O mediatismo anglo-saxónico e a subalternização histórica de Macau. 29 – 06 – 10

A influência de Macau na proclamação da república da China é tão evidente quanto mal conhecida e isso deve-se essencialmente à quase total ausência de estudos em língua portuguesa.

Ao contrário, a importância de Hong Kong, na queda da dinastia imperial chinesa é sobre estimada precisamente pelo oposto, ou seja, pela abundância de bibliografia publicada sobre o assunto.

O que existe em inglês dispersa-se por milhares de livros e outros tantos estudos académicos especializados, artigos de jornal, documentário de televisão, excertos na “blogosfera”. Sei lá que mais!… Inversamente em português o tema não chegará para ocupar prateleira inteira de uma pequena biblioteca particular. Certamente que ainda não ocupou minuto algum no “Canal de história” (ou Memória, não sei…) da RTP, por exemplo.

Mas a verdade é que uma parte significativa dos revolucionários da segunda metade do século XIX, e inícios do século XX que contribuíram para a implantação da República da China, em 10 de Outubro de 1911 (e numa segunda fase, para a instituição da República Popular em 1 de Outubro de 1949), era originária da província de Guangdong, com destaque naturalmente para o incontornável Sun Yat-Sen.

Sun nasceu numa pequena localidade, a pouco mais de 30 quilómetros de Macau e em Macau, viveria, como se sabe, durante vários períodos da sua vida. Aliás ele próprio reconhece que foi em Macau, que ganhou consciência social.

Sun Yat-sen como trajava nos tempos em que viveu em Macau.

Formado em medicina em Hong Kong, imediatamente após a licenciatura passou a residir na colónia portuguesa, exercendo clínica no Hospital Kiang Wu. Abriu na Rua das Estalagens um consultório e uma farmácia. Abriria uma segunda “botica” numa das casas há muito demolidas (para dar lugar à sede dos Correios) no Largo do Leal Senado, que pertenciam, então, à Santa Casa da Misericórdia.

Sun Yat-sen numa visita ao Hospital Kiang Wu de Macau, 1912.

Sun afirma que a militância política se sobrepunha ao exercício da sua profissão. De facto, em Macau onde vinha durante as férias, já que a maior parte da sua família por cá residia, formaria o que ficou conhecido como “bando dos quatro”, grupo impulsionador da formação de clubes de leitura que incentivavam a população à leitura de jornais e levava a cabo sessões de propaganda política, nomeadamente, aproveitando a disponibilidade dos teatros da cidade. Estes teatros, durante um certo período, foram muito mais palcos de realização de entusiásticos comícios, do que centros de divulgação da “arte de Talma”, ou da sétima arte nascente com o animatógrafo.

Sun Yat-sen e o “bando dos quatro”. Da esquerda para a direita: Yang Heling, Sun Yat-sen, Chen Shaobai e You Lie. De pé Guan Jingliang. Reuniam na casa de Yang Heling na íngreme Travessa dos Santos que desemboca na Rua do Campo em Macau e não em Hong Kong, como sistematicamente surge nas legendas referentes a esta fotografia.

Num deles, por exemplo (que ficou célebre), os numerosíssimos presentes cortaram simbolicamente as tranças, que eram adorno capilar obrigatório de todo o povo chinês durante a última dinastia imperial que caiu em 1911.

Cortar a trança, nesses tempos bárbaros correspondia a punição com pena de morte. Tendo isso em conta tal acto de rebeldia que se repetiu nas outras colónias ocidentais nas costas da China e também em Singapura, Indochina, ou Indonésia, onde a emigração chinesa era pujante, foi por demais significativo.

Mas os dois pontos de verdadeiro contacto da China com as ideias ocidentais eram, essencialmente, Macau e Hong Kong por óbvias razões geográficas.

Nestas se situavam verdadeiramente os baluartes que poderiam, para o bem ou para o mal, transformar, ou perder o país.

As actividades subversivas na vizinha colónia britânica contra a monarquia “Manchu” eram rigorosamente vigiadas, pelas autoridades inglesas. Ao contrário, em Macau, a permissividade oficial nesse campo, era notória.

