Macau 1941-45: Um anel de ferro a toda a volta 09-11-10

Falei a semana passada nas actividades clandestinas da resistência dos aliados em Macau contra a ocupação japonesa durante a Guerra do Pacífico. Um período de neutralidade precária que Macau viveu envolto no anel de ferro que os japoneses mantiveram em torno do Território que assim permaneceu virtualmente isolado do mundo exterior durante mais de quatro anos, particularmente após a queda de Hong Kong no Natal de 1941.

Irei ocupar-me agora da presença japonesa e da sua guerra secreta, mas antes é necessário traçar o quadro da situação nesses anos de brasa, sem o qual não é possível compreender uma situação essencialmente caracterizada por um jogo de sombras.

A neutralidade de Macau permitiu que ao longo de todos esses anos a “union jack” que flutuava diariamente no consulado britânico local fosse a única bandeira aliada visível em todo o Extremo Oriente depois de todas as outras terem sido humilhantemente arriadas, pelas forças nipónicas que em poucos meses tinham provado com a rápida conquista de Hong Kong e Singapura que a Inglaterra como super-potência não passava de um mito.

O Japão dominava de Norte a Sul, ou seja desde a Manchúria à Indonésia sem contestação e ameaçava a Austrália. A esquadra inglesa que “alegadamente” patrulhava o Pacífico tinha sido metida a pique pelas forças navais do almirante Yamamoto nos mares de Singapura e a maior parte dos militares de sua majestade o rei Jorge VI  encontravam-se irremediavelmente encarcerada nos campos de concentração das ex-colónias da costa da China e do Sudeste Asiático. Militarmente o Japão tinha provado a sua superioridade incontestável nos mares repetindo de uma forma exponencial a vitória que tinha obtido em 1905 contra os russos, quando se tornou o primeiro país não europeu a derrotar militarmente “sem apelo nem agravo” um potência ocidental o que lhe permitiu começar a falar de igual para igual com o que então era designado como o “mundo civilizado”.

Nesse contexto, Macau não foi engolido pela força avassaladora do “Sol Nascente” apenas porque Lisboa decidiu adoptar uma politica inversa à que a República tinha adoptado na “1ª Guerra”(1914-18) e que tinha feito com que Portugal “à autrance” tivesse praticamente “obrigado” a Inglaterra a invocar a “velha aliança” a fim de se fazer participar no conflito.

Desta vez os argumentos de Portugal foram esgrimidos ao contrário. A “velha aliança” manteve-se, desta vez, guardada nas gavetas do Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Inglaterra agradeceu. Para Londres a neutralidade de Portugal convinha muito mais do que a beligerância activa que o “Foreign Office” tinha pedido na primeira conflagração mundial, quando solicitou a apreensão dos navios alemães surtos nos Portos portugueses.

Independentemente dos argumentos que hoje possam ser aduzidos relativamente à atitude do ditador Salazar perante a guerra certo é que no que diz respeito exclusivamente a Macau essa posição representou a salvação do Território, não só durante o conflito, mas imediatamente após. Isto porque assinada a rendição do Japão em Agosto de 1945, o futuro da colónia britânica de Hong Kong esteve por um fio face às reivindicações nacionalistas do partido Kwomintang e ao facto de os Estados Unidos terem acordado com Chiang Kai-shek que Hong Kong seria entregue à China logo que os japoneses fossem expulsos do país. Nesse contexto Macau ficava desde logo (como ficou) pela neutralidade decorrente da política externa de Lisboa fora de qualquer pré acordo internacional que pudesse existir e livre para negociar com qualquer das potências que emergissem vencedoras.

Por outro lado, no âmbito estritamente militar Macau era na verdade um território inerme, por muito que a doutrina do Ministro da Defesa Santos Costa afirmasse que todo o ultramar português era defensável. Essa doutrina estava longe de corresponder a qualquer realidade, particularmente no que a Macau dizia respeito. Isto apesar das grandes obras de engenharia militar (decorrentes dessa doutrina posta em vigor na segunda metade dos anos 30 do século passado) que foram levadas a cabo e que ainda hoje podem ser observadas em parte nos extensos “bunkers” existentes na zona envolvente do Farol da Guia que no limiar da guerra chegaram a estar eriçados de potente artilharia de costa. Sublinhe-se que antes de dispararem um tiro que fosse os imponentes canhões que ali foram montados tão depressa o foram como o seu destino se cifrou em rápido desmonte. O inusitado afluxo de refugiados que mais do que duplicou a população do Território ditou o inexorável desmantelamento da artilharia que seria ingloriamente vendida aos japoneses em troca de arroz base fundamental da sobrevivência da cidade.

Complexo semelhante ao da Guia existia também em toda a linha de fronteira terrestre na zona das Portas do Cerco. Uma verdadeira colmeia subterrânea capaz de conter uma guarnição de três mil homens. Deste porém hoje nada resta depois das obras que ao longo das últimas décadas foram sendo feitas naquela área.

Apesar de toda a aparente imponência, o dispositivo militar de Macau não passava de um “tigre de papel” como se diria nos tempos da “Revolução Cultural”. De facto nessa época a guarnição militar era constituída por 497 homens, sendo 22 oficiais do exército, 35 da marinha e 440 soldado, cabos e sargentos, 224 dos quais eram elementos recrutados em Moçambique que constituíam as companhias de “caçadores indígenas” (Landins).

