A Independência de Portugal, Guerra e Restauração 1640-1680

Hoje vou-lhe falar de uma obra, que é recente, é importante e traz revelações tão novas quanto antigo é o tema que o autor escolheu.

A par de grandes patriotas vemos gente venal neste livro.

Vemos traidores e também incompreendidos.

Vemos que o libertador de Angola, Salvador Correia de Sá, (sim aquele patriota que nos ensinavam na escola) afinal era espanhol!

Mas neste livro lemos e vemos mais!

Vemos um novo retracto, ou talvez apenas um esboço do Padre António Vieira, numa outra perspectiva a que não estávamos habituados nos livros da escola.

Um Padre Vieira que vai ao reino de Nápoles para convencer os napolitanos a rebelarem-se contra Filipe IV de Espanha (III de Portugal).

Em Nápoles o Padre Jesuíta, propõe ao plenipotenciário espanhol a independência Napolitana (não esquecer que Nápoles, embora fosse em Itália era uma província de Espanha).

Em troca oferecia a reunificação da península Ibérica sob o reinado da Casa de Bragança, ou seja o rei de Espanha seria o nosso D. João IV.

Claro que o embaixador Castelhano se recusou a ouvir formalmente as razões de Vieira dizendo-lhe, oficiosamente que não estava bem da cabeça.

Entretanto a Inglaterra, até então neutral e periférica, iniciava a caminhada emergente para o futuro e metia-se também na política europeia, logo que aprontou navios suficientes para rodear os mares da Europa e em breve acabaria com a política hegemónica dos Habsburgos que até então ainda pensavam que dominavam o mundo, mesmo depois de terem perdido a armada invencível constituída por navios portugueses e espanhóis.

A Inglaterra ascendeu a partir de então como primeira potência mundial beneficiando das guerras entre Castelhanos, Flamengos, franceses, italianos e alemães.

No meio deste complicado xadrez internacional Portugal restaurado em 1640, sem dinheiro, sem exército e quase sem gente continuou a viver na Península Ibérica e no Ultramar, das Américas às índias orientais.

Graças à asa protectora dos ingleses? Acredito que sim.

Tudo isto é o que diz Rafael Valladares neste livro que li com o maior dos interesses.

E com o maior dos interesses porquê? Devo dizer que apenas pela novidade de ser escrito por um espanhol.

É que desde que me lembro li sempre a versão portuguesa da nacionalidade; ele era Frei Bernardo de Brito, João de Barros, Alexandre Herculano, Manuel de Arriaga e eu sei lá quantos nomes que compunham as selectas literárias da nossa juventude.

Para Valladares a independência de Portugal ocorreu porque os Habsburgo tinham uma Europa inteira para cuidar, uma Europa em rebelião e Portugal era pequenino (esqueceram-se que a “pérfida Albion” estava empenhada nesse cantinho europeu.

Nesse contexto Portugal era de facto uma questão menor, por isso foi negligenciada por Filipe que não cuidava de unir a Península Ibérica, mas o continente inteiro.

Nesse contexto havia então, segundo Valladares, uma negligência apátrida.

O autor evita tratar o assunto como um negócio de família, embora aborde essa questão particular com desassombro e sem a subalternizar face à geopolítica mundial do tempo.

No entanto, não sei bem se foi assim, ou não.

É que para além das traições políticas, dos negócios sem pátria nem lealdades, e das conjunturas militares desses tempos, Portugal já possuía então uma história de meio milénio.

E Valladares erudito atento, consciencioso e baseado nos documentos que consultou por meia Europa, desde Lisboa a Madrid passando pelo Vaticano parece ter esquecido uma verdade simples que é esta: Quando uma fractura acontece não se restabelece inteiramente, ou não se regenera de todo. Nem com solda da mais dura.

Valladares, neste livro tem razão em tudo, ou quase tudo, mas peca apenas por ter descurado o facto de Portugal já existir antes dos Braganças, dos Filipes de Áustria, dos Ingleses e do Cardeal Mazarino que dizem ter tido parte importante nas intrigas que deram origem à restauração de Portugal de 1640.

Apesar das minhas discordâncias digo-lhe que é um livro que vale, mas vale mesmo a pena ler.

E nem é preciso gostar de história. Este livro lê-se como uma novela.

Há!… e devo dizer-lhe que não esperava encontrar numa obra dedicada à independência de Portugal, com referências a Macau.

Não é que Logo a seguir à revolta do primeiro de Dezembro de 1640, Macau propôs arvorar a bandeira dos Filipes se Madrid abrisse formalmente Manila ao comércio do porto de Macau.

Madrid disse também que não e Macau respondeu mantendo na fortaleza do Monte hasteada a bandeira branca das quinas dos Bragança.

Como seria curiosa a história se Filipe IV tivesse dito que sim.

Se calhar a China não aceitaria e talvez a história do Mundo, no Extremo Oriente tivesse enveredado por um caminho completamente diferente.

O livro chama-se, “A Independência de Portugal, Guerra e Restauração 1640-1680”.

É uma edição da Esfera dos Livros e o autor é como lhe disse Rafael Valadares.

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