Essa situação permitiu que ao longo das duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX, um dos principais centros de apoio às correntes de oposição aqui estivessem naturalmente sedeados. Ou a tempo inteiro, ou sempre que a conjuntura prevalecente assim o determinava.

Em Macau viveram nessa época alguns dos vultos mais destacados que a “Nova China” haveria de produzir. Igualmente aqui se publicavam os jornais de oposição proibidos para lá das Portas do Cerco.

Esses jornais derivavam de várias orientações políticas, desde os liberais, que apenas pretendiam a reforma da monarquia, até aos que se proclamavam abertamente anti-monárquicos.

Os socialistas aqui imprimiam igualmente os seus órgãos de propaganda, com destaque, numa primeira fase, para os anarquistas.

Os referidos periódicos eram escritos e impressos nas tipografias locais. Umas legalmente estabelecidas, outras clandestinas (o governo português pouca conta oficial dava dessas diferenças). Posteriormente eram distribuídos no interior através, principalmente, da inextrincável rede de “tríades” que dominavam o país de então. A sua circulação não se limitava às fronteiras de Guangdong, atingindo também os grandes centros urbanos incluindo Xangai e Pequim. Mas também o Sudoeste Asiático, Austrália, EUA e Europa, com destaque, neste último caso, para a França.

Nesse ponto da história é importante sublinhar que no período da implantação da república na China, a Maçonaria portuguesa se encontrava extremamente activa e actuante, não só em Macau, mas também em Cantão, Xangai e igualmente nas Filipinas, para não falar já no distante Havai onde Sun Yat-sen e um sem número de resistentes chineses possuíam laços políticos e de sangue iniludíveis.

Em Macau os “maçons” eram igualmente um sem número de figuras civis e militares, revestidas de diversos graus de responsabilidade institucional, incluindo os chefes máximos da administração, ou seja, os governadores. Nessa conjuntura a “Maçonaria” funcionava como organização supra nacional que politicamente tudo coordenava superando as rivalidades existentes entre facções na China e entre os interesses por vezes opostos das potências coloniais ali presentes.

Na “Maçonaria” de Macau, concentrada na “Loja Luís de Camões II”, tal como em Portugal, o republicanismo dominava claramente. Esta terá sido outra das razões que explicam a cumplicidade da colónia nas actividades subversivas contra a “Dinastia Celestial”. Uns “maçons” apoiavam porque eram republicanos, outros porque eram monárquicos constitucionais, outros ainda porque estavam rendidos ao progresso imparável das “luzes” do século XIX. Mas para todos a China era uma monarquia absoluta que não congregava as simpatias de ninguém.

Nesse âmbito é de salientar circunstancialmente a figura de Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de diversos jornais, que se tornou ponte de contacto proeminente entre os republicanos chineses e as autoridades locais durante mais de duas décadas.

Foi Francisco Fernandes, que acolheu Sun Yat Sen em Macau após a sua primeira e malograda tentativa de revolta contra o regime (1895), organizando-lhe a fuga ulterior para o Japão. Há correspondência conhecida entre Fernandes e Sun, que revela que para além do grau de amizade pessoal, partilhavam igualmente os mesmos ideais políticos e particularmente laços “iniciáticos” evidentemente maçónicos.

Nessa conjuntura de dobragem de século saliente-se que por Macau passaram igualmente muitos ideólogos e activistas chineses de grande renome nacional.

Entre outros destaque natural para Zheng Guan Yin, autor de várias obras que reflectiam as correntes mais modernas do pensamento filosófico, político, social e económico do Mundo positivista do século.

Essas obras foram escritas e (naturalmente) publicadas inicialmente em Macau, já que em Hong Kong seria impossível tendo em conta que as autoridades controlavam muito de perto todas as actividades subversivas dirigidas contra Pequim e o seu regime que não pretendiam pôr em causa. Isso enquanto o “Celeste Império” cedesse às imposições diplomáticas de “Sua Majestade Britânica”.

