldaram o Iberismo 11-01-11

Ao falar do “Iberismo” no meu artigo da semana passada referi o jantar “espoleta” do Paço Episcopal de Macau que o lançou.

Sublinhei, Carlos José Caldeira, D. Sinibaldo de Mas e D. Jerónimo José da Mata, como principais protagonistas da ideia e igualmente do repasto. Foi, ou terá sido, uma espécie de “Ceia dos Cardeais”, que pecou pela falta de um Júlio Dantas que a tivesse posto em verso para a posteridade.

Os outros dois frades que nele participaram, confesso, que lhes perdi o rasto nas minhas investigações. Continuo por isso a procurar saber quem foram e o que terão feito. Terão sido os seguidores dos liberais que mantiveram Macau como república democrática e independente durante um ano em 1822 na sequência da revolução do Porto de 1820, ou com eles não teriam nada a ver a não ser o mero facto de pertencerem à mesma ordem religiosa (os Dominicanos espanhóis?). Não perderão pela demora, já que se o Pe. Teixeira, Videira Pires e outros os omitiram, há-de haver documentos que deles falem e que os ressuscitem. Se não os encontrar alguém os descobrirá certamente um dia destes.

Para completar o artigo transacto convêm, no entanto, deixar em traços gerais o retracto biográfico das personagens principais do repasto, mas principalmente das razões que levaram pessoas tão dispares a encontrarem-se no fim do mundo para incorporarem uma ideia que ainda hoje agita os círculos intelectuais portugueses e espanhóis.

Começo naturalmente por D. Sinibaldo de Mas figura tão importante nos areópagos do seu tempo como esquecido, ainda hoje (mesmo pelos espanhóis). Neste ponto desconfio que o esquecimento se deve à desconfiança política, ou seja, Sinibaldo de Mas, era Catalão, amigo dos portugueses, das autonomias ibéricas e defensor de uma ideia que se não era cara aos preconceitos portugueses, menos o era ao centralismo castelhano de Madrid.

Sinibaldo de Mas, embora inserido no que se diria “establishment” de então, era uma figura destacada do iluminismo do século. Começava por saber falar, pelo menos 20 línguas, entre as mortas (latim e grego) e as vivas que eram o português, francês, inglês, alemão, italiano, catalão e restantes 12 que não interessam para o caso.

Para além de poliglota, era também um cultor das ciências e das técnicas modernas. A ele se devem as primeiras fotografias (daguerreótipos) que mostram os mais diversos aspectos da vida das Filipinas em imagens vivas fixadas no nitrato de prata dos negativos das películas que nasciam das descobertas da química na torrente científica e positivista do século. Não consegui apurar se D. Sinibaldo tirou, ou não, algumas “fotos” de Macau nesses tempos, mas é bem provável que sim e que actualmente sejam atribuídas a outros mais tardios, como Jules Etier algumas das que ele próprio fez.

Para além de fotógrafo D. Sinibaldo foi pintor e destes dotes artísticos e científicos sobreviveu durante o tempo em que esteve nas Filipinas sem receber o competente ordenado que lhe era devido, como embaixador extraordinário de Espanha, porque a burocracia de Madrid tardava a dar despacho às sua cartas credenciais que o acreditavam como tal em todo o Extremo Oriente.

Por esse facto viveu à custa da generosidade dos padres de Manila que, por caridade, lhe deram guarida durante alguns e custosos meses que ali viveu.

A sua fama como fotógrafo é indubitável. Como pintor, dizem ser razoável, ou mesmo boa. Como escritor é indubitável.

Para além disso tudo, foi também, o construtor dos rudimentos de uma nova língua universal na qual se basearia, em parte, o posterior “Esperanto”. Quanto ao resto da sua vida foi discretamente posta de lado por historiadores e académicos que o reduziram a notas de rodapé. Isto apesar do muito que fez, publicou e está escrito. Mas talvez porque não era castelhano, ficou-se, como se diria hoje, por um “Óscar” de carreira como melhor actor secundário.

Quanto a Carlos José Caldeira a sua vida é um total enigma. Sabe-se quem era meio-irmão de Casal Ribeiro e primo de D. Jerónimo José da Mata Bispo de Macau. Mas para além do facto de ter sido director geral das alfândegas, nunca ocupou nenhum cargo governamental. Não foi deputado e muito menos ministro.

