Autos de fé em Macau 31- 08 – 10

Felizmente que a inquisição nunca chegou a Macau. O mais longínquo lugar do império marítimo português por onde estendeu as suas ”queimadas de hereges ” foi Goa, com os estragos históricos que se conhecem. Em Macau a Igreja absteve-se de incinerar infiéis por duas razoes: – Primeiro porque o mais certo seria que a China se irritasse perante o lançamento à fogueira dos súbditos do império e pura e simplesmente obliterasse o Território, como aconteceu noutros pontos da sua costa mais a Norte onde os portugueses se tinham fixado antes. Segundo porque ao contrário de Goa, ou de Manila, por exemplo a ordem religiosa dominante era a Companhia de Jesus e não a dos Dominicanos. Os companheiros de Jesus, ao contrário dos de S. Domingos nunca foram adeptos de fogueiras para impor a fé.

Apesar de tudo o que ficou dito Macau não se eximiu à simbologia das chamas para purificar os espíritos. Também o Território teve os seus autos de fé. Felizmente que ninguém se chamuscou! Esses autos de fé em Macau foram mais tardios e levados a cabo não por motivos religiosos mas sim políticos. Igualmente os supliciados não foram os incréus, mas antes os instrumentos materiais da apostasia, ou seja livros e jornais.

Várias destas cerimónias “fúnebres” terão eventualmente ocorrido ao longo da história do Território, mas pelo seu simbolismo aberrante e extemporâneo tendo em conta as épocas em que tiveram lugar há duas que merecem referência. Quanto mais não seja como exemplares morais do que a intransigência ideológica em momentos particulares de polarização política pode produzir de barbárie anómala contra o espírito e o progresso sociais.

O primeiro caso ocorreu nos primórdios do liberalismo. Portugal e as suas colónias mergulhavam num período de forte instabilidade, com o fim do regime absoluto e a aprovação da primeira constituição do reino, na sequência da revolução de 1820 (falei já aqui, em anterior artigo, de alguns dos seus efeitos em Macau).

A revolução liberal trouxe consigo um elemento novo que haveria de transformar profundamente o século. Tratava-se da liberdade de imprensa que anteriormente não existia de todo no Portugal ultramarino.

Mal conhecida a abertura do sistema, os jornais começaram a surgir um pouco por toda a parte, desde Cabo Verde a Macau.

A “Abelha da China” (macauantigo.blogspot.com)

No território a primeira publicação a ser dada à estampa foi a conhecida “Abelha da China”, periódico que era uma mistura de jornal noticioso e boletim oficial do Governo. Apesar desta indefinição porém a “Abelha da China não era de “meias tintas”. Bem pelo contrário! Tendo como seu principal redactor Frei António de S. Gonçalo de Amarante (curiosamente um dominicano), as suas páginas eram libelo constante contra a reacção absolutista e tribuna de propaganda sem peias da “liberdade, igualdade e fraternidade”, lema bebido nas ideias da revolução francesa que Frei António perfilhava. Quanto ao resto não punha em causa nem rei, nem religião, pelo que o triste fim do periódico se deve apenas ao extremar de posições e acender de ódios que atingiram o clímax no dia 23 de Setembro de 1823, quando todas as autoridades, civis, militares e homens bons em geral foram convocados para uma estranha cerimónia a ter lugar no Largo do Leal Senado. Tratava-se da “queima judicial” do último número da “Abelha da China”. Um número “virulento”, segundo os absolutistas, mas que aos olhos de hoje se afigura apenas como defensor dos princípios democráticos mais elementares que, aliás, viriam a triunfar em Portugal no final da guerra civil em 1834, ou seja menos de uma década depois. Felizmente que pouco antes da “queima” Frei António se conseguiu por a salvo fugindo para Cantão.

O segundo e último episódio do género ocorreu, espante-se! Já em pleno século XX. Este “auto de fé” teve tanto de anómalo como de premonitório. Ocorreu em 1926, e constituiu sinal claro da forma como o novo poder instalado em Lisboa em 28 de Maio desse ano encarava a liberdade de expressão e também a cultura em geral.

“Macau Histórico” (macauantigo.blogspot.com)

Desta vez a vítima foi o livro “Historic Macau” de Montalto de Jesus. Vítima inesperada, diga-se, já que o fogo do “Estado Novo” caiu sobre uma obra cuja primeira edição tinha conhecido larga difusão e recebido os maiores encómios junto do público e da crítica nacionais.

A segunda edição porém viria na pior altura. O autor era um republicano militante do Partido Democrático de Afonso Costa, principal formação política visada pelo golpe militar de Gomes da Costa, mas o que concitou a irritação do novo regime, foi o facto de nessa segunda edição Montalto ter acrescentado um capítulo à obra no qual punha em relevo a incompetência da política ultramarina portuguesa e sugeria a entrega da administração de Macau à recém criada “Sociedade das Nações”, antecessora da ONU (Organização das Nações Unidas).

A inadvertida proposta levantaria as iras dos poderes constituídos, que aproveitaram o pretexto para apontar o dedo ao republicanismo partidário como o mais anti patriótico dos sistemas políticos. “Ali estava, no livro de Montalto, claramente espelhada a justificação da ditadura militar”, bradavam o governador Tamagnini Barbosa e os seus seguidores.

Montalto de Jesus (macauantigo.blogspot.com)

A exaltação provocada por Montalto de Jesus levou a polícia efectuar rusgas casa a casa por toda a cidade a fim de apreender os exemplares da obra. Depois, o “maldito papel” encadernado foi empilhado perto do local onde hoje se situa a sede da “Fundação Macau” na Avenida da República e consumido em chamas, numa cerimónia percursora das grandes queimas de livros que seriam levadas a cabo alguns anos depois pelos nazis na Alemanha.

Os exemplares que sobraram escondidos por alguns, foram poucos, mas a principal vítima afinal seria o próprio autor que caído em desgraça seria completamente proscrito. Pobre, amargurado e só, Montalto de Jesus morreria em 1927, num asilo em Hong Kong, com 64 anos de idade.

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