Médicos e medicina em Macau. 28-09-10

Normalmente nos compêndios de história, as figuras militares, os políticos, os revolucionários, e os aventureiros ocupam a maior parte do labor dos autores que se dedicam a investigar o passado.

Na história de Macau é igualmente assim.

Todos nós conhecemos se não a saga pelo menos a figura do Ferreira do Amaral, ou do Coronel Mesquita, ou então do todo-poderoso ouvidor Miguel de Arriaga, ou do Comendador Lou Lim Yok, ou o comissário Lin  que veio a Macau para arrasar o humilhante contrabando do ópio.

Os seus perfis estão largamento documentados e continuam a ser alvo de estudo ainda hoje.

No entanto pelos vistos em Macau há uma profissão, ou melhor duas de que não reza a história: – médicos e os farmacêuticos.

Uma omissão tão injusta, quanto relevante foi a acção de alguns deles ao longo dos quase quinhentos anos de presença portuguesa em Macau e não só nas suas áreas profissionais.

Muitos foram muito mais do que médicos e contribuíram decisivamente no seu e noutros campos em momentos decisivos da história local.

Porém, tanto quanto me lembre na toponímia apenas ficaram recordados meia dúzia de nomes desses servidores da ciência.

Padres, militares e políticos excedem-nos largamente em número.

Faltou historiador que deles falasse?

Felizmente não.

Isto graças ao prolífico Monsenhor Manuel Teixeira que na sua extensa bibliografia não deixou pode dizer-se, aspecto algum da história de Macau de fora. A medicina e a farmacêutica, foi capítulo que também não lhe escapou.

Sobre este assunto Monsenhor Manuel Teixeira também se debruçou com profundidade, ainda que o que deu à estampa não tivesse produzido eco digno de registo. Principalmente se comparada a obra com a sua “Toponímia de Macau”, ou “os Militares em Macau”.

Trata-se de “A Medicina em Macau“, investigação republicada pela secretaria dos Assuntos Sociais e Orçamento em 1998 e que parece estar apenas disponível nas bibliotecas.

Esta área geralmente ignorada pelos investigadores e divulgadores das coisas de Macau merece tanto mais relevância quanto contêm monografias e biografias que somente ali se encontram.

Esta obra conheceu duas edições. A segunda foi a que acima referi, a primeira foi publicada em 1976 e desta se encontram exemplares em alfarrabistas e igualmente nas bibliotecas.

Devo dizer, que consegui os volumes dessa primeira edição aqui há uns anos precisamente num dos alfarrabistas por onde não deixo de passar de cada vez que me desloco a Lisboa.

Comprei-os por um preço muito acessível em comparação com outras obras sobre Macau, algumas expostas por cifras tão proibitivas quanto muitas vezes banais, e repetitivos são os temas que abordam.

Isto por si só demonstra que se em 1976 a obra pouco interesse despertou, trinta anos depois, nem aos frequentadores de alfarrabistas continua a interessar a julgar pelos valores de capa.

A segunda edição não conheceu melhor sorte do que a primeira que se saiba. Permaneceu desde logo fora da circulação, quedando-se pelas estantes dos departamentos do Governo e pelas mãos de alguns a quem o livro foi oferecido pelas ditas autoridades e pouco mais.

No entanto, vale a pena ter este livro, por duas razões pelo menos.

Primeiro porque revela uma faceta extremamente importante da história de Macau tão mal estudada e tratada.

Segundo, porque Monsenhor Manuel Teixeira, tantas vezes acusado de fazer uma história muitas vezes pecando pela parcialidade, excluindo intencionalmente muitos assuntos do conjunto das suas obras, nesta discorre largamente sobre a outra face da medicina em Macau, ou seja a medicina tradicional chinesa e a forma como esta era praticada.

Sobre este tema vale a pena ler o capítulo intitulado “Alguns Aspectos da Medicina Tradicional Chinesa”, em que o autor cita o médico Caetano Soares, que passou 15 anos da sua estada em Macau a estudar este peculiar campo o conhecimento. Neste capítulo revela alguns dados curiosíssimos, como seja o simples facto de muito antes da medicina preventiva ter começado a ser aceite na Europa, já ser aqui praticada há milénios, nomeadamente através da “tradição existente entre os chineses de beber chá e água quente, uma boa forma de combater as infecções microbianas”.

Além disso junta a tudo dados estatísticos de grande relevância através das épocas, que permitem a qualquer estudioso retirar importantes conclusões noutros domínios da história nomeadamente social e política de Macau.

A compor tudo isso “A Medicina em Macau” de Monsenhor Manuel Teixeira, inclui indicações preciosas sobre a génese e actividades das grandes instituições de assistência médico-social do território.

Nomeadamente, sobre o primeiro hospital, de S. Rafael, que se situou onde hoje se encontra o Consulado Geral de Portugal em Macau, que se ergueu quase a par da fundação de Macau no século XVI, por mão do bispo Jesuíta Melchior Carneiro, o hospital, Conde de S. Januário, o Kiang Wu, ou mesmo centros menos conhecidos como o antigo núcleo de recuperação de tóxico-dependentes da Taipa, que chegou a ser tomado como modelo internacional de tratamento principalmente de dependentes da heroína e do ópio,  a leprosaria, actualmente desactivada de Ka Hó em Coloane e outras mais.

Ficamos também a conhecer algumas figuras do passado, que chegaram a ter nome no seio da comunidade científica internacional no domínio da botânica, com o médico José d’ Almeida. Este um cientista típico do século das luzes, introdutor de novas espécies vegetais, como um certo tipo de banana que ainda hoje é conhecido como “banana d’Almeida”. Os seus trabalhos sobre a guta-percha ainda hoje são igualmente reconhecidos.

O médico José d’Almeida (de casaca vermelha) figura de cera constante no museu de história de Singapura.

“A Medicina em Macau” é um livro que se não destina ao grande público mas que nem por isso deve permanecer ignorado.

Um livro que apesar de datado poderá revelar-se de grande interesse particularmente, para as pessoas ligadas à área da saúde, designadamente ao nível executivo porque é possível encontrar ali situações e problemas que por serem do passado não quer dizer que não possam conter a inspiração no sentido de abordar os desafios que se colocam hoje à saúde pública em Macau.

Continuo convencido que as lições do passado servem sempre para encarar melhor a resolução do futuro. No mundo da medicina não será diferente.

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