História de Portugal, Rui Ramos

A história de um povo, de qualquer povo, é sempre demasiado extensa e multifacetada para poder ser escrita, num volume, ou dois, ou três, enfim…

Creio que uma história, não caberia em livro, quando muito poderia ser escrita em suporte informático, com muitos “terabites” para poder conter tudo.

Isto, porque além do relato dos acontecimentos passados a história é indissociável de outras matérias, como a geografia, a antropologia, a geologia e a própria psicologia, já para não falar nas questões filosóficas que inevitavelmente envolve.

Mas mesmo sendo possível a realização de um trabalho dessa natureza, restariam muitos pontos por descrever, por falta de documentação, por exemplo, ou porque os testemunhos deixados se mostram evidentemente forjados, ou porque não existem documentos coevos (documentos coevos é um termo de que os académicos gostam muito, mas que muitas vezes não esclarecem nada, mas enfim…)  ou outras razões do género.

Mas mesmo que fosse possível, deixar tudo registado passo a passo, então a história deixaria de o ser e passaria a ser um repositório, um arquivo de coisas,  uma biblioteca de Alexandria que toda  gente imagina o que seria mas que ninguém sabe, na realidade o que tenha sido. Acho que a Biblioteca de Alexandria existe de facto mais na imaginação do que na realidade dos “tombos” que actualmente existem. Armazéns de informação a esmo que aguardarão sempre estudo e classificação.

A Biblioteca de Alexandria não era certamente um repositório de tudo, mas apenas de certas coisas e certas interpretações.

Como se sabe não há ninguém, em vida, que consiga ler uma biblioteca inteira.

Sendo assim quando nos referimos por exemplo à história de Portugal de Matoso, ou de  Veríssimo Serrão, ou de qualquer outro, queremos apenas dizer com isso que nos estamos a referir aos pontos de vista que um determinado autor, achou relevantes sobre os factos do passado de Portugal.

Por isso antes de consultar uma história de Portugal não custa nada e é melhor saber-se quem é o autor e quais as suas credenciais, mas especialmente saber em que época a escreveu já que o desenvolvimento da historiografia se faz a par de tudo o resto, ou seja do desenvolvimento de um país.

A história é também um ramo das ciências e tem evoluído num sentido positivo tal qual os campos da física, ou da química, por exemplo.

Temos assim que ao ler a história de Portugal, de Frei Bernardo de Brito, do século XVII, tropeçamos a cada passo com um pecado dos mouros e um milagre dos cristãos.

Se não fossem as cinco chagas de Cristo a aparecerem a D. Afonso Henriques, Portugal ainda não passaria hoje de uma região de Espanha, segundo Brito.

Perdoam-se as boas intenções desse bom frade, em nome da fé e do patriotismo. Mas o que se não lhe pode perdoar é o facto de ter falsificado documentos para levar a água ao seu moinho, como foi acusado e é verdade.

Este é o único defeito que não se pode perdoar a um historiador, o resto pode relevar-se e até, por vezes, alguma fantasia, ou mesmo muita fantasia.

Mas se andarmos mais para a frente e folhearmos Alexandre Herculano, a história já é bem diferente, com a análise científica mais presente e os desígnios de Deus um pouco mais esbatidos no enredo.

Mais tarde ainda com Pinheiro Chagas e a sua história de Portugal em 8 volumes vemos a opinião do autor politicamente empenhado e do escritor brilhante que num inquérito à opinião pública sobre quem era o mais melhor escritor português da época, ficou claramente à frente de nomes como Eça de Queiroz em termos de popularidade.

A primeira história de Portugal a quebrar com tradições, facciosismos políticos e preconceitos há muito cimentados foi porém sem dúvida a História de Portugal, de António Henrique de Oliveira Marques, publicada em 1974.

Uma história que se eximia às cronologias, às batalhas e aos reis e abordava os aspectos, sociais e económicos até então largamente negligenciados, pelos que o antecederam (retire-se Magalhães Godinho deste cenário com a sua numismática, assunto específico e em parte Jaime Cortesão com a geografia).

A história de Portugal de Oliveira Marques constituiu uma verdadeira pedrada no charco, tanto mais que surgia num momento em que a ditadura entrava no seu último estertor, pouco antes do 25 de Abril.

