Duas Instituições Macaenses.

Hoje este meu guarda-livros guarda apenas este.

Chama-se: – Duas Instituições Macaenses.

1871 – 1878 – 1998

Este livro pretendeu comemorar e historiar a vida de uma das mais antigas instituições locais.

Trata-se da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses.

Como vêm este livro é de comum autoria.

Foi feito pelo Professor José Silveira Machado e por mim.

Devo dizer que no que toca a esta obra, ela é mais, muito mais de Silveira Machado do que minha.

Toda a investigação histórica sobre a APIM e a Escola Comercial foi desse emérito professor que Macau perdeu recentemente.

Mas para mim fazer este livro foi muito mais do que conhecer outro dos muitos aspectos pouco divulgados da história de Macau.

Foi principalmente conhecer o professor Silveira Machado.

Ao longo de meses, reuníamo-nos no Café “O Galo”, que ficava no primeiro andar do edifício Nam Kwong, na avenida Rodrigo Rodrigues.

O café já desapareceu há anos.

Era um sítio sossegado, sem janelas. Paredes decoradas com todos os ícones de uma casa portuguesa (com certeza), incluindo os azulejos com os galos de Barcelos e os cachos de uvas pintadas.

As colunas de som nos quatro cantos da sala tocavam isso mesmo, ou seja Amália, Carlos Mourão, Fernando Farinha e tudo quanto ficou gravado da propaganda do SNI para Mundo ver do Portugal passado passadista e estafado.

Encontrávamo-nos lá regularmente ao fim da tarde para conferir elementos para o livro, que cada um tinha descoberto nas buscas que fazíamos.

Ele revelava-me as dificuldades que tinha tido em descobrir uma fotografia inédita que queria por força incluir, ou os trabalhos que teve para encontrar a lista exacta dos directores da Escola Comercial.

“Falta tanto nos arquivos”, dizia ele desiludido com a falta de zelo dos arquivistas e completava:- Se não fosse a minha memória!…

Silveira Machado, sabia bem onde procurar e se não encontrou tudo, acho que muito pouco restou que aqui neste livro não tenha ficado inscrito.

Mas no Café O Galo, terminada a faina literária, não acabava a conversa.

Silveira Machado, cheio de vivacidade e bom humor continuava a palestra a dois, ou às vezes a três ou quatro, sempre que as empregadas vestidas de verde e vermelho, ou não fossem as cores do uniforme as que mais conviessem a um café que tinha por emblema o Galo de Barcelos, se aproximavam solícitas a perguntar ao professor se lhe podiam pôr mais um pouco do líquido escocês de que todas sabiam ser a sua marca preferida.

E entre olhares de soslaio meio líricos, meio eróticos, meios românticos perdia-se entusiasmado a falar-me do que iria escrever no número dessa semana do Clarim.

Eram sempre coisas do quotidiano da cidade.

Ele era um buraco mal sinalizado na avenida; ele era a falta de estacionamentos; ele era o mau tratamento da língua portuguesa nos placares e anúncios das paredes da cidade, enfim…

E confidenciava-me. Lembro-me bem: – Sabes que eu para escrever as crónicas no Clarim meto-me nos autocarros e percorro a cidade. Saio aqui e ali quando alguma coisa me desperta mais a atenção e observo de perto o que se passa.

E eu pensava para mim.

Eis um jornalista competente, como se Silveira Machado fosse um jornalista.

Não. Silveira Machado ao longo da sua vida foi muito mais do que jornalista, ou mero observador.

Foi um interventor e um interventor de mérito.

Não se estranhe por isso que a comunicação social o tenha classificado como, uma das figuras marcantes da cultura portuguesa em Macau.

Faleceu Domingo aos 89 anos no Hospital Conde de São Januário. Professor, fundador e jornalista do semanário católito “O Clarim”, comentador e autor, José Silveira Machado nasceu a 24 de Outubro de 1918 na freguesia e Concelho de Velas, na ilha açoriana de São Jorge.

Chegou nos anos 30 do século passado a Macau para estudar para padre no Seminário de S. José, na companhia de outras figuras de Macau, como Monsenhor Manuel Teixeira, figura emérita da historiografia, e o padre Áureo Castro, outra figura emérita da música.

Dos três Silveira Machado, era o único que se tinha na conta de poeta, por isso é natural que as musas o tivessem impedido de se tornar padre.

Mas as musas deram-lhe também a inspiração para escrever “Rio das Pérolas” colectânea da sua poesia que vale a pena ler.

Nos intervalos da poesia perdeu-se na burocracia do estado como funcionário público durante alguns anos.

Mas foi principalmente professor na Escola Comercial, Colégio Dom Busco e no Centro de Formação dos Serviços de Educação.

Ao longo da sua carreira como jornalista, colaborou na Voz de Macau, na Revista Renascimento, O Clarim, Comunidade, Boletim Informativo de Macau, e foi correspondente do Diário da Manhã e da revista de Cinema Plateia.

Aliás, na sétima arte foi um dos que participou na feitura de uma longa-metragem que se chamava Caminhos Longos, totalmente idealizada escrita e rodada em Macau com actores locais.

Um história romântica dos anos da guerra do Pacífico.

Que pena que a fita se tenha perdido sabe-se lá como algures nuns estúdios de Hong Kong, depois de ter sido passada com assinalável êxito em Macau e Hong Kong, visto com muitas lágrimas e outros tantos risos e sorrisos, bem ao estilo do Leão da Estrela, ou do Costa do Castelo, de Vasco Santana e António Silva.

Se calhar outra vocação frustrada de Silveira Machado que bem poderia ser um António Lopes Ribeiro. Sabe-se lá.

Fluente em cantonense, Silveira Machado escreveu diversos livros.

Macau, Sentinela do Passado, Macau, Mitos e Lendas, Duas Instituições Macaenses, que é o livro que temos aqui, Macau na Memória do Tempo” e “O Outro lado da Vida” que por ele mesmo foi definido como um retrato social de Macau, são alguns dos livros que publicou.

A sua actividade cívica e em prol do português em Macau valeu-lhe o reconhecimento da classe política, tendo sido condecorado com quase todas a medalhas que existem no Boletim Oficial.

A última, a do grau de Grande Oficial da Ordem da Instrução, foi-lhe concedida há dois anos pelo então presidente da república portuguesa Jorge Sampaio.

Homem ligado ao desporto, turismo, educação e cultura, a sua morte é considerada uma “enorme perda” dizem os órgãos de comunicação e digo eu também que tive o privilégio de conviver tão de perto com ele.

Com tanta vida e tanta obra, é claro que Silveira Machado não morreu.

Basta ir à Livraria Portuguesa, por exemplo, para confirmar que Silveira Machado está evidentemente entre nós.

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