Comentário a um “bloguista” anónimo e a Lei de Imprensa 08-06-10

Eu não sei quem V. Exª. seja embora tivesse interesse em saber. Se soubesse poderia introduzir nestes debates que mantêm no seu blogue o factor conhecimento do autor. Nesse caso poderia explorar-lhe, por exemplo, os pontos fracos. Poderia, escrever, nos comentários, que quando disse isto é por que… ou quando deixou de dizer foi por que…

Eu sei que há maneiras de descobrir tudo no mundo cibernético, mas como pertenço a uma geração anterior à existência da palavra “hacker”, limito-me a usufruir do que o meu monitor me mostra e pouco mais.

Devo dizer neste momento que, “monitor” é para mim também uma palavra nova, já que o que eu via, há, digamos, vinte anos, era um “ecrã”. Mas, agora, como o mundo mudou, concedo que não tenha à frente dos meus olhos um “ecran” francês, mas um “monitor” anglo-saxónico. Assim, também, de entre os comandos do meu computador, não sei qual é o que serve para descobrir quem V. Ex.ª autor de um blogue anónimo seja.

V. Ex.ª, mais dotado que eu, em matéria cibernética (já que mantém um blogue que com certeza requer alguma técnica), com certeza saberá, já quem eu sou (dizem-me que os computadores descobrem logo qual a proveniência das mensagens anónimas nos comentários). Provavelmente, de tão informaticamente inepto a minha identidade não conseguirei esconder como seria de esperar, por exemplo, numa carta anónima, como se fazia tradicionalmente. Muito menos na “webb”.

Como comento em página aberta, ou seja impressa e assinada no JTM, não só V. Ex.ª como toda a gente fica a saber quem é o autor destas linhas sem ter de ler sequer o comentário que segue. Está assinado por baixo como se requer em qualquer ofício de lei e nos jornais.

Serve esta introdução para dizer que, se a informática implementou um mundo novo, na comunicação social, os blogues aproveitaram-no. Tal como os “hippies” da América dos “sixties”, ou os estudantes anarquistas, do Maio de 1968, de França. “Vamos aproveitar a liberdade que temos, para dela usufruir ao máximo. Não é usufruir que a palavra liberdade significa?” diziam eles.

Como subscrevo (ainda que não inteiramente) essa visão existencialista, não posso estar mais de acordo com os blogues.

Enquanto o jornalista vulgar evolui numa cadeia de comando parecida com todas as hierarquias (mesmo as militares) o bloguista não.

Enquanto o jornalista sofre a (com) censura pública e se auto-censura, quando calha, o bloguista não.

Enquanto o jornalista preserva a boa conduta para garantir o salário e/ou a sua consciência, o bloguista (que não tem salário) não.

Enquanto o jornalista assina e/ou é conhecido, e por isso paga o preço do que escreve, diz na rádio, ou apresenta na TV, o bloguista nem é conhecido nem assina. Por isso não paga preço nenhum.

Poderão dizer-me: Àh! Muito bem, mas o bloguista não é credível porque é anónimo, enquanto o “funcionário do jornalismo” tem obrigações e códigos de conduta e preservação das fontes e outras éticas que tais a que está amarrado por dever de profissão.

Mas que ética possui o jornalista “á la large”? Trabalha por conta de outrem, faz as notícias que a cadeia de comando lhe manda fazer e, às tantas acaba por deixar dito, não o que viu, ou ouviu, mas muitas vezes apenas o que foi condicionado a transmitir, ainda que subconscientemente. Depois, quando chega a casa, ao bar, ou ao clube, e revê o dia, descobre, por vezes, que foi enganado. Afinal o seu trabalho, se calhar, não constituiu tanto uma notícia, uma opinião completamente fundada, uma denúncia inteiramente séria, mas provavelmente mais uma espécie de anúncio publicitário de qualquer coisa que não estava nos seus planos. Boa desculpa para afogar em mágoas os tantos mil caracteres que escreveu sobre, sabe-se lá o quê, e em nome de quem. Graham Greene levantava esses problemas de consciência nos seus livros.

