The Story of a Stele, o monumento nestoriano da China e a sua recepção no Ocidente

O livro de que lhes falo hoje chama-se “A História de uma Estela, o monumento Nestoriano e a sua recepção no Ocidente 1625-1916”.

O exemplar que aqui reproduzo é em inglês e tem o título de “The Story of a Stele”.

Não creio que esta obra tenha sido ainda traduzida para português.

Não só porque é recente (a edição é deste ano), mas provavelmente, por que a sinologia não parece muito desenvolvida em Portugal,  e por isso assuntos destes pouca atenção despertam, embora nos anos mais recentes tenham sido dados uns passos em frente ainda que tímidos.

Trata-se de um estudo que reflecte bem os equívocos e incompreensões entre o Ocidente e o Oriente.

Neste caso trata-se da descoberta de uma estela em xisto, datada de 1625 escrita em caracteres chineses na parte frontal e em alfabeto siríaco nos dois lados laterais.

O siríaco era um alfabeto do Médio Oriente.

Alguns estudiosos ocidentais proclamaram a estela como uma pedra da Roseta do Extremo Oriente.

Nada de mais errado.

Essa consideração era feita por académicos ocidentais que poderiam saber muito de siríaco, mas nada sabiam de chinês, nem da sua cultura, nem dos seus caracteres.

Nesse tempo apenas o “jurubaças” de Macau (tradutores do Leal Senado) sabiam ler e escrever chinês e essencialmente conheciam profundamente os chineses.

Na Europa ninguém mais os conhecia a não ser por ouvir dizer.

Para além do que Marco Pólo tinha escrito no século 13 e Fernão Mendes Pinto no século 17 da China pouco, ou nada se sabia e da estela de Xian muito menos.

E porquê?

Porque provava que o cristianismo chegou à China através de uma heresia condenada por católicos e ortodoxos.

Mas antes de resumir o que foi o nestorianismo devo explicar que a redescoberta da estela surgiu num momento crucial da chegada a Pequim da religião católica já há muito expurgada de cismas no século XVII, através de missionários jesuítas esclarecidos, como Mateus Ricci.

Este padre, ao falar com o imperador sobre o Salvador do Mundo engoliu em seco quando o monarca perguntou: “Então se Jesus é o Salvador do Mundo porque é que a China que foi e continua a ser o centro do mundo e da civilização não teve notícia do facto?”

O Jesuíta, não respondeu de pronto, mas safou-se do silogismo pouco tempo depois ao saber da descoberta da Estela Nestoriana.

Assim pôde responder ao imperador que o Salvador já era conhecido na China desde a dinastia Tang (que reinou entre os anos 300 e 800) e provar até que a nova religião tinha sido autorizada por decreto como constava dos arquivos imperiais.

Diga-se que a China será um dos raros países que conserva desde tempos imemoriais os documentos oficiais da sua história sistematicamente arquivados ao longo dos tempos até hoje.

O Imperador terá mandado verificar os documentos e comprovado a asserção do padre jesuíta.

De facto o cristianismo tinha chegado à China pouco tempo depois de surgir (provavelmente através do apóstolo S. Tomé) e os imperadores da dinastia Tang tinham autorizado o novo culto.

Foi um alívio para os jesuítas.

Mas para o Vaticano seria pelas décadas e séculos seguintes um embaraço.

É que o Bispo de Constantinopla, Nestor tinha sido considerado herético pelo concílio de Éfeso no ano de 431

Sendo assim considerar que a palavra do Redentor tinha chegado à China por via herética era questão que era preciso apagar da história e foi o que aconteceu.

Diz-se que a palavra de Cristo chegou à China através de S. Tomé, ou S. Bartolomeu.

S. Tomé diz a tradição que está sepultado na Índia.

Porém não há memória destes dois apóstolos terem chegado ao “Império do Meio”.

O que chegou foi de facto o nestorianismo alguns séculos depois, não através de apóstolos mas sim de mercenários e comerciantes que percorriam a via da seda.

O nestorianismo não vingou na China.

O catolicismo esteve quase a vingar mais de mil anos depois, mas a “questão dos ritos” que opôs jesuítas a dominicanos, no século XVIII, tal como a heresia nestoriana voltou a fazer soçobrar ali a religião cristã.

Religião que no século XXI luta nas suas diversas vertentes para conquistar fiéis, num país onde o budismo serenamente e sem fazer apostolado parece continuar a reinar sem concorrência entre a maioria do povo.

Esta estela é um símbolo de fé e de fracasso.

Leia este livro.

Desfaz alguns mitos

De Michael Keevak, com a chancela da Hong Kong Kong University Press, publicado em 2008.

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