Romance, memória e interpretações da História 21-12-10

A propósito da guerra do Pacífico tenho escrito sobre o papel que o “BAAG” (British Army Aid Group) e a “Coluna do Rio de Leste” (guerrilha comunista) desempenharam durante esses anos cuja intensidade dramática apenas podemos avaliar já que todos estamos longe de ter vivido esses tempos.

Quem a eles assistiu foi desaparecendo no ciclo da vida e hoje restam muito poucos que o lembrem com exactidão, sem “contar conto e acrescentar ponto”.

Seguramente não existem biografias dos protagonistas desses tempos, mas ficaram pelo menos nomes indeléveis na memória que, por costume, se transmite de pais para filhos através de curtas recordações de infância. Os filhos lembram alguma coisa. Os netos apenas retêm (quando retêm) esparsos desconexos. Os bisnetos, então(!), a não ser que para isso possuam inclinação e ganhem gosto sabem lá o quê? Nada!… A vida quotidiana, cheia de afazeres não deixa tempo a ninguém para pensar em águas passadas. É verdade!

Afinal a guerra terminou há 65 anos. No entanto, neste campo de guardar memórias há excepções. Não fossem elas e não saberíamos hoje não só quem somos, mas o que somos.

Sabemos alguma coisa porque algumas crianças, ou adolescentes, dessa altura, retiveram o ambiente denso e tenso que os pais viveram e que não lhes passou despercebido. Principalmente, porque o isolamento de Macau, sem jornais, sem filmes, em suma sem novidades para além das conversas boca a boca levava a que toda a vida se concentrasse essencialmente nos serões caseiros e principalmente nas casas de quem tinha rádio esse aparelho “mágico”  dos anos “40” que permitia ouvir o Mundo. Mas ter rádio, nessa época era privilégio de poucos.

Nesse contexto de forçada insularidade, mesmo no pequeno mundo de Macau, a ilha da Taipa mais isolada estava ainda já que os cabos submarinos de telefone tinham sido cortados pelas seitas para vender o cobre, de que eram feitos e que valia bom dinheiro, aos japoneses.

A Taipa sob o comando do Alferes Maneiras (já nem falo de Coloane, mais longínquo ainda, onde se encontrava o alferes  Bragança, a comandar um destacamento militar ridículo de pouco mais de 30 soldados) encontrava-se nos tempos da “Guerra da Pacífico” tão distante de Macau, como do Mundo se encontravam os arquipélagos de Vanuatu no Pacífico, ou Fernando Pó e Ano Bom no Atlântico, ou a Nova Zelândia que só geograficamente era significativa e que participava na guerra apenas porque era inglesa e queria.

Nas casas do Concelho da Taipa (hoje casas museu) os pais sentavam-se em semi-círculo, de ar circunspecto, concentrado. A mão no ouvido. Para entender melhor os sons nem sempre claramente audíveis das ondas curtas das estações que era possível sintonizar. Ouviam e comentavam os acontecimentos.

Por seu turno as crianças, presentes na sala, brincavam parecendo alheadas da hecatombe, mas na verdade, se pouco ou nada aparentavam ligar às notícias já o contrário se verificava no que dizia respeito aos comentários dos pais e amigos ao que se anunciava no  boletins noticiosos diários. E os boletins noticiosos sonoros causavam, nos pequenos, tanta e tão vivida impressão, que eram capazes de distinguir sem receio de se enganarem o tipo de aviões que sobrevoavam Macau nas sua missões de bombardeamento no interior: – “Estes são bombardeiros americanos. Estes são os ronceiros aviões de reconhecimento. Aqueles são os “Zero” japoneses, de certeza!”…, enfim, as crianças sabiam tanto quanto os adultos embora se lhes perguntassem não poderiam explicar ao certo como e porque sabiam tanto.