O bloguista não, porque o bloguista tem uma agenda que pode prosseguir sem interferências, a não ser as das suas próprias mudanças de humor e convicções. Neste ponto convêm fazer doutrina e é a seguinte:

– Em matéria de convicções, todos sabemos, que, são raros os que as mantêm por mais do que um período determinado, mas raramente por uma vida inteira. Como dizia Camões: “todo o mundo é composto de mudança” e o baladeiro dos anos 70 do século passado acrescentava: “troquemos-lhe as voltas porque o dia é uma criança”. Quem dizia isto? Sérgio Godinho, Letria? Rui Veloso, não era com certeza, ou Jorge Palma, que esses advêm do rock português, caldeado nas holandas, que não se metiam, nessas coisas da política propriamente dita nem ligavam aos “ismos”. Passavam “a la large”. Eram do Maio de 68. A verdade ou a mentira eram questões burguesas e inconsequentes de pormenor. O Importante mesmo era a imaginação.

O bloguista anónimo, hoje, diz uma coisa, amanhã outra, e aqui está a importância do bloguismo, ou seja; reconhecer na verdade de hoje a mentira de ontem. Isto não se faz nos órgãos de comunicação social convencionais, onde os desmentidos, por mais honestos que sejam, vão inevitavelmente para o caixote do lixo, se forem anónimos e não acompanhados de identificação credível, para que o editor os tenha em conta e os mande pôr em letra de forma. O erro do jornalista é outra coisa. Paga-se com desmentido de igual destaque ao da notícia por imposição legal e, às vezes pode custar mesmo uma promissora carreira.

Outra coisa importante nos blogues é a interacção com o leitor, que elogia, concorda, discorda, ou apenas insulta pelo prazer de insultar, na área, ou na janela dos comentários (não sei exactamente qual o termo informático para designar o sítio onde se coloca o “veneno” do leitor/comentador), mas não precisa de se identificar, o que é bom. Mas o “veneno”, ou a inocuidade, só é publicada se o bloguista a isso estiver disposto. O bloguista só publica, se para aí estiver virado, situação, neste caso, absolutamente ética do ponto de vista bloguístico.

Eu, bloguista, só publico o que acho que tem interesse no meu blogue. Ponto parágrafo. E mais doutrina feita (O leitor em geral e o anarquista em particular exultam neste ponto).

Ora! aqui está um preceito, que me parece muito mais transparente e ético, do que o dos provedores, que têm em conta as constituições, leis básicas, códigos civis, penais e toda a legislação avulsa que possa existir em matéria de direitos liberdade e garantias.

Tudo isto pode no entanto voltar aos cânones e ao politicamente correcto, se os tais gestores dos “servidores” desconhecidos, onde os bloguistas se instalam forem desmascarados pelos “hackers”, como comecei por dizer, ou pelos próprios “servidores” (yahoo, google, gmail e quejandos). Então pode acontecer isto:

– Áh, foste tu que escreveste esta aleivosia, constata o “hacker”, qual polícia de costumes.

– Estás descoberto! e aponta-lhe o dedo e manda-lhe a polícia à porta, acompanhada pelos oficiais de diligências, que costumam acompanhar os actos oficiais em circunstâncias assim.

Nessa altura, a liberdade que se instalou há pouco tempo (digamos uma década?), estará perdida para sempre. E nessas circunstâncias voltaremos a ter apenas como fonte de comunicação de notícias e ideias, os velhos jornais, as velhas televisões e as velhas rádios. Tudo isso porque, face à retirada da couraça do anonimato ao bloguista, não resta alternativa, senão a de ajoelhar perante o cruzado, que lhe aponta a espada ao peito:

-Ou crês ou morres. Esta é uma expressão medieval que traduzida para a situação apontada dos dias de hoje, quer dizer mais, ou menos isto:

– Ou acabas com o blogue, ou ficas sem emprego no sítio onde trabalhas.

Claro que, ao mouro inerme, tal como nesses idos tempos, sem saída viável, só ocorrerá uma resposta:

– Rendo-me! Diz ele, espojado em sangue no campo de batalha. O meu blogue escreverá o que quiserdes e o que a Santa Inquisição, entender que deve ser escrito, ou então encerro definitivamente o “site” e peço desculpa.

