O pronunciamento dos sargentos republicanos de Macau 19-10-10

A proclamação do regime republicano em Portugal trouxe consigo profundas mudanças político-sociais para o país inteiro determinando para o bem, ou para o mal o curso da história. O mesmo aconteceria um ano depois na China. Porém aqui as consequências teriam efeitos universais, pode dizer-se, tendo em atenção as proporções desta imensa nação. Todavia, nenhuma das alterações de regime verificadas e tão coincidentes no tempo teriam efeitos notáveis em Macau, para além dos normais e de curto prazo que todas as alterações políticas de fundo motivam sempre.

De facto, a proclamação do fim de monarquia em Lisboa para além dos resultados imediatos que provocou, nomeadamente a alteração das cores da bandeira, do hino e dos selos das repartições não registou grande impacto na vida social do território logo que ultrapassadas as angústias e entusiasmos de momento e mal que firmadas foram as novas instituições o que não levou muito tempo. Aliás a proclamação do novo regime em Macau não suscitou contestação de vulto, nem teve figura de resistência que se assemelhasse a Paiva Couceiro, por exemplo.

O mais que houve foi alguma teimosia mais burocrática do que outra coisa de um, ou outro, com destaque para o Governador e para o juiz da comarca que fiéis à monarquia pela qual tinham sido nomeados revelavam pruridos evidentes em “virar a casaca”.

O percurso subsequente do magistrado Marques Vidal não se conhece. No entanto sobre o governador Eduardo Marques sabe-se bem que morreu fiel ao antigo regime. Aliás Eduardo Marques nunca deixou a política activa militando sempre nas fileiras monárquicas. Ali e depois de um período de relativo apagamento, durante os anos áureos da “Primeira República” o ex-governador de Macau voltaria a emergir na sequência do golpe de 28 de Maio de 1926 como ministro de Salazar.

Eduardo Marques, último governador de Macau do regime monárquico.

Todavia apesar do carácter de Eduardo Marques, este nem sequer, como Paiva Couceiro, possuía tropas que o apoiassem se tivesse optado pela resistência activa. A prova disso mesmo é fornecida pelo jornal “ O Colonial” que informava então: – “A nossa bonita e sossegada província de Macau, foi há poucos dias, teatro de uma cena que bem podia tirá-la à tutela da nossa soberania e certamente a fez retroceder um grande passo no caminho lento da sua prosperidade.

Em 29 de Novembro último , algumas praças da canhoneira Pátria desembarcaram armadas, juntando-se às do Corpo de Polícia e Companhia de Infantaria , para obrigarem o Governador a dar cumprimento às determinações do decreto sobre as ordens religiosas, que erradamente imaginavam não tinha sido posto em execução.

Todas essas praças, umas 150 aproximadamente , que os esforços dos oficiais não conseguiram manter disciplinadas nos quartéis dirigiram-se debaixo de forma , comandadas por sargentos e já convencidas do engano que as amotinava, ao palácio do Governo a fim de conseguirem perdão para a falta gravíssima que tinham cometido e exigiram-lhe que fosse garantido por um documento escrito e assinado pelo Governador. Seguros da impunidade, voltaram aos quartéis, onde, pelo menos aparentemente, a vida normal se restabeleceu e a disciplina continuou mantendo-se como se antes não tivesse por completo sido desprezada ostensivamente”.

Ou seja, o Governador pura e simplesmente não podia contar com a força armada já que para além do exército e da marinha também a polícia se juntou ao motim republicano. Perante a quebra de confiança assim demonstrada, Eduardo Marques não teve alternativa senão assinar o tal documento ilibando de responsabilidades os amotinados e entregar seguidamente a administração da colónia ao seu ajudante de campo, o primeiro-tenente Álvaro de Melo Machado. A solução foi do agrado geral já que Álvaro Machado era bem conhecido pela sua feição republicana. Falta saber ao certo se não teria sido ele próprio um dos principais instigadores da sublevação.

Se no campo militar a República era um facto, no campo civil nada se registava em matéria de reacção. Aliás se havia local onde a monarquia não tinha monárquicos (como dizia o rei D. Carlos) um deles seria com certeza Macau. De facto a aristocracia no Território era reduzidíssima podendo ser contada pelos dedos de uma só mão. O número de titulares resumia-se ao Barão do Cercal, que ocupado com a gerência das suas várias empresas e com os pés mais em Hong Kong do que em Macau pouco se preocuparia com a política. Feliciano Pereira Marques, deputado por Macau em Lisboa tinha morrido no ano anterior. Restava Bernardino de Senna Fernandes. Porém a monarquia em Macau podia contar com todos menos com este já que o conde (tal como o seu contitular de Portugal, Ribeira Brava) enfileirava há muito entre as hostes conspirativas republicanas.

Sendo assim e para além das alterações de nomes ainda que sonantes na estrutura administrativa em essência pouco mudou na vida quotidiana local e mesmo o motim das tropas não chegou a atingir as cores dramáticas que “O Colonial” lhe quis atribuir. O pronunciamento militar liderado pelos sargentos não só não colocou em causa a presença portuguesa em Macau, como muito menos a “fez retroceder um grande passo no caminho lento da sua prosperidade”.

Regressada porém a normalidade, o combate contra a monarquia não acabou ali. De facto, clarificadas as águas, o poder político concentrava-se agora no apoio ao esforço republicano de derrubar o regime imperial da China, esforço esse que numa parte significativa passava pela colónia.

Sun Yat-sen seria a partir de então a nova bandeira dos republicanos locais que celebrariam novo triunfo logo no mesmo mês de Outubro do ano seguinte, nomeadamente no recém criado “Clube dos Sargentos”, instituição que durante décadas seria um dos mais significativos cadinhos da cultura republicana de Macau.

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