Burma in Revolt

Austin Coats, escritor britânico que publicou diversos livros sobre Macau, só se tornou escritor a tempo inteiro numa fase adiantada da vida, depois de ter abandonado desiludido os quadros da administração colonial britânica e se ter fixado em Hong Kong.

Coats, que privou intimamente com Mahatma Ghandy, o libertador da Índia, participou no processo de descolonização do Império britânico asiático.

Índia, Malásia, Birmânia e, mas apenas como observador do governo inglês, participou também na descolonização holandesa da Indonésia.

Observador arguto, Coats, não previa grande futuro para a Indonésia, mas como o caso não lhe dizia imediatamente respeito limitou-se a reportá-lo ao Foreign Office.

No que dizia respeito porém à Birmânia, ou Burma, como se diz em inglês, ou ainda Myanmar como actualmente é conhecido o país, o caso era diferente.

Ele próprio tinha responsabilidades directas no nascimento dessa nova nação que sentia que não tinha condições para ganhar a independência no âmbito do curto calendário de transição estabelecido por Londres para as suas colónias asiáticas.

Coats entendia, que ao contrário da Índia, ou da Malásia, a Birmânia não possuía quadros capazes de governar um território, onde existia tudo menos o conceito de nação.

Claro que Londres não ouviu. A descolonização fez-se, mas os resultados foram os previstos.

A Birmânia foi uma das razões que levaram Coats a abandonar os quadros do Serviço Colonial.

De facto, as etnias que constituem o país nunca se entenderam e os militares acabaram por constituir a única força capaz de imprimir alguma estabilidade e coerência a um país fragmentado.

O resultado foi a emergência quase imediata de uma ditadura militar que governa com mão de ferro o país desde 4 de Janeiro de 1948 até hoje.

Essa falta de quadros referida por Austin Coats fez também com que a Birmânia se auto-excluísse do surto de desenvolvimento que envolveu a Ásia Oriental e o sudeste asiático em particular.

A imagem que temos actualmente deste país é a que surge na capa deste livro.

A Birmânia em revolta, ópio e insurreição desde 1948.

E de facto é isto a Birmânia, um país que mantém há mais de uma década a única voz da oposição em prisão domiciliária, sem qualquer acusação concreta.

Refiro-me naturalmente à prémio Nobel Aun San Su Ky.

A Birmânia apresenta uma enorme diversidade étnica.

Embora o governo reconheça 135 grupos étnicos diferentes, uma avaliação exacta a esse respeito é considerada difícil.

Há pelo menos 108 grupos etnolinguísticos distintos no país, principalmente tibetano-birmaneses.

Estima-se que os birmanes formem 68% da população, seguidos dos shans, kayin, rakhine, chineses, que são cerca de 3%) e mons.

Outrora uma comunidade grande e influente, os anglo-birmaneses começaram a deixar o país a partir de 1958, restando hoje poucos no país.

É este quadro de diversidade confusão étnica e dura repressão que gira a escrita deste livro de Bertil Lintner, um dos jornalistas que melhor conhece o país e que aqui nos detalha a história de um país que só não é um estado falhado, porque os militares o controlam de forma frequentemente brutal, como denunciam também frequentemente as organizações internacionais de direitos humanos.

Bertil Lintner, o autor deste livro é como disse um perito reputado em questões da Birmânia, país sobre o qual escreveu numerosos artigos e livros.

Aqui põe a nu as ligações entre as aspirações legítimas das minorias étnicas e as suas estratégias e o colapso do sonho de uma Birmânia unida, com direitos iguais para todos.

O papel que o ópio desempenha e as responsabilidades da junta militar que governa o país no seu tráfico.

Lintner diz mesmo que a filosofia que preside à acção dos governantes militares é simplesmente dividir as minorias e ficar rico.

Lintner aborda esta questão também no seu livro “Land of Jade”, ou “Terra do jade” em português, publicado anteriormente e que lhe grangeou o sucesso como autor de não ficção.

Lindtner, jornalista de origem sueca não resume o seu trabalho à Birmânia, mas tem publicado também vários estudos em jornais e revistas e também alguns livros sobre temas controversos da política asiática em geral, nomeadamente o papel das associações secretas na política e no crime desta região.

“Blood Brothers, the Criminal Underwarld of Ásia”, é dos seus livros mais recentes sobre esta tema, onde aborda também extensamente a situação em Macau no período conturbado que se viveu neste aspecto desde 1997 até à transição em 1999.

Actualmente Bertil Lintner, recentrou as suas preocupações e tem escrito sobre a situação da Ásia Setentrional, particularmente sobre a Coreia do Norte.

“Burma in Revolt”, um livro que é um guia indispensável para quem aqui vive e pretende conhecer mais do que as breves notícias de telejornal dizem sobre esse país ainda em grande parte misterioso.

Este livro publicado em 1994 é uma obra extremamente bem informada e continua a manter toda a actualidade.

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