A conspiração do silêncio 17-08-10

Macau nunca foi terra de conservar arquivos. A história prova-o já que dos primórdios do território não existe sombra de documento. Assim a data de 1553, ou 1554 atribuída à fundação de Macau não passa da teoria já que os portugueses poderão ter chegado bastante antes, ou porventura uns anos depois até 1557 altura em que surge documentação chinesa que prova a presença lusa neste local.

Depois disso a documentação histórica continuou sempre a ser esparsa e largos períodos permanecem hoje por conhecer irremediavelmente perdidos.

Porém nos tempos mais modernos em que começou vigorar consenso sobre a importância de guardar o passado para aconselhamento futuro, ou quanto mais não seja para descobrir precedentes politicamente convenientes, ou paradigmas morais didáticos, a situação não melhorou muito.

É certo que documentos preciosos se salvaram da incúria, mas foram poucos. Demasiado poucos para a quantidade que se perdeu. Relativamente à conservação de documentos oficiais, ou jornais, por exemplo, houve sempre a boa desculpa, sincera, ou dolosa, da falta de espaço. De facto a exiguidade geográfica de Macau reflectia-se na pequena dimensão dos edifícios e das repartições que neles funcionavam e que por isso comportavam apenas espaço limitado para guardar “dossiers”. De tempos a tempos, havia que varrer papeis que não cabiam.

Um arquivo central é idealização relativamente moderna, por isso à falta dele os documentos sobejantes eram literalmente queimados, ou vendidos a peso. Quando não havia justificação plausível para tais acessos de higiene burocrática, surgia sempre como responsável última a praga endémica de Macau. A “formiga branca”. Os exemplos de incúria são demasiado numerosos para citar, mas um episódio referido pelo historiador Monsenhor Manuel Teixeira é exemplar. Trata-se do desaparecimento da rica biblioteca do Clube Militar. Os exemplares dela constantes não foram levados à “surrelefa” pelos frequentadores da sala, mas pura e simplesmente mandados deitar fora, porque eram um empecilho às obras de renovação de interiores de que o edifício necessitava. Outro caso semelhante ocorreu com a transferência da biblioteca do “Clube União” para o seu sucedâneo “Clube 1º de Junho” nos anos 30 do século passado. Até hoje não se sabe onde paira esse acervo, ou o que dele foi feito.

Para além da incúria casos houve em que a memória histórica foi intencionalmente eliminada pelas convulsões políticas, como o foi a destruição dos documentos e livros existentes no Leal Senado e Santa Casa da Misericórdia, destruídos durante os tumultos do “1, 2, 3” de finais de 1966 e princípios de 1967. Porém, casos como estes foram raros na história de Macau. A maior parte deveu-se sim à inexistência de uma política coerente de conservação de arquivos. Aliás se se folhear as páginas da “Cronologia da História de Macau”, de Beatriz Basto da Silva não são poucas as referências à constituição de comissões para a instalação de um arquivo histórico no Território. Na verdade o tal arquivo acabaria por surgir em moldes consistentes apenas já bem no interior da segunda metade do século XX.

Apesar de toda a história pouco menos que calamitosa que rodeia a preservação da memória de Macau existe todavia um hiato que fica por agora inteiramente por explicar. Trata-se da quase total eliminação de toda a documentação referente ao período de 1940 a 1946, ou seja os seis anos durante os quais lavrou a “Guerra do Pacífico”.

De facto, sobre essa época restam apenas as memórias orais de quem viveu esses tempos e pouco, ou mesmo nada mais.

Ora o desaparecimento da documentação oficial e não oficial do período da guerra não parece ter sido produto de incúria, nem obra da “formiga banca”, mas sim decisão premeditada e politicamente motivada.

Facto significativo neste âmbito não deixa de se demonstrar na lacuna existente na vasta obra bibliográfica de Monsenhor Manuel Teixeira. O número dos seus livros ascende a mais de centena e meia abordando neles os aspectos mais diversos de Macau. Alguns constituem tomos de grande fôlego, recheados de transcrições documentais e notas de rodapé. No entanto entre tanta obra, um dos períodos mais dramáticos, e socialmente relevante da história de Macau ocupou apenas na sua extensa obra um opúsculo de 35 páginas sob o título: – Macau Durante a guerra. Nessa pequena monografia o historiador, ao contrário do que habitualmente fazia, não cita documentação, limitando-se a transcrever as suas próprias memórias,. Isto apesar de confessar logo no primeiro parágrafo que “ Macau viveu o período mais crítico de toda a sua história, quatro vezes secular, durante os quatro anos da guerra do Pacífico (1941-1945” e acrescentar um pouco mais à frente que, “pouco, muito pouco se tem escrito sobre a vida em Macau” durante esse conflito.

Monsenhor Manuel Teixeira que tantas vezes verberou a negligência endémica no que toca à guarda das fontes da memória de Macau, nunca teve uma palavra para o vácuo gritante que neste caso se patenteia.

De facto, se pouco se escreveu e o que existe são memórias, como confessa o historiador, tal se deve a uma única razão a inexistência de fontes documentais. O misterioso desaparecimento dos arquivos desse período parece ter ocorrido não muito depois do encerrar das hostilidades, já que nem Monsenhor Manuel Teixeira, nem outros historiadores coevos referem a sua existência, ou citam documentos ao período referentes.

Uma busca recente que efectuei no Arquivo Histórico procurando o que existe sobre o governador Gabriel Teixeira que administrou Macau durante toda a guerra do Pacífico produziu cerca de meia centena de documentos avulso o mais antigo dos quais com data de 1960 e quase todos referentes a expediente relativo à escola primária que tinha o seu nome.

No que toca aos arquivos militares desse período não há mistério, pois sabe-se que em finais da década de 60, toda a documentação foi devidamente acondicionada, selada e enviada para Portugal. Repousa actualmente no arquivo militar anexo ao Museu Militar de Lisboa.

Mas quanto ao resto? Perdeu-se-lhe o rasto, ou gerou-se em torno desse mistério uma conspiração de silêncio?

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