Macau Histórico

A semana passada falei-lhe da primeira história publicada de Macau.

Hoje vou falar-lhe da segunda.

Entre as duas obras mediou mais de meio século.

A primeira da autoria de Anders Ljungstet, foi publicada em 1836, enquanto a segunda, surgiu em 1902

Tenho aqui um exemplar.

Foi publicada com título “Macau Histórico”, e editada pela editora Livros do Oriente, em 1990.

Trata-se da tradução da segunda edição, que foi publicada em inglês, em 1926.

O autor chamava-se Montalto de Jesus

Mas quem era Montalto de Jesus?

Bom. Montalto de Jesus era um macaense que nasceu em Hong Kong, em 1863.

Trabalhou no comércio e na banca e foi tradutor profissional.

Durante a Primeira Grande Guerra, trabalhou em Londres no departamento de Propaganda do Ministério dos Negócios Estrangeiros e em 1922, integrou a delegação portuguesa à Conferência Internacional do Desarmamento em Washington.

Politicamente era um republicano muito provavelmente ligado ao Partido Democrático de Afonso Costa.

Embora se tenha dedicado à investigação histórica, tendo deixado alguns trabalhos nessa área parece-me que terão sido motivações de ordem política que o levaram a escrever esta história de Macau.

Isto, nomeadamente, com a intenção de valorizar a presença portuguesa em Macau, face à Inglaterra e ao seu imperialismo que sempre irritou os republicanos portugueses desde os tempos do Mapa cor-de-rosa.

A primeira edição do “Historic Macau”, de Montalto de Jesus, veio a público em 1902 e foi recebida com aplauso, não só pela crítica como pelas instituições.

Mas se a primeira edição lhe granjeou fama e reconhecimento, a segunda edição haveria de o fazer cair na desgraça.

Porquê?

Bom. Porque, Montalto de Jesus, era um militante republicano e em 1926, parece que andaria de candeias às avessas com o que se passava em Portugal, onde as correntes monárquicas do Integralismo Lusitano triunfavam com o golpe do marechal Gomes da Costa, de 1926.

Para além de andar desgostoso com o rumo político de Portugal, Montalto, não o andava menos com a administração de Macau, onde pontificava o governador Tamagnini Barbosa, homem também do 28 de Maio.

Assim, nesse mesmo ano, decidiu publicar uma segunda edição da sua obra, mas acrescentando-lhe três capítulos novos e uma sugestão fatal.

Tendo em conta, dizia, a má administração que Portugal, fazia de Macau, melhor seria entregar o território à Sociedade das Nações, que era a ONU, da época e por acaso presidida pelo ex-primeiro ministro republicano Afonso Costa, que se encontrava exilado em França.

A sugestão valeu-lhe um processo e a condenação em tribunal, para além de uma campanha difamatória e a todos os títulos vergonhosa, na imprensa.

O livro chegou a ser queimado num acto público de desagravo reminiscente dos tempos da inquisição ali para os lados do Palacete de Santa Sancha, à porta do edifício onde é hoje a, Fundação Macau.

Mas mais. A ordem de apreensão do livro foi cumprida com todo o zelo pela polícia que andou de casa em casa na cidade em busca de exemplares, tendo-os apreendido quase todos.

Os que se salvaram permitiram à Editora Livros do Oriente, republicar 60 anos, mais tarde, essa edição de 1926, agora em português que é a que está aqui.

Aliás o “Historic Macau” ficou como marco por ter sido o primeiro livro apreendido pelo Estado Novo de Salazar.

A ditadura não poupou a idealística e ingénua franqueza de Montalto de Jesus, que para além de humilhado acabaria por ser escorraçado pelos poderes instituídos, não só em Macau, mas também em Hong Kong.

Com todas estas atribulações Montalto de Jesus acabaria por morrer, quase na miséria no Convento das Irmãzinhas dos Pobres em Hong Kong.

“Macau Histórico”, é um livro, não só datado, como politicamente motivado, mas que por isso mesmo mais curioso se torna ainda ler.

E neste ponto gostaria de citar o sinólogo Graça de Abreu que escrevia assim sobre Montalto de Jesus

Para além de alguns erros de pormenor que, aqui e além, ressaltam na obra e do surrealismo dos capítulos finais quanto ao futuro governo da cidade, “Historic Macao” continua a ser a melhor história de Macau até hoje publicada.

As propostas avançadas pelo autor eram, tanto nos anos vinte do século passado como hoje, no mínimo,irrealistas, mas não se pode negar a originalidade e coragem deste homem que, amava lapidarmente Macau.

Isto dizia Graça de Abreu, de Montalto de Jesus e do seu “Historic Macau”.

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