Agosto de 1945: As doze mulheres especiais de Macau 10-08-10

 Alta ansiedade é o termo que melhor pode caracterizar o estado de espírito que se vivia em Macau no mês de Agosto de 1945.

No final de quatro anos de total bloqueio, as emissões da BBC e Voz da América, praticamente, os únicos meios de comunicação regular que mantinham o Território ligado ao mundo exterior, anunciavam o avanço imparável das forças aliadas por toda a região da Ásia Pacífico em direcção a Tóquio e as sucessivas derrotas do exército imperial nipónico.

As dúvidas sobre o resultado da guerra que já não eram muitas desde os primeiros meses do ano dissiparam-se no dia 6 desse mês com o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima. A partir daí a rendição do Japão já inevitável passava a ser questão de muito curto prazo.

Em Macau rejubilava-se, mas a vitória encontrava-se longe de estar completa. De facto, Hong Kong permanecia em mãos nipónicas e as várias dezenas de milhares de refugiados, portugueses de Hong Kong, ingleses, americanos e de diversas outras nacionalidades imersos na mais completa desmoralização depois de pesados e angustiantes anos de cerco, contavam as horas esperando a todo o momento o anúncio do desembarque  anglo americano do outro lado do Rio das Pérolas.

No entanto, apesar das novas libertadoras que perpassavam pelo Extremo Oriente o futuro de Hong Kong mantinha-se seriamente duvidoso no que tocava ao regresso à situação colonial anterior à guerra.

De facto, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt, tinha prometido ao governo nacionalista de Chang Kai Shek que, logo que expulsos os japoneses, Hong Kong seria restituído à China e não à Grã-bretanha.

Diga-se que no teatro de guerra a campanha aliada no Extremo Oriente decorria sob o alto comando americano (almirante Chester Nimitz), embora integrasse também forças navais inglesas.

Para além do combate directo contra os japoneses na ilhas do Pacífico as forças americanas estavam envolvidas no continente, essencialmente no apoio e colocação de tropas num  xadrez estratégico previamente delineado que incluía as principais cidades da China, mas não contemplava Hong Kong.

Seria nesse quadro de indefinição que Macau assumiria um papel relevante no que toca às manobras político militares de Londres destinadas a evitar que Chang Kai Shek se reapossasse da colónia.

Nesse quadro Macau assumiu o papel de ponta de lança nas operações destinadas a preparar o regresso das autoridades britânicas de modo içar no “Porto de Vitória” de novo a “union jack” antes que as tropas nacionalistas ali fizessem flutuar a do Kwomintang.

Neste âmbito o destaque foi para o cônsul de Inglaterra em Macau, John P. Reevs e para o “BAAG” (British Army Aid Group), rede de resistência comandada a partir de Chongqing pelo coronel Lindsay Ride, o de que faziam parte, numeroso macaenses e chineses, como o médico Eddie Gozano, Roger Lobo, o historiador Jack Braga, Y.C.Liang e muitos outros.

Todas essas figuras se multiplicaram durante o ano de 1945 em missões clandestinas de vai e vem entre Macau e Hong Kong, destinadas a reorganizar o governo britânico e a nomear pessoal de confiança para os diversos postos políticos e administrativos. Para além de garantir a adesão de figuras influentes na sociedade de Hong Kong, nomeadamente antigos membros do Conselho Legislativo colonial, vários elementos da anterior administração que se encontravam presos em campos de concentração receberam instruções para se prepararem para reassumir funções.

Entre as várias personalidades contava-se o antigo secretário colonial Francklin Gimson e o presidente do supremo tribunal Athol MacGregor, ambos internados no campo de Sham Shui Po.

O plano posto em prática resultou em pleno, já que aproveitando o momento de hesitação imediatamente anterior à rendição formal do Império do Sol Nascente, Gimson brandindo as credenciais do governo de Londres que o davam como governador em exercício em nome a de sua majestade reocupou o palácio do governo. O sucesso de Gimson contou com a aquiescência tácita do comando japonês que não possuindo instruções formais sobre o que deveria fazer naquela conjuntura, não colocou obstáculos à ousadia do ex-prisioneiro de guerra.

O golpe foi levado a cabo no momento certo tendo em conta o facto das tropas do Kwomintang que acabavam de ocupar Cantão, se encontrarem já junto à fronteira de Kowloon prontas a receber a rendição japonesa. Graças a Gimson quem a receberia seria o almirante Cecil Hacourt que desembarcaria com a flotilha inglesa no dia 30 de Agosto, em Hong Kong.

Conhecida esta sucessão de episódios Macau fervilhava de emoção, no entanto um balde de água fria arrefeceu os ânimos. Através da edição inglesa do jornal “Renascimento”, os refugiados eram avisados de que pelo menos a breve prazo não haveria regresso a casa. O jornal acrescentava que as notícias sobre a reabertura das carreiras fluviais de passageiros entre os dois territórios eram falsas.

O frustrante anúncio do “Renascimento” prendia-se com o facto de a administração britânica ter reassumido apenas e quase só simbolicamente o controlo de Hong Kong, já que na prática o que funcionava era a estrutura montada  e operada pelos japoneses com auxílio de colaboracionistas. As autoridades britânicas previam um prazo mínimo de três anos para o restabelecimento da situação administrativa anterior à guerra e o regresso dos refugiados teria por isso de ser escalonado.

Nesse âmbito o plano do cônsul Reeves entrou numa segunda fase, ou seja a de seleccionar entre os refugiados em Macau aqueles que tinham sido funcionários públicos antes da ocupação japonesa e escolher outros que tivessem perfil capaz para substituir japoneses e colaboracionistas.

 

Fragata “HMS Parret” que trasportou o grupo especial de dactilógrafas de Macau

A fragata “HMS Parret” seria o navio enviado expressamente a Macau para transportar o primeiro grupo Curioso é que nessa operação de emergência as mulheres tiveram prioridade. Não porque o fossem, mas sim porque um grupo especial de dactilógrafas credenciadas para lidar com o expediente civil e militar classificado estava pronto a partir para iniciar funções de assessoria ao almirantado.

Segundo Stuart Braga, eram doze as escolhidas que constavam da lista secreta de John Reeves: -D. Jex, Olga Carvalho, Elsa Carvalho, Mercedes Roza, Marie Roza, Argentina Gonsalves, Lolita Yvanovich, Avelina Gosano, Betty Clarke, Philomena Gonsalves, Irene Alonso e Hilda May. Foi este o núcleo duro da refundação britânica de Hong Kong há 65 anos.

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