O Senhor Ventura. Miguel Torga

Todos os escritores possuem livros enjeitados.

Eça de Queirós, por exemplo, enjeitou a Tragédia da Rua das Flores, que permaneceu inédito até ser dado à estampa com grande sucesso já bem dentro do século XX.

Até deu novela de sucesso e tudo na televisão.

Parece-me que os escritores e poetas são contra a eutanásia e ainda bem.

Se não fosse assim quantas pérolas da literatura e da poesia não se teriam perdido em folhas rasgadas e deitadas para o caixote do lixo sem remissão nem possibilidade de recuperação.

Vem isto a propósito de Miguel Torga.

Deste escritor e poeta conhecemos muita coisa.

“Os Bichos”, os” Diários”,” Contos da Montanha” e muitas outras obras entre prosa poesia e teatro.

Tudo isso se estuda nas escolas e nas universidades.

Mas a de que vou falar tem um nome próprio.

Tem um título sintético e talvez pouco atractivo num mercado editorial em que o título é mais do que o conteúdo.

Não é o Código de…, nem o Mistério de…, nem as extraordinárias aventuras de qualquer personagem fabulosa.

Não!

O título é este e simples: –

Para mim na bibliografia de Torga “O Senhor Ventura” é um dos seus mais conseguidos livros.

Diria que é a epopeia dos Lusíadas reduzida à expressão mais simples do canto em que Camões fala de Veloso, aventureiro e fanfarrão.

Aqui Veloso toma o nome de Ventura, sem perder romance nem epopeia, nem lirismo, nem nada.

Na obra de Torga, o Senhor Ventura é o soldado número 185 de um regimento qualquer que abandonou o Alentejo para assentar praça num quartel de Lisboa.

Na capital desenrasca-se como pode nas enrascadas em que se mete.

O suspeito de homicídio numa cena de facadas numa tasca da baixa.

Safa-se da condenação em tribunal militar por falta de provas.

O tribunal não encontrou indícios suficientes para o condenar mas mesmo assim achou por bem manda-lo para Macau em comissão de serviço para se ver livre de um indesejável.

Há aqui no apelido Ventura muito da história de Portugal desde os descobrimentos à emigração.

Claro que não vou contar o resto da história senão perderia a graça, mas pergunto-me?

Por que é que Torga decidiu meter na gaveta esta novela durante tantos anos?

Torga, diz que o escreveu nos arroubos da juventude e preferiu esquece-lo

LEIO O PREFÁCIO (lido no programa  “Montra do Lilau” da TDM)

Só em 1985 Torga retirou da gaveta “O Senhor Ventura”, ressuscitou-o, corrigiu-o nalguns pontos e republicou-o.

Para mim de tudo o que Torga escreveu “O Senhor Ventura” é o que de melhor se lê.

Nesta novela há um bocadinho das biografias de Camões e de Bocage, mas essencialmente há uma novela minhota transportada para o Oriente de Camilo.

O Livro é uma edição bilingue de 1989 do Instituto Cultural de Macau.

A tradução para chinês é de Cui Wei Xiao

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