Crowned with The Stars

Como para a maioria de nós (digo da minha geração) os assuntos dos espanhóis despertam-nos pouca curiosidade.

Eu não me excluo desse alheamento.

De Espanha retenho nomes como Cervantes, ou Goya, ou Salvador D’Ali, ou o mais recente Biscainho Cazas, por exemplo e pouco mais.

Mas não querem saber que no mais inaudito dos cantos geográficos por onde se possa passar deparei no escaparate de uma livraria de Sabá, na Ilha do Bornéu, na Malásia, com uma das biografias mais fascinantes que me foi dado ler nos últimos tempos.

É esta

Chama-se: – Crowned with The Stars.

O subtítulo diz: The Life and Times of  D. Carlos Quarteron First Pefect of Borneo, 1816-1880.

Em português poderá ser qualquer coisa como: A vida e a época de D. Carlos Quarteron, primeiro perfeito do Bornéu.

O autor é Mike Gibby.

Embora não seja escritor, Gibby escreve esta obra quase como Emílio Salgari escreveu as aventuras de Sandokan, precisamente nas mesmas paragens. As selvas da Malásia e do Bornéu e aventuras semelhantes. Com seitas, piratas e tudo. Um Indiana Jones antes do cinema.

Mas vamos ao que interessa.

Carlos Quarteron nasceu em Cadiz de boas famílias e ingressou na marinha espanhola.

Inteligente, rapidamente ascendeu na hierarquia, obtendo o comando de um navio com apenas 25 anos.

Passou então a fazer a carreira marítima entre Manila e Macau no Extremo Oriente onde a sua família tinha interesses comerciais.

A certa altura este aventureiro espanhol soube do naufrágio de um navio britânico nos chamados recifes de Londres que ficam a meia distância entre o Bornéu e o Vietname.

Recifes perigosos que no século XIX ainda se encontravam mal assinalados nas cartas de marear.

Intrépido e calculista, Quarteron , ao saber da notícia não hesitou.

Abandonou a marinha espanhola, comprou um navio a que chamou “Mártires de Tonquim”, recrutou uma tripulação e alguns pescadores de pérolas conhecidos por conseguirem mergulhar sem respirar durante mais de três minutos e partiu para os perigosos recifes.

Por ali esteve cerca de dois meses e os seus esforços foram recompensados.

Descobriu um tesouro de milhões em lingotes de prata.

E o que julga que fez com eles?

Pois nem mais nem menos do que rumar a Macau e entregar o tesouro ao que julgo à Santa Casa da Misericórdia, esperando que alguma seguradora saísse a terreiro para reclamar o salvado.

Entretanto a Santa casa entregou-lhe 10 por cento do tesouro e guardou o resto aguardando que alguém clamasse a sua posse.

Ninguém a reclamou no prazo legal e D. Quarteron ficou com toda a fortuna ajudado pelo seu amigo José D’Almeida que por procuração ficou a tratar dos seus negócios em Macau.

Mas Quarteron era, passe o eventual exagero da comparação um devoto católico. Uma espécie de S. Francisco Xavier dos tempos modernos.

O seu objectivo não era ficar rico, mas sim evangelizar os indígenas do Bornéu que considerava lamentavelmente abandonados pela igreja Católica.

Assim pegou na sua fortuna e entregou-a toda inteira à “Congregação para a Propagação da Fé”, ou “Propaganda Fides” como é conhecida esta organização do Vaticano, com a condição de ser inteiramente devotada ao apostolado na ilha de Bornéu.

Não vou contar as aventuras deste D. Carlos Quarteron, que frequentaria o seminário em Roma e viria a ser sagrado padre pelo número três da Igreja Católica assumindo os habituais votos, menos o de pobreza, excepção muito, mas mesmo muito raramente concedida fosse a quem fosse.

D. Carlos Quarteron lançou as bases da missionação católica no Bornéu, foi comerciante, e com os navios da sua esquadra privada deu combate sem quartel aos piratas que infestavam a região.

Dedicou a sua vida a libertar escravos cristãos e foi agente secreto de Espanha.

Que vida extraordinária a deste homem que depois de mais de quarenta anos nestes mares que nós, aqui em Macau, também conhecemos (é por lá que se passa férias em conta) regressou à sua Cadiz natal meio arruinado.

Abandonado pelo Vaticano e malquerido pela sua Espanha que não lhe dava crédito.

Mike Gibby descreve esta vida extraordinária de uma forma primorosa.

É pena que não exista tradução deste livro para português já que tem tanto a ver connosco e com Macau.

O livro não será fácil de adquirir, já que se trata de uma edição da diocese de Kota Kinabalu de 2005.

Mas seguramente estará à venda nas livrarias de Orchard Road em Singapura.

Se passar por lá compre que vale a pena.

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1 Comment

  1. Cuarteroni y los piratas de los Mares del Sur
    Alicia Castellanos
    Editorial Sílex – 2004
    ISBN 84-7737-143-1

    Editado un año antes que el de Mike Gibby… ¿plagio o inspiración?
    Me gustaría poder compararlos.


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