Os guerrilheiros esquecidos do Rio de Leste 26-10-10

Como tenho vindo a dizer a história é assunto delicado de pegar.

Por um lado não se pode fazer sobre o acontecimento, porque é necessário distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos.

Por outro historiar, em muitos países, ainda hoje significa, por vezes, ofender o poder político vigente com as consequências que tais ofensas acarretam.

E por vezes não são poucas.

Muitos que se atreveram a “esgravatar o passado” foram parar às cadeias, ou caíram mesmo perante os pelotões de fuzilamento (noutros tempos claro!).

Goya deixou desenhos elucidativos sobre esse assunto.

Basta olhar para os seus quadros e esboços sombrios para ter uma ideia do que é pugnar pela verdade contra a verdade que os poderes soberanos de ocasião entendem que deve ser.

Portanto, porque não convém, politicamente, ou porque não é oportuno, ou mesmo porque é arriscado, muitas memórias que muitas vezes poderiam explicar com simplicidade o rumo dos acontecimentos no mundo permanecem ignoradas, ou pudicamente auto-obliteradas porque não convém. Por isto, ou por aquilo…

Essas lacunas só contribuem para lançar véus de mistério desnecessários sobre as razões pelas quais as sociedades se comportam de um modo e não de outro. Por vezes o mundo aparenta mover-se de forma incoerente, mas na verdade os resultados sociais decorrem sempre de causas anteriores bem definidas. Conhecendo-se as causas o rumo da marcha dos povos torna-se então mais discernível

Às vezes, decisões políticas e estados sociais radicam em factos históricos marcantes mas que pelas razões apontadas foram relegados para o esquecimento apenas porque a conjuntura política o determinava e a bruma impõe-se.

É o caso narrado no livro: “East River Column. Hong Kong Guerrilhas in the Second World War and After.

Em português, qualquer coisa como “A Coluna do Rio de Lestes. Os guerrilheiros de Hong Kong durante a Segunda Guerra Mundial e depois”.

Mas o que era a Coluna do Rio de Leste?

Em resumo pode dizer-se que era um grupo de patriotas liderado pelo Partido Comunista da China (PCC), sobre os ombros de quem pesou a maior responsabilidade na resistência contra a ocupação japonesa desde 1937 em diante, nesta região do país. A coluna era composta por umas centenas de militantes que iam de intelectuais a camponeses e pescadores iletrados unidos pelos anseios de liberdade contra a opressão nipónica. Não muitos seriam verdadeiramente comunistas no sentido militante do vocábulo, mas certo é que estavam enquadrados nas fileiras e operavam de acordo com a estratégia do partido.

Esse grupo não só manteve em cheque as forças japonesas, como prestou igualmente um auxílio valioso (atrás das linhas) aos exércitos aliados no Leste Asiático, no campo de batalha e no domínio das informações tácticas e estratégicas de auxílio à campanha.

Por outro lado teve também uma acção de relevo no apoio à fuga de numerosos prisioneiros de guerra aliados internados nos campos de concentração japoneses de Hong Kong.

Memorial dedicado à luta dos guerrilheiros contra a ocupação japonesa na província de Guangdong.

Pergunta-se então. Se tiveram uma acção tão relevante, porque é que pouca gente sabe hoje que Coluna tenha sido essa?

A explicação é simples.

No final da guerra, à Inglaterra, ao reocupar Hong Kong, convinha não hostilizar o governo nacionalista, do Kwomintang que tinha lutado bem mais contra os comunistas do que contra os japoneses e a “Coluna do Rio de Leste” era o braço armado do PCC na província de Guangdong. Não era o governo oficial da China. Só o viria a ser no final da guerra civil em 1 de Outubro de 1949.

Por isso, embora reconhecendo os esforços valorosos empreendidos pela Coluna durante a guerra as autoridades britânicas com o seu habitual pragmatismo, preferiram conferir uma ou duas medalhas de mérito em combate a alguns dos seus líderes, oferecer uns pequenos montantes em dinheiro aos guerrilheiros reformados que optaram por permanecer em Kowloon e nos Novos Territórios regressando às suas antigas ocupações e deixar cair, naturalmente, o assunto no esquecimento

Do outro lado da fronteira, guerrilheiros e dirigentes foram por seu turno alvo de reconhecimento, mas apenas momentâneo.

É que com a “Revolução Cultural” (1966) triunfante esses combatentes acabariam também por ser acusados de estar ao serviço do imperialismo. Isto apesar de a acusação se basear apenas no facto de durante a guerra terem mantido estreitos contactos com as forças aliadas e por força das circunstâncias com os Nacionalistas do Kwomintang. Por isso ter pertencido à Coluna deixava novamente de ser pergaminho a ostentar mas antes passado a esconder se possível.

É caso para dizer como dizia o nosso Afonso de Albuquerque: – “Mal com os Homens por Amor de Deus, mal com Deus por amor dos Homens”.

Finda a Revolução Cultural, a China de Deng Xiaoping, não demonstrou interesse em reabilitar memórias e Hong Kong em processo de transição de soberania também não.

E assim, a “Coluna do Rio de Leste”, desapareceu nas brumas da bibliografia e quase da história, como se nunca tivesse existido.

De facto, até surgir a obra que temos vindo a referir praticamente nada se escreveu sobre o assunto, que continuava a não agradar a gregos nem troianos.

Quem decidiu lançar uma pedrada no charco foi Chan Sui Jeung, que se arrojou à empresa de tirar do anonimato esse grupo de heróis que chegou a ser classificado, em certos pontos da história, como “bando de malfeitores”.

O livro é recheado de peripécias, e resultou de numerosas entrevistas que o autor manteve com os sobreviventes da Coluna, bem como da consulta dos arquivos disponíveis.

Um livro, que apesar de tratar essencialmente de Hong Kong, não deixa de salientar o importante papel que Macau desempenhou na luta contra a agressão japonesa, apesar da sua neutralidade na guerra.

O autor, Chan Sui Jeung, é licenciado pela Universidade de Hong Kong e foi durante vários anos administrador civil nos Novos Territórios, local onde viviam muitos dos guerrilheiros que integravam a Coluna, dos quais teve oportunidade de recolher memórias inestimáveis.

De Macau, por enquanto, sabe-se apenas que integravam a coluna 60 guerrilheiros de resto não parece saber-se mais nada.

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