E no pico do Verão chegou a ditadura 27-07-10


Foi no dia 22 de Julho de 1926, mais, ou menos no pico do Verão, que em Macau se encerrou o agitado “drama” político da 1ª República. Coube ao coronel Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães fazer descer o pano da democracia, demitido do cargo de Governador pela ditadura militar que se tinha estabelecido em Portugal na sequência do golpe de 28 de Maio desse ano liderado pelo marechal Gomes da Costa.

A Tamagnini Barbosa, um apoiante entusiasta do golpe de Braga, caberia o papel de fazer subir de novo o pano para o extenso acto político que se iniciava em Portugal e que teria como protagonista Salazar. Primeiro governador não militar a exercer o cargo em Macau, Tamagnini inaugurava com agrado a nova era, já que ao contrário dos irmãos democratas indefectíveis, era um dos apoiantes de primeira hora das correntes nacionalistas que queriam acabar com o parlamentarismo de uma vez por todas em nome da ordem pública.

A notícia do pronunciamento de 28 de Maio de 1926, chegou a Macau rapidamente e Maia Magalhães habituado aos golpes e contra-golpes da Metrópole não parece ter levado muito a sério os acontecimentos de Lisboa. Afinal, apesar de todas revoluções e conspirações fracassadas ou triunfantes da última década certo era que o Partido Democrático (PD) acabava por, de uma maneira, ou de outra, emergir sempre na governação do país. Apenas durante o breve consulado de Sidónio Pais (1917-18) o PD se viu afastado do governo.

Porque não haveria de ser assim mais uma vez? pensaria Maia Magalhães. Terá sido nessa ordem de ideias que o governador de Macau em vez de colocar o lugar à disposição das novas autoridades aguardou tranquilamente o desenrolar dos acontecimentos. Porém daquela vez não se tratava de apenas mais uma conspiração no seio do sistema, mas sim um movimento generalizado contra os partidos acusados de desgovernarem o país, que passava então por uma das mais graves crises financeiras desde a instauração da República em 1910.

Manuel Firmino Maia Magalhães, último Governador de Macau da 1ª República.

Face ao seco telegrama que lhe impunha a demissão e nomeava interinamente o almirante Hugo de Lacerda, governador, Maia Magalhães sentiu necessidade de se justificar perante o Conselho Legislativo da colónia afirmando que não o fez porque “ as contingências da política da Metrópole não deviam reflectir-se nas colónias pelo prejuízo causado e que não se encontrava filiado no Partido Republicano Português que perdera o poder”.

Mas se era um facto que Maia Magalhães, não era militante do PD, facto era também que não nutria qualquer simpatia pelas novas figuras que acendiam nem pelo seu ideário. Maia Magalhães era um democrata de longa data e créditos firmados em combate. Primeiro contra a “Monarquia do Norte”, tendo-se distinguido na defesa de Chaves contra as tropas de Paiva Couceiro e mais tarde integrando o “Corpo Expedicionário Português” que combateu em França na “Primeira Grande Guerra Mundial”.

Maia Magalhães continuaria a luta participando em 1931 na fracassada “revolta da Madeira” contra a ditadura, sendo então preso. Morreria no ano seguinte.

Embora em Macau não se conhecessem intenções revolucionárias notórias, a demissão de Maia Magalhães constituiu um sinal iniludível de que algo iria mudar e mudou mesmo. Era chegada de novo a hora de Tamagnini Barbosa, que já tinha governado Macau (1918-19), afastar quem lhe não convinha e nesse campo não perdeu tempo. Mas se o seu antecessor tinha abandonado o campo sem luta por força das circunstâncias, o campo democrático local manteve-se firme quanto pode tendo na liderança Damião Rodrigues, o prestigiado notário da cidade, que para além de um pequeno, mas activo grupo de correligionários fieis, era também o presidente do Leal Senado e desfrutava de forte influência que se estendia largamente à comunidade chinesa.

Tamagnini Barbosa 1º Governador de Macau nomeado pela ditadura

O combate entre Tamagnini Barbosa e Damião Rodrigues foi duro e sem quartel. O governador vendo-se impossibilitado de arredar sem mais justificações o inimigo político não hesitou mesmo numa tentativa de extinguir a edilidade e transforma-la como no século anterior o tinha feito Ferreira do Amaral, numa simples secretaria do Governo unindo as fileiras da oposição.

A luta durou até 1929, feita publicamente através do jornal “O Petardo” de Isidoro da Costa, que se publicava nas tipografias de Kowloon, em Hong Kong, eximindo-se assim à censura de Macau.

Durante cerca de dois anos este jornal constituiu um libelo acusatório semanal contra a política ultramarina da ditadura, sem que Tamagnini Barbosa pudesse fazer fosse o que fosse para o calar. A oportunidade surgiria no entanto um tanto inesperadamente quando o próprio Damião Rodrigues assinou um artigo atacando pessoalmente Tamagnini Barbosa e insinuando a implicação do próprio Governador no assassinato do comerciante de ópio Lee Hysan.

Acto contínuo o governador de Hong Kong (claramente pressionado por Macau) suspendeu a publicação de “O Petardo” e pouco depois Damião Rodrigues seria preso juntamente com outros democratas e subsequentemente deportado para Timor.

Apesar da vitória, Tamagnini Barbosa, não se livrava da sombra de Damião Rodrigues. De facto, a esposa assumiu o facho democrático do marido levantando a opinião pública e conseguindo fazer chegar a Lisboa um abaixo-assinado de protesto contra a prisão. Naturalmente que o protesto não obteve resultados práticos, mas reanimou as hostes levando a que nas eleições para o Conselho de Governo de 1930, Damião Rodrigues, apesar de desterrado se visse eleito como vogal suplente e o seu advogado vogal efectivo. A eleição de ambos seria no entanto anulada sob o pretexto de ambos serem funcionários públicos situação prevista na Carta Orgânica.

O “jornal de Macau” veria em tudo isto não só uma prepotência mas mais ainda uma censura ao “Estado Novo” afirmando: – O acto governativo a que acima nos referimos foi sancionado pelo Governo Central e assim somos levados à conclusão de que essa fracção do eleitorado de Macau elegendo neste momento o Sr. Dr. Damião Rodrigues para vogal suplente do Conselho de Governo, estando este Senhor afastado da Colónia por motivo desse sancionamento do poder superior, implicitamente envolve o Governo Central numa censura que outra coisa não procura ser essa mesma manifestação embora de um platonismo forçado pela Carta Orgânica”.

Como ilustração da fibra combativa de Damião Rodrigues, há quem recorde que depois de regressar a Macau do exílio timorense colocou na parede do átrio de entrada de sua casa um retrato de grandes dimensões do ex-líder do Partido Democrático Afonso Costa. Dizem que ali o manteve bem patente em simbólico desafio à ditadura até à sua morte em 22 de Julho de 1942.

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