Guerra, crime e política: – Um “western” de Macau (I) 30-11-10

Apesar de toda retórica sobre a invencibilidade do exército e da marinha imperiais comprovada pela sucessão de vitórias em todo o Extremo Oriente, os estrategas japoneses sabiam bem que ocupar militarmente a China era tarefa impossível. Daí terem desenhado um plano de ocupação efectiva das regiões norte do país contíguas à Coreia (então colónia japonesa) base a partir da qual o chamado exército de Kwantong se encarregaria de lançar uma ofensiva para Sul destinada a apossar-se dos principais portos chineses, desde Tientsin a Xangai, passando por Cantão, Hong Kong até à ilha de Hainão.

Esta estratégia permitia a Tóquio garantir a impossibilidade de reabastecimento das províncias interiores, dificultando, ou teoricamente bloqueando, a possibilidade de auxílio dos Estados Unidos e Inglaterra ao exército nacionalista comandado por Shiang Kai Chek totalmente colocado na defensiva perante a trituradora máquina militar nipónica.

Este plano cuja execução se iniciou com pleno vigor em 1937 foi cumprido obrigando o governo chinês a abandonar Pequim e sedear em Chunking (muito mais a Sul) a sua capital política. Este movimento estratégico obrigou as forças aliadas a abrirem vias de comunicação de emergência através das províncias meridionais chinesas confinantes com a Birmânia (então colónia inglesa) único ponto através do qual o exército do generalíssimo nacionalista se passaria a poder sustentar.

Esta resposta ocidental levaria o Japão, numa fase posterior da guerra, a ter que estender a sua campanha mais para Sul da Ilha de Hainão visando a Malásia e a actual Indonésia que passavam a constituir, depois de aberta a estrada da Birmânia (“Burma Road”), os únicos pontos extensamente vulneráveis do cerco da China.

Eventuais planos de invasão da Austrália parecem ter estado desde sempre fora de qualquer pensamento estratégico dos generais de Tóquio. A Austrália, pela sua dimensão geográfica gigantesca seria, tal como a China, caso a ter em conta muito mais tarde e bem mais pelos diplomatas do que pelos generais. A ocupação de Timor não passou por isso de um episódio táctico de ordem puramente militar em resposta a um inadvertido passo de Camberra.

D. Aleixo Corte Real, régulo de Timor, herói

e mártir na luta contra a invasão japonesa.

(1886-1943).

(foto retirada de – imagemcomparativa.blogspot.com)

 

A estrada de “Burma” tinha ao todo 1,154 km de extensão e serpenteava através de regiões montanhas em terreno particularmente difícil. A secção entre Kunming e a fronteira birmanesa foi construída por 200,000 trabalhadores chineses, a pá e picareta, durante a chamada “segunda guerra sino-japonesa” em 1938. A sua utilidade seria confirmada pouco tempo mais tarde quando os ingleses e americanos a passaram a usar para o transporte de material de guerra, mas não só, para a chamada “China Livre”.

Se a ofensiva nipónica de cerco pelo “Sudeste Asiático” tivesse sucesso toda a China, mais tarde, ou mais cedo, se renderia sem necessidade de empenhar milhões de homens em expedição duvidosa sobre imensidões continentais. Seria, os japoneses sabiam bem, uma expedição semelhante à campanha napoleónica contra a Rússia, nos inícios do século XIX. Tal como ela o mais provável é que redundasse no mesmo fracasso. Porém os estrategas militares de Tóquio não ignoravam os quês e porquês dos desaires de Napoleão um século antes. Nesse contexto, para além de Singapura, bem mais a Sul de Hainão e pelas razões aduzidas, dois Portos da China apenas se interpunham à concretização completa do bloqueio continental:- Hong Kong e Macau.

Quanto à primeira a questão ficaria resolvida já que com a aliança Germano nipónica os ingleses passavam a ser inimigos o que justificou o ataque e ocupação da colónia britânica. Uma ocupação que se verificou em poucos dias sem apelo, agravo, ou resistência capaz por parte dos exércitos da Grã-bretanha, o que para estes constituiu umas das maiores humilhações da sua história imperial.

De facto depois de mais de um século de propaganda de invencibilidade marítima dois dos mais míticos vasos de guerra do almirantado (Prince of Walles e Repulse) enviados para a Ásia para defender a sua presença foram a pique quando mal penetravam no teatro de guerra do Pacífico.

Cruzador britânico HMS Rpulse. Afundado pela marinha japonesa no dia 10 de Dezembro de 1941.

Hong Kong e Singapura propaladas como fortalezas inexpugnáveis pereciam, quase simultaneamente, em poucos dias face ao exército do imperador Hirohito. Que era feito das estrofes do hino: –  “rule britannia rule above the seas”? Nada!

Ficava a restar Macau colónia de um país neutral que apesar da sua exiguidade geográfica e quase ausência de meios militares de defesa não podia ser ocupada à luz do direito internacional e teria de ser tratada de modo diferente.

