Macau Arqueológico 12-10-10

A construção de um parque de estacionamento nas imediações da Fortaleza do Monte levou à tomada de uma decisão inédita em Macau que foi a de reconhecer o subsolo do ponto de vista arqueológico, antes do início de um projecto de construção civil. Este tipo de acções há muito que são obrigatórias em vários países e a China não é já excepção. Os trabalhos permitiram por a descoberto o que resta das últimas paredes do antigo Colégio de S. Paulo adjacente à fachada da igreja da Madre de Deus que ainda o não tinham sido. De resto recolheram-se alguns cacos da dinastia Ming e creio que também da Ching. O arqueólogo responsável fez o relato da importância do que foi encontrado concluindo que os despojos provavam que Macau já era pelo século XVII e XVIII um centro comercial entre o Oriente e o Ocidente.

Primeira pedra da Igreja de S. Paulo (foto: – macauantigo.blogspot)

A conclusão, tal como os achados, não foram de modo algum relevantes, por duas razões: Primeiro, porque o terreno circundante em que se insere a fachada de S. Paulo e a Fortaleza tinham sido alvo de trabalhos profundos e sérios de investigação arqueológica levados a cabo há cerca de década e meia que permitiram pôr a descoberto as fundações do referido colégio, bem como a primeira muralha da fortaleza, uma parte da qual se encontra preservada (e bem!) no interior do Museu de História de Macau. Segundo porque nessas escavações foram recolhidos cacos e outros artefactos do maior interesse que se não provaram que Macau era então um centro internacional de comércio lançaram jorros de luz sobre a vida quotidiana na que foi a primeira Universidade do Extremo Oriente e igualmente sobre a presença de importantes figuras de missionários que fizeram os primórdios da Igreja Católica na China. Para além disso refira-se que a construção do complexo religioso não terá resultado tanto do comércio entre o Oriente e o Ocidente, mas provavelmente mais exactamente do comércio entre a China e o Japão que naquele caso rendeu os “3130 pardaos de reais” necessários para o construir como afirma o jesuíta frei Fernando Guerreiro contemporâneo desses efeitos históricos. Não é objectivo deste artigo tecer considerações sobre a questão das antigas casas que foram demolidas para dar lugar ao tal parque de estacionamento, ou sobre o seu valor como património, cujo projecto acabou por redundar nas investigações arqueológicas. As casas foram demolidas, o parque de estacionamento face aos achados não irá por ventura para a frente e por isso “não vale a pena chorar sobre o leite derramado”. Tendo em conta o facto consumado o que se espera é que agora, antes do início de qualquer projecto de obras o Governo implemente as devidas prospecções arqueológicas que, como disse, costumam ser obrigatórias hoje em dia, mesmo em países que menos cuidam do seu património histórico. Mas neste campo as autoridades parecem relevar alguns aspectos e pura e simplesmente descurar outros, que terão, pelo menos igual importância. Será porque destes se não fala? Será porque voltados a enterrar terão sido pura e simplesmente esquecidos por todos? Refiro-me naturalmente ao campo arqueológico de Hak Sá em Coloane, onde foram encontradas relíquias de grande importância. Não pelo seu valor intrínseco, mas pelo que revelam de ocupação humana no local que remonta a mais de seis mil anos. É certo que uma parte do conjunto se encontra actualmente debaixo de um complexo recreativo e de edifícios de habitação. No entanto existe ainda uma grande parte por desbravar em terrenos circundantes. Refira-se que esses terrenos já foram alvo de tentativas de ocupação selvagem tendo em parte deles, nomeadamente sido construída uma placa de cimento armado que serviu de base ao estacionamento de autocarros durante algum tempo até as Obras Públicas, com auxílio da polícia, intervirem e reporem a legalidade. Parece ser tempo de levar a cabo em toda a área as prospecções arqueológicas que se impõem e que desde 1973 têm sido feitas intermitentemente. O panorama do passado de Macau não termina no pano de fundo da estátua de Jorge Álvares, nem na fachada do templo de à Má na Barra.

Fragmento encontrado nas ecavações de Hak Sá (Coloane).

De facto, os artefactos encontrados em Hak Sá provam que por aqui andaram muitos povos senhores de muitas culturas que se foram perdendo no tempo e que parece importante trazer de novo à luz. Tal, como se preservaram os achados da Madre de Deus e do Monte utilizando técnicas modernas que permitem mostrar uma nesga do passado aos olhos de hoje e contribuir para a diversificação da oferta turística (como está na moda dizer-se) também os artefactos que se encontram no subsolo de Coloane podem ser estudados, preservados e mostrados permanentemente. Neste caso se nada for feito poderá dizer-se que o que por lá se conserva se manterá conservado. Mas perante as tentativas frustradas de utilização do espaço levadas a cabo ilegalmente o mais provável é que no futuro alguma delas surta mesmo efeito. Ou então possível é também que algum projecto legal público, ou privado ali venha a ser desenvolvido, sem ter em conta a jazida que por ali se encontra varrendo definitivamente quaisquer possibilidades de implementar uma investigação arqueológica ampla, metódica e definitiva. Afinal já lá vão 37 anos sobre a primeira campanha levada a efeito pela “Hong Kong Archaelogical Society” que permitiu saber-se que em Coloane existiam afinal locais de interesse arqueológico a estudar.

Advertisements

Leave a comment

No comments yet.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s