O cruzado sorrirá e, recolherá a espada contente por ter feito mais um convertido à sua santa causa (menos uma conta no blogspot. com). A Igreja ganhou mais um fiel.

O bloguista diminuiu um pecado à sua lista de iniquidades e o cruzado acrescentou mais uns gramas ao peso das suas bem-aventuranças na balança de S. Pedro. Bom negócio!

O bloguista suspirará de alívio, não só por não ter sido morto (Embora agora já não se pratiquem barbaridades assim tão directas como nos tempos de antanho. A situação descrita não passa, evidentemente, de uma alegoria), mas principalmente por que o seu salário de funcionário, engenheiro, jurista, enfermeiro, motorista, designer – eu sei lá!…- continuará a ser depositado na sua conta bancária no mês, que vem. Que Mundo este!…

É por isso que me debato entre o desejo de saber quem o senhor autor do blogue anónimo seja e a vontade de que as minhas tentativas resultem não num fracasso, mas na continuação das minhas cogitações sobre quem V. Ex.ª possa ser.

Devo dizer-lhe neste ponto que, não há pior coisa no mundo do que conhecer um autor. Falo por experiência própria e digo-lhe o seguinte: Agradeço a Deus nunca ter conhecido pessoalmente, Tolstoi, Dostoyevsky, Camilo, ou Pessoa, figuras pelas quais continuo a ter uma veneração igual à que teria se fosse religioso, por S. João Baptista, S. Paulo, Santa Catarina, ou,  Santa Teresa do Menino Jesus, ou o nosso Santo António, das formiguinhas. É que conhecer um autor é a desilusão total. Pura e simplesmente não são iguais ao que escrevem. Tal e qual como as vozes da rádio, colocadas e imponentes. Quando conhecidas pessoalmente são apenas pessoas com os defeitos mais patentes no físico e no semblante, do que as virtudes, que impõem às ondas hertzianas através das suas laringes dotadas.

Assim, e a menos, que algum inconfidente me diga e, com isso estrague a minha investigação (que o meu subconsciente pede que se mantenha “ad eterno”, sem resultado, mas sempre com esperança), para mim o mistério e o encanto continuam.

– Quem será V. Ex.ª.? diria Camilo, ou Eça e, sem dúvida, se o soubessem, matariam a personagem no penúltimo capítulo da novela, por falta de merecimento, evidentemente.

Por isso, digo eu, descoberto o autor do anónimo blogue, ou seja, pessoalmente V. Ex.ª. os meus comentários, igualmente anónimos, apenas poderiam conter coisas prosaicas como as que disse ao início deste artigo:

– O senhor bloguista, disse isto porque assim. O senhor bloguista deixou de dizer e sei muito bem porquê! Àh malandro!…

Enquanto isso não acontecer continuarei a ser um indefectível leitor e defensor dos blogues e principalmente dos bloguistas que têm a coragem de os manter.

Afinal, para mim “blogar” (será que inventei um neologismo, ou alguém já colocou a palavra no dicionário da academia?) é a mesma coisa que conversar com os amigos e possui uma vantagem, tem muito menos peias e muitíssimo menos restrições morais e , já agora, materiais.

Arrisco-me a parafrasear (sem subscrever inteiramente) Vasco Santana em “A canção de Lisboa”: – Abaixo as convenções sociais vivam os blogues. Isto, enquanto puderem durar livres e anónimos.

Áh! e essencialmente viva a essência do provérbio anarquista (que igualmente não subscrevo inteiramente): – Há governo? Sou contra!

A finalizar diria, como se dizia nas antigas missivas: – serve esta para saudar a atitude do Executivo da RAEM de empreender a revisão da Lei de Imprensa, publicada em 1990 e essencialmente deslindar de uma vez por todas essa coisa dos conselhos de imprensa e radiodifusão que até agora não foram criados.

Victor Chan director do Gabinete de Comunicação Social diz, ser agora o momento adequado para resolver o problema.

Concordo inteiramente. Quanto mais não seja por que há no panorama da comunicação social alguns termos históricos a reenquadrar, nomeadamente vocábulos como imprensa, conselho de imprensa e radiodifusão e neologismos a ter em conta como: – blogue, youtube, faceboock, twitter e sms.

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