Política radicalismo e demagogia. 07 – 12 – 10

Quando ouço, ou leio que a política é uma “coisa suja”. Os “políticos aldrabões”. Que “é preciso acabar com a classe política” insurjo-me. Mas mais do que me insurgir temo que as vozes vociferantes, ao contrário da dos burros do provérbio, cheguem ao céu. Temendo que tal possibilidade possa ocorrer, para além de me pronunciar fico assustado, porque das últimas vezes, na história, em que vozes que tais “chegaram ao “altíssimo” a coisa deu para o torto e bem mal.

Recordo apenas o fim inglório da “1ª República Portuguesa”. Foi assim: – os políticos alegadamente dominavam a vida nacional cuja constituição fazia residir exclusivamente no parlamento o poder que eleições após eleições davam sempre a maioria ao Partido Republicano (ou Partido Democrático, como se lhe queira chamar) de Afonso Costa. Por muito que custasse a quem queria mudar o estado da coisa política em Portugal o resultado eleitoral era sempre o mesmo e esclarecedor, independentemente da veracidade dos cadernos eleitorais, das “chapeladas” que já vinham de cem anos antes, dos tempos da monarquia, que não tinham mudado nada, ou do enraizamento do caciquismo que igualmente já vinha dos tempos gloriosos da revolução liberal de 1820 e mudado tinham menos ainda.

A certa altura da história houve quem se manifestasse contra um estado de coisas que manifestava eternizar-se. Ou seja contra uma classe política enquistada em Lisboa que conspirava nos cafés querendo alterar tudo, mas, depois, quando rumava de automóvel a S. Bento para ocupar os seus lugares nas bancadas parlamentares, fazia discursos vibrantes, eloquentes, às vezes até às lágrimas, mas não provocava uma pequena onda que fosse no “Mar da Palha” onde os operários do Arsenal faziam muito mais ondulação com as suas pequenas greves que preocupavam de facto mais os destacamentos locais da GNR do que os governadores civis. Muito menos os representantes nacionais.

De facto o país, apesar da retórica parlamentar de Lisboa continuava a ser essencialmente campónio e analfabeto. Portugal, não se tinha alterado um milímetro que fosse no seu desenvolvimento desde que Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858) à beira da cova dissera: – nascer entre brutos, viver entre brutos, morrer entre brutos é triste!…

Quem se revoltou contra o estado de coisas vigente foram os radicais anti políticos, tendo à cabeça o General Gomes da Costa (antigo aluno do seminário de Macau) que pensava que as culpas eram dos tais políticos (desde, porventura, Rodrigo da Fonseca e do general Sepúlveda cabeça de cartaz da revolução de 1820).

O radical Gomes da Costa e os seus próceres igualmente radicais anti-partidos acabaram com a “1ª República”, não numa revolução, mas num desfile militar que em vez de se circunscrever ao perímetro de um quartel qualquer se estendeu, de “passadeira vermelha” e triunfante, através dos mais de 300 quilómetros da “estrada nacional número um” entre Porto e Lisboa (mais os cinquenta e tal quilómetros que se acrescentavam entre a capital do Norte e Braga), com Gomes da Costa do alto do seu cavalo e à frente dos esquadrões a acenar ao povo das freguesias por onde passava a trote rápido como salvador da Pátria.

Gomes da Costa venceu apenas porque Portugal estava farto de promessas mal cumpridas, mas o marechal não acabou com os políticos. Bem pelo contrário. Apenas contribuiu, sem dúvida, para escamotear uns e entronizar piores.

Correu com o primeiro-ministro Afonso Costa que fugiu para o exílio juntamente com o Presidente da república Bernardino Machado. Nos tempos de hoje as coisas seriam feitas de modo diferente, ou seja, nem Bernardino Machado nem Afonso Costa precisariam de ser sujeitos ao enxovalho de serem expulsos da Pátria por ordem de “tribunal militar extraordinário” com sentença condenatória lavrada e publicada. Nos brandos tempos de hoje poderiam ter sido apenas nomeados deputados europeus, ou seja escorridos para Bruxelas ou Estrasburgo, locais onde poderiam continuar a escrever e discursar sem fazer mal a ninguém, nem ninguém notar que continuassem a existir.

