Mistérios de Macau na Guerra do Pacífico. 03-08-10

Para os historiadores e investigadores um dos maiores mistérios, ainda que dos mais recentes, é o período em que Macau mergulhou, como pequeno território neutral, na “Guerra do Pacífico”.

A principal razão para que tal se verifique prende-se com a gritante ausência de documentação sobre esses anos depositada nos arquivos locais e a quase inexistência de jornais que poderiam esclarecer alguma coisa.

Infelizmente, o Arquivo Histórico, poucos documentos possui referentes ao período entre 1940-46. Por outro lado os poucos jornais que subsistiram intermitentemente durante essa época surgiam a público fortemente censurados, pelo que deles pouco se pode extrair, mesmo relativamente a aspectos da vida social quotidiana.

Sendo assim, a maior parte dos estudos e monografias publicadas baseiam-se essencialmente na tradição oral e não em quaisquer fontes documentais oficiais, ou não. Refira-se que panorama de certa forma semelhante se verifica igualmente no que a Hong Kong diz respeito, embora na vizinha RAEHK se encontre disponível um acervo consideravelmente maior.

De salientar, neste aspecto, o estudo de Chan Sui jeung, intitulado – “East River Column, Hong Kong Guerrillas in the Second Worls War and After”, publicado o ano passado pela “Royal Asiatic Society”por exemplo. A investigação que trás à luz numerosos episódios tão determinantes quanto obscuros, particularmente no que se refere a Macau, baseia-se em grande parte na tradição oral. O autor despendeu anos a ouvir as memórias de numerosos combatentes e não combatentes que em vários graus intervieram nos acontecimentos, principalmente os guerrilheiros comunistas, que depois da guerra optaram por permanecer na antiga colónia britânica.

No que à documentação diz respeito sabe-se da existência de alguns arquivos, embora se encontrem todos fora de Macau.

Uma das mais celebradas fontes é a chamada “Biblioteca Jack Braga”. Trata-se do acervo documental do investigador do mesmo nome, que foi comprado por uma universidade australiana e repousa na Biblioteca Nacional da Austrália em Camberra. No entanto os documentos sobre a Guerra do pacífico que dele constam parecem ser apenas recortes de artigos de jornal e transcrições de emissões de rádio que, como referi, eram alvo de forte censura pelas autoridades.

Por estudar permanece o conjunto documental do exército que se encontra praticamente em bruto depositado no “Arquivo Histórico Militar” de Lisboa.

Outro arquivo que se encontra agora já disponível é o do antigo ditador Salazar, depositado na Torre do Tombo. Trata-se de uma colecção inestimável, que está já aberta à consulta pública e que os investigadores começam agora a estudar nos seus múltiplos aspectos.

Este arquivo já revelou alguma coisa quanto ao papel de Macau, nomeadamente a sua participação na rede de inteligência aliada na guerra.

No entanto muitos pontos obscuros permanecem por esclarecer. Tanto no que diz respeito à situação político-militar, como também nos domínios sociais e económicos.

Neste âmbito, por exemplo, sabe-se que comunidades inteiras de expatriados evacuaram literalmente Tientsin, Xangai e Cantão entre outras cidades, com destino a Hong Kong perante o avanço japonês. Com a subsequente queda de Hong Kong, no Natal de 1941, todos esses refugiados acabaram por vir parar a Macau, que na altura era o único ponto neutral de todo o Extremo Oriente.

Sabe-se que o primeiro navio com alguns milhares de refugiados largou do Porto de Vitória, no dia 7 de Fevereiro de 1942, com alguns milhares de refugiados a bordo rumo à colónia portuguesa. Todavia não se conhecem quaisquer estatísticas que possam informar sobre o número de pessoas que o Território então acolheu. A tradição oral sobrepõe-se nesta área indicando que a população terá aumentado de cerca de 200 mil pessoas para 500 mil. Algumas testemunhas contemporâneas referem mesmo uma milhão de almas. Como foi possível absorver e manter tal número de pessoas num território de tão parcas dimensões por tão longo período? Negociar com os japoneses. Trocar os canhões da fortaleza do Monte e o principal navio da guarnição naval (Canhoneira Macau) por arroz. Enterramentos colectivos em valas comuns dos numerosos famintos que não resistiam. Atribulações da polícia para manter a ordem pública. Ocupação e transformação de monumentos e repartições públicas em centros de refugiados. Todas estas são respostas parciais, bebidas na tradição oral, que permitem traçar um quadro geral da situação mas pouco mais esclarecem.

Gabriel Maurício Teixeira governou Macau entre 1940 e 1947

Uma avaliação do governo do comandante Gabriel Maurício Teixeira (1940-47) está quase inteiramente por fazer.

Sabe-se alguma coisa do que empreendeu para manter uma sempre precária neutralidade durante esses anos. No entanto, poucos sabem que para além de resistir aos japoneses, Maurício Teixeira teve de enfrentar igualmente uma feroz oposição política interna traduzida, nomeadamente, na fuga para a Metrópole do chefe da “Administração Civil”, Menezes Alves, com auxílio das redes de espionagem aliadas. A consulta do “Arquivo de Salazar” permitiu desvendar parte desse mistério.

Outro mistério de que por agora pouco se sabe é o que se refere à situação de virtual rebelião militar que teve de enfrentar.

O súbito aumento do custo de vida e a escassez de géneros terá gerado forte descontentamento entre a guarnição militar, fazendo eclodir a rebelião que começou na Companhia de Metralhadoras, em Março de 1942.

Perante a insubordinação, militares fiéis a Gabriel Teixeira conseguiram restabelecer a ordem, prendendo o comandante da companhia tenente Viera Branco. No entanto a detenção do oficial, em vez de desactivar a revolta, fê-la alastrar-se mais ainda já que foi posto a correr o boato de que Vieira Branco tinha sido preso apenas por ter proposto ao Governador um aumento de vencimento dos soldados. Para além do exército e marinha, a Polícia de Segurança Pública esteve igualmente a um passo de aderir.

Apesar da agitação, no entanto, Gabriel Teixeira (como? Não se sabe.) conseguiu sufocar o motim, que resultou na demissão de vários oficiais sargentos soldados e civis. Alguns seriam detidos e enviados para Portugal, enquanto outros se viram desterrados para as ilhas (Taipa e Coloane) sob a acusação de “comunistas e revolucionários”.

Sobre este episódio que seguramente terá provocado forte comoção na Macau da época não restam vestígios que se conheçam na tradição oral conhecida dos tempos da guerra.

NOTA. Enquadrando-se este artigo essencialmente no ano de 1942, devo referir que foi precisamente naquela data, mais precisamente em 22 de Julho, que faleceu Damião Rodrigues, de que falei anteriormente em peça intitulada “E no pico do Verão chegou a ditadura”. Ali atribuí erradamente àquele a co-fundação do Centro Democrático de Macau em 1974. De facto quem participou na fundação do CDM foi obviamente seu filho que igualmente se chamava Damião Rodrigues e que do pai herdou a fibra combativa de republicano e democrata de antes quebrar que torcer.

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