Blogues, anonimato e vírgulas 22 – 06 – 10

Na sequência do meu artigo sobre “blogues e anonimato” recebi vários “feedbacks” neologismo inglês de que não gosto muito mas que não tenho senão que aceitar perante a falta de vocábulo português mais à mão. Ou então perante a preguiça de consultar – por exemplo – o novel dicionário da “Academia das Ciências de Lisboa” que alegadamente contém tudo quanto há no léxico de “aquém e além-mar” que não constava do dicionário de “Figueiredo”.

Fui criticado (imagine-se!) não pelo que disse mas pelas vírgulas que deixei de pôr ou inseri a mais (ou a menos) no artigo que deixei exarado nesta página semanal do “JTM”.

Tenho pena que ninguém na “blogosfera” me tenha interpelado sobre “blogues” “anonimato” “calúnias” “censura” “auto-censura” “ética jornalística” “liberdade” “direitos de autor”. Sei lá que mais?

Mas não!

Fui interpelado essencialmente sobre vírgulas. Vírgulas! Vírgulas e mais nada!

Isto na blogosfera!…

Porque algumas pessoas com quem tive oportunidade de falar sobre a questão e/ou me interpelaram directa e pessoalmente a propósito do escrito essas sim falaram-me do conteúdo. Concordaram e discordaram. Enfim!… Disseram o que quiseram e entenderam. Suscitaram discussão de ideias que era o objectivo subjacente ao tempo que despendi a escrever o dito que se prendia essencialmente sobre a “lei de imprensa” anunciada como em fase de revisão.

Mas essa das vírgulas é boa! Não posso levar a sério (mais outro ponto de exclamação e umas tantas reticências).

Fez-me lembrar o meu professor de português do liceu (Pe. Bento da Guia de boa memória) que dizia que a utilização dos acentos nas palavras é coisa ainda hoje absolutamente dispensável para quem domine seriamente um idioma.

Segundo esse pedagogo a acentuação das palavras só começou, naquela fronteira indefinida da “alta idade média” quando o latim se começou a perder com o ocaso do “Império Romano” dando lugar ao analfabetismo generalizado da barbárie e à ascensão do português a afirmar-se como forma de comunicação corrente exclusivamente oral como percursora de língua nova.

Isso ocorreu num momento em que os padres (ilustrados detentores exclusivos do conhecimento que ameaçava esboroar-se nesse episódio histórico em que a guerra se sobrelevava às letras mas que eram muito poucos) ainda dominavam bem as duas línguas: – o “latinório” e o português nascente que na altura era uma espécie de crioulo pouco diferenciável do castelhano.

Mas dizia eu que os tais padres se viram na necessidade de inventar os tais acentos (e possivelmente as vírgulas). Isso de modo a que os frades seus discípulos semi-analfabetos como instrumentos ao seu serviço de Deus e da difusão dos conhecimentos básicos – que era necessário preservar a todo o custo nas escolas conventuais de primeiras letras – pudessem ensinar correctamente os rudimentos da escrita às crianças. Missão vital bem cometida a quem não teria merecimento original. Graças aos benditos acentos passou a ter.

Os frades acabaram por cumprir o seu serviço como reza a história e Frei Bernardo de Brito entre outros atesta e a gramática da língua portuguesa conclui.

Fizeram muito bem esses esclarecidos padres letrados medievais! Quem leu “O nome da Rosa” de Humberto Eco poderá ter uma ideia mais concreta desse quadro bárbaro de reconstrução que menciono.

Neste ponto do discurso devo dizer – por exemplo – que  Mário Vargas Llosa rejeita as vírgulas como se nota. É pesado lê-lo sem vírgulas? É! Mas quem não se delicia com “Pantaleão e as Visitadoras”; ou a “Conversa na Catedral”?

O desaparecido Saramago – idem. Além disso Saramago acrescenta (a meu ver) igual desprezo pelos parágrafos. Páginas quase inteiras. Verdadeiros conglomerados – como se diz em geologia – de imagens fantásticas que afogam de todo a ortografia e a semântica e tornam mais impossível do que nos Lusíadas a divisão de orações. Mas quem não compreende o “Levantado do Chão. Ou o “Memorial do Convento”?

A “Guidinha” de Luís de Sttau Monteiro (alguém se lembra daquele e daquela que foram paradigmas de uma época de jornalismo militante em Portugal?) o que omitia deliberadamente as vírgulas (mais os pontos e os acentos) para salientar a implacável crítica aos costumes e à política vigente. Todos entendiam o objectivo dessas agressões liminares à gramática e entendiam bem. Tanto a forma como as omissões pretendiam atingir objectivos concretos. Todos os leitores de jornais desde os de “A Bola” aos de “A Seara Nova” ou de “A Vida Mundial” sabiam quais eram. E sorriam. E comentavam. Os textos eram claros porque sem vírgulas. Talvez por isso a censura semântica e ortograficamente analfabeta tenha deixado publicar nesse tempo textos tão subversivos quanto repletos de humor. Humor – diga-se – era coisa que o regime iletrado de então – por não saber o que fosse – desconfiava seriamente.

Neste caso das vírgulas não refiro Eça nem Camilo nem Soares de Passos nem Pessanha. Muito menos Aquilino. Cada um destes punha as vírgulas as tónicas os parágrafos as reticência e apóstrofes onde achavam mais adequado para acentuar o efeito literário conveniente ao desenvolvimento da caneta que fluía pela página linear da novela.

Silva Gaio então punha mais vírgulas num parágrafo do que João de Deus gastava a explicar o que tal sinal ortográfico fosse na sua “Cartilha Maternal”.

