Liu Shifu: – O anarquista de Macau que a memória oficial preferiu esquecer. 06-07-10

Em Macau há uma história antiga que permanece por contar.

– Não, contrapõe a bibliografia. O padre Teixeira já contou tudo quanto havia a contar.

– Não, não é verdade! contraponho. – O padre Teixeira falou de tudo quanto havia a falar sobre a presença dos portugueses em Macau, mas o que disse sobre os chineses? Muito pouco, ou quase nada.

-Mas o Padre Videira Pires? Interpela-me de novo a bibliografia que mostra centenas de artigos e mais de uma dezena de livros em abono da sua causa.

– Não! respondo eu novamente: – Esse autor era mais profundo, ainda que menos prolífico, mas igualmente apenas disse e só sobre os portugueses.

– E Montalto de Jesus e Charles Boxer e Anders Ljungstedt. Ou então Austin Coates, que bem sei, que fica entre historiador e romancista, mas que escreveu muita coisa e muita história? Volta a retorquir a bibliografia como se tivesse a última palavra.

A esta última interpelação (mais generalista, ou globalizante) respondo em forma de documento judicial; – aos costumes chineses disseram nada, pouco, ou mesmo intencionalmente muito pouco!

E é assim que Liu Shifu, a maior figura do anarco-sindicalismo chinês do dobrar de dois séculos não consta em qualquer bibliografia. Nem na portuguesa, nem na chinesa e muito menos na toponímia local. Na bibliografia inglesa igualmente passa praticamente despercebida, já que era incómoda para toda a gente.

Pessoa que acredita que o ser humano é bom por natureza e que por isso hierarquias, polícias, governos e repressão em geral são dispensáveis face à eficácia superior do diálogo, liberdade, igualdade e fraternidade, por muito que pugnem arriscam-se a morrer sem deixar assinatura neste mundo.

No entanto Liu Shifu, apesar de toda a ingenuidade que pautou a sua curta existência deixou marca.

Vale a pena saber quem foi e o que defendia. Principalmente face à sua íntima ligação a Macau.

Li Shifu iniciou a carreira política como adepto do que de mais radical existia no último quartel do século XIX. Niilista militante privilegiava a acção directa, ou seja o terrorismo revolucionário, nomeadamente o assassinato das elites criminosas. Para Liu Shifu, como para os niilistas desse tempo, o estado não era uma entidade abstracta mas sim um conjunto de pessoas (elites criminosas do seu ponto de vista). Por isso cada um dos seus elementos era alvo a abater. Assim se iniciou como membro do “Grupo de Assassinos da China”, um movimento anti-colonial fortemente influenciado pelas tácticas dos niilistas russos.

Ele próprio arquitectou com o seu grupo de seguidores um atentado contra o governador de Guangdong, que só não se consumou porque a bomba que estava a montar para erradicar deste mundo mais um vilão explodiu durante o processo de preparação da dita, deixando-o gravemente ferido.

Entretanto os anos foram passando e sempre com a sua colaboração activa Liu viu a República ser instaurada na China (1911).

A partir dessa data renegou publicamente o niilismo e converteu-se sem reservas ao anarquismo de Kropotkine, Bakunine, Tosltoi e Malatesta.

É durante esse período que inicia um trabalho teórico tão importante quanto actualmente ignorado, que o leva a esquematizar a importância fulcral da organização dos camponeses na revolução socialista. Esta tese pioneira ia frontalmente contra as ideias já estabelecidas por Marx, Engels, Lenine e Trotsky que entendiam que a revolução só seria possível com a organização dos operários. Isto, alegadamente, por que os camponeses eram possuidores de um intrínseco espírito reaccionários e simultaneamente imprestáveis numa revolução hodierna como era a socialista.

Neste âmbito Liu Shifu manteve uma viva polémica com o principal teórico do marxismo chinês de então, Jiang Khangu (1883-1954), (fundador do Partido Socialista da China) sobre esse tema. Naturalmente perdeu, como o futuro político do mundo viria a comprovar.

No entanto a sua derrota revelar-se ia apenas circunstancial já que as suas teses viriam a ser recuperadas mais tarde e seria com os camponeses e não com os operários que a República Popular da China, seria proclamada em 1 de Outubro de 1949, por Mao Tsé Tung. Um feito que o próprio Estaline nunca pensou ser possível e só relutantemente aceitou.

Aliás o assunto nunca seria verdadeiramente dirimido e o divórcio entre Pequim e Moscovo, nos tempos de Nikita Krushev, vieram provar isso mesmo. Curiosamente, diga-se, o socialismo soviético ortodoxo e operário acabaria por se estilhaçar, enquanto que a experiência revolucionária baseada no campesinato da China continua actualmente a singrar e ameaça mesmo transformar o país na maior potência mundial nas próximas décadas.