Mas os tempos de hoje não são esses tempos, embora a história se repita por muito que se diga que não. E certo é, como dizia, que Gomes da Costa, apesar de toda a sua genuína boa vontade de “endireitar” Portugal acabaria não por acabar com a classe política contra a qual toda a gente tinha queixas, mas por alcandorar ao poder concomitantemente honestos e invejosos, sem cuidar de quem era quem nem ter em conta mais nada. Os radicais nunca cuidaram muito em destrinçar o trigo do joio creio eu.

Mendes Cabeçadas, seu parceiro no golpe, não teve tempo de provar, tal como Gomes da Costa, a sua valia já que, igualmente, seria arredado das rédeas do poder em poucos meses. No entanto, Sinel de Cordes, provou e bem, que não valia nada, ou seja, se os políticos da 1ª República tinham endividado Portugal, como os radicais diziam, o primeiro general da ditadura (não contando Carmona) conseguia fazer melhor ainda, ou seja triplicar a dívida nacional e levar o país ao limiar da bancarrota. Ivens Ferraz que se lhe seguiu igualmente não resolveu coisa nenhuma, e se não levou a proa de Portugal ainda mais a pique foi apenas pelo facto de ser general do exército e não almirante de uma marinha que lutava por manter os seus cruzadores cheios de rombos a flutuar à linha de água.

Perante esse estado de coisas, pode dizer-se que a vez dos radicais chegou ao fim com a ascensão ao poder de Salazar.

Salazar longe de ser um radical anti-político era a sua antítese. Entendia que o segredo do futuro residia na máxima de Maurras: – “politique d, abord”. Por isso, se encarregou de correr com o que restava dos radicais no processo revolucionário do 28 de Maio de 1926 incluindo Rolão Preto, o chefe dos “camisas azuis”, cujo destino, ainda que inopinado, pelo facto de ser um dos principais apoiantes do ascendente ditador civil e das suas concepções de “estado Novo”, acabaria igualmente por ser igual ao dos outros, ou seja, preso e banido juntando-se no olvido político a Gomes da Costa, Cabeçadas, Sousa Dias, Agatão Lança e sei lá mais quantos.

Depois disso e de ter pacificado a vida política nacional, Salazar fez o que não se esperaria, ou seja, em vez de manter a ditadura militar anti partidos criou um sucedâneo de sinal oposto ao “Partido Republicano”, que vinha conduzindo a vida política portuguesa das últimas duas décadas. Chamou-lhe “União Nacional” e pronto.

Salazar acabou com os radicais sem verdadeiramente inaugurar uma nova era. Afinal a “União Nacional”, expurgada de alguns nomes mais sonantes que não convinham à nova situação, não deixava de ser um sucedâneo dos ministérios de fusão que desde os tempos de Costa Cabral (1848) se tinham alternado nos governos de Portugal

Mas o que é que tudo isto tem a ver com Macau perguntarão os leitores? E eu respondo: – nada, ou talvez tudo e explico rememorando um pequeno aparte que ouvi, lá vão anos, do então chefe do Executivo Edmundo Ho, que a propósito não sei bem já de quê, dizia que na Assembleia Legislativa faltava um partido de apoio ao Governo ao contrário de Hong Kong onde os partidos existem.

É verdade, pensei, na altura. E continua a ser. Faltam partidos, ou grupos organizados, ou coisa que se lhes assemelhe. Por esse facto, a vida política local continua a estar essencialmente assente no individualismo anómalo que inevitavelmente acaba por resvalar para o radicalismo, nuns casos. Noutros, para a pura e simples demagogia inconsequente.