Poderia citar outros autores mas cito o seguinte (dois pontos ou ponto e vírgula ou apenas ponto)

“Vírgula pode ser uma pausa… ou não.
Não, espere.
Não espere..
Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!
Uma vírgula muda tudo.

Detalhes Adicionais:
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER…
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM…”.

Aqui a vírgula tem valor absoluto no que toca ao dinheiro. A estética do poema paira no entanto (quanto a mim) acima da vírgula bem como a própria mensagem ainda que esta seja sobre a vírgula em si.

Do poema citado entendi uma coisa. Cada leitor provavelmente entenderá outras e diversas.

Daqui retiro duas conclusões:

1 – O valor da vírgula faz parte intrínseca da teoria da relatividade. Existe apenas segundo o ponto de vista de quem escreve e pode ser alterado pelo observador. Ou seja por quem lê.

2 – A vírgula tem importância absoluta para o economista ou para o técnico de contas. Neste caso por uma razão simples. É que para o economista ou para o técnico de contas uma vírgula mal colocada pode levar à ruína um pagador de impostos; uma empresa; ou uma “holding”. Se o técnico de contas for ministro então a ruína pode estender-se mesmo a um país inteiro.

Se trocarmos as vírgulas a Pessoa; ou Álvaro de Campos; ou Ricardo Reis; ou Alberto Caeiro para as colocarmos no rigor da gramática estaremos a alterar-lhe o valor da “mensagem” e a reduzir dolosa e acintosamente a coisa a assunto de correcto preenchimento de ofício como na agrimensura de “O Castelo” de Kafka? Sem dúvida!

Nesse caso Pessoa nunca existiria na história da literatura. Nem Bernardim Ribeiro; João de Barros; Pascoais; Torga; Daniel Filipe; Lobo Antunes.

A vírgula não depende do autor, mas do leitor e não interessa de todo a não ser em folhas de balanço.

“O lavrador tinha um bezerro e a mãe do lavrador era também o pai do bezerro”. Se puser vírgulas nesta frase descobre-lhe certamente o sentido. No entanto estou convencido que nem Sá Carneiro nem Almada se tivessem sido autores da dita lhas teriam posto. Quebrariam o seu lirismo rural subjacente e passariam um atestado de menoridade a quem imagina o quê lê e outro igual a quem lê o que imagina.

Poderia neste ponto fazer algumas alusões ao acordo ortográfico. Fato e facto. Ação e acção. Irão ou Irã. Mas isso ficaria obviamente bem distante e fora do âmbito das vírgulas que é do que aqui se trata.

Finalmente e para concluir com uma analogia harmoniosa e quiçá “científica” como convém ao politicamente correcto da Macau chinesa do segundo milénio digo o seguinte:

– A música dita clássica (ou erudita) está inserida nas baias da rígida pauta de cinco tons que deu o extraordinário mundo de Beetoven; Mozart; Bartock; Tchaikovsky; Katchaturian e sei lá mais quantos sagrados nomes da harmonia universal. Mas a harmonia universal também se reconhece com a mesma melodia na escala espúria – para o ouvido ocidental já se vê – que é a dodecafónica da China. O perigo desta escala cíclica é que por mais precauções que se adoptem as fracções tornam-se cada vez mais complicadas e irredutíveis. No entanto o sentimento profundo que se sente ao ouvir a “Sinfonia Nº3 de Rachmaninof” é idêntico ao que nos invade quando se ouve – por exemplo –a “Sinfonia do Rio Amarelo”, ou o trecho de “Os Pioneiros” que é actualmente o hino da República Popular da China.

Do que ficou dito em todo este texto chamo a atenção para o facto de não ter usado vírgulas. Se o leitor entender colocá-las faça dos “Sinais” desta semana coisa sua. Pode ser um mote para qualquer inspiração. Distribua vírgulas por onde quiser. Mude parágrafos. Divida ou multiplique orações. É seu o texto “não fiz mais do que o escrever” como dizia António Nobre.

PS. Não quero com isto ofender. Ou menosprezar os professores de português que diariamente ensinam aos seus alunos coisas tão herméticas como: – palavras paroxítonas ou graves. Palavras oxítonas. Sílabas subtónicas; ou notações sintácticas. Mas acima de tudo a regra essencial que é a seguinte:O vocativo é sempre separado por vírgula.

Antes de concluir de facto não posso deixar de citar aqui um excerto da wikipédia (wikipedia pelos vistos escreve-se com acento) que me surgiu entrementes na blogosfera muito a propósito e que diz o seguinte acerca da língua japonesa: – “Um dos sistemas ortográficos mais complexos é o da língua japonesa que usa uma combinação de várias centenas de caracteres ideográficos kanji, de origem chinesa, dois silabários, katana e hiragana, e ainda o alfabeto latino, a que dão o nome romaji. Todas as palavras em japonês podem ser escritas em katakana, hiragana ou romaji. E a maioria delas também pode ser identificada por caracteres kanji. A escolha de um tipo de escrita depende de vários factores, nomeadamente o uso mais habitual, a facilidade de leitura ou até as opções estilísticas de quem escreve”.

Que seria do sistema ortográfico japonês se lhe acrescentassem vírgulas?

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1 Comment

  1. Caro João assim mesmo sem vírgula nem ponto de exclamação só uma pessoa como teu carácter poderia dar tão cabal resposta abraço e vai continuando a honrar-nos com os teus escritos que são uma delícia com ou sem sinais de pontuação


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