A guerra em campo neutro 02-11-10

Ao longo dos quatro anos do chamado conflito do Pacífico Macau manteve-se território neutral mas a guerra ainda que uma forma muito mais insidiosa também teve também aqui o seu teatro ao longo desse angustiante período e apesar de toda a neutralidade oficial.

A neutralidade de Macau foi diplomaticamente e na generalidade respeitada tanto pelos japoneses como pelos aliados, ao contrário do que aconteceu em Timor onde a intenção australiana de ali firmar pé levou o exército nipónico a ocupar a antiga colónia portuguesa.

Apesar disso porém Macau não deixava de ser igualmente uma frente de combate ainda que esse combate fosse levado a cabo por soldados vestidos à civil, guerrilheiros, mercenários e espiões. Aqui todas as forças estavam na primeira linha, mas os diferentes exércitos em vez de se misturarem em sangrentas batalhas digladiavam-se nas sombras. Saber quem era o inimigo foi tarefa impossível até ao final da guerra.

O Hotel Central, situado na Almeida Ribeiro, por exemplo era uma verdadeira Babilónia, onde se entrecruzavam em festas quase permanentes agentes de todas as cores. Fardas do exército português rodopiavam em memoráveis bailes por entre uniformes do “Império do Sol Nascente” e caquis das forças de Wang Jingwei, o presidente chinês do governo de Nanquim marioneta dos japoneses. Jovens mulheres das mais diversas proveniências, desde Yokohama a Harbin e às vezes de mais longe ainda condensavam uma atmosfera envolta em volutas de fumo e eflúvios de álcool no que se diria uma transposição literal dos loucos anos 30 que fizeram a imagem de Xangai. Nesse ambiente de cacofonia, nas na pista de dança e nas mesas que a circundavam segredavam-se os diálogos mais inconcebíveis. Desde informações de valor estratégico para o combate que troava do outro lado das Portas do Cerco a convenientes boatos, passando por negócios escuros, ou apenas negócios, até inocentes juras de amor eterno. Nestes casos o termo “eterno” era um tanto despropositado, pois a eternidade desses tempos em Macau nunca ia muito além da manhã do dia seguinte, já que o futuro constituía para toda a gente a mais total das incógnitas.

Desse ambiente, para além de algumas descrições vivas que se podem encontrar nalgumas obras do romancista Leal de Carvalho, por exemplo, o testemunho do antigo deputado do Conselho Legislativo de Hong Kong, Rogério Lobo (Sir Roger Lobo) constitui uma breve mas elucidativa síntese: – “Eu nunca senti ódio dos chineses a soldo dos japoneses, ou dos próprios japoneses em Macau. Para mim eram apenas pessoas que faziam o que tinham a fazer. Eu fazia também o que tinha a fazer”. O testemunho de Rogério Lobo é tanto mais exemplar quanto ele próprio pertencia uma das mais célebres redes de espionagem que operou durante a “Guerra do Pacífico” no Sul da China com quartel-general em Macau. – “Nos fazíamos parte do British Army Aid Group essencialmente encarregado de enviar para a China livre os pilotos dos aviões que eram abatidos nesta região, ou que conseguiam chegar a Macau. nós conseguíamos retira-los e faze-los regressar às suas unidade de origem. O grupo de “inteligência” passava-nos as informações de modo a conseguirmos localizar os pilotos e coloca-los em juncos depois de nos assegurarmos que a costa estava livre. Essas operações eram normalmente feitas com dois juncos. Um era a motor e suficientemente barulhento para atrair a atenção das patrulhas japonesas. Seguia de maneira a ser deliberadamente apanhado. O outro era o que na verdade transportava o fugitivo escondido e que calmamente rumava sem embaraços com destino à China livre. Eram operações arriscadas. Para nós, para os pilotos, enfim, para toda a gente (…) Recebia as ordens de missão normalmente pela manhã cerca das 10, ou 11 horas durante os jogos de ténis modalidade que praticava. Depois lá ia. Aprendemos a nunca falar sobre o que fazíamos. Nem mesmo com meu Pai alguma vez discuti esses assuntos. O grupo fazia parte da estrutura comandada por Lord Mountbatten”.

Assim, ao longo desses anos Macau foi de facto um palco de guerra e não só um oásis de paz, como aparentemente se poderia ser levado a pensar pela maior parte das memórias que foram sendo recolhidas de quem viveu esses tempos. O lado sombrio e clandestino da guerra permaneceu por isso bem guardado no silêncio das memórias tanto mais que as actividades de espionagem se mantiveram abrangidas pelas leis do segredo de estado até muito depois do final do conflito com a rendição formal do Japão no dia 2 de Setembro de 1945. Por isso revelações extemporâneas, mesmo já em tempos de paz poderiam ser alvo de pesadas condenações nos tribunais civis e militares ingleses, americanos, ou chineses.

No caso português o regime de Salazar possuía ainda meios de coação adicionais que eram a PIDE e os tribunais plenários que até 25 de Abril de 1974 se mostraram sempre lestos em descobrir atentados contra a Nação, mesmo nas mais inócuas das memórias, quer fossem dadas à estampa, ou apenas conversadas em tertúlias de café.

Como abóbada a encerrar todos os segredos por contar acresce ainda a panóplia de traidores e agentes duplos que faziam com que na Macau da “Guerra do Pacífico” nunca se soubesse ao certo quem era quem. A figura do jovem William Gardner, fica para a história como um paradigma.

Gardner era um dos milhares de refugiados que a Macau se acolheram e que deu nas vistas por alegadamente se “bandear” abertamente com os japoneses. Por isso era visto com maus olhos por todos os que simpatizavam com a causa aliada e que constituíam a maioria, mas não só. Diz-se que Gardner chegou a passear-se na Almeida Ribeiro e nos salões do Hotel Central armado e ostentando um uniforme japonês. Por isso sofreu quatro anos de segregação e seus próprios pais não escondiam a vergonha que sentiam pelo comportamento do filho. No entanto, selada a paz Gardner surgiria inopinadamente aos olhos dos que o condenavam vestido, agora sim, com o seu verdadeiro uniforme que era o do exército dos Estados Unidos e integrado numa delegação militar do seu país. Ao peito refulgia para maior espanto de todos a condecoração que lhe tinha sido imposta por relevantes serviços prestados em campanha à causa aliada.

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