De Longe à China

O romance policial vem de longe, tem pelo menos século e meio.

Neste domínio da literatura os pioneiros são Sir Arthur Conan Doyle, que em 1887 inventou a figura de Sherlock Holmes.

Depois disso apareceram centenas de autores que vão de Agatha Christie ao nosso bem português Deniz Mac Shade, ou Diniz Machado que escreveu o “ O que diz Molero”, novela que não tem nada ver com romances policiais, mas é um marco na literatura portuguesa.

Mas antes de todos estes nomes sonantes da literatura mundial houve alguns pioneiros de que se houve falar pouco e outros de que não se houve falar de todo.

Um dos que não se conhece e de que nem sequer existe obra acessível em qualquer livraria a não ser provavelmente em alfarrabistas e na Biblioteca Nacional, naturalmente, é António Maria Bordalo.

António Maria Bordalo era um oficial de marinha português que foi secretário do governo de Macau durante cerca de dois anos nos idos de 1850.

1850, um ano particularmente dramático na história de Macau, quanto desconhecido hoje em dia.

Foi o ano que se seguiu ao assassinato do governador Ferreira do Amaral.

Um ano em que mais do que antes, ou depois, a sobrevivência de Macau esteve por um fio.

Este escritor menor da literatura portuguesa, isto segundo a classificação dos dicionários bibliográficos, deixou obra publicada, principalmente no que respeita ao seu género literário preferido que eram as narrativas de viagem marítimas.

Neste âmbito escreveu coisas interessantes, como “Trinta anos de Peregrinação”, “Manuscrito Achado na Gruta de Camões”, ou um “Passeio de Sete Mil Léguas”.

Digo eu que são coisas interessantes, porque dizem respeito a Macau.

Mas Portugal ainda não redescobriu este autor.

O que é certo é que António Maria Bordalo escreveu, não só o primeiro romance policial passado em Macau, como talvez até um dos romances, ou novelas policiais, como lhe queiram chamar, que se escreveram no mundo.

Isto muitos anos antes do “Mistério da Estrada de Sintra” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

A novela chama-se “Sansão na Vingança”.

O enredo gira em torno da explosão da Fragata D. Maria II, que ocorreu em Macau em 1850.

António Maria Bordalo, fala pela primeira vez das seitas em Macau, do crime que campeava nas ruelas tortuosas dos bairros, que eram então periféricos à cidade como o da fortaleza do Monte, de que restam hoje as ruas de Sancho Pança e D. Quixote e o recuperado bairro de S. Lázaro.

António Maria Bordalo ficcionou um drama familiar, depois de o ter investigado exaustivamente.

É que o irmão, também oficial de marinha morreu precisamente no desastre da fragata D. Maria II.

A explosão de um dos navios mais emblemáticos da marinha portuguesa desses tempos provocou uma consternação nacional.

E o mais estranho nesse episódio é que o irmão de Bordalo teria feito chegar a Lisboa uma carta em que dava conta do desastre.

No entanto essa carta, misteriosamente, fora expedida antes do desastre ter acontecido.

Este facto não consta da novela.

Mas consta da história. E até hoje ainda ninguém avançou com uma explicação plausível para esse facto.

Uma novela de ficção científica, talvez possa especular sobre o que passou.

A destruição da fragata D. Maria II foi um desastre nacional.

Uma tripulação de duzentos homens obliterada num ápice pela explosão de toneladas de pólvora carregadas no porão.

Vários navios ingleses, franceses e americanos, que se encontravam nas imediações do ancoradouro da Taipa sofreram as consequências. Houve mortos, feridos e danos irreparáveis nalguns dos mais modernos navios de várias nações.

Quem foi o responsável?

Quem foram os responsáveis?

Nesta novela Francisco Maria Bordalo não dá uma resposta concreta.

Deixa pairar vagamente que foram as seitas.

Pena é que o livro só esteja disponível na Biblioteca de Macau e na Biblioteca Nacional de Lisboa já que nunca mais foram feitas quaisquer reedições.

Mas ainda bem que ainda existe.

Mas, “De Longe à China”, uma compilação de vários autores, fala disso – e de muito mais.

Este conjunto de livros que aqui tenho fornece resumos da história que contei e de muitas outras, de muitos outros autores que escreveram sobre Macau.

É uma edição do Instituto Cultural de Macau, que poderá encontrar também na Livraria Portuguesa.

Nestes cinco volumes talvez encontre também outras histórias que nunca pensou que se pudessem passar em Macau.

De Longe à China é uma espécie de enciclopédia resumida e fácil de manusear do que se escreveu sobre Macau

Se quer saber quem escreveu o quê, sobre Macau, seja história, romance ou biografia, leia de Longe à China e depois, se puder, compre a colecção inteira.

Infelizmente muita da bibliografia que de Longe à China refere não existe nas livrarias.

É pena.

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