Em 1886, Zheng Guannying na sua casa, localizada na Travessa de António da Silva, meditou sobre as suas ideias e concluiu a sua obra prima Shengshi Weiyan (Advertências Severas em Tempos de Prosperidade). Neste seu livro, Zheng sugere a ideia que “um Pais deve desenvolver a sua riqueza de modo a assumir-se como uma Nação forte, notando que a riqueza em si motiva o desenvolvimento da economia, o desenvolvimento de industrias, enaltecendo ainda a importância da educação, leis actualizadas, promoção de valores éticos e reformas politicas”. Estas ideias propostas na sua obra Shengshi Weiyan, tiveram grande impacto sobre o Imperador Guangxu, Kang Youwei, Liang Qichao, Sun Yat-Sen e, mesmo, Mao Zedong.

Ainda bem que se restaurou ali perto da “Fonte do Lilau a casa onde viveu essa grande figura que tanta influência teve no dealbar da “Nova China”.

Uma outra personalidade bem menos conhecida mas que registou influência igualmente determinante num certo período, ainda que relativamente curto da história contemporânea foi Liu Shifu, o nome mais proeminente do anarquismo extremo-oriental do Mundo.

Liu Shifu  principal redactor  de a “A Voz do Galo a Cantar no Escuro”. Este periódico iniciou publicação em Agosto de 1913, data em que Liu Shifu, se encontrava fugido e a residir clandestinamente em Macau. Ostentava o título em esperanto de: – “La voco de La Popolo. Após alguns números, mudou o título em chinês para “Min Sheng “(A Voz do Povo).

Liu era o principal redactor do jornal “A Voz do Povo” dado à estampa simultaneamente em chinês e esperanto. Nas sua páginas constavam os grandes manifestos de Kropotkin, Bakunin, Tolstoi e outros anarquistas. Mas também “niilistas” como Turgeniev, o grande romancistas russo autor de “Pais e Filhos”.

Liu Shifu, desaparecido prematuramente (morreu com 31 anos de idade em 1915) desvaneceu-se na penumbra da história das ideias políticas face à ascensão imparável do marxismo-leninismo. No entanto o seu ideário deu corpo à fugaz independência de Cantão que perdurou sob a dupla égide de Sun Yat-sen e Cheng Chiu Meng entre 1913 e 1925.

Liu Shifu vagueou clandestino e a fugir à polícia, muitas e muitas vezes, pela rua das Estalagens, pelo Pátio da Mina, pela Rua da Esperança. Enfim…, pelas vielas que só não estão hoje desaparecidas, porque o centro histórico de Macau foi preservado graças à declaração do dito como “Património Mundial” pela UNESCO.

Finalmente refira-se que a subalternização de Macau como ponto relevante de influência sobre o pensamento político republicano e socialista chinês se deve não só à já referida falta de estudos sobre a matéria em língua portuguesa, mas principalmente ao verdadeiro tiro de partida disparado com fragor mediático pelo mundialmente famoso cientista James Cantlie, .

Devido essencialmente à sua filiação maçónica Cantlie, reputado especialista de medicina tropical que tinha sido professor de Sun Yat-Sen, em Hong Kong, pontificava nos círculos académicos internacionais, mas essencialmente nos clubes sociais e políticos de Londres (não esquecer que tradicionalmente o chefe da maçonaria inglesa foi sempre um membro da família real). Por isso foi capaz de forjar os apoios necessários para fazer saltar a figura de Sun Yat-sen de revolucionário mal conhecido, mesmo em Macau e Hong Kong, para o patamar de herói de projecção internacional.

Para isso concorreu indubitavelmente o lançamento da primeira biografia sobre o então obscuro médico cantonense – “Sun Yat- sen and the Awakening of China”- obra escrita em parceria com o jornalista, Sheridan Jones que foi um êxito estrondoso em todo o mundo. Creio que não existe tradução portuguesa desse livro, o que não deixa de constituir uma interrogação sem resposta cabal. Terá sido omissão politicamente motivada e intencional pela conjuntura do tempo, ou negligência histórica pura e simples? Inclino-me mais para a segunda hipótese.

Neste ponto convém esclarecer, em abono da justiça, que em “Sun Yat-sen and the Awakening of China” as actividades de Sun Yat-sen em Macau não passaram em branco. Ainda hoje vale a pena reler as páginas desse livro (algumas vezes mesmo superlativamente citadas por diversos autores ingleses) relativas às cirurgias de extracção de cálculos renais (uma inovação da medicina, mesmo em termos europeus) que Sun praticava no hospital Kiang Wu.

