Visões da China

Jaime do Inso

A literatura de viagem e em geral a literatura sobre temas ultramarinos nunca ocupou grande lugar no panteão das letras portuguesas.

 

Exceptuando muito recentemente o romance “Equador”, passado em S. Tomé e Príncipe, de Sousa Tavares que foi recorde de vendas.

 

Independentemente do que sobre “Equador” se diga e a crítica foi contundente, sobre o romance de Tavares, creio no entanto que não passa de um grão de areia na desértica bibliografia da literatura ultramarina que possui tantos grãos de areia como nomes esquecidos.

 

Basta falar, por exemplo em Travassos Valdez, Pinto Basto, ou Jaime do Inso.

 

Quem alguma vez leu algum destes autores?

 

Poucos de nós.

 

Acho por isso que é preciso ressuscitar o interesse por este género literário e particularmente este que tanto nos diz.

 

Jaime do Inso.

 

Tenho aqui uma primeira edição dada à estampa pela Editora Europa a 5 de Fevereiro de 1938.

 

Tive a sorte de a encontrar num alfarrabista de Lisboa onde vou sempre que me desloco a Portugal.

 

Ainda bem que este original foi republicado não há muitos anos.

 

Pergunte na Livraria Portuguesa, ou vá à biblioteca do IPOR que o deve encontrar.

 

São visões da China que Jaime do Inso condensa no seu sentimento e que eu cito:

 

“A China absorve-nos, narcotiza-nos, prende e domina, como regra geral, o nosso espírito, invade tudo, o raciocínio e o sentimento, como uma teia invisível que aperta, pouco a pouco, insensivelmente, que nos sufoca, esgota e cansa!
A China é traiçoeira e calma, insinua-se quanto mais se aborrece, deseja-se quando se odeia, aspira-se como uma necessidade, a China, que quase até nos mata!
A China é como uma feiticeira que tem sortilégios, é a cartomante terrível que parece escrever o nosso destino com letras invisíveis: há no seu ambiente um sopro de agoiro, uma agonia, uma tristeza, uma tortura, que se recebem sem custo e com prazer, como uma necessidade fatal da nossa existência.
A China é o mistério que ri e que dança na frente de nós, numa volúpia dolorosa do espírito duende, a China é a mensageira do desconhecido que perturba, enerva, envenena e vence.
A China é tudo isso e muito mais ainda que a minha pena não sabe descrever, a China não se define, só se respira e sente, como um veneno imprescindível a quem uma vez o provou.”

 

Era este o sentimento de Jaime Correia do Inso nascido em Niza em 1880 e falecido 1967.

 

Neste livro que para além de valer pela escrita vale também pelas extraordinárias fotografias e litografias que condensa.

 

Jaime do Inso era marinheiro.

 

Assentou praça aos 18 anos no regimento de Infantaria 22, em Portalegre, e, no ano seguinte, integrou, como aspirante, o corpo de alunos da Armada.

 

Promovido a guarda-marinha em 1903 ascendeu nos postos até capitão-de-fragata em 1935, situação em que passou à reserva em 1938.

 

Correu mundo.

 

Esteve em Timor e em Macau.

 

Macau, o território a que dedicou praticamente toda a sua obra literária, sob a forma de conferências, artigos e livros.

 

Foi Distinguido com vários louvores e medalhas, entre outras, as comendas da Ordem de Avis e da ordem do Rei Leopoldo da Bélgica.

 

Foi colaborador regular do semanário macaense “A Pátria”.

 

Em Portugal deixou textos dispersos em revistas e jornais, designadamente no “Diário de Notícias”, onde o seu último escrito datado de 1965) foi dedicado à inauguração do Planetário Calouste Gulbenkian, anexo ao Museu da Marinha.

Enfim um escritor que contribuiu inexcedivelmente para as letras macaenses, mas que mesmo aqui na terra a que dedicou toda a sua vocação e intelecto parece esquecido.

 

Imperdoável.

 

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1 Comment

  1. Comprei agora China e A arte de navegar do Capitão de Fragata Jaime do Inso que creio ter sido meu vizinho em Santana-Sesimbra; isto há cerca de 50 anos.


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