Camilo Pessanha, o Jurista e o Homem.

Por Macau passaram muitos poetas.

A começar pelo vate nacional Luís de Camões que está celebrado ali (no jardim) na sua gruta em busto de bronze.

Depois do autor dos lusíadas, muitos outros passaram por aqui.

Uns passaram apenas, outros acabaram por deixar impressas em rima, ou versos solto, os sentimentos que os assolaram nestes longínquos orientes.

Estou-me a lembrar, por exemplo, de Couto Viana, que permaneceu por estas paragens tempo suficiente para dedicar a Macau, mais do que um livro inteiro de sonetos.

Torga também por cá passou, ou Eugénio de Andrade, ou António Patrício que terminou a sua vida acometido de doença súbita no Palacete de Santa Sancha.

Mas todos por aqui andaram brevemente.

O único que por cá permaneceu de todo e cá morreu também, foi o poeta do simbolismo.

Falo de Camilo Pessanha.

Camilo Pessanha foi Talvez o único poeta de Macau, se exceptuarmos a figura literária obscura de José Baptista de Miranda Lima, autor do século XIX, cujos poemas surgem citados apenas por outros autores posteriores, não se sabendo por onde andarão os seus versos, se é que ainda existem nalgum espólio particular.

Camilo Pessanha, tem sido um dos poetas mais divulgados e estudados na literatura portuguesa, ainda que em vida poucos lhe tenham reconhecido mérito.

A não ser, evidentemente, Ana de Castro Osório.

Muito se sabe, sobre a poesia de Pessanha portanto, mas pouco se sabe da sua vida.

E a vida de Pessanha dava um romance de Camilo, se Camilo fosse ainda vivo no tempo de Pessanha.

Por isso não vou falar aqui dos seus poemas, que são sobejamente conhecidos, mas sim da outra faceta da sua vida que poucos conhecem e que é a de jurista.

Essa faceta está estampada no livro que hoje trago.

Chama-se Camilo Pessanha, o Jurista e o Homem.

A autora é Celina Veiga de Oliveira.

Trata-se de um trabalho metódico, que não revela apenas a personalidade de Camilo Pessanha, mas também o meio sociológico em que se movimentava.

Como notário e juiz, deixou peças de inegável interesse a todos os títulos, aqui reunidos e bem por Celina Viga de Oliveira, numa edição de 1991 do Instituto Cultural de Macau.

A dimensão deste livro pode encontrar-se em duas recensões que me parecem de todo o interesse.

A primeira é de João Fernandes, um jornalistas que igualmente viveu em Macau longos anos e que diz assim:

Dos poeirentos processos dos arquivos do Tribunal, lutando contra o rebarbativo da escrita e a letra esmaecida no papel amarelecido pelo tempo e a humidade, a autora arrancou a outra face de Camilo Pessanha.

Não o poeta que extravasa o tempo, mas o homem, o jurista perante a sociedade e a circunstância.

Trabalho precioso e que confirma que Pessanha nunca foi banal.

Outra cotação que não resisto a ler é a de Júlio Pereira, procurador-geral adjunto, que aqui residiu também vários anos e que diz assim:

As intervenções processuais que agora vêm a público revelam-nos Camilo Pessanha como um jurista de formação que ultrapassava os cânones da sua época, reivindicando práticas e princípios que só em tempos mais recentes ganharam consagração plena.

É preciso dizer que Camilo Pessanha viveu em Macau entre 1894 e 1926.

Ora Camilo Pessanha era de facto um jurista invulgar e dotado, de uma memória prodigiosa.

Dizem que ouvia um depoimento, por mais longo que fosse e depois o ditava ao escrivão de direito com a mais completa fidelidade.

Mas há muitas outras histórias de Camilo Pessanha que permaneceram na tradição urbana.

Principalmente das suas excentricidades.

Lembro-me por exemplo o que me contou o escritor Henrique de Senna Frernandes, que se recorda de ouvir dizer que no casamento de seus pais, na casa do Jardim de Lou Lim Yock, Camilo Pessanha fez esperar toda a gente chegando com considerável atraso.

Justificando a falta Camilo pediu desculpa e disse que a culpa tinha sido do colete.

Ou seja o poeta vestira-se com os habituais rigores e trabalhos dos smokings, mas não sabia onde tinha posto o colete.

Como estava atrasado decidiu vir mesmo assim.

Nessa altura, alguém que reparou, disse: O senhor Doutor, não sabia onde estava o colete porque vestiu a camisa por cima dele.

Mas para além de distraído Camilo Pessanha era também desafiador, não perdendo oportunidade de criticar quem quer que não lhe caísse de feição, por isso teve mesmo alguns dissabores tendo mesmo um dia que responder em tribunal na sequência de uma discussão com um amigo que lhe levou a mal uma graçola e com o qual chegou a vias de facto.

Mas a sua ousadia um dia foi mais longe.

Por ocasião da visita a Macau do escritor espanhol Fernandez Flores, já então com fama universal, o governador da altura resolveu leva-lo a casa de Pessanha.

Não se sabe se por estar de candeias às avessas com o governador, ou por qualquer outro motivo, Pessanha recebeu as duas personalidades no quarto, deitado na cama apenas com o lençol por cima.

O historiador Monsenhor Manuela Teixeira, dá eco também às suas excentricidades, mostrando-se escandalizado pelo facto de Camilo Pessanha assistir à passagem das procissões da varanda de sua casa, na avenida da Praia Grande junto ao edifício onde se encontra hoje a sede do Banco Nacional Ultramarino, em tronco nu.

Tronco nu era o que as pessoas viam da rua porque na verdade, diz Monsenhor Teixeira, Camilo Pessanha costumava estar de facto mas era como Deus o tinha posto no mundo, ou seja totalmente em pelota.

Um escândalo que só não lhe trazia mais consequências, apenas porque todos lhe conheciam as distracções e excentricidades.

Camilo Pessanha O Jurista e o Homem, de Celina Veiga de Oliveira, vale a pena conhecer a outra face do poeta do simbolismo.

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