A História da Colónia portuguesa da China dá-o “como um dos directores que mais brilho deram ao “Boletim Oficial de Macau entre 1850-51” e o homem que ressuscitou esta publicação meio moribunda desde que “A Abelha da China” de 1822, do dominicano (mais um!…) Frei António de S. Gonçalo de Amarante foi queimada em “auto de fé” público à porta do “Leal Senado”, perante as tropas absolutistas formadas em parada e os homens bons da cidade a encherem o largo e a regozijarem-se com a queima. O povo é sempre assim, em festa, ou drama. Seja numa romaria peregrina, seja num linchamento.

Caldeira foi um jornalista de destaque, mas principalmente um agente dos serviços de “inteligência” que veio para Macau em missão especial na sequência do assassinato do governador Ferreira do Amaral a fim de se inteirar da situação de Portugal na China e disso informar circunstanciadamente o  governo. E foi o que fez, com seriedade e convicção, deixando, posteriormente, escrito um livro denominado “Macau em 1850, crónica de uma viagem”, que foi o desiderato público de um relatório secreto que redigiu para o governo de Lisboa nesse período particularmente conturbado (expurgado, naturalmente das partes que não convinham ser tornadas públicas).

O nome de Carlos José Caldeira sempre citado quando se fala do Oriente português desses tempos, ficou porém igualmente esquecido nas páginas da memória oficial, permanecendo apenas como prolífico jornalista, autor de numerosos artigos e ensaios nos jornais que publicou e de que foi proprietário. A sua acção como defensor do absolutismo em modos revisionistas e redentores e a herança que deixou como inspiração ao “Integralismo Lusitano” de António Sardinha, do século XX, permanece inteiramente, ou quase, julgo eu, por estudar.

Ao contrário da maioria dos estudantes universitários de sempre, C. J. Caldeira iniciou o seu percurso político à direita, como redactor de relatórios regulares da conjuntura política ibérica em que os emigrados miguelistas, principalmente em Inglaterra e Viena de Áustria, se baseavam para traçar os planos de retomada do poder em Portugal.

Depois disso derivou para a esquerda ao longo dos anos que se sucederam à guerra civil portuguesa (1831-34). Acabaria no “Setembrismo” esquerdista e radical de Costa Cabral.

O Irmão, seu patrono e protector político, Conde de Casal Ribeiro (José Maria Caldeira do Casal Ribeiro – Lisboa, 18 de Abril de 1825 — Madrid, 14 de Junho de 1896, e igualmente importante jornalista e político português do rotativismo de finais do século XIX) teria percurso contrário, mas mais compreensível pois começara republicano e acabaria fundador de um partido nacionalista religiosos que tinha como lema “Deus Pátria e Rei”. Embora (e apesar disso) nunca tivesse deixado de conceder ao irmão apoio fraterno em todas as circunstâncias.

A carreira de funcionário do Estado de C. J. Caldeira terminaria de modo inglório num escândalo menor mas que a luta político-partidária, dessa época elevada ao rubro e ampliada pelos jornais da oposição, destacou de modo inusitado.

C. J. Caldeira era director-geral das alfândegas de Portugal (uma espécie de secretário de estado das finanças dos dias de hoje) e nessa condição recebeu um volume postal endereçado de Macau contendo manuscritos e manifestos sobre o “iberismo” remetidos do Oriente por D. Sinibaldo de Mas.

O funcionário que se encarregou do processo eximiu o volume à inspecção aduaneira e à obrigatória censura isentando-o, de moto próprio, aos respectivos direitos e taxas e entregando-o, ao seu chefe, sem mais, ignorando todas as formalidades.

O caso soube-se por indiscrição intencional, de alguém, o que fez com que a todos os jornais apontassem o dedo à falta de probidade do Director-geral.

Caso sabido, a imprensa oposicionista não perdoou e acusou Caldeira de “contrabandista mor”. Nessa conjuntura, nem o irmão “conde”, nem o próprio rei D. Luís lhe puderam valer. C.J. Caldeira foi demitido sem apelo nem agravo.

Com ele caiu o governo e o anti-iberismo ganhou mais uns pontos em nome da realeza católica dos Bragança contra os socialistas emergentes de Antero de Quental, pouco monárquicos e menos crentes, ainda, na divisa – “Deus, Pátria e Rei”, ainda que convictos de que uma ibéria unida poderia trazer “novos mundos ao mundo” naquela conjuntura política específica do século XIX e nas agruras político-militares por que passava o “Império Ultramarino Português”.