Aviação Naval de Macau em 1941 (Foto: – macauantigo.blogspot.com)

Para além destas o dispositivo militar era integrado por uma companhia de metralhadoras, e outra de artilharia. Os destacamentos militares da Taipa e da Ilha Verde completavam o diagrama operacional. O apoio aéreo era garantido por 4 hidroaviões “Hawker Osprey” da Marinha, que tal como os canhões da Guia acabariam igualmente por se desvanecer em mãos obscuras resultantes de negócios de emergência ditados igualmente pela necessidade de adquirir bens essenciais.

Neste contexto qualquer tentativa de resistência perante o invasor japonês nem sequer à partida seria concebível, a não ser para os alegados estrategas de Santos Costa confortavelmente instalados nos sofás do Ministério da Defesa no Terreiro do Paço que apenas pretendiam mostrar serviço desenhando planos de batalha fabulosos sobre mapas de conjuntura geográfica e estratégica essencialmente desactualizados. O plano consistia em resistir até à chegada de reforços. Mas que reforços? Perguntar-se-ia sabendo-se que as forças armadas portuguesas não possuíam nem efectivos nem meios de transporte suficientes para enviar forças expedicionárias fosse para onde fosse. Mesmo o Estado de Goa que era a colónia mais próxima e mais forte não possuía meios capazes para se defender a si própria quanto mais enviar um corpo expedicionário para Macau!

A mobilização do então tenente Bragança (já falecido) é ilustrativa desse contexto militar pouco menos que desolador. O tenente Bragança foi mobilizado para Macau como comandante da defesa anti-aérea viajando juntamente com o governador Maurício Teixeira, de quem tinha aliás opinião politicamente pouco favorável. Sendo voluntário para o efeito e havendo vaga pouco interessava ao estado-maior do exército que soubesse ou não como operar artilharia contra aviões. Todavia o tenente como era escrupuloso (disse-mo, em entrevista que lhe fiz para a TDM em 1997) em vez das férias a que tinha direito, antes de partir, decidiu antes tomar algumas lições de como operar com as novas baterias que iria ter por comissão comandar. Para espanto seu (e nosso) o seu voluntarismo confrontou-se com o aborrecimento expresso do comandante da defesa anti-aérea de Lisboa que achava que o estatuto de um oficial estava acima de trivialidades tais como essas de saber apontar uma metralhadora pesada “Bren” e carregar num gatilho para abater um avião inimigo.

Certo é que, quando a aviação americana bombardeou o Porto Exterior em Janeiro de 1945 as metralhadoras anti-aéreas de Macau não dispararam um tiro. Ou porque os artilheiros não estavam nos postos de combate, ou porque o tenente Bragança não estava lá para os liderar, já que por ignotos imperativos de serviço se encontrava a comandar um pequeno pelotão estacionado bem longe na ilha de Coloane.

Pouco tempo depois do tenente Bragança e do governador Maurício Teixeira chegarem a Macau (Outubro de 1940) a Hong Kong chegavam também consideráveis forças canadianas para reforçar as suas defesas acrescentando mais tropas aos 52 mil homens que constituíam a guarnição da colónia.

Simultaneamente a Singapura chegavam os cruzadores “Prince of Wales” e “Repulse” (glórias da “Primeira Guerra Mundial” ingloriamente torpedeadas pela moderna marinha do “Sol Nascente” mal arribaram ao Estreito de Malaca) para apoiar os 82 mil homens que defendiam a cidade.

Apesar de todas essas demonstrações de força e reafirmações propagandeadas pela “BBC” de que a presença britânica no Extremo Oriente era inexpugnável, Singapura e Hong Kong renderam-se em poucos dias com pesadas baixas. Em Singapura caíram em combate 9500 homens. Em Hong Kong 2113. Nesse contexto de hecatombe que poderia fazer Macau, com os seus 497 soldados? Nada! Ou então fariam o mesmo que fez Vassalo e Silva em Goa em 1961, que se rendeu em 36 horas porque perante uma força invencível sacrificar vidas era opção sem sentido.

Mas, felizmente que, Maurício Teixeira não era Vassalo e Silva, nem Macau estava tecnicamente em guerra. Por isso, o governador, cuja biografia está ainda por fazer, comandou durante cinco anos um teatro de operações de marionetas sombrias e letais cujos cordelinhos que as manipulavam fugiam quase por inteiro ao seu controlo.

Por isso, quando A 5 de Agosto de 1946, o comandante do aviso  “Afonso de Albuquerque”, Samuel Conceição Vieira assumiu as funções de encarregado do Governo, por um período de treze meses, em substituição de Gabriel Maurício Teixeira, “afastado de Macau, a pedido das autoridades chinesas, que o acusavam de ter colaborado com os japoneses durante a guerra do Pacífico” consumava-se finalmente o teatro de todas as farsas que tinha sido o Extremo Oriente em chamas desde 1937. Tudo porque durante cinco anos a neutralidade de Macau não passou de um mito. Os senhores da colónia portuguesa eram de facto os japoneses. O seu “shogum” era o frio e implacável coronel Sawa, chefe da temível “Kempentai” a polícia secreta do Imperador do Japão na província de Guangdong.

Dele pouco se sabe, mas do que fez há notícia bastante para lhe traçar o perfil terrorista. Falarei dele na próxima semana.

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1 Comment

  1. […] – A Grande Guerra, 1993. Publicada pelo Estado Maior do Exército, Lisboa, em 4 volumes (4) https://temposdoriente.wordpress.com/2010/11/12/macau-1941-45-um-anel-de-ferro-a-toda-a-volta-09-11-1… (5) ALECRIM, Alberto – Um dos últimos de Man-Ió, in MACAU, Gabinete de Comunicação Social […]


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