Hospital Kiang Wu tal como era no tempo em que nele Sun Yat-sen exerceu medicina.

Ali não eram bem os méritos da medicina ocidental que se provavam, mas significativamente mais as possibilidades práticas de curar os males político-sociais de uma nação inteira com novos métodos ainda que colidentes com a tradição milenar de Confúcio.

Finalmente de referir que várias personalidades portuguesas de relevo de Macau estiveram em estreito contacto, não só com Sun, mas com os seus correligionários, restando saber até que ponto o pensamento político dos republicanos chineses terá sido influenciado, ou até eventualmente moldado por via desses contactos.

Lou Lim Yok , Leong Kai Shio, Shen Shaobai salientam-se, entre muitas, do lado chinês. Horta e Costa, Carlos da Maia, Rodrigo Rodrigues, entre outras, destacam-se do lado português.

José Vicente Jorge. Orientalista, tradutor publicista, coleccionador de arte e figura marcante da intelectualidade macaense.

Outras figuras menos estudadas que no Território viveram, tiveram também papéis relevantes como: – Damião Rodrigues, Vicente Jorge, o advogado Basto e o ainda hoje enigmático Leôncio Ferreira, este que pontificava em Xangai e foi agraciado com a “Torre e Espada” a mais alta condecoração militar portuguesa embora sempre tivesse sido um civil de gema. Possui uma pequena rua com o seu nome em Macau. O que fez? não se sabe. Mas coisa importante foi no relacionamento entre Portugal e a China,

As actividades dos agentes do Komintern em Macau nos anos 20 do século XX foram, em certos aspectos, tão determinante quanto envoltas no segredo em que ainda hoje se encontram.

Também na formação do Partido Comunista da China, Macau desempenhou papel de relevo e não pequeno. A fortíssima ligação a Macau do marechal Ye Jiening prova-o à saciedade.

Marechal General Ye Jianying (com o Presidente Tito da Jugoslavia), Nascido Ye Yiwei (叶宜伟/叶宜伟), localidade da província de Guangdong, numa família de comerciantes de origem Hakka. Liderou a conspiração de generais e dirigentes históricos do PCC que derrubou Jian Qing e o “Bando dos Quatro” pondo ponto final ao conturbado período da “Revolução Cultural” e abrindo caminho à ascensão definitiva de Deng Xiaoping. Deixou a política activa como vice-presidente do PCC em 1982 e abandonou o Politburo em Setembro de 1985. Morreu em Pequim em 1989. Viveu em Macau durante vários períodos da sua vida.

Do que não resta dúvida é que Macau que não funcionou como peça única na formação do pensamento político dos republicanos e comunistas chineses, foi decerto o cadinho, conveniente e discreto, onde se forjou e não em pequena parte.

Falta estudar com mais profundidade a relevância e influência dos contactos pessoais entre os dois lados (portugueses e chineses), para além dos que deixei citados. Falta também vasculhar arquivos em Portugal, mas igualmente (diria primordialmente) na China onde, provavelmente, muito do que não se sabe se guarda e aguarda apenas a consulta de quem os queira, ou possa, consultar. Creio que se esse empreendimento for levado a sério e de uma forma sistemática talvez se possa saber com mais ciência certa se o facto das Repúblicas em Portugal e na China terem sido proclamadas com a pequena diferença de um ano foi apenas mera coincidência, histórica, ou muito mais do que isso.

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1 Comment

  1. Ye Jianying era da mesma terra de Ho Cheng Peng, ou He Ching Ping, o homem forte e dirigente da companhia Nam Kong, ou Nan Guang, os representantes do PC daChina em Macau. Eram grandes amigos e quando da Revolução Cultural, em 1966, estava tudo preparado em Macau para ajudar quadros superiores do Partido, perseguidos pelos radicais maoístas. Caso necessário, Macau seria o lugar de saída da China, ou de refúgio clandestino desses quadros, incluindo Ye Jianying,

    Abraço,

    António Graça de Abreu


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