Nesse aspecto os japoneses cumpriram formalmente, ainda que de modo pouco escrupuloso, os requisitos de neutralidade.

O exército de Kwantong, depois de ocupar as ilhas da Lapa, D. João e Montanha, todas elas reivindicadas por Portugal (onde existiam destacamentos policiais permanentes portugueses havia muitos anos, mas que eram territórios possuidores de estatuto internacional indefinido), parou junto às Portas do Cerco.

Para o interior da fronteira de Macau o papel protagonista caberia pelos quatro anos seguintes não às divisões de linha do exército, marinha e força aérea, mas sim aos departamentos de inteligência  e polícia militar dos três ramos das forças armadas mas principalmente à “Kempentai”, os serviços secretos do exército de sua majestade imperial. Estes para além da espionagem e contra-espionagem tinham como missão garantir, por um lado, que os circuitos de abastecimentos de bens essenciais para a população civil e militar (tropas nipónicas e chinesas aliadas, entenda-se) permaneciam exclusivamente em mãos amigas. Por outro lado, que Macau beneficiando do seu estatuto de neutralidade não se constituísse em base de apoio, contrabando, centro de informações estratégicas e sabotagem ao serviço da “China livre”.

Esta situação levou a que o Japão impusesse a elevação do estatuto do seu cônsul, Fukui Yasumitsu à condição de conselheiro especial do Governador de Macau, com poderes que claramente extravasavam os de um mero representante diplomático de um país estrangeiro. Aliás é curioso notar, neste ponto da história, que, nas listas oficiais de dirigentes mundiais oficial e internacionalmente publicadas, Macau ainda conste, como tendo sido, nessa época, um protectorado japonês e o cônsul Fukui Yasumitsu um super administrador a que o Governador (Gabriel Maurício Teixeira) estaria de facto sujeito como efectivamente esteve. Será uma incongruência que até hoje não foi corrigida, ou corresponderia a uma situação real? Responder a esta pergunta depende da consulta de documentação dispersa por diversas chancelarias de vários países muita da qual ainda permanece inacessível e protegida pelos carimbos vermelhos que a dão, apesar de já lá irem mais de seis década e meia, como secreta.

Concomitantemente com o cônsul, o comandante da “Kempentai”, coronel Sawa tornava-se efectivamente uma espécie de chefe sombra da Repartição dos Serviços de Economia de Macau, ainda que formalmente a sua liderança pertencesse a Pedro José Lobo.

Esta anómala situação levou à criação de uma empresa monopolista denominada “Companhia Cooperativa de Macau” (CCM) de que o governo português possuía um terço das acções. O outro terço pertencia ao exército japonês e o restante estava distribuído por várias famílias ricas, entre as quais se incluíam nomes como os de Sir Robert Ho Tung e outros grandes magnatas de Hong Kong que no limiar da ocupação da colónia britânica tinham transferido os seus negócios e os seus bancos para a colónia portuguesa do outro lado do Rio das Pérolas.

Como delegado do Governo Pedro José Lobo geria “oficialmente” essa empresa que, na verdade, em vez de obedecer às directrizes políticas do governo de Macau obedecia isso sim e muito mais, aos objectivos politico-militares nipónicas de controlo dos principais bens de primeira necessidade – o arroz era o principal, mas outros havia não menos importantes.

Quem esclarece esta situação é Stanley Ho que através de seu tio (Sir Robert Ho Tung) conseguiu uma colocação de certo destaque na emergente “CCM”: – “o governo português entregava-nos tudo o que podia. Navios, equipamento de comunicações, ou seja o que havia capaz de render alguma coisa. Tudo isso era entregue aos japoneses em troca de arroz, feijão, azeite, açúcar, enfim todos os bens essenciais, já que o governo de Macau não tinha recursos para acorrer às necessidades da população”.

Macau estava inexoravelmente sujeita a cerco semelhante ao dos antigos castelos da idade média e ao contrário da analogia nem sequer possuía azeite ou alcatrão para lançar sobre quem lhe assediava as muralhas!…

Apesar porém da existência da “CCM”, certo é que esse monopólio oficial não decorria de uma acção espontânea e natural dos mercados, mas sim de um imperativo bélico.

A “CCM” satisfazia os grandes comerciantes e especuladores que a curto prazo lucravam com a guerra sem olhar a nacionalidades, ou ideologias, mas apenas estes. Ao governo de Macau, por seu turno, permitia acorrer às inúmeras necessidade de uma população que tinha crescido exponencialmente com o constante afluxo de refugiados que surgiam de toda a parte. Dar de comer às pessoas era essencial. Todos os dias se recolhiam pelas ruas cadáveres vítimas da fome, frio, inanição, ou simplesmente do facto de viver se ter tornado fardo demasiado pesado para quem chegava sem nada e não via futuro em nada. Se alguém lucrava ilicitamente com os estratagemas adoptados para salvar vidas e como é que com isso se lucrava era a menor das interrogações para as autoridades de Macau.

Macau: Distribuição de arroz durante a guerra.