Ou seja, os deputados, independentemente de serem eleitos por quem sejam, não obedecem a ideário político realmente fundamentado. Serão capazes de defender bem as posições de quem os nomeou, mas estão longe de as defender de um modo ideológico. Uns e outros poderão, aqui e ali, salientar pontos de grande interesse público. Poderão fazer, aqui e ali, discursos eloquentes. Poucos, até hoje puxaram, que me lembre, lágrima emocional decorrente da oratória ao cidadão comum (como nos tempos antigos da 1ª República Portuguesa” acontecia e não poucas vezes) sobre grandes questões.

O deputado de Macau Velhinho Correia nos anos 30 do século passado tinha o condão de o fazer junto da comunidade portuguesa, enquanto, umas décadas antes Chen Shaobai tinha feito o mesmo nos comícios republicanos arrebatadores levados a efeito nos cinematógrafos da cidade entre a população chinesa.  Mas ideário certo?

Poderemos reconhecer, actualmente, no senhor deputado “tal” um Marxista-leninista? Poderemos entender nos discursos do senhor deputado “X” um apóstolo de Mao? Encontraremos no discurso do senhor deputado “Y” alguns pontos fundamentais da “Democracia Cristã? Poderemos subentender alguns princípios postulados pela social-democracia de Bernstein no senhor deputado “H”? Teremos entendido nas palavras do deputado “Z” a filosofia dos “três princípios do povo de Sun Yat Sen”? Poderemos inferir do que disse o senhor deputado “U” um subscritor das máximas de Milton Friedman? Não! da cacofonia política local não se pode subentender mais nada do que o que é e está patente, ou seja um conjunto de vozes independentes entre si que fazem e dizem o melhor que podem e sabem sobre os assuntos correntes de Macau. Sendo assim e tendo em conta que a AL não é de facto um parlamento nacional, o mais a que a poderemos associar é à antiga “Câmara Corporativa” do “Estado Novo”, onde organizações patronais, sindicais e grupos de classe se exprimiam, sem esperarem seriamente que os seus discursos (mais ainda do que os seus pareceres) tivessem qualquer efeito nos resultados políticos práticos da governação.

Será no entanto tudo isto razão de queixa essencial contra a classe política que temos? Claro que sim e claro que não!

Que sim porque “já não nascemos, nem vivemos e não esperamos morrer entre brutos”, como dizia Rodrigo da Fonseca há duzentos anos. Esta é uma verdade que se aplica tanto no Extremo Ocidental Europeu, como no seu oposto Asiático.

Não, porque ainda vamos ter que esperar (estou convencido pelo que tenho visto e ouvido até agora) largos anos até ouvir falar na Al. um verdadeiro tribuno líder de uma autêntica bancada parlamentar.

Apesar porém de todas as eventuais carências, em Macau, como no Haiti, EUA, Japão, ou Vanuatu, recuso-me, seja em que circunstâncias forem, a colocar epítetos pejorativos sobre quem se dedique à política, mesmo que não a tempo inteiro.

Na política, como em qualquer outra profissão é apenas o seu bom exercício, baseado em princípios, que determina a honradez de quem a pratica. Infelizmente na actual conjuntura o principal protagonismo pende naturalmente mais para os radicais sobrevalorizando a demagogia inconsequente e menos para os políticos profissionais que se o são “de jure” carecem ainda de suporte de facto.

Ainda bem que o radicalismo que resultou no longínquo 28 de Maio de 1926 nunca teve nada a ver com Macau. Nem ontem, nem hoje. No entanto tal como Zheng Kwan Yin (1842-1921) deixou para a posteridade da China as suas “Advertências Severas em Época próspera” talvez a recordação do episódio com que iniciei este artigo, situado em Portugal, geograficamente posicionado quase nos antípodas e numa conjuntura particular que de nós dista quase um século, tenha algum valor para os dias que correm. Quanto mais não seja o valor moral e inocuamente universal que têm, por exemplo, as fábulas de Esopo, ou La Fontaine.

PS. Tinha prometido concluir o episódio da guerra esta semana, mas tendo em conta o debate das “Linhas de Acção Governativa” na AL, este “aparte” pareceu-me mais adequado. Concluirei o que prometi em os “Sinais” da  próxima terça-feira.

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