O corredor secreto 16-11-10

Naturalmente que perante a omnipresença japonesa em Macau o estatuto de neutralidade valia menos do que nada e foi isso mesmo que o comandante Gabriel Maurício Teixeira se apercebeu mal chegou ao Território. Isto bem ao contrário do seu chefe da administração civil Meneses Alves. Curioso será entender o facto de ambos serem convictos apoiantes e militantes dos princípios do Estado Novo não diferindo nesse aspecto em termos ideológicos. No que diferiam era nos termos práticos em que haviam de administrar um território cuja situação geopolítica internacional só teria paralelo com o Marrocos francês expresso por Humphrey Bogarth e Ingrid Bergman no filme “Casa Blanca”.

No entanto apesar de todas as eventuais semelhanças o cenário de Macau não era o de Casablanca nem a ficção, ainda que por vezes romântica, se balizava pelo preto e branco. Macau era uma película muito mais complexa. É que sobre as duas cores opostas imperavam todos os matizes de cinzento numa cortina tanto mais difusa quanto lhe emprestava o seu oriental exotismo.

Este esbatido cenário mostrava-se a toda a largura da boca do pano através de dois actores que se mantiveram em cena no palco macaense durante os quatro anos da guerra.

Um era o cônsul britânico John P. Reeves, o outro o seu homólogo japonês Fukui Yasumitsu.

John Reeves era um jovem diplomata quando chegou a Macau vindo de Mukden (actual Sheniang) local onde a guerra secreta se travava de um modo particularmente aceso entre o Japão, a China e as potências ocidentais. Alegadamente terá vindo para Macau para descansar. De que trabalhos e fadigas que outros dos seus colegas não tenham tido? Não se sabe nem era para saber. De facto a ordem oficial de descanso de Reeves não era mais do que uma cobertura já que o cônsul pertencia ao MI6 (Inteligence Service) organismo que dependia do Foreign Office. O posto que vinha ocupar estava longe de se assemelhar a uma estação de convalescença sendo sim uma das principais “antenas” do Extremo Oriente dos serviços de informações.

No que diz respeito a Fukui Yasumitsu a história era outra. Fukui era um funcionário diplomático cumpridor, mas com um espírito intrinsecamente civilista ligado ás correntes políticas que se opunham ao totalitarismo militarista que tinha tomado o seu país com a bênção do imperador Hiroito. No plano concreto Fukui, reflectia a opinião de correntes prevalecentes ainda que sem poder de decisão junto dos órgãos centrais de que a ocupação militar da China não passava de uma guerra perdida a longo prazo. A curto prazo representaria quando muito um investimento demasiado caro, tanto em dinheiro como em vidas perdidas sem possibilidade de retorno. Quanto ao slogan “a Ásia para os asiáticos” apregoado aos quatro ventos pelo “Império do Sol Nascente” Fukui entendia-o apenas como isso mesmo, ou seja um mero slogan que na prática não significava mais do que uma entrada tardia do seu país numa era imperialista que a Europa e os EUA tinham iniciado na China com a primeira “guerra do ópio” (1839-42).

Estes dois homens encontraram-se em Macau (se não se tivessem encontrado antes em Mukden) numa situação pouco menos que surrealista descrita assim: –

Macau é hoje um centro de espionagem japonesa e por sua vez de contra-espionagem chinesa. Registam-se com frequência na colónia atentados a chineses de tendências pró Japão ou mesmo com a simples suspeita de simpatia por ele (…) os nossos amigos de ambos os lados desconfiam de nós (…)mau é que nos tenham colocado nessa posição tornando qualquer movimento que não seja absolutamente claro, suspeito aos seus desconfiados olhos (…). Também os japoneses pensam e dizem que precisam dificultar a vida a Hong Kong que ajuda o governo de Chiang Kai-Shek permitindo que por ali se transporte material e artigos de guerra. (…) Se houver guerra a nossa posição já é diferente. A amizade secular com a Inglaterra pode ser um factor contra nós. (…) Os chineses suspeitam que Hong Kong não poderá dar-nos auxílio e, nestas condições, por sua vez, não nos olharão com os mesmo olhos com que nos vêm agora.