(Macauantigo-blogspot.com)

Impedido pelas convenções internacionais de manter em solo macaense a sua “gendermerie” o coronel Sawa, chefe da “Kempentai” recorreu naturalmente às ancestrais seitas que em Macau passaram sob as suas ordens a desempenhar funções de certo modo semelhantes às que em Portugal desempenhava a “Legião Portuguesa” (LP) por esses tempos.

Assim os elementos das seitas, tal como os da “LP” na longínqua “Metrópole” eram polícia de segurança pública, oficiais de alfândega e braços executores dos serviços de inteligência chinesa do governo fantoche e colaboracionista de Weng Ching Wei aliado dos japoneses que mandavam tanto, ou em certas circunstâncias mais ainda do que as instituições oficiais e legalmente estabelecidas. Ou seja vivia-se um tempo de inextrincável confusão. Um tempo de excepção em que um revólver empunhado por mão anónima fazia valer melhor a autoridade do que qualquer “crachat” de polícia, ou mandato judicial. Nesses tempos incorrer em crime de desobediência à autoridade dependia apenas da qualidade de quem desobedecia, mas de modo algum de qualquer artigo do Código Penal, por mais evidente que o flagrante delito fosse.

O comandante de um dos mais importantes destes corpos (se é que se pode chamar assim), actuantes em Macau (onde actuavam outros de outros quadrantes, umas vezes opostos, outras circunstancialmente aliados, “nem sempre todos, nem sempre os mesmos” como rezavam os autos de polícia), era Wong Kong Kit, um criminoso de delito comum que tinha quartel-general numa casa da avenida Coronel Mesquita e residência noutra da Ouvidor Arriaga. Esta defendida por sacos de areia e metralhadoras pesadas numa réplica (ainda que em menor escala) do quartel-general de S. Francisco.

– “Wong Kong Kit foi o verdadeiro Clyde de Macau durante a II Guerra Mundial. Era um sujeito de voz activa que tinha um complemento directo na pessoa de sua Madame Bonnie ilustre costureira, cujas mãos sanguinárias em vez de manusearem a agulha em delicadíssimos bordados empunhavam dois revólveres, que ela podia disparar tanto da esquerda para a direita como da direita para a esquerda(…) Estes dois “gangsters” apareceram por encanto na nossa fronteira e estabeleceram a sua firma  Bonnie and Clyde sob a superintendência da gendermeria japonesa (…) qual o negócio? Espionagem, pressão contra o governo português, fiscalização de arroz importado da China, impondo uma taxa sobre ele. Quais os meios com que contava? Ele transitava pelas ruas em 2 automóveis com 8 homens armados de pistola “Mauser” e revólver de calibre não inferior a 38. Tinha apoio da gendarmeria japonesa sob o comando do coronel Sawa”. Quem isto diz é Monsenhor Manuel Teixeira que viveu os acontecimentos e os deixou escritos em “sumido” trabalho monográfico que mal consta da sua bibliografia.

Deste homem, viremos a encontrar bem mais recentemente uma versão moderna, ainda que muito menos poderosa durante a chamada “guerra das seitas” que antecedeu o período de transição de soberania de Macau para a RPC, e que teve o seu auge em 1997, no peculiar “Tai Ko” Pan Nga Koi, que actualmente cumpre longa sentença judicial em prisão de alta segurança.

Todavia, entre Vong Kong Kit e Pan Nga Koi as semelhanças terminam no facto de ambos serem essencialmente exibicionistas, fanfarrões e chefes de “seita”, para alem, naturalmente de criminosos de delito comum, sem qualquer ideologia. Quanto ao resto, as circunstâncias não têm paralelo. O primeiro era um “gangster” apoiado oficialmente por um Estado ocupante e imperialista.

O segundo era “gangster” do mesmo jaez, que chegou a encerrar uma das pontes de Macau contando com espúrias cumplicidade apenas para participar num cena de filme, por si próprio patrocinado, passeando-se por ela com uma coluna de carros repletos de guarda-costas que não passavam de actores. O “Tai Ko” dos anos 90 não era uma réplica de Wong Kong Kit, mas apenas alguém que pensava que sim, que era apoiado fosse por quem fosse, que estava acima da lei

A diferença era abissal e foi determinante nos seus diferentes destinos. Pan Nga Koi, por mais poderoso que se julgasse nunca esteve acima do estado de direito que o julgou e condenou, nem tinha um poderoso coronel Sawa como protector.

Quanto a Vong Kong Kit o caso era muito diferente. O estado de excepção que se vivia nos anos 40 do século passado era muito semelhante ao das cenas dos “western” americanos. Assim só um justiceiro poderia fazer de facto justiça e foi o que aconteceu. Nesse caso o executor da lei não foi o “herói” John Wayne dos filmes mas, sim um “xerife” real à portuguesa que dava pelo nome de Sebastião Voltaire Pinto de Morais comissário da polícia.

Para a semana aqui contarei o resto da história.

Advertisements

Leave a comment

No comments yet.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s