Quanto a D. Jerónimo José da Mata (primo dos Caldeiras), o caso biográfico, mas principalmente ideológico, é um pouco mais difícil de analisar e descrever em curtos parágrafos. Isto, porque o prelado gastou a maior parte da sua vida no Oriente e os inevitáveis cronistas da história paroquial de Macau (Pe Teixeira e Videira Pires, entre outros) quase o omitem por evidentes motivos ideológico. O primeiro, reduz a sua biografia à expressão mais simples, o segundo por nunca ter escrito uma linha que fosse sobre ele a não ser breves apontamentos a propósito de circunstâncias específicas e, mesmo assim, em casos nos quais o bispo surge, mais como ovelha destacada de um rebanho do que como pastor determinante em momentos decisivos o que reflecte bem a forma como uma certa idiossincrasia necessitava de elidir a verdade sempre que não convinha.

Até que ponto a história de Macau foi sendo distorcida pelos cronistas oficiais em toda a questão, durante os mais de 40 anos de “Estado Novo” é igualmente assunto, que merece estudo, mas que um mero artigo de jornal não seria capaz de deslindar de todo.

Mas o que principalmente, me espanta é o facto de ninguém, depois disso, ter tratado, até agora no mundo académico o assunto com a objectividade que merece para esclarecimento de nós todos.

D. Jerónimo José da Mata é um caso paradigmático. Sem dúvida biograficamente inserido na tradição e nos costumes, mas concomitantemente fora deles.

Para além de ter governado Macau nos tais tempos sumamente difíceis, posteriores ao assassinato de Ferreira do Amaral em plena revolta chinesa dos “Tai Ping”, não teve apenas um papel preponderante em Macau, mas sim na defesa do decadente “Padroado do Oriente” de que foi o “último moicano” e incompreendido intérprete. Para isso basta citar o que dele se diz de parco nas enciclopédias: – “D. Jerónimo José da Mata, nascido em Arnóia, Sertã, a 18 de Dezembro de 1804 – falecido em Campo Maior, a 5 de Março de 1865, foi Bispo da Diocese de Macau entre 1845 a 1862.

Depois de ter recebido ordens menores no Seminário de Cernache do Bonjardim, viajou para Macau onde concluiu os estudos teológicos. Foi professor no Seminário de S. José. Publicou em Lisboa, em 1837, uma monografia destinada a recrutar pessoal para as missões na Ásia. Em 1843, foi nomeado bispo auxiliar de Macau, com o título de bispo de Altobosco.

D. Jerónimo José desempenhou um papel fundamental na reconstrução da Sé de Macau em 1850 que ele próprio consagrou em 14 de Fevereiro do mesmo ano e na ampliação do Recolhimento de Santa Rosa de Lima. Reorganizou também o Seminário de S. José (Sublinhe-se que nesses tempos o Seminário de S. José coincidiria em importância com a actual Escola Portuguesa e Universidade de Macau. Reunia, num só conjunto o ensino primário, secundário e politécnico).

A instâncias do governo do Reino de Portugal e de comunidades cristãs do Padroado Português do Oriente visitou diversas cidades orientais que estavam sem bispo e aí ordenou diversos sacerdotes. Como nessa altura as relações diplomáticas entre o Vaticano e Portugal estavam cortadas, a acção de D. Jerónimo José valeu-lhe uma admoestação papal”.

Em minha opinião D. Jerónimo era mais iberista por amor ao catolicismo e ao “Padroado do Oriente” atacado por protestantes, em todas as frentes (ingleses e americanos) e pela missionação francesa, católica, mas igualmente hostil, do que propriamente por posicionamento estritamente político.

O encontro Oriental de todos estes protagonistas que no “jantar de Macau” decidiram criar uma associação propugnadora da “União Ibérica” merece estudo que resta por fazer.

Prometo que voltarei a este tema, não só para falar com mais pormenor da biografia de alguns dos seus protagonistas, mas principalmente por estar certo que Macau, muito mais do que um entreposto comercial  de mais quatrocentos anos que encima os guiais turísticos da cidade, foi de facto um cadinho cultural que através dos séculos reuniu e permitiu a reunião de vanguardas, ainda que pequenas em número, mas que acabariam por influenciar o provir das ideias. Não só na China, mas no resto do mundo global que temos nos dias de hoje.

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