A segunda a quebrar tradições e a fornecer uma nova visão sobre o que foi Portugal é esta.

Trata-se da primeira história do país cuja autoria não está associada a uma figura, mas sim a uma equipa, coordenada por Rui Ramos.

Os outros dois são Bernardo Vasconcelos e Nuno Gonçalves Monteiro.

E o que trás de novo esta história?

Bastante.

A começar pelo facto de ter sido uma obra colectiva.

Depois ainda, o facto de ter início, não nos tempos fabulosos da Lusitânia de Viriato,  do qual pouco mais se sabe do que o que consta das parcas referências que lhe foram feitas por um geógrafo romano, citado e ampliado nas suas considerações até à exaustão e até hoje.

Estes historiadores concordaram que Viriato e a Lusitânia têm mito a mais e história a menos, pelo que decidiram começar de um modo científico, ou seja pelo princípio, ou seja ainda, pela formação do reino, na época do Conde D. Henrique e de seu filho D. Afonso, o primeiro rei de Portugal.

Para além desta ousadia, esta obra consagra também a maior parte do que se tem descoberto e das novas interpretações que nos últimos anos, nomeadamente com o auxílio de outras áreas da ciência tem vindo a ser dado a estampa de um modo disperso. Dispersão que não era de molde a desfazer erros e preconceitos que continuam por isso a ser constantemente repetidos.

Claro que esta história não vem desdizer tudo nem será capaz de corrigir ideias feitas.

Ideias feitas são preconceitos que não se dissolvem nem perante as provas mais evidentes, mas pelo menos contribui com certeza para redimensionar com mais rigor a ideia que temos de nós próprios, mas não só.

Ao esclarecer alguns quês e porquês desfazendo alguns mitos que teimam em nos ser caros levará com certeza os que discordam a aduzir prova em contrário, o que contribuirá sem dúvida para o avanço do conhecimento científico.

Por outro lado, ao despertar controvérsia, como já despertou, tornou-se imediatamente obra de referência obrigatória seja para quem concorda com o que aqui se diz como para quem discorda.

Por outro lado ainda esta História de Portugal possui um outro mérito.

Trata-se de uma obra num só volume, o que a torna mais acessível a um maior número de leitores, do que outras divididas em vários volumes.

Isto numa época em que cada vez mais gente tem menos tempo para ler e em que o leitor de DVD, ameaça cada vez mais a existência do popular livro de bolso que se lavava para passar o tempo na praia, ou na sala de espera de um consultório.

A decisão de condensar num só volume a História de Portugal, como neste caso, é inteligente também porque o que aqui lemos é apenas uma abordagem, mas que fornece pistas para o sem número de obras específicas, sobre figuras momentos e acontecimentos, que felizmente estão a ser dados à estampa, nomeadamente através da publicação de teses universitárias. Teses que até aqui há poucas décadas confinavam a sua divulgação às audiências das salas de aula onde eram debatidas morrendo a seguir inexoravelmente asfixiadas no pó dos arquivos das faculdades.

As câmaras municipais têm também contribuído ultimamente de um modo mais visível, em certa medida para esta difusão, com a publicação de monografias e biografias regionais.

Só por isto esta História merece encómios.

No que toca ao conteúdo tenho uma opinião, mas acho que não me devo alongar sobre esta vertente, já que a minha será tão boa como a sua que me está a ver e ouvir neste programa.

Mesmo assim não posso deixar de dizer que no que toca à formação de Portugal o que penso não é necessariamente coincidente com o que diz Rui Ramos.

É que às vezes em história, o mito nem sempre é pura e simples efabulação.

Às vezes produz efeitos políticos e sociais bem concretos e definidos, como diria o poeta António Gedeão, com consequências que por vezes desafiam as regras rígidas da ciência e da razão.

Portugal não nasceu de uns desígnios políticos de um rei godo (alemão), mas som da pré-existência de um povo predisposto a auto governar-se. Já lá dizia Estrabão, mais ou menos assim:- nos confins da Ibéria há um povo que não se governa nem se deixa governar.

E mais não digo, a não ser que é indispensável ter em casa esta história de Portugal de Rui Ramos.

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