East River Column

Como tenho vindo a dizer a história é assunto delicado de pegar.

Não se pode fazer sobre o acontecimento, porque para fazer história é necessário distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos.

Por outro lado historiar, em muitos países ainda hoje significa, por vezes, ofender o poder político vigente com as consequências que tal ofensa acarreta.

E não são poucas essas consequências.

Muitos historiadores foram parar à cadeia, ou cessaram os seus esforços definitivamente caídos perante os pelotões de fuzilamento.

Goya deixou desenhos elucidativos sobre este assunto.

Basta olhar para os seus quadros e desenhos sombrios para ter uma ideia do que é pugnar pela verdade contra a verdade que os poderes soberanos de ocasião entendem que deve ser a autenticidade oficial.

Portanto, porque não convém, politicamente, ou porque não é oportuno, ou mesmo porque é arriscado, muitas memórias que muitas vezes poderiam explicar com simplicidade o rumo dos acontecimentos no mundo permanecem ignoradas, ou pudicamente auto-obliteradas porque não convém. Por isto, ou por aquilo…

Essas lacunas só contribuem para lançar véus de mistério desnecessários sobre as razões porque as sociedades se comportam de um modo e não de outro, aparentando por vezes mover-se de forma incoerente.

Às vezes, decisões políticas e estados sociais radicam em factos históricos marcantes que pelas razões que disse foram relegados para o esquecimento apenas porque a conjuntura política o impunha. Que não a verdade!

É o caso narrado neste livro.

Chama-se  East River Column. Hong Kong Guerrilhas in the second World War and after.

Qualquer coisa como A Coluna do Rio de Lestes. Os guerrilheiros de Hong Kong durante a Segunda Guerra Mundial e depois.

Mas o que era a Coluna do Rio de Leste?

Em resumo pode dizer-se que era um grupo de patriotas liderado pelo Partido Comunista da China (PCC), sobre os ombros de quem pesou a maior responsabilidade na resistência contra a ocupação japonesa desde 1937 em diante. Umas centenas de militantes que iam de intelectuais a analfabetos unidos pelo anseio da liberdade e igualdade contra a opressão que nesses tempos se manifestava na figura opressora do Imperador do Japão, autocrata sangrento e sem escrúpulos.

Este grupo não só manteve em cheque as forças japonesas, como prestou igualmente um auxílio valioso (atrás das linhas) aos exércitos aliados em campanha no Leste Asiático, no campo de combate e no domínio das informações tácticas.

Por outro lado teve também uma acção de relevo no apoio à fuga de numerosos prisioneiros de guerra aliados internados nos campos de concentração japoneses.

Pergunta-se então. Se tiveram uma acção tão relevante, porque é que pouca gente sabe hoje que Coluna tenha sido essa?

A explicação é simples.

No final da guerra, à Inglaterra, ao reocupar Hong Kong, convinha não hostilizar o governo nacionalista, do Kwomintang que tinha lutado bem mais contra os comunistas do que contra os japoneses e a Coluna do Rio de Leste era o braço armado do PCC na província de Guangdong. Não era o governo oficial da China. Só o viria a ser em 1 de Outubro de 1949 com a implantação da República Popular da China.

Por isso, embora reconhecendo os esforços valorosos empreendidos pela Coluna durante a guerra as autoridades britânicas com a sua fleuma habitual, preferiram conferir uma ou duas medalhas de mérito em combate a alguns dos seus líderes, oferecer uns pequenos montantes em dinheiro aos guerrilheiros reformados que optaram por permanecer em Kowloon e nos Novos Territórios e deixar cair, naturalmente, o assunto no esquecimento.

Do outro lado da fronteira, guerrilheiros e líderes foram por seu turno alvo de reconhecimento, mas apenas momentâneo.

É que com a “Revolução Cultural” (1966) triunfante os guerrilheiros acabariam por ser acusados de estarem ao serviço do imperialismo, apenas porque durante a guerra tinham mantido estreitos contactos com as forças aliadas e por força das circunstâncias com os Nacionalistas do Kwomintang.

É caso para dizer como dizia o nosso Afonso de Albuquerque. Mal com os Homens por Amor de Deus, mal com Deus por amor dos Homens.

Finda a Revolução Cultural, a China de Deng Xiaoping, não se interessou em corrigir a injustiça e Hong Kong em processo de transição de soberania também não.

E assim, a Coluna do Rio de Leste, desapareceu nas brumas da bibliografia e quase da história, como se nunca tivesse existido. E de facto, nada se escreveu sobre o assunto, que continuava a não agradar nem a gregos nem a troianos.

Agora Chan Sui Jeung, decidiu arrojar-se à empresa de tirar do anonimato esse grupo de heróis que chegou a ser classificado, a certo ponto da história, como bando de malfeitores.

Uma história recheada de peripécias, que resultou de numerosas entrevistas que o autor manteve com os sobreviventes da Coluna e da consulta dos arquivos disponíveis.

Um livro, que apesar de tratar essencialmente de Hong Kong, não deixa de salientar o importante papel que Macau desempenhou na luta contra a agressão japonesa, apesar da sua neutralidade na guerra.

O autor, Chan Sui Jeung, é licenciado pela Universidade de Hong Kong e foi durante vários anos administrador civil nos Novos Territórios, local onde viviam muitos dos guerrilheiros que integravam a Coluna, dos quais teve oportunidade de recolher as memórias inestimáveis que contam da obra.

Actualmente Chan Sui Jeung é Investigador Honorário do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Hong Kong.

East River Column , uma publicação da Hong Kong University Press dada à estampa o ano passado.

A não perder.

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