Viagem por Macau

O escritor inglês Austin Coats, que citei aqui no “Guarda-livros” a propósito da Birmânia achava que Macau possuía uma beleza mediterrânica impar, afirmação plena de sentido para esta cidade até, digamos, finais dos anos 80 do século passado.

Mas Coats, que possuía quarto reservado no antigo Hotel Bela Vista, onde passava temporadas a escrever as suas novelas, ia mais longe e dizia com aquele ênfase que punha em tudo que quando acordava de manhã, o som do silêncio e a paisagem marítima que se lhe deparava o fazia pensar sistematicamente que acordava em Veneza.

Creio que o tom marítimo de Macau, a não ser agora ali no Cotai com esse arremedo da Praça de S. Marcos e arredores, pouco se assemelharia à cidade italiana, mas em questões estéticas, cada um é livre de exprimir a opinião que entende.

E muitos estrangeiros, por aqui passaram e exprimiram de diversas formas a maneira como sentiram Macau.

Uns descreveram-na em verso, outros em prosa, outros, pura e simplesmente fixaram os traços da sua fisionomia pintando-a a aguarela, ou a óleo e outros fixando-a em fotografia, como o famoso e pioneiro Jules Ittier de que também já aqui falei,

E eis aqui uma reunião das impressões desses viajantes que por cá passaram pelos séculos XVIII e XIX.

Chama-se “Viagem por Macau”.

Este bonito álbum de “Comentários Descrições e Relatos” de autores estrangeiros sobre o Território.

Claro que ao ler-se as descrições que aqui constam, mal podemos sentir que se fala da mesma cidade onde vivemos hoje.

O seu perfil mediterrânico que todos elogiavam desvaneceu-se há muito.

No entanto quando percorremos este álbum parece que somos chamados à atenção para os pequenos becos, as traseiras raramente visitadas, ou os edifícios que vemos todos os dias e não ligamos a tomarem novas dimensões, tornarem-se reais como se nunca tivessem desaparecido, ou não estivessem em risco de extinção.

Constam aqui várias descrições de Macau, como as de Lord Macartney, ou do navegador Laperousse, ou de Jules Itier.

Todos incluídos aqui pela pena de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, duas das figuras que nas últimas décadas mais fizeram, no domínio editorial pela divulgação de Macau nos seus mais diversos aspectos.

Sem dúvida, que a iconografia de Macau agora é outra, mas a alma deste pequeno Território da China, não se desvaneceu de todo.

Permanece e sente-a quem tenha tempo ou paciência para parar um pouco e deixar-se encantar com o mesmo beco, ou as mesmas traseiras, ou a mesma esquina por onde passa todos os dias e de tanto passar já não vê nem sente.

Percorra as páginas deste álbum e deixe-se encantar de novo.

Às vezes há uma sabedoria, inata, desconhecida que nos dá a força necessária para voltarmos à infância e encontrarmos a beleza que tínhamos esquecido, depois de termos deixado de ser crianças.

A estética, na prosa e na imagem é este trabalho de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, das Edições Oriente, dado à estampa pela primeira vez em 1997.

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