Em 1943 o Japão reuniu uma conferência histórica com os chefes de estado das nações do Sudeste Asiático: – Hideki Tojo (Japão), Wang Jingwei (China), Zhang Jinghui (Manchukuo), Ba Maw (Birmânia), Whaiwhai Thayakone(Tailândia), Jose Laurel (Filipinas) e Chandra Bose (Índia) todos estes tomaram parte na conferência que se realizou numa calorosa atmosfera em Tóquio. “A Ásia para os asiáticos” era o lema.

Esta era a súmula oficial da situação de Macau descrita em relatório secreto pelo bem informado cônsul português em Cantão Vasco Martins Morgado em 1938 no limiar da guerra e da chegada dos dois cônsules.

Curiosamente, Reeves e Fukuy iriam habitar em residência vizinhas nas faldas da colina da Guia mantendo amizade pessoal que não escondiam, nomeadamente ao marcarem presença conjunta em vários eventos sociais e desportivos patrocinados pelo governo de Macau, ou pelos respectivos consulados.

Esta situação mudaria radicalmente na sequência da ocupação de Hong Kong.

Embora permanecessem tão amigos como antes, os dois representantes diplomáticos, depois da declaração de guerra, não tiveram remédio senão considerar-se também formalmente inimigos.

Como prova disso mesmo fizeram questão em emparedar as janelas das respectivas vivendas fronteiras em que residiam a fim de vincar o corte de relações. Formalmente os dois cônsules deixavam dali para a frente de se falar. E nunca mais foram vistos juntos nos convívios sociais onde até então tinham sido assíduos.

O emparedamento das janelas não passou porém de mais outro formalismo (um tanto conspícuo) já que Fukui e Reeves se encarregaram de mandar construir “secretamente” um corredor entre as duas residências que permitia que se continuassem a encontrar ou a receber visitas sempre que assim entendiam fora de vistas indiscretas. E as visitas oficiais eram sem dúvida, principalmente, os agentes da “Kempentai” (polícia secreta militar) japonesa, comandada pelo coronel Sawa, que mantinham um pesado aparato de vigilância à casa do lado, ou seja de Reeves, seguindo-o sempre e ostensivamente de cada vez que se deslocava de casa para o consulado, ou para os diversos actos protocolares em que participava.

Quanto às instâncias portuguesas a construção do corredor não pareceu constituir infracção de maior já que não consta ter havido denuncia de obra ilegal efectuada a propósito, nem por parte dos fiscais das Obras Públicas nem da polícia, embora a construção fosse patentemente notado por todos os que por ali circulavam, incluindo as crianças do bairro de S. Lázaro que se perdiam em brincadeiras a poucos metros do local no Jardim Vasco da Gama e que do “secreto” corredor conheciam a história.

Apesar do benevolente semi-cerrar de olhos oficial ao anómalo convívio entre Fukui e Reeves o caso do “corredor” continua, ainda hoje, a constituir um total mistério. Terá sido ditado pela necessidade imperiosa de manter secretamente uma forma de contacto regular através dos dois homens entre as duas potências em conflito? É uma possibilidade, tanto mais que o dito corredor, não só permitia a passagem de Reeves, Fukui e respectivas famílias, como também a reunião informal de toda a espécie de pessoas que um ou outro dos dois cônsules pudessem convidar para suas casas. Nesse âmbito incluía-se Menezes Alves, chefe da Administração Civil, Pedro Lobo o todo poderoso chefe da Repartição dos Serviços Económicos, oficiais do exército, marinha e polícia, bem como os principais próceres das elites comerciais chinesas de Macau e Hong Kong (estes refugiados em Macau), e mesmo o próprio governador que conforme lhe conviesse poderia entrar oficialmente pela porta de “casa” do Japão, ou da Inglaterra sem ninguém saber ao certo se quebrava a neutralidade que o cônsul Morgado tão insistentemente defendia que tinha de ser preservada a todo o custo.

No entanto o corredor parece ter sido um elemento vital num conjunto de atitudes do consul Fukui que levantou suspeitas de infidelidade ao regime por parte do coronel Sawa.

Um dia ao sair de casa um comando de assassinos esperava-o à porta abatendo-o a tiros de metralhadora. A autoria do atentado não deixou dúvidas a ninguém. O coronel Sawa era o suspeito. No entanto, como o ataque foi levado a efeito por elementos de uma seita chinesa a suspeita não se provou. O governo de Tóquio lavrou um protesto diplomático e Lisboa não teve remédio senão pedir desculpas formais e pagar uma indemnização compensatória por um crime com o qual nada tinha a ver.

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