Tenho falado com alguns, mas um particular amigo meu que tem seguido as minhas crónicas não deixa de me fazer reparos sempre que sobre o assunto escrevo: – “Isto não terá sido bem assim. Aquilo foi assim, mas houve mais por traz da aparência. Aquele nome de que falas era fulano de tal de que ainda me lembro muito bem apesar de ser criança. Os japoneses andavam por Macau fardados e armados como se isto fosse território ocupado. Meu Pai via-se grego para conciliar as verdadeiras batalhas locais que se travavam em torno da distribuição de arroz e principalmente em impor ordem entre as centenas de “sampanas” que arribavam à Taipa com todo o tipo de contrabando. Umas pertenciam ao monopólio de distribuição alimentar dos japoneses, outras eram sucursais desse monopólio, mas faziam o seu negócio mais, ou menos particularmente. Outras, enfim! … eram capitaneadas por contrabandistas sem bandeira cujo único objectivo era o lucro”.

Até agora todas as “implacáveis” críticas desse meu amigo muito ao contrário de me ferirem eventuais susceptibilidades de “aspirante a cronista” têm-me chamado, para além de outras coisas, a atenção para o facto de os documentos estarem bem longe de serem a única fonte de elaboração da história.

A este propósito não posso deixar de lembrar aqui um livro relativamente recente (terá cinco ou seis anos) sobre o chamado “Verão quente de 75” , em Portugal, da autoria de Freitas do Amaral, em que descreve Portugal mais, ou menos, como um país a arder, em que a guerra civil só não campeava porque não havia unidades militares a combater umas contra as outras nesses tempos de “PREC”, de resto parecia país a saque… Eu vivi esses tempos, percorri o rectângulo nacional, vi por dentro muitos dos seus momentos mais significativos e para além do calor exacerbado do tempo revolucionário que se vivia, não encontrei em lado nenhum por onde me deslocava (e era mais ou menos de lés a lés) a nação a arder em chamas, nem ódios irreconciliáveis possivelmente comparáveis com os que descreve, por exemplo, Silva Gaio no seu “Mário” da guerra civil portuguesa (1828-34), época em que, isso sim, o país esteve irreconciliavelmente divido durante anos  e anos e a ferro e fogo.

O mais que vi, nessa altura, foram excessos e casos de polícia que iam sendo resolvidos como tal. E apesar das declarações que surgiam em parangonas nos jornais sobre a possibilidade de o país se dividir em guerra, nunca senti que isso pudesse ser uma possibilidade credível como o não veio a ser.

Ora vêm isto a propósito do “BAAG” e da “Coluna do Rio de Leste” cujos papeis, (ainda que efectivamente relevantes) não passaram de episódios de guerra nas linhas de retaguarda.

Porventura não terei deixado isso bem claro em artigos anteriores. Mas certo é que, e cito mais uma vez esse meu amigo, “a guerra verdadeira que envolvia unidades militares de milhares de homens, combates de artilharia e esquadrilhas de aviões, depois da batalha pela ocupação de Cantão e Hong Kong, toda essa grande guerra ocorria longe daqui”. As linhas da frente estavam no interior da China, com capital e quartel-general em Chunking, na província de Sichuan. “Esse combate pertencia de facto ao exército nacionalista do Kwomintang, já que os comunistas, para além de não fazerem parte do exército nacional, não possuíam o que se pudesse chamar de forças armadas regulares. Eram apenas guerrilheiros”. Guerrilheiros que se encontravam sedeados muito mais longe e de certo modo isolados  em Shensi no Norte, com cerca de cem mil homens, a maior parte dos quais nunca tinha tido qualquer treino de recruta e estavam enquadrados por oficiais que eram muito mais comissários políticos do que militares profissionais. Ao contrário, o exército do “generalíssimo” Chiang Kai-shek, era constituído por milhões de soldados. Era um exército regular dividido em companhias, batalhões brigadas  e regimentos e comandados por oficiais profissionais oriundos de academias militares, nomeadamente a celebrada e histórica “Academia Militar de Whanpoha”, em Cantão, que constituiu o cadinho da transformação dos conceitos e da prática militar chinesa de milénios na primeira escola de guerra moderna do país no dealbar do século XX.

Nesse contexto, atribuir qualquer papel decisivo global ao “BAAG”, ou à “Coluna do Rio de Leste” seria não só incorrer em exagero, como faltar à verdade histórica.