Liu Shifu a grande figura do anarquismo chinês

Em 1912, Liu Shifu fundou a “Sociedade dos Galos que Cantam no Escuro”, sendo considerado o seu líder. No entanto nela recusou-se sempre a deter qualquer posição ascendente sobre os camaradas. Liu era apenas um entre os que a constituíam. Não era mais nem era menos.

Esta sociedade, também conhecida como “Grupo de Cantão” teve como primeira e mais visível acção a formação de uma aliança entre intelectuais e trabalhadores e serviu numa primeira fase para propagandear a diferença entre o anarquismo e os vários socialismos que ascendiam.

Da sua plataforma política é de salientar a completa ausência de referências a minorias, ou maiorias étnicas (outro marco histórico pioneiro) isto porque na base da sua plataforma constava como ponto fundamental a eliminação das identidades, raciais e nacionais em prol de um verdadeiro internacionalismo. O seu compromisso era com a humanidade e não com qualquer grupo social independentemente de regiões, países, ou continentes.

O próprio combate contra a dinastia “Manchu”, segundo Liu, era falacioso, tendo em conta que se combatia apenas e só contra a opressão universal. O facto de o imperador e os seus mandatários serem manchus era questão totalmente irrelevante (de referir que os manchus, que reinaram na China durante mais de dois séculos, actualmente, constituem uma etnia numericamente irrelevante que se fica pelos 8 milhões de pessoas. O resto do país é constituído por mais de mil milhões de habitantes das etnias mais diversas).

Neste quadro ideológico universalista, Liu Shifu foi, também, um dos maiores proponentes do esperanto como língua universal, publicando em Macau, a partir de Agosto de 1913, o jornal “La Voco del Popolo” (voz do Povo) que era dado à estampa nessa língua que lutava (utopicamente, como posteriormente se verificou) por se universalizar e simultaneamente, em chinês. Era um jornal bilingue. Nesse contexto global o português não contava (tal como o manchu) para o efeito. Eram naturalmente irrelevantes nesse contexto.

A emancipação da mulher, assunto que tardaria mais de meio século a afirmar-se, ocupava já em a “Voz do Povo” prioridade central a par de outros temas, como o do sufrágio universal, que igualmente viria apenas a mostrar-se politicamente importante muitas décadas mais tarde.

O jornal viria a ser alvo de ordem de apreensão nos locais onde se encontrasse à venda, por ordem do governador Sanches de Miranda. Curiosamente essa ordem limitava-se a proibir a leitura do periódico na cidade e não a sua impressão propriamente dita, já que “A Voz do Povo” singraria sem interrupção pelos anos seguintes impresso nas tipografias locais e distribuído clandestinamente por toda a China e pelo ultramar.

“La Voco del Popolo” e Liu Shifu são ao mesmo tempo um título e um nome que espelham bem o que foram sempre as especificidades de Macau.

Resta dizer que apesar de todos os mandados de captura de que foi alvo, nos tempos do império e posteriormente no efémero interregno monárquico de Yuan Shi kai, subsequente à implantação da República, Liu Shifu, nunca deixou de publicar o seu jornal e difundir o seu ideário, sem incómodos de maior na colónia portuguesa da China.

Num período da história em que as ideologias políticas se opunham, no Extremo Oriente, de forma mais virulenta do que nunca e o anarquismo era o menor e o mais fraco dos “ismos” em disputa, por que razão Liu Shifu conseguiu viver escrever e principalmente publicar sem ter sido particularmente incomodado?

A pergunta revela-se tanto mais importante e enigmática quanto será preciso ter em conta que as ideias que defendia colidiam contra tudo quanto as autoridades coloniais republicanas, que faziam gala no seu progressismo, tinham “cientificamente” por postulado assente e como moralidade social e politicamente demonstrada.

Liu Shifu morreria tuberculoso em 1915 com apenas 31 anos de idade. Vida tão curta para tão extraordinária obra.

Para nós portugueses, em paralelo, Liu Shifu suscita-nos à ideia António Nobre e Cesário Verde, entre outros, que morreram ingloriamente mais cedo e igualmente de tuberculose, do que basta obra prometia e deixaram por escrever.

Alguém saberá onde param os números perdidos de “La Voco del Popolo” de Macau? Sabe-se que nalguns, sob alguns artigos, portugueses apuseram a sua assinatura. Quem seriam? Dizem que o advogado Damião Rodrigues que com Liu Shifu privou de perto terá deixado ali alguma impressão de chumbo, já que era em caracteres de chumbo que se imprimiam os jornais nesses tempos de brasa. Mas de resto não se sabe mais nada.

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