No entanto sou daqueles que pensam que, como em termos meteorológicos, o bater de asas de uma borboleta num continente pode desencadear um furacão noutro, assim o mesmo se passa no que toca aos “ventos da história”. E não me posso esquecer, igualmente, de um quadro que sempre me ficou na memória desde que, adolescente, li o romance “Guerra e Paz” de Leão Tolstoi. Nele surge relatada a batalha de Borodino (No dia 7 de Setembro de 1812, às 6 horas da manhã, Napoleão deu início ao ataque com seus 135 mil homens e 587 canhões. A batalha durou até depois do pôr-do-sol). Nesse confronto universal, o Marechal Kutuzov saiu alegadamente vencedor.

Para quem se interesse por assuntos de táctica e estratégia militar verifica que Kutuzov  não venceu, nem Napoleão perdeu. A campanha da Rússia continuaria, ainda, depois disso, sangrenta repleta de milhares e milhares de mortos caídos mais sob o frio imposto pelo “general Inverno” do que pelas balas dos exércitos em confronto, mas a verdade é que para a história a vitória russa permanece como indiscutível.

Tosltoi, que não era general, nem estratega, parece-me que explica, melhor do que nenhum professor de ciência militar aplicada, as razões que levaram a atribuir a vitória a Kutuzov. É que no momento em que o exército russo debandava um ignoto capitão de artilharia, por acaso, e por estar situado num colina estratégica sobre o campo de batalha, não ouviu o soar das notas de clarim que ordenavam retirada geral. Assim sendo, e vendo aproximar-se uma carga de cavalaria e infantaria francesas sobre o seu campo, manteve, ainda que isolado mas com sangue frio, a disciplina da pequena bateria que comandava, segundo as ordens que lhe tinham sido dadas, ordenando o disparo metódico das granadas explosivas de que dispunha sobre o inimigo. O inimigo, surpreendido, não só parou, como julgou que tinha caído em inopinada armadilha. Afinal as notas do clarim de retirada russas pareciam, face às bombas que caíam com eficiente precisão sobre si, não serem mais do que uma manobra bem sucedida de contra-informação (como se diria no vocabulário dos nossos dias). Assim, a carga final que teria determinado iniludivelmente a batalha a favor da França foi suspensa. A cavalaria estacou. A infantaria fez volta e meia volver. Os 587 canhões imperiais calaram-se. Em suma as hostes napoleónicas, em pleno assalto, volveram às posições iniciais a “marche, marche”. A batalha estava ganha e a Rússia salva.

Quanto ao nome do capitão artilheiro (muito menos dos seus subalternos e soldados), não consta em lado nenhum da história. Ainda que tivessem sido eles os verdadeiros heróis determinantes do desfecho desse épico drama, como conta Toslstoi. Os historiadores não o poderiam celebrar, como tal, por falta de documentação impressa e exarada em “ordem do dia” do quartel-general. Apenas um romancista poderia ter deixado para a posteridade um episódio tão pequeno quanto verdadeiramente grande e glorioso. Meia dúzia de artilheiros contra 135 mil homens. Mas, foi o que foi!. Um pequeno detalhe que afinal explica em termos simples uma das batalhas mais complexas e sangrentas da história do Mundo, que ainda hoje é estuda nas academias da especialidade.

Tal como nessa épica batalha das estepes russas,  o “BAAG”, a “Coluna do Rio de Leste”, os agentes secretos aliados atrás das linhas, que operavam a partir, nomeadamente,  de Macau, não foram mais, na China da “Guerra do Pacífico” do século XX, do que o pequeno capitão de Tolstoi na batalha eslava de “Borodino” do século anterior. Decisivas, mas, para sempre, anónimas

Certo é, que existiram! Mas, até que ponto foram determinantes no desfecho da guerra, estou certo, que nunca se saberá.

Para a propaganda, politicamente correcta, dos aliados e da China de hoje não existem dúvidas. Foram determinantes. Quanto à realidade dos factos será necessário outro romancista como Tolstoi para explicar a verdade e a importância moral das coisas. Todavia certo é que os Japoneses perderam a guerra. Quanto ao factor determinante da derrota sabe